6 de outubro de 2015

FAMÍLIA 2

Assim que subíamos os cinco degraus até atingirmos o patamar que poderia ser considerado como uma pequena varanda, chegávamos à porta principal de acesso ao interior da casa. 

Esta porta de entrada nos introduzia diretamente à sala, ampla, de piso de tábuas corridas e com decoração que mais tarde eu comparava a dos salões do  Quitandinha.

Eram sofás confortáveis, grandes e macios, e as portas e a janela do ambiente eram guarnecidas por enormes cortinas, pesadonas  com puxadores que ostentavam nas pontas uns penduricalhos que não sei como se chamam mas constituídos de franjas em tecido acetinado.

A casa já era velha quando ainda criança a conheci; construída sobre um porão que tinha provavelmente um metro de altura.

Podia-se entrar na casa pela porta dos fundos, que dava acesso à cozinha, que servia também de copa, quando não mais de quatro pessoas ali faziam as refeições. Lógico que existiam degraus até alcançar a porta da cozinha.

Como a casa era construída no centro do terreno, era possível acessar os fundos  através de portões  laterais. O da direita de quem de frente olhava o imóvel estava permanentemente fechado com chave, mas o da esquerda era mantido fechado apenas com um trinco.

O banheiro, ou quarto de banhos, com sanitários, ficava fora da casa, numa construção independente que poderíamos chamar de edícula, tendo ao lado outro box no qual se encontrava o tanque.

As pessoas diziam "vou à casinha", quando se referiam a ida ao WC.

Descrevo esta casa, mas poderia descrever as das outras tias, irmãs mais velhas de minha mãe, porque as características de suas casas eram semelhantes. Por exemplo, todas tinham os banheiros fora da casa. Assim como a de minha avó, na rua Ferreira Pontes.

Isso as obrigava a manter o malsinado penico, porque quando chovia muito ou fazia frio, à noite ninguém ia para o quintal (área externa da casa) para satisfazer necessidades biológica.

Eu sei que morei numa casa assim, até os três anos de idade, numa daquelas casas da vila que começava da rua Paula Brito e que já descrevi, mas não guardo lembranças.

As tias mais velhas (portuguesas)  – Arminda e Maria – também tinham em sua salas grandes sofás e cortinas desde o teto (pé direito alto) até o chão. Feitas com tecidos pesados  tipo gorgulhão.

Os móveis eram no estilo chipandelle, acho que moda na época.

Estilo chipandelle
Estas três tias mais velhas, sendo uma delas também minha madrinha, tinham suas casas decoradas com poltronas revestidas com tecidos próprios, encorpados, assim como pesadas cortinas, enormes, por uma razão especial.

Gorgulhão
Meu padrinho tinha uma ocupação inusitada. Nem sei se hoje existente. Ele era vendedor numa grande casa de artigos de decoração (tapetes, almofadas e também os tecidos para forração e cortinas), localizada na Rua 7 de setembro, no centro da cidade do Rio Janeiro, na época Distrito Federal.


Percebeu que muitas clientes tinham dificuldade de encontrar quem fizesse as cortinas e revestissem seus sofás, poltronas e sommiers, e relutavam em comprar os tecidos. 


Que fez ele? Acertou quem pensou: aprendeu a costurar. E também a estofar e forrar poltronas, e fazer cortinas. Tudo sob medida e segundo a preferência das clientes.

Imagine forrada em tecido, grosso aveludado.

Os apetrechos a loja onde trabalhava vendia. Todas as ferragens necessárias (trilhos, carretilhas,  argolas, cordões, etc).

E começou a fazer para sua própria casa e das cunhadas. Deu muito certo e a partir daí vendia os tecidos, as ferragens necessárias, na loja ...  e sua mão-de-obra.

Ganhou bastante dinheiro, aumentou as vendas da loja ande trabalhava (chamava-se “A Nossa Casa”), e por fim já não dava conta das encomendas. Costurava nos finais de semana, e à noite.

Acabou por deixar a loja e viver só da confecção de cortinas, almofadas e revestimentos de poltronas.

Viviam bem, ele e minha madrinha, e foi o primeiro membro da família a comprar um automóvel. Ela muito vaidosa se vestia bem e ostentava joias finas (na época não havia risco de trombadinhas).

Os tios mais velhos, casados com as irmãs mais velhas de minha mãe, eram comerciantes: um tinha um armazém, no Grajaú, na rua Borda do Mato. O Outro tinha uma padaria na rua Frei Caneca, perto do Campo de Santana. Onde eu, menino, gostava de ir olhar as cotias.

Campo de Santana
Ah!!! Os sonhos que eles faziam eram irresistíveis. Não pareciam os sonhos de padaria, abrutalhados, massudos, como os de hoje em dia.

Imagens obtidas através do Google

14 comentários:

Riva disse...

Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido
A gente continua morando na velha casa em que nasceu.

(Mário Quintana)

Não sei se a geração dos meus filhos, por exemplo, pensa assim. Nunca conversamos sobre isso.

Será que nossos valores, da minha geração, foram tão mais significativos e marcantes ?

Sim, porque quando se lê um post assim, pelo menos eu, não estou lendo uma simples descrição física de uma casa.

Percebo valores incrustados na mobília, nas paredes e no piso, "ressinto" até cheiros vindos da cozinha onde minha avó preparava as refeições,latidos do meu cão na época, muita coisa mesmo.

Mário Quintana resumiu tudo.



Jorge Carrano disse...

Pois é, Riva.
Como já mencionei no blog passei este último sábado em Teresópolis na companhia de minha irmã Ana Maria.
E conversamos um pouco sobre nossa infância, tios, casas, comidas.
Claro que cada casa, as comidas, tinham seus cheiros bem característicos.
O café que era feito por minha avó, passado no velho coador de pano (seria uma flanela?), impregnava não só a casa como também (exagero) todo o bairro.
E os bolinhos de frigideira, que chamávamos de "orelha" ou "sola", e agora são conhecidos como bolinhos de chuva? Eram presença obrigatória na mesa do lanche da tarde. Depois salpicados com uma mistura de açúcar com canela.
O leite, caro Riva, o mais comum dos alimentos nutritivos (em espacial para as crianças) tinha outro sabor, cor e aroma. Quando fervido (precisava pois não era pasteurizado) ficara com uma grossa crosta de nata amarelada.

Carlos Frederico disse...

Todos que acompanham nossos debates sabem que não aprecio volta ao passado. Tendo ouvido dizer que ao envelhecer perdemos nossas memórias recentes e mantemos as antigas, dá-me a impressão, ao insistir nas relembranças, que estou cada vez mais velho...

Contudo, talvez justo por estar envelhecendo, esse texto "me levou" ao lugar e às experiências que teve. Muito legal, num estilo bem solto e intimista.

O comentário de Mário Quintana, transcrito por Riva, também pegou pesado. Sim, porque demoliram a casa em que nasci e com ela o "meu terraço" e tudo de importante que lá deixei - materialmente. Destruíram tudo que fiz na cobertura que acabei de vender e onde vivi 19 anos, só sobraram as paredes pelo que me contaram, mas as lembranças permanecem, não foram embora...

Assim a vida segue... Gozado que em 90% de meus sonhos o ambiente é o da casa onde nasci, ou o bairro. Os enredos podem variar, as pessoas idem, mas a casa e a rua estão lá. Nem em psicoterapia quiseram me explicar por quê.

Siga em frente com essa ideia de deixar para a posteridade suas memórias. É uma maneira de dizer que sim, vivemos.
Abraço

Jorge Carrano disse...

Esta era intenção original do blog, Carlos Frederico. Deixar informações para os pósteros. Até brincava com meu primogênito dizendo que facilitaria a vida dele, como meu biógrafo. Piada entre nós.
Veja que sei bastante sobre o ramo familiar de minha mãe, mas pouco sobre o ramo paterno: os Carrano. Por falta de registros, fotos e tradição oral de informações.
Sim, disponho de documentos, mas falo de convívio.

Claro que não ficarei falando da família todo o tempo, assim que receba contribuições publicáveis estas entrarão em pauta.

Ou até que um fato relevante justifique edição extraordinária.

A Alessandra, por exemplo está devendo um post.

Ana Maria disse...

Os pinduricalhos das cortinas chamam-se borlas.

Jorge Carrano disse...

Sua memória é cinco anos mais nova, ou menos usada.
Obrigado pelo adendo. Bj.

Jorge Carrano disse...

Ih! Entreguei sua idade. Sorry.

Riva disse...

Fazendo as vezes da desaparecida Profªª Rachel, o correto é penduricalhos. rsrsrs

PS : pensei que o post atrairia comentários da Alessandra e talvez da Kayla .....

:(

Jorge Carrano disse...

Ana Maria,
Como no texto está escrito penduricalhos, a correção é para você.
Claro que ele nem desconfia com quem está se metendo.

Nós não usamos necessariamente a língua culta, porque estamos num pub, trocando ideias, sem dicionário ortográfico, de sinônimos, enfim os Aurélio, Caldas Aulete ou Houaiss para consulta.

Algumas palavras são inusuais, e é natural que nos enganemos.

Ele não sabe, mas eu sei, porque conheço ambos, que numa disputa em um ditado, nos moldes que eram utilizados antigamente nos bancos primários, ele perde para você.

Riva, você não é a professora Rachel, e acho arriscado assumir aqui o lugar dela. Se fosse você me penitenciaria pelo ato impensado.

Olha, é muito comum o Paulo Bouhid me corrigir. Eu escrevo no correr da pena (como se dizia antigamente) e não faço revisão. Ele me envia e-mail alertando.

Riva disse...

Comfeço que não intendi a reassão, Carrano, e também me surpreende vosse ter serteza que eu perderia numa competissão de ditados ..... sempre tirei 10 (des) em ditados, apezar de tirar notas ruins em portuguêz.

Escreverei como vosse, no correr da pena. Já tinham me alertado, muitos na verdade, para eu parar com eça mania de corrijir as peçoas.

Desculpe, Ana, incluzive a brincadeira desse comentário.

Abrassão

Jorge Carrano disse...

Valeu, Riva.
Se a correção fosse de algo escrito por mim, não haveria reação. Mas sendo com alguém que você não tem intimidade, foi indelicado.

Tudo em paz. Ana Maria nem precisa de quem a defenda neste particular, mas preferi eu mesmo tomar as dores. Por diplomacia.

Se um dia você tiver oportunidade de conhece-la pessoalmente (e porquê não?) certamente reverenciará a cultura dela.

Eu respeito e admiro.

Riva disse...

Constato aqui um dos problemas da web .... a gente conversa tanto com pessoas que não conhecemos pessoalmente, que parece que somos amigos, ou que nos conhecemos há muito tempo.

Tenho mais de 600 seguidores no Twitter, nos consideramos demais, muitos deles mesmo como amigos, e ninguém conhece ninguém pessoalmente.

Efeitos da web, coisas que a minha geração não sabe lidar ...... e por isso não achei que cometi alguma indelicadeza com a Ana Maria. Você achou. Ela nem sei, porque ainda não se manifestou.

Isso me faz voltar para a minha caverna. Hibernar um pouco faz bem. Como Freddy costuma dizer, grokar.

Sds a todos !

Carlos Frederico disse...

E eu que sempre pensei serem pendurucalhos...
Ainda bem que nunca caiu nos meus ditados e eu sempre tirei 10...
<:o)
Aliás não só nos ditados em português como nos musicais também.
<:O)

Ana Maria disse...

Relaxa, Riva. Trocar ma letra é moleza. Já fiz trocas bem piores na vida. rs
Mas não sou de melindres. Quando discordo reajo e quando percebo que errei assumo. Tudo na paz.