31 de maio de 2011

Sobre sermos ou não analfabetos

Por
Carlos Frederico Marques Barroso March

Aposentado e sem atividades formais em meu cotidiano, matriculei-me no início de 2009 no curso superior de Licenciatura em Música, ministrado na Universidade Cândido Mendes, em Nova Friburgo. Tê-lo abandonado com apenas um mês de aulas não vem ao caso no momento. Uma das matérias era Português Instrumental e um texto ("Ler o Mundo", do Affonso Romano de Sant'Anna, O Globo, 12/11/2000) nos foi apresentado para análise e debate. Ele suscitou reflexões sobre o assunto "analfabetismo" e registro minhas impressões a seguir.

Dicionário Eletrônico Houaiss:

Analfabeto:
1 que ou aquele que desconhece o alfabeto; que ou aquele que não sabe ler nem escrever
2 que ou aquele que não tem instrução primária
3 Derivação: por extensão de sentido.
que ou o que é muito ignorante, bronco, de raciocínio difícil
4 Derivação: por extensão de sentido. Regionalismo: Brasil.
que ou aquele que desconhece ou conhece muito mal determinado assunto ou matéria
Ex.: ser (um) analfabeto em política, em matemática

Não pude deixar de me lembrar de minha falecida avó Carolina. Portuguesa "da aldeia", como se definia querendo significar ter sido criada no ambiente rural português na virada do século XIX para o XX, não aprendeu a ler. Na aldeia só se trabalhava. Alguma coisa como, por exemplo, escrever o seu próprio nome naquela caligrafia incerta ela ainda conseguia, já que ao longo dos anos conseguiu absorver algo como autodidata, mas era pouco mais que analfabeta - no sentido formal da palavra.

No entanto, como a velhinha era culta na decifração das emoções, usando a leitura da tal da linguagem corporal ! Como nos valemos vezes sem conta de sua imensa habilidade para dirimir rusgas, que eram muitas por conta de condições particulares de nossa conturbada família... De nada valia nosso vasto conhecimento da língua portuguesa - incluindo meus pais, eu e meu irmão, mais vovô - frente aos conhecimentos que minha saudosa avó, dita analfabeta, tinha das relações humanas!


Schloss Neuschwanstein


 Por conta dessas lembranças e com a mente viajando agora pelo meu passado, nos meus vinte e poucos anos tive ocasião de me pilhar eu mesmo analfabeto. Foi quando passei sete meses estudando na Alemanha, nos idos de 1977. Eu sabia algo de inglês, que era a língua a ser usada no treinamento, e rudimentos de francês. No entanto, ao passear pelas ruas de Munique e arredores, ser confrontado com aquele monte de letras, aqueles "palavrões" intermináveis, me dava vislumbres do que devia pensar e sentir um sujeito que não aprendeu a ler.


Não, eu não estava sendo pleno e justo em minha avaliação, dado que ao menos conseguia soletrar os "palavrões" e, com a ajuda de um dicionário e de algumas poucas dicas gramaticais, saber do que se tratava o assunto, nem que por alto. A gente (eu e minha esposa Mary) ao menos conseguia até fazer compras de gêneros com certa desenvoltura e aprendemos a ouvir os preços. Ao menos os preços !

Engraçado: porque a quase totalidade dos analfabetos sabe contar dinheiro? Continuemos...


ideogramas japoneses

 Não, isso não é nada perto da visão aterrorizante dos ideogramas orientais! Isso sim é ser analfabeto. De pai e mãe, como se costuma dizer por aí. Nunca tive muita vontade de ir à China, ou ao Japão, Coréia e vizinhos, só de medo de me pilhar incapaz de sequer vislumbrar o que se trata cada "monte de pauzinhos". Anafalbetismo: teoria e prática!



alfabeto - hebraico
 
 Inclua aí o mundo árabe, a escrita judaica...

Bem vindo ao clube, meu caro Carlos Frederico! Você é, portanto, também um analfabeto!



tríade
 Isso nos traz à música, que aliás era o tema em estudo na tal aula da Universidade. Não são muitos aqueles que conseguem ler um texto musical, melhor dizendo uma pauta. O que nos leva mais uma vez à inadequação da formalidade dos conceitos, dado que muitos autores e intérpretes consagrados - pelo menos na música popular - fizeram fama sem nem saber do que se trata uma clave de sol.
 
Tim Maia



Exagero meu, talvez, mas é fato sabido que Tim Maia não sabia ler música. Acrescento aí os Beatles no início de carreira, o que trouxe problemas diversos a seu empresário para registrar e salvar os direitos autorais das músicas que tomavam de assalto o mundo. Citarei ainda o ABBA, famosa banda pop sueca vendedora de 360 milhões de discos entre singles, LPs e CDs. Alguns devem conhecer o musical "Mamma Mia!", ainda em cartaz em diversos países.





Componentes originais do ABBA, em foto de 2008
 numa divulgação do musical,
da esquerda para a direita:1º Benny; 5ª Agnetha; 6ª Frida; 12º Björn

  Ele é baseado em algumas das músicas do ABBA, ligeiramente modificadas e encadeadas dando forma a um enredo simples mas plausível. Pois saibam que o primeiro grande passo dos realizadores deste musical foi resgatar os detalhes finos de cada partitura (essenciais para ensaios dos atores cantores) através da audição compasso a compasso de toda a discografia, dado que nada estava registrado em pautas!

Vai daí, concluo que o rótulo de analfabeto pode ser extremamente injusto se aplicado indiscriminadamente e com intenção pejorativa, pois depende do contexto. Todos nós o somos, em algum aspecto de nossas vidas.


29 de maio de 2011

I love NY

Por Paulo Ricardo Marques Barroso March

Tudo começou mais intensamente em 1969, quando fiz minha 1ª viagem aos EUA, com 16 anos, participando de um programa de intercâmbio cultural do RJ, chamado Partners of Alliance. Até então, o fascínio por NY se resumia às imagens do Empire State e da Estátua da Liberdade em filmes, na revista O CRUZEIRO, e lendo a coleção de revistas Reader´s Digest do meu pai.

Na verdade, a atração pelos EUA começou muito cedo - início da década de 60. Fascinado por aviação, minhas correspondências para a Boeing e outros fabricantes eram semanais, e me faziam ficar no muro da minha casa no Pé Pequeno, esperando a passagem do correio, ávido pelas respostas e fotografias das empresas.

Beatles, Rolling Stones, Hendrix, Doors, Joplin, Mamas & the Pappas, Bee Gees, e tantos outros .... pronto ! Shows e lançamentos em NY, Los Angeles e San Francisco, notícias diretas via Big Boy na rádio AM. NY fervilhava.

E veio a viagem aos EUA, um sonho que se realizava, numa época em que para fazer uma ligação para o Brasil, ligávamos para a "operator" e aguardávamos 1 hora e meia para ouvirmos a voz dos nossos pais do outro lado da linha. 
Mick Jagger


Keith Richards


Já no voo de ida (agora sem acento) pela falecida Braniff entre Campinas e Lima, as presenças de Mick Jagger, Keith Richards e respectivas senhoras ...sacaram seus violões e tocaram horas dentro do avião ... Rolling Stones ao vivo em 69 ! Como vou explicar isso aos meus amigos ?
Chegamos. A cidade era Baltimore, hospedado em uma casa de família, a família Hall.

Tudo era novidade ... TV a cores, os Mustangs e Camaros nas ruas, as máquinas com cigarros de todas as marcas que comprávamos somente em um bar em Copacabana por uma fortuna (rs), a arquitetura vitoriana das casas, a ausência de muros e portões, a famosa caixa de correios que víamos em filmes e desenhos animados, as lanchonetes .... tanta coisa para contar quando voltar.

Veio a visita a Washington, uma bela cidade, onde o momento mais emocionante foi no cemitério Arlington, no túmulo de JFK. A chama eterna, da qual tanto ouvi falar .... e eu estava ao lado dela. Visita à Casa Branca, com direito a apertar a mão de Spiro Agnew, vice de Nixon - afastado posteriormente da vice-presidência, sob acusação de extorsão e fraudes, quando ainda era governador de Maryland.

A tão esperada visita de 2 dias a NY aconteceu num fim de semana de muito frio e neve, em fevereiro de 69. 
Empire State
 
 Jamais esquecerei a minha 1ª visada da calçada para o topo do Empire States, e a subida ao observatório. O passeio à Estátua da Liberdade, a filial NY da Tower Records (que ainda era pequena e ficava na Broadway), o edifício PAN AM, o Chrysler, a 5ª Avenida, as máquinas de música dos bares (na verdade com discos vinil compactos de 45 rpm). Eu estava sendo massacrado ... rs.


Meu companheiro de viagem , Jorge Roberto Silveira ( nessa época guitarrista dos Corsários, banda famosa de Nikity, que tocava muito no Regatas, no Central e no clube Pioneiros, no Vital Brazil ) precisava comprar um pedal de Wah-Wah para sua guitarra, inexistente no Brasil na época.

Nos desligamos do grupo, e lá fomos nós dois por NY em busca do objeto cobiçado ( no Twitter se escreve cobissado). Onde o encontramos ? Numa espelunca em Greenwich Village, bairro underground da NY dos anos 60, de onde só saímos de volta para o hotel às 2 horas da manhã. Realizados, levando o pedal Wah-Wah e algumas dezenas de pesadíssimos LPs de vinil, farejados nos subsolos de Greenwich Village.

Voltei para o Brasil, apaixonado pela Big Apple e fascinado pela infraestrutura das cidades americanas que conheci na época : Baltimore, Washington, NY, Anapolis, Atlantic City, Ocean City, Gettysburg, Salisbury, Miami, Daytona e Melbourne.

Com a mudança em 1971 para New Rochelle de 2 primos da minha esposa, tudo ficou muito mais fácil. New Rochelle fica a apenas 25 minutos de trem da Grand Central Station, na 42th St, no coração de Manhattan.

Foram então várias idas a trabalho e a passeio, algumas muito especiais como a de janeiro de 2002 - comemorávamos 25 anos de casados, e visitamos o Ground Zero, onde estavam localizadas as torres gêmeas do WTC. Foi muito emocionante estar ali naquele momento. Era um dos cartões postais da Big Apple.

Vivenciei NY em diferentes meses do ano.

verão no Central Park
 No verão o calor é impressionante. Isso dito por uma pessoa que vive em Niterói/Rio de Janeiro ! Já tive que antecipar um retorno ao Brasil devido ao excesso de calor, quando minha esposa estava grávida do nosso 2º filho.


O inverno em NY também é muito rigoroso, mas compensa em 2 sentidos : a incrível beleza da cidade em dezembro, enfeitada para o Natal e o Ano Novo, e as vendas dos saldos de estoque após o fim de ano ...rsrs.







Eu adoro o outono em NY, quando as árvores ficam amareladas, as folhas caem, paisagens lindíssimas e uma temperatura muito agradável.





Restaurantes ? Só perde para São Paulo. Se puder indicar um, apenas um, em termos de qualidade e de preço, indico tranquilamente o italiano Carmine´s ( 200 West 44th St - http://www.carminesnyc.com ).

Footing ? Não deixe de caminhar/explorar fora do retângulo tradicional dos turistas. Pegue o Subway (metrô) ou um ônibus, e deixe-se levar pelo Village, pelo SoHo. Tem lojas excelentes, bares, bistrôs, restaurantes, ruas bonitas, gente bonita, cães bonitos, tudo é bacana por lá.

Passeios ? Central Park imperdível, a pé, de charrete, de qualquer jeito. Estátua da Liberdade. Pier 17. Atravesse a Brooklyn Bridge a pé. NY é uma cidade para ser percorrida a pé. Leve sapatos super confortáveis.

Shows ? Veja a agenda do Madison Square Garden (http://www.thegarden.com/) , ou do Blue Note (http://www.bluenote.net/newyork/index.shtml), ou dos teatros da Broadway !!!

Museus ? O de História Natural é simplesmente arrebatador ! http://www.amnh.org/

Ou simplesmente, sente-se numa mesinha na calçada de um barzinho no Village, peça um cálice de vinho do Porto, e :

O autor na 5ª Avenida

Sentado curtindo um fucking drink bar
Em Nova Iorque a assistir o tempo passar
Peças desnorteadas
Peças descacetadas
Sentado vivendo um fucking drink bar
Em Nova Iorque entornando um Old Parr
Era uma tarde de outono e o sol, avermelhando
Em cores profundas, não sei de onde
Não quero sonhar que não estou mais aqui
Em Nova Iorque a assistir a vida florir
Não quero sonhar que não estou mais aqui
Só quero existir em Nova Iorque a sorrir
Deixa eu ficar por aqui
Deixa eu .... por aí !

(Música e letra de Paulo March, um veterano apaixonado por NY)

28 de maio de 2011

Ursula Burns

Só os antenados nos assuntos econômicos mundiais, ou, mais recentemente, os leitores de VEJA (páginas amarelas), sabem de quem se trata a personagem título.

Assim como Walter Williams,  que também já foi enfocado aqui neste blog http://jorgecarrano.blogspot.com/2011/03/walter-williams.html, é da raça negra. Mas eles têm muito mais coisas em comum. Venceram em seus ramos de atividade. Ultrapassaram as barreiras da miséria, e evoluíram na escala social e econômica, com dedicação aos estudos, disciplina e muito empenho na busca de seus sonhos.

Ursula Burns
 Ursula é presidente mundial (CEO) da Xerox, uma das 500 maiores empresas do mundo, atuando em vários países, e com seus produtos presentes em todos os continentes. Galgar este patamar, de certo modo, é mais difícil do que ascender a presidência da república no Brasil. O ambiente empresarial, a partir do nível gerencial, é muito mais competitivo, com profissionais brilhantes, com ótimos atributos intelectuais e aparato acadêmico, buscando o topo da pirâmide, onde só cabe um.

Numa disputa pela presidência da república, o universo julgador, que são os eleitores, é muito movido por populismo, propaganda enganosa e interesses políticos ou pessoais.

No julgamento de um executivo, os acionistas levam em consideração seu passado profissional, os resultados já obtidos, seu engajamento nos interesses sociais da empresa, sua lealdade, não às pessoas, mas à instituição, enfim, o critério promocional é calcado no mérito apenas.

Existe, sim, um pouco de política nos bastidores das grandes corporações, mas não é este o meio primordial para atingir o sucesso. Ninguém se sustenta apenas com política no universo empresarial.

Mal comparando, é como se escolhessemos um colégio eleitoral elitizado composto de notáveis para eleger o presidente da república. Lula teria vencido? E Dilma, ilustre desconhecida no cenário político antes da campanha massiva feita pelo ex-presidente, teria alguma chance? Não existiria voto de protesto.

Certamente que não. As credenciais acadêmicas e o passado de realizações do Serra o credenciariam com mais apelo junto a este colégio eleitoral diferenciado.

Faço esta digressão para tentar, até mesmo para mim, dar uma idéia da dimensão do feito desta  americana. Nenhuma outra mulher, negra, alcançou uma projeção tão grande no mundo dos negócios. É a meritocracia falando mais alto, como deveria ser sempre, em todos os campos.

Poderia ter enfocado outras fantásticas mulheres negras, que venceram em seus campos, e conquistaram dinheiro e fama.
Oprah Winfrey

Oprah Winfrey, que de acordo com a Forbes (revista) tem um patrimônio estimado em US$ 2,7 bilhões ( é isso mesmo, dois bilhões e setecentos milhões de DOLARES), o que a coloca entre as 500 pessoas mais ricas do mundo, depois de infância pobre em que sofreu até mesmo abusos sexuais.
Apresentadora de um talk show durante 25 anos, está se despedindo de frente das câmeras esta semana, tendo reunido no último dia 25 de maio, mais de 13 mil pessoas, entre celebridades de todos os campos, num estádio em Chicago, para seu adeus. No Brasil deverá ser transmitido no dia 10 de junho, no canal GNT.

Está se afastando do talk show mas não do negócio televisão, pois sua decisão está relacionada ao fato de querer dar mais atenção ao seu próprio canal de TV chamado OWN ( Oprah Winfrey Network). Entre outras coisas, além do canal de TV, ela possui uma produtora de nome Harpo, uma emissora de rádio, uma revista e um site de compras.

Sylvio Santos não é páreo para ela. 

Outra que poderia perfeitamente ser colocada nesta berlinda seria Condoleezza Rice. Foi Secretária de Estado dos Estados Unidos da América, servindo na administração do presidente George W. Bush entre 2005 e 2009.Acho desnecessário enfatisar a importância e prestígio deste cargo no que respeita as relações diplomáticas internacionais. Guerra e paz estiveram a seu alcance.
Serena Williams

As irmãs Williams – Serena e Venus – que venceram num esporte elitizado, conseguindo feitos fantásticos. Ao longo de sua carreira, Serena conquistou todos os  títulos do Grand Slam, incluindo o que ela auto denomina Serena Slam, referindo-se aos quatro Grand Slam seguidos que ela venceu (Roland-Garros 2002, Wimbledon 2002, US Open 2002 e Australian Open 2003).

Venus Williams
Venus venceu sete torneios Grand Slam em simples, doze em duplas e dois em duplas mistas totalizando 21 títulos de Grand Slam, uma das marcas mais altas do tênis. Considerada a jogadora com o saque mais poderoso de todos os tempos, Venus tornou-se, em 25 de fevereiro de 2002, a primeira jogadora negra a liderar o ranking da WTA.



Rendo minhas homenagens, reverencio estas mulheres, não porque negras, mas porque souberam vencer, apesar das barreiras e adversidades. Vivas aos vencedores.

27 de maio de 2011

A caminho dos grunhidos

Se necessário, para defender o direito de me expressar livremente, irei à via judicial invocando “preconceito linguístico”, porque o que julgo ”adequado” a minha situação de fala (e escrita) neste momento é:

Senhora professora Heloisa Ramos, vai à merda! Perdoe-me se este à não deveria ser craseado.

Assim nós num guenta, presidente Dilma. Primeiro o seu MinC reprova e proíbe Monteiro Lobato nas escolas, acusando-o de preconceituoso.

cuidado sérios efeitos colaterais

Agora gênios da didática moderna, autores do livro “Por uma vida melhor’, aprovado pelo MEC, criam o delito do preconceito linguístico, e advogam a tese de que se pode falar “os livro” e “nós pega o peixe”, desde que, em determinada situação de fala, esta variedade seja adequada.

Não me estenderei nos comentários sobre esta idiotice, este crime contra a educação e instrução, este atentado contra o idioma, principalmente porque outras vozes mais qualificadas do que a minha já o fizeram à exaustão.

Não demora, com mestres deste jaez, somados a linguagem utilizada no twitter, chagaremos, logo, logo, aos grunhidos.







Trecho do mencionado livro “Por uma vida melhor”:
[Você pode estar se perguntando: “Mas eu posso falar “os livro?”
Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico.]


Outro trecho: “Mais uma vez, é importante que o falante de português domine as duas variedades e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala”


Resta explicar o titulo ”por uma vida melhor”. Para quem, cara pálida?

O blog

Alguém já disse que no Brasil até o passado é incerto. Neste blog tanto o passado quanto o presente e, mais ainda, quanto ao futuro só há incertezas.

O primeiro que criei e teve vida efêmera, era muito ambicioso no objetivo. A proposta era debater temas importantes, colhendo pontos de vista plurais, para que todos os participantes pudéssemos consolidar nossas opiniões e formar juízo de valor. Isto foi há 4 anos.

Assim, com o intuito de ser um “forum de debates” ou “um tribunal filosófico/ideológico”, lancei o blog “Discutindo Direito”, onde a palavra direito não tinha a conotação, apenas, da ciência, mas também de ser uma coisa correta, educada, civilizada, com respeito a opinião divergente. Quanta pretensão não é mesmo?

Enviei e.mails para parentes e amigos informando sobre o blog e convidando para o debate. Lembro que os primeiros temas que propus foram: o primeiro, eutanásia; o segundo, utilização de células tronco embrionárias ( o STF não havia, ainda, julgado o caso, estava em fase de audiências públicas), depois as cotas raciais e outras ações afirmativas, em seguida a liberação dos jogos em cassinos, por fim, antes de desistir por falta absoluta de participantes, o tema foi pena de morte.
Bem, como já antecipei não houve respostas. Abandonei e encerrei o blog. Hoje, tentando resgatar na rede alguma coisa do blog que abandonei, verifiquei que existem vários com aquele nome, no Espirito Santo, em São Paulo e na Bahia. São de data mais recente.

Mas fiquei fascinado pelo veículo, pela abrangência, pela simplicidade da operação, pela facilidade de edição e, melhor de tudo, poder prescindir de suporte técnico, diferentemente do website (conteúdo jurídico) que tenho e para o qual dependo de suporte técnico da nora Erika.

Precisava de um objetivo para o novo blog a ser lançado e isto surgiu naturalmente de conversas com meus filhos que manifestavam, agora na fase adultos, curiosidade sobre o avô (paterno) que não conheceram. Então brinquei que no blog eu me daria a conhecer melhor, falando da minha vida, minhas posições polícicas/ideológicas, religião, opções futebolísticas e culturais a fim de que meus netos, futuramente, tivessem fonte de informação, se vierem a ter algum interesse, e para que pudessem fazer uma boa “biografia” minha.

Neste sentido, em todos os textos publicados, eu me coloco; mesmo quando estou falando do noticiário semanal (Atualidades), não me limitando a repercutir o fato, senão dando minha opinião.

Mas me dei conta de que se estou falando de uma época, outras visões são importantes para formação de cenários, sem contar que durante minha vida interagi com várias pessoas - na escola, no trabalho, na sociedade - cujas ações e opiniões tiveram influência na minha vida.

Daí para falar de pessoas e fatos foi um pulo.

Fui além, abrindo espaço para que parentes e amigos pudessem enriquecer o blog, com seus conhecimentos, experiências e produções artísticas e culturais. Pensei numa coletânea de crônicas de costumes.

Surgiram alguns poucos seguidores e foi preciso tirar deste espaço o caráter de diário, porque neste caso não poderia ser tão público.

Eis o ponto em que estamos.

Já publiquei, sempre com autorização prévia dos autores, textos de terceiros, parentes ou não, e agora já me permito convidar seguidores e amigos para que colaborem escrevendo sobre assuntos os mais diversos, fazendo jus ao nome do blog: generalidades especializadas.

Daqui a um ano, vai saber. O futuro é incerto.

25 de maio de 2011

Minissaia, calça justa e decote generoso

Hoje caminhava a minha frente uma jovem, sei lá, vinte e cinco anos? Chamou minha atenção a calça justa que vestia, que denunciava uma daquelas protuberantes bundinhas, durinhas, e pernas bem torneadas.

calça justa
Confabulei com meus botões qual seria a razão por trás daquela escolha, a justificar a calça tão apertada. Difícil, certamente, de vestir e, suponho, nada confortável para usar. Assim, descartei praticidade e conforto. Moda? Não, era um jeans comum.

Restou a alternativa que ela, no fundo, queria ser vista, admirada, apreciada. A dúvida seria por quem: homens ou mulheres. Ela queria ser objeto de admiração e cobiça dos homens, ou queria matar de inveja as outras mulheres pelo corpo escultural. Bem, nos dias que correm não se deve descartar a possibilidade de que queria impressionar outras mulheres não para que a invejassem pela forma física, mas sim para que a cobiçassem para fins luxuriosos. Vai saber.

minissaia


calça colante
Minissaias e decotes ousados, que permitem apreciar, com certa profundidade, a anatomia feminina, sempre despertaram em mim um cuidado enorme, um policiamento grande, para não ser flagrado olhando acintosamente. Sempre o faço de soslaio, disfarçadamente, porque se apanhado olhando ficaria rubro de vergonha. Mesmo desconfiando que se eu não olhar, estarei fazendo uma desfeita e causando uma decepção à mulher. Afinal, imagino que ela gostaria de ser admirada.

Todavia, sempre fui o que, na falta de outra palavra, diria cavalheiro, discreto no olhar.

Afirmo que sempre, pois me lembro de um episódio quando eu tinha não mais do que 9 anos e vi, pela primeira vez, uma mulher despida. Inteiramente despida.

Foi assim: brincávamos nas fraldas do Morro da Penha, onde morávamos, eu e o Sidney, filho da mencionada mulher. Ele pisou em um caco de vidro e talhou o pé; com alguma profundidade, eis que o sangue jorrou de imediato. Corremos para a casa dele, a primeira da vila onde morávamos, para que fosse socorrido. Entramos na casa, ele gritando de dor e de susto pelo sangue que deixava um rastro atrás de nós.

O barulho da porta abrindo abruptamente e o choro do Sidney, despertaram a atenção e, por certo, o cuidado da mãe, quanto ao que poderia estar acontecendo com seu único filho.

Só que ela estava no banho e veio até sala despida como sói acontecer, trazendo nas mãos a toalha que provavelmente pretendia enrolar no corpo. Só que, na aflição do momento, ela estava mais preocupada com o filho do que com sua nudez.

Vai daí que me assustei com aquela mulher grande (não gorda), de coxas grossas, seios fartos, cabelos lisos e escorridos (ela era cabocla), com água pingando. Uma floresta de pelos pubianos que camuflava a genitália. Se hoje, com a grosseria reinante, diria que parecia uma aranha caranguejeira. Tipo Claudia Ohana, para quem viu na Play Boy.
Fiquei muito mais encabulado do que ela. Não que ela pretendesse se exibir. Mas sim porque tinha algo mais importante porque se preocupar. 
Lana Turner

Ava Gardner

Aquela visão me acompanhou durante alguns poucos anos, até a puberdade. E sabem o que aconteceu? O episódio para mim foi tão acabrunhante, fiquei tão envergonhado, embora inocente, que jamais ousei, na fase das homenagens que fazíamos nas solitárias práticas sexuais, pensar na mãe do Sidney. Era mais comum me possuir (licença Martinho)* em intenção de Ava Gardner ou Lana Turner, que só conhecia das telas, e não mais do que as pernas.



Ou seja, levei ao extremo minha discrição, minha vergonha pelo ter visto a mulher nua num momento de descuido justificável,  nunca utilizando aquela visão para alimentar libido.



*Martinho da Vila, na composição “Ex-amor”, celebrou o ato, de forma elegante, nos seguintes versos:

“Quando a saudade bate forte, é envolvente
eu me possuo e é na sua intenção
com a minha cuca naqueles momentos quentes
em que se acelerava o meu coração”

24 de maio de 2011

A volta para o caos urbano e a "civilização"

Vendi a casa para um major, logo promovido a tenente-coronel. Começou bem. Ao que eu saiba está contente, e decorridos 13 anos do fim de minha aventura no campo, ainda mora lá.

bar rústico
Consegui vender, no pacote, alguns móveis e utensílios os quais não teria onde colocar no apartamento onde iria morar. Primeiro porque eram coisas rústicas adequadas ao ambiente da roça, mas que ficariam deslocadas no apartamento em Niterói. Segundo pelas dimensões de alguns destes móveis, como sofá e poltronas. E o bar e as banquetas? Porque toscos, não harmonizariam com coisa alguma num ambiente urbano. Erika, minha nora que é decoradora de interiores e designer ficaria horrorizada.

O que sobrou doamos para alguns moradores do local, para os quais algumas daquelas tralhas serviriam bastante.

Perdi, evidentemente, algum dinheiro na aventura, posto que vendi o imóvel ao mesmo preço que paguei, tendo entretanto feito uma grande reforma que envolveu desde a estética (reparo da alvenaria e pintura) até a infra-estrutura, como instalações elétrica e hidráulica. Jardim formado e parte do terreno gramado. Canil refeito.

Enfim, investi na reforma tanto quanto paguei na compra.

Foi um sonho que não deveria ter se realizado, como muitos outros que tive ao longo da vida.

É por isso que hoje, quando não consigo alguma coisa que aspirava, racionalizo, como dizem os psicólogos, pensando que não era para ser pois não daria certo, não seria para o meu bem.

O fato é que escolhi mal o local para meu refúgio no campo, comprei um imóvel cheio de vícios ocultos e, o mais grave, não tinha preparo para a vida semi-rural. Acho mais difícil a adaptação de um ser urbano à vida no campo, do que um matuto ruralista se adaptar na cidade.

Onde já se viu arrancar os pés de caruru que brotavam espontaneamente em minha horta orgânica, se eles teriam um papel importante a desempenhar no processo.

Hoje, depois de ler matéria publicada pela amiga Esther Bittencourt, em seu blog, sei que o caruru é uma “planta amiga”. Sei até que em alguns lugares é conhecida como bredo.

Mas nem tudo foi problema como explicitado em "Casa no campo" e "Vida na roça" posts publicados recentemente.

momento de ócio
 Devo admitir que estabelecemos uma nova rotina, diferente de tudo quanto estávamos acostumados. E desfrutamos um ócio merecido, depois de anos em São Paulo.









Wanda na sacada do atelier

Wanda teve, enfim, seu atelier, não com alunos como a princípio imaginávamos, mas criou algumas boas telas, inclusive umas 3 ou 4 vendidas na feira dominical de artesanato no Campo de São Bento, em Niterói.

vista parcial da feira de artesanato (Campo de São Bento - Niterói)














Bill não entendendo o que eu fazia sentado no chão


 Eu tive meu cão, ótimo amigo. Há quem prefira o whisky, que como dizia o poetinha é o cão engarrafado.

22 de maio de 2011

Os vizinhos em São José de Imbassaí

Tínhamos como vizinhos, em São José de Imabassaí, um casal muito estranho, pelo comportamento por vezes bizarro, porque não dizer, esquisito mesmo.

Eles moravam numa boa casa, que ficava por trás da nossa; entre as duas, um terreno desocupado. O acesso a casa deles se dava através de uma rua transversal àquela onde ficava a minha.

Primeira curiosidade, ou esquisitice: na esquina (cruzamento) das ruas, onde se localizavam a minha e a casa deles, colocaram uma placa onde se lia “CASA DOS TJ’S”, com uma seta apontando a direção a ser seguida.

TJ’s porque ele se chama João e ela Telma. São vivos, e residem em Copacabana embora conservem a casa em S.J. de Imbassaí.

Vez ou outra frequentavamos-nos. E jogavamos buraco.

Nestes momentos, quando o encontro era lá em casa, uma série de bizarrices. Ele punha gelo, e até eventualmente guaraná, no vinho que eu servia, menos por ele, mas para meu desfrute mesmo. Na verdade ele não gostava de vinho tinto seco. Se fosse um Sangue de Boi suave, quem sabe apreciasse.

Mas o pior, o que me divertia mais do que o jogo propriamente dito, era vê-lo fazendo a contagem dos pontos. Ele sempre contava a maior os pontos que a dupla (ele e Telma) fizera, e “compensava” em parte, contando a menor os pontos que tinham que pagar porque morreu nas mãos. E ainda assim, com toda a trapaça, não ganhavam. Ele era muito distraído, incapaz de se concentra e só fazia bobagem.

Quando eventualmente íamos a algum restaurante, geralmente domingo, apresentava-me ao garçon ora como Juiz ora como Promotor de Justiça, na expectativa de que fossemos melhor atendidos.

O João é uma figura. Viajava bastante para Europa e tinha uma Mercedes. Muito antiga, mas nem por isso perdendo a condição de ser uma Mercedes. E fazia relatos ótimos das viagens, que me faziam rir intimamente. Coisas tipo assim: - Telma como é mesmo o nome daquela cidade onde subimos na torre? Referia-se a uma cidade pouco conhecida chamada Paris. Divertido, se não fosse trágico. Não estava fazendo tipo não, é falta de informação e cultura mesmo. Dinheiro, definitivamente, não é tudo. 

capela de São José de Imbassai
 
No centro comercial do distrito de São José de Imbasaí, havia um pequeno supermercado, um açougue, uma padaria, uma farmácia, uma casa de produtos agrícolas e veterinários, um sacolão e, como não poderia deixar de ser, uma igreja evangélica. E lógico uma capela.

Para chegarmos a este centro comercial, precisávamos do automóvel, menos pela distância, cerca de 3 Km, mas pelas condições do acesso. Eram ruas de terra batida e quando chovia viravam um lamaçal.

Impressionante o crescimento do número de evangélicos naquela região.

Certo dia, duas mulheres com vestidos cumpridos e trazendo nas mãos pequenos livros de capa preta, tocaram o sino, que fazia as vezes de campainha e indagaram seu eu permitiria que elas entrassem para uma curta conversa sobre fé. Pressentindo o problema, informei que não porque eu já tinha minha fé no espiritismo e que era macumbeiro. Frisando bem esta palavra.

Elas se benzeram, e dando as costas partiram em passo acelerado. Nunca fui tão inspirado como daquela vez.

Quando comprei a casa, ela precisava de uma reforma geral. Precisei de pintor, pedreiro, bombeiro hidráulico (encanador para os paulistas) e de alguém que vigiasse a casa, durante a noite e capinasse o terreno. Indicaram-me um tal de Souza, que morava de favor numa casa das redondezas. Virou meu caseiro.

Como a casa não tinha acomodações para caseiro, ele se instalou na garagem, onde permaneceu até que o Bill, já citado e mostrado nestes escritos, infernizou a vida dele e o fez mudar. Foi morar com um parente.

As histórias dele eram sensacionais, mas merecem um post especial. Quem sabe no futuro escrevo.

Por enquanto, digo apenas que um caseiro custa caro e por vezes é mais problema do que solução.

21 de maio de 2011

Mosquitos, carrapatos e sapos

Convivência desagradável, mas inevitável, em São José de Imabassaí.

Os mosquitos invadem seu espaço e atacam com fome de retirantes. Eram hordas de muriçocas, pernilongos, ou seja lá que nome tenham na sua região. Isto se não há diferença entre uns e outros.

Tive que colocar telas especiais, bem finas, capazes de obstar a entrada destes insetos indesejáveis. Porque senão estaríamos condenados a manter permanentemente fechados, portas, janelas e até basculantes. O mínimo descuido era suficiente para invasão deles e certeza de sono perturbado.

É verdade que até as 16 horas, mais ou menos, o risco deles aparecerem era menor, mas depois deste horário todo cuidado era pouco.

Não fossem as telas que nos permitiam manter abertas as janelas, e morreríamos de calor, eis que não havia ventilador que desse jeito.

Falo de ventilador, então tenho que ressalvar que era possível quando não havia queda de energia. E isto era coisa comum. O mais das vezes, de uma fase só. Como, todavia, a instalação era bifásica, uma fase só permitia mal e mal uma tênue luz que deixava o ambiente como uma boate.

E não funcionava a TV e não giravam as pás dos ventiladores.

Então imaginem a situação: sem poder ler pois a iluminação era insuficiente, sem TV e sem vento para refrescar o ambiente. Pois é, isto é vida no campo. Sair de casa para, por exemplo, sentar na varanda, seria suicídio. Repelente, para aqueles mosquitos era lança-perfume.

Os lampiões eram usados, mas tinham seus inconvenientes. Tanto a gás quanto a querosene.

Como decorrência da grande quantidade de insetos os mais variados, além dos citados muriçocas, tais como joaninhas, percevejos, grilos e outros que não recordo, os sapos tinham farta alimentação garantida.

Por isso, eram freqüentes as visitas deles ao meu terreno.

Sapo caruru
 Lembro de uma noite em especial. Chovia a cântaros (ainda se usa dizer?), e em plena madrugada o Bill deu de latir sem parar e de maneira particularmente irritada.

Botei a capa e saí para ver do que se tratava. Bill, parado e olhando fixamente e adiantando uma das patas que pousava sobre a coisa que eu, pela falta de iluminação, não conseguia distinguir o que poderia ser. Quando me aproximei o suficiente, vi que se tratava de uma enorme sapo, grande mesmo, e com um papo tão avantajado e inflado, que poderia servir perfeitamente para transplante em um pelicano. Um papo tão gigantesco que deveria conter algumas centenas de dúzias de mosquitos, grilos e vagalumes, que apareceriam numa autópsia.

Vassoura de arame

Fui pegar a vassoura que é feita de finas tiras de metal (ou arame), apropriada para varrer folhas na terra, ou o resto da capina, em lugar do ancinho. Se você não sabe do que estou falando veja a ilustração ao lado.
Bem, peguei a tal vassoura, enfiei por baixo do sapo e fazendo - dela vassoura - uma catapulta, arremessei o sapo para fora de meus domínios, ou seja, a rua.

Para o Bill, devo ter sido seu herói naquele dia. Ou melhor, noite.

Confesso que só enfrentei o sapo para não passar vergonha na frente do cachorro. Tenho medo de bicho que pode saltar em cima de você. Aliás, segundo recolhido em Sagarana (João Guimarães Rosa), "o sapo não pula por boniteza, mas porém por precisão" ...

Não falei dos carrapatos, mas serei breve. No tal terreno desocupado existente nos fundos do meu, que por abandonado tinha muito mato e algum capim, vira e mexe apareciam bois e cavalos para pastar.

E estes animais citados são infestados de carrapatos. Ou o mato onde pastam é. Pois não é que estes bichinhos perniciosos escalam até muros e descem dentro de seu terreno onde se espalham no capim e no gramado. Se for uma cerca então, é barbada para a invasão de várias legiões carrapistas.

William Longhall  (Bill)
Bem, o Bill, coitado, tinha todo o direito – mais que isso, o dever - de percorre o terreno todo. Era sua missão policiar a área. E os carrapatos não perdoavam aquele animal bem alimentado de sangue bom. É claro que eu comprava o produto adequado para combater e eliminar os carrapatos incrustados na pele do Bill. Mas isto tinha que ser, e era, uma rotina.

Tem um produto que se coloca sobre o pescoço e parte do costado do cachorro, que o protege do ataque de carrapatos e pulgas, mas tem efeito limitado a alguns poucos dias.

No próximo capítulo, a venda da casa e o retorno à cidade abençoada, com seu trânsito caótico, sua poluição e tudo o mais, inclusive a violência.

Imagens : Google, exceto Bill.

Futebol na Inglaterra

Notem que escrevi “na” Inglaterra e não “da” Inglaterra. Com efeito, o futebol que é jogado hoje na terra da Elizabeth II, muito pouco tem a ver com o futebol que era jogado pelos times ingleses e característica da seleção da Inglaterra, até alguns anos.

Isto porque as equipes inglesas que disputam a premier league – primeira divisão - estão repletas de jogadores estrangeiros, de todas as origens e continentes. Tem israelense, coreano, marroquino, camaronês, marfinense e outras nacionalidades exóticas (para o futebol), além, claro, de brasileiros, argentinos, franceses, italianos e espanhóis.

O futebol jogado hoje na Inglaterra é bonito de ver e altamente competitivo. Os jogadores e técnicos estrangeiros, estão influenciando sobremaneira no estilo de futebol naquele país.
Emirates- estádio do Arsenal

Sou assíduo acompanhante, via canais ESPN, do campeonato inglês, onde tenho meu time de preferência, que os que me acompanham neste blog ou mesmo os que apenas eventualmente fazem visitas sabem qual é. Torço pelos gunners, ou seja, pelo Arsenal, cuja torcida tem este apelido em função da origem do clube.

Mas o futebol inglês não me atrai apenas, e já não seria pouco, pelas disputas nos gramados, senão também pela educação da torcida que respeita o minuto de silêncio como se estivesse velando a própria mãe. Mesmo quando a homenagem póstuma é dirigida a alguém ligado à equipe adversária. A propósito, o minuto de silêncio, lá, dura exatamente um minuto, ao contrário do que ocorre no Brasil, onde o minuto de silêncio tem menos de 60 segundos por causa da impaciência da torcida que começa a assoviar e vaiar. E as transmissões televisivas são um show a parte, pela qualidade das imagens e quantidade de ângulos de visão, com detalhes impressionantes.

Outra demonstração de civilidade da torcida é que não invadem o gramado, mesmo em se tratando de comemorar a conquista de um título, como ocorreu recentemente com o Manchester United.

Os gramados, por falar nisso, tirante a época do rigoroso inverno, quando a neve castiga muito o campo de jogo, são verdadeiras mesas de bilhar, mesmo os dos clubes mais modestos. Logo, só não joga bem quem não sabe mesmo.

A presença dos torcedores é outro fato relevante. Os estádios estão sempre cheios, mesmo às segundas-feiras à noite, quando são realizadas, regularmente, partidas pelo campeonato.

Isto porque outra coisa inteligente no futebol inglês é a tabela da disputa e a programação dos jogos, que são distribuídos em diferentes horários, nos sábados e domingos e tem, sempre, uma partida programada para segunda-feira.

Atualmente o melhor time de futebol é o Barcelona, acho que ninguém questiona, mas se tem uma equipe que pode rivalizar, enfrentando de igual e até vencendo, esta equipe é a do Manchester United.

Escrevo antes da partida final pela Liga dos Campeões da Europa, que acontecerá no próximo dia 28 de maio, e arrisco apostar no Manchester.

* O Arsenal Football Club é um clube de futebol inglês baseado em Holloway, no Norte de Londres. O Arsenal foi criado a partir da ideia de um grupo de trabalhadores da Woolwich Arsenal Armament Factory em 1886 (daí gunners) que, por diversão, decidiram montar um time de futebol. As cores do clube têm sido tradicionalmente vermelho e branco. O Arsenal tem uma grande torcida em todo mundo, que possuem uma série de rivalidades de longa data com vários outros clubes, o mais notável deles é com os vizinhos do Tottenham, com quem disputa regularmente o North London Derby.


20 de maio de 2011

O rus quando ego te aspiciam!

Vejam só, Horacio* sentia saudades da vida agreste. Uma livre tradução do titulo seria: Ó campo, quando tornarei a ver-te!

Mas eu não guardo boas receordações, como se verá na continuação da narrativa que venho fazendo e que começou em  http://jorgecarrano.blogspot.com/2011/05/vida-na-roca.html

Acreditava que receberia amigos e parentes, para animar nosso isolamento e mansidão. Para os filhos e noras, imaginei até que passassem conosco alguns finais de semana, razão pela qual uma suíte foi preparada para tal fim, com relativo conforto. Colchão e cômoda novos, além de armário embutido. A janela dava para um jardim de inverno pequeno. Até uma pequena TV estava instalada.

Alguém aí esteve lá e pernoitou? Pois é, nem os filhos. Minto, acho que uma vez.

As visitas limitaram-se aos dias festivos, para almoço. A vizinhança, para convívio social, não existia.

Eram pessoas humildes, o que por si só não as descredenciaria, mas eram, acima de tudo , incultas e rudes. Não sei se o caro leitor é assim, mas se ouço um tema de jazz bem executado tenho vontade de compartilhar com alguém que também aprecie e trocar opinião. Se vejo um bom filme, gosto de comentar com quem tenha também assistido ou conheça o diretor ou atores e possamos elogiar fotografia ou o figurino. Bem, eu acho que compartilhar prazer é tudo de bom.

E lá era impossível. Tal fato teve um peso na decisão de vender a casa e retornar para Niterói.


antena parabólica
         Lá em cima mencionei televisão na suíte de hospedes. Então devo narrar uma curiosidade. Mandei instalar uma parabólica, sem o que não teria imagem decente e opções de canais.

Funcionava tudo dentro do esperado, até que passados uns dois meses, diariamente, por volta ds 17:30 ou 18:00 horas, a imagem, desaparecia. O som ficava chiado e a imagem com aquelas linhas sinuosas e embaralhadas. A partir do terceiro dia pensei com meus botões que alguma coisa relacionada à energia estava interferindo. Seria algum compressor ou gerador ligado nas redondezas a partir daquele horário? Será que outros moradores nas cercanias estão com o mesmo problema?

Resolvi ligar para a concessionária de energia elétrica e falar sobre o fato. Haveria sobrecarga no transformador? Pediram-me que anotasse o número do transformador mais próximo de minha casa e voltasse a telefonar. A dificuldade seria imensa pois o tal equipamento estava a uma altura considerável e não é que a numeração fosse bem legível. Um dos itens que tive que comprar, como já contei, foi uma escada. Uma não, duas: uma bem grande e uma pequena. Encostei a escada maior no poste, subi e anotei o número. Voltei a ligar para a CERJ, atual AMPLA, e mencionei o número do transformador. Prometeram-me medir a carga e dar notícia. Aguardo até hoje, mas o problema teve uma solução no mínimo inusitada.

Em Maricá havia uma pequena loja que vendia peças e componentes eletrônicos. Até vendia parabólicas. Resolvi ir até lá, para saber se eles teriam um técnico que pudesse examinar minha instalação. Quem sabe seria um problema de posicionamento da antena? A situação era semelhante aquela vivida por alguém que não consegue se curar de um mal e, em desespero, apela para tudo: pai de santo, homeopatia, chá de carqueja, novena e tudo o mais, mesmo não acreditando em nada disso.

Meu caso já era desesperador. Imaginem a Wanda sem novelas e eu sem o futebol e o noticiário.

bando de andorinhas

Bem, tão logo entrei na loja e perguntei se eles poderiam mandar alguém lá em casa e relatei o problema, o proprietário se abaixou e pegou debaixo do balcão algo como uma tampa de ralo, daquelas em plástico, pequena e redonda, e disse calmamente e com segurança: - São as andorinhas. Coloque esta tampa naquele conezinho que tem na antena, para que elas não possam entrar. É neste horário que elas se recolhem para dormir e aquela abertura na peça da antena (tem um nome que não me lembro), é utilizada para passarem a noite.
andorinhas


Final desta odisséia. Deu certo. Eram, mesmo, as andorinhas. Surpreendeu-me a maneira fácil e rápida como o dono da lojinha de Maricá deu a solução. A isto chamamos experiência. Ele já vivera outros casos semelhantes.



Nos próximos capítulos abordarei a rotina diária, o caseiro, o poço artesiano, e mais problemas de uma casa. Último post sobre minha saga no campo em http://jorgecarrano.blogspot.com/2011/05/casa-no-campo.html


* Quinto Horácio Flaco, em latim Quintus Horatius Flaccus,  foi um poeta lírico e satírico romano, além de filósofo. É conhecido por ser um dos maiores poetas da Roma Antiga. (Wikipédia)

18 de maio de 2011

Moonshine destilado com desafio, prazer e perigo - Capitulo I

Por Ricardo Wagner Soares Carrano
Carolina do Sul - EUA

Moonshine é o nome mais conhecido, mas é também chamado de White Dog, White Lightning, Mule Kick, Jet Fuel ... e mais uns 50 a tantos apelidos pelo pais afora.

Este mito se explica principalmente pela vontade que todo ser humano tem de desafiar ou mesmo desrespeitar algum regulamento ou lei, e não ser pego... principalmente se essa lei ou norma e' considerada injusta.

Assim, os escoceses (ninguém duvida que sabem fazer wisky do bom) e irlandeses, que desafiavam a Coroa Britanica, cruzaram o Atlantico para se estabelcer numa nova terra, achando que assim enfim seriam livres. Bem, hoje sabemos que a idéia de se livrar dos ingleses custou caro, mas fato é que quando se instalaram pelo Sul dos EUA, onde hoje basicamente estão localizados, Virginia, Virginia Ocidental, Kentucky, Tenesee, as Carolinas, Georgia ao longo da cadeia de montanhas dos Appalachians eles trouxeram seu know-how de fabricar destilados e assim o fizeram.

O processo de fabricação é mais simples que parece e, é basicamente o mesmo usado por séculos: O principio fisico quimico é de que o álcool tem ponto de ebulição a mais ou menos 77.8 C, portanto o que se faz é uma mistura de algum grão (por aqui milho, cevada, soja), açucar, agua e fermento.

moonshine-diagram
O resultado da reação quimica (fermentação) é o alcool, e se tudo isso for aquecido a +- 77.8 C, voce tem wisky. Assim destilado normalmente em recipentes de cobre para evitar contaminação, os antigos se deliciavam com wisky (ou Bourbon) fresco, feito em casa e vendido livremente na Colonia.

popcorn-sutton
E' importante informar que o wisky pós destilado é incolor, como água, e adquire a coloração a que estamos acostumados quando é estocado e envelhecido em barris de alguma madeira de modo a tambem adquirir um sabor mais encorpado.
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Tudo ia muito bem até que o pais se tornou independente da Inglaterra, e o Secretario de Finanças de George Washigton chegou pra ele e disse que o pais que acabava de nascer, ja nascia quebrado, porque a guerra coustou um dinheirão.

Assim, como todo governo faz desde que isso (governo) foi inventado, cria (ou aumenta) algum imposto quando precisa financiar alguma iniciativa, ainda que valida. Portanto, assim foi criado o imposto sobre bebidas destiladas (Liquor Tax). Os antigos colonos e "novos" americanos ficaram "FULOS" da vida com o governo e se sentiram traidos, por darem a vida de filhos, terras e tudo mais e agora tem que pagar por algo que consideram um direito legítimo. Assim também nasceu a aversão americana a governo controlando a vida do cidadão.

Passaram então a ir para as matas e montanhas principalmente do Sul, para fazer seu wisky e assim escapar da polícia que vinha quebrar as destilarias ilegais, e como sempre trabalhavam  à noite, à luz do luar, este controvertido produto passou a ser conhecido como Moonshine.

No próximo e último capitulo : A persequicão de religiosos e puritanos. A Lei Seca (1919-1931), as gangues e o mito que dura até hoje.

 Cheers ! (Saúde)

17 de maio de 2011

Link

A palavra título, inglesa, foi entroduzida em nossa lingua via informática, a exemplo do que aconteceu com deletar. E ganhou uso mais abrangente. Já ouvi alguém dizer que se encarregaria da solução de um problema, pois tinha “um link” no Tribunal de Justiça. Lógico que continua no sentido de conexão, mas porque dizer que tem um link se poderia ter dito que tinha ligação.

São os estrangeirismos invadindo nosso vocabulário do cotidiano. Eu, por exemplo, se não gostar de uma frase aqui formada, posso deleta-la, mas numa conversa com um amigo, não preciso dizer “deleta o que eu falei”, devendo, isto sim, dizer esquece, ou, “apaga o que falei”, pois foi impensado.

Esta digressão talvez não fosse necessária, mas achei melhor faze-lo, para ficar claro que o link aqui mencionado, nada mais é do que unir pessoas e fatos. Ligar pessoas diferentes, com fatos comuns aos mesmos. Mesmo que apenas numa citação literária.


Louis Armstrong

É o caso, por exemplo, do Jorge Luiz Boges, Luis Fernando Veríssimo, Louis Armstrong, Elizabeth Taylor, W. C. Handy, Ricardo Wagner Carrano e John Jakes.


Elizabeth Taylor


Borges, de quem conhecia apenas algumas coisas esparsas, voltou às minhas leituras frequentes, porque meu filho Jorge adquiriu as “Obras Completas” do mui merecidamente festejado escritor, em 4 volumes.

Em “História Universal da Infâmia”, que é de 1935, vindo a ser um de seus trabalhos mais conhecidos, na história “O Atroz Redentor Lazarus Morrel” ele se refere a importação de negros africanos, como causa a que devemos infinitos fatos, citando entre outros, o nascimento do blues, em especial de W. C. Handy, filho de escravos, que como sabem aqueles que têm um mínimo de informação sobre aquele gênero musical americano, irmão do jazz, é o compositor de “St.Louis Blues" e de "Memphis Blues".

Ora, vejam a coincidência, neste último domingo, dia 15 de maio de 2011, o Veríssimo, em sua coluna n’O Globo, publicou a crônica, sob o título de "silogismos sujos", mencionando como exemplo de silogismo, a conclusão de que como a importação de negros africanos, deu à civilização ocidental muito mais cor e rítmo, como o samba e o jazz, logo foi bom existir escravatura.

lavoura de algodão

trabalho escravo

E onde foi que surgiram, como músicas de protesto, as work songs, que originaram o blues e, depois, lavadas para o interior dos templos, spirituals, senão básicamente nas lavouras de algodão, no sul do EUA.


Borges alude, ainda, na obra e conto supracitados, à música “Go Down Moses”, que é um clássico spiritual, gravado muitas vezes, mas que tem na versão emprestada por Louis Armstrong, a interpretação definitiva fora da igreja. Este spiritual, é encontrável no álbum "Louis and the Good Book”, juntamente com outros registros do gênero.

personagens da minissérie

O canal TCM (TV por assinatura), estreou no sábado, dia 7 deste mês, a minissérie, "North & South", da BBC, uma das maiores superproduções da história da TV que conta a história de George Hazard (James Read) e Orry Main (Patrick Swayze) que se tornaram amigos enquanto estudavam na academia militar de West Point. O caso é que um deles vem de uma família abastada do Norte dos Estados Unidos, enquanto o outro é egresso das plantações do Sul, com uma família que tem escravos. Assim que chega a Guerra da Secessão, em 1861, estes dois amigos acabam sendo colocados em lados opostos do conflito.

Uma das estrelas que fazem participação nesta série Norte&Sul, é Elizabeth Taylor, no papel de uma dona de bordel; e este conflito, pano de fundo da história de John Jakes, ou seja, a Guerra da Secessão, ou guerra civil americana, foi citada por meu primo Ricardo Wagner, de quem eu conhecia a existência, mas não tinha a menor idéia de que morava, há anos, na Carolina do Sul, estado americano onde tudo começou. Neste mesmo estado mora Orry Main, um dos personagens da série.

Assim, em curto espaço de tempo, localizei, via internet, o primo que mora na Carolina do Sul, estado onde se originou a guerra civil, com o ataque ao Fort Sumter, localizado em Charleston, naquele estado.

O Ricardo informa no post já publicado aqui no blog, que técnicamente a Carolina do Sul não fica exatamente no sul do país, ou, nas palavras dele, “A Carolina do Sul é um estado fisicamente localizado no Sudeste, mas chamado de “Sulista”.






No mais, quem puder deve assistir a série "North &; South”, no TCM, ouvir o álbum (tem em CD) “Louis and the Good Book”, ler Jorge Luiz Borges e Luis Fernando Veríssimo, sempre, ver a Elizabeth Taylor em qualquer filme onde ele tenha atuado, e, porque não, ler o post em





Na arte: literatura, cinema e música, a guerra de Secessão não acabou.