28 de agosto de 2017

Quadro de avisos ou mural

Morei em São Paulo - capital - por dezessete longos anos. Em dois períodos. Um de dez e outro de sete anos.

No primeiro período, porque mais jovem e porque morei sozinho, em hotel, durante treze meses, dependi muito, para me adaptar e integrar na vida da cidade, de um fraternal amigo, há pouco falecido, que era na época publicitário.

Havia um bar frequentado por descolados: artistas profissionais de teatro e amadores em busca de visibilidade, publicitários, estudantes de jornalismo e gente jovem que em geral gostava de fazer fumacinha.

Bem, no tal bar havia um grande quadro de cortiça no qual os frequentadores deixavam bilhetinhos, espetados em alfinetes, com mensagens para amigos e parceiros. Era uma especie de quadro de avisos também, tipo "estarei em uma peça no teatro tal", ou "domingo é aniversário do Zeca". 




Era uma espécie de veículo de comunicação existente entre os sinais de fumaça e o e-mail (ou WhatsApp). As mensagens eram pouco mais ou menos do seguinte teor:
"Elza me liga. Bj Rick." ou
"Fábio, amanhã no final da tarde estarei aqui. Bob."
Ou ainda, "Chico, espetei uma continha, acerta pra mim, OK?"

Bem, aqui não tenho um quadro de cortiça até porque este espaço é virtual e não físico. Mas o campo destinado a comentários, neste post, será um meio de contato entre seguidores, ou não, que queiram comentar, informar ou marcar posição.

A ideia teve origem no fato de que qualquer que seja o mote das postagens, sempre aparecem comentários de outra natureza: política, futebol e novidades.

Por algum tempo será através deste  post que nos comunicaremos, reclamaremos, bradaremos, comemoraremos as derrotas do time dos urubus, enfim só não será possível xingar a mãe alheia (a própria poderá).

E já deixo meu primeiro bilhetinho, lá nos comentários.

Imagem:Google

25 de agosto de 2017

É preferível ser vice

Torcedores de outros clubes, no Rio de Janeiro, tiram sarro, sacaneiam, fazem troça com os vascaínos pelo fato do clube Gigante da Colina terminar competições como vice-campeão.

Atribuem ao clube que teve, nas décadas de 40 e 50, o Expresso da Vitória, terminar na segunda colocação (sempre, segundo eles) as várias competições de que participava.

Ora, seria preferível ficar com a pecha de ser vice-campeão do que flertar com a zona de rebaixamento e, pior, ter três quedas para a segunda divisão num intervalo de 9  anos: 2008, 2013 e 2105.

Alguns torcedores ficavam brabos com as chacotas dos adversários, com os vices, mas muito pior é ser rebaixado de categoria como já aconteceu. Ou não é?

Até porque num balanço feito com isenção seguramente o Vasco não será o maior vice-campeão do Estado.

Nem em meus pesadelos mais tenebrosos, terríveis ou assustadores, alguma vez o Vasco foi rebaixado.

Assim como de resto foi inimaginável o Brasil perder num jogo de Copa do Mundo (2014), em casa, por 7X1.

Isso depois do dissabor de perder uma final, também em casa, no Maracanã. Tendo uma equipe repleta de jogadores excepcionais.


Ou Zizinho não foi um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos? Só quem não viu o “Mestre Ziza” jogando pode duvidar disto.

Jair da Rosa Pinto não teria sido jogador fora de série, de desequilibrar as partidas? E ser protagonista de acirramento de rivalidade entre Vasco e Flamengo?

Ademir Menezes foi ou não foi um goleador excepcional, a ponto de um técnico (Gentil Cardoso) haver afirmado “deêm-me  Ademir e lhes darei o campeonato”. O clube contratou Ademir e ele levou o Fluminense ao campeonato carioca de 1946.

E Danilo “o príncipe”? Center-half clássico jogava de cabeça em pé, observando o gramado todo para então lançar a bola ao companheiro melhor colocado. Deu nome a um corte de cabelo que foi moda durante muito tempo.

Enfim, tínhamos um esquadrão e ao final foram lágrimas e ranger de dentes, como diria Humberto Kopf, meu professor de química no Liceu, se lá estivesse.

Nada é tão ruim que não possa piorar. Pior, muito pior, do que ser eterno vice-campeão (se fosse verdade) é cair para a segunda divisão.

E estamos, de novo, em data de hoje, a um passo (três pontos) da área de degola.


23 de agosto de 2017

CIDADANIA

No sábado à tarde ouvi na Rádio Nacional uma série de mensagens institucionais, conclamando os ouvintes para exercício de cidadania, e adoção de bons hábitos e costumes.

Tipo assim: economize água, um bem precioso.

São tantas as coisas simples que podemos praticar e adotar que fazem parte do que se convencionou chamar cidadania, coisas banais na aparência, mas que no entanto representariam muito para a sociedade. Se parássemos para refletir ficaríamos envergonhados por não serem práticas comuns em nosso cotidiano.

Por exemplo: não jogar lixo na via pública. É tão elementar que causa admiração não ser natural em todas as pessoas, de todas as classes sociais. E abandonar latinha de cerveja na areia?

Tem gente que fica orgulhosa do Brasil ser um dos líderes de reciclagem de alumínio. Mas pensem comigo. Catadores de latinha juntam centenas, milhares porque os consumidores deixam-nas em praias ou jogam nas vias pública.

É para ficarmos envergonhados pela falta educação. Se fôssemos campeões de reciclagem porque empresas coletoras fazem o serviço retirando dos recipientes de lixo, nas ruas, praças e praias, aí sim era para ficarmos orgulhosos.

Não descartar lixo em locais públicos, ou mesmo terrenos baldios particulares, independe de ter nível escolar, ser de classe social mais abastada, não depende de religião ou opção sexual. Todo mundo pode praticar este ato simples que é procurar um coletor de lixo para descarte de resíduos.

Os males decorrentes da falta de educação de jogar lixo nas ruas, abrange desde os aspectos estético e de higiene, passando pelo entupimento de bueiros o que provoca inundação, até alimentar ratos e baratas que nos transmitem doenças.

Um resto de sanduíche, um pedaço de bolo, uma bala, restinho de pipoca abandonados na rua são alimentos destes bichos nocivos. E o cheiro que deixa no ar?

Urinar atrás da árvore ou nos muros? Nem pensar.

Não exigir as notas fiscais ou os cupões de caixa nas compras que fazemos, enseja a que comerciantes menos honestos soneguem impostos, o que reduz a arrecadação tributária e, consequentemente, dificulta a manutenção de hospitais, creches e escolas públicas.

Comprando em camelô a par de contribuir para a evasão fiscal ainda ajudamos a manter em atividade canais de escoamento de produtos contrabandeados ou roubados em assaltos aos caminhões de entregas.

Se ninguém comprar em ambulante, e no comércio regular exigirmos a emissão da nota fiscal, aumentará a arrecadação do estado e do município o que permitirá construir e manter novas escolas, asfaltar melhor as vias públicas e abrir novos postos de saúde.Ou seja, o benefício é nosso mesmo.

Não vale raciocinar que se arrecadarem mais, prefeitos e governadores, e seus apaniguados, mais terão para desviar e se apropriar. Com essa mentalidade não chegaremos ao ponto que pretendemos.

Precisamos é agir para coibirmos estes desvios de conduta.

Frequentar restaurantes já interditados, uma ou duas vezes, pela vigilância sanitária porque em ação no estabelecimento encontraram produtos deteriorados é uma forma de omissão, além de absurdo descuido com nossa saúde.

Comprar produtos de firmas sonegadoras ou corruptoras, como a tal JBS é dar anistia aos seus controladores. Fora Friboi! Fora Seara!

Não denunciar delitos ou atos suspeitos através do disque denúncia, sob alegação de que de nada adianta, eles não agem, significa endossar a negligência do poder público.

Se um reclama e nada acontece, se cem reclamam e nada acontece acaba por virar uma coisa inócua, mentirosa. Mas se milhares, milhões reclamarem ficará difícil silenciar, esconder a ineficiência.

Assistir novelas que glamourizam a criminalidade, transformam em heroínas mulheres ou namoradas de traficantes, é péssimo exemplo para a juventude ou para os mais fracos em formação ética e moral. Dar audiência significa concordar com a visão equivocada.

Que tal condenar nas redes sociais? Escrever pra as redações de jornais? Entrar nos sites dos anunciantes e contestar?

Hopalong Cassidy
Em minha infância, quando o american way of life era exportado para o mundo todo, principalmente para o novo mundo, Brasil no meio, claro, tínhamos mais modelos e exemplos de boa conduta.

Não é atoa, ou caso fortuito, os EEUU serem a maior potência do mundo. Eles tinham princípios rígidos. Nunca vi nos filmes de bang-bang, que me encantavam, os bandidos levarem a melhor. Nunca assisti a um filme em que no final os bandoleiros não fossem regiamente punidos ... ou mortos. 

O caso mais recente do resultado do programa tolerância zero em Nova Yorque dá a medida de que é possível ganhar da bandidagem, dos marginais.

Al Capone se estrepou por uma via inesperada: fiscal/tributária.

Aqui poderíamos ter punido severamente, na exata medida de seus crimes, os Odebrechts e Batistas da vida. Por sonegação, lavagem de dinheiro e corrupção.

E deixamos escapar a oportunidade, porque o procurador-chefe, da PGR fez um acordo nocivo à sociedade, aceitando os termos impostos pelos delatores.

Se Gilmar Mendes não é um exemplo de virtudes, de dignidade, respeito à liturgia do cargo, da elevada função pública, também não é menos verdade que Rodrigo Janot é exibido, açodado e que age impelido por ideologia politica.

Colocou incriminar Temer - que não é flor que se cheirem - acima do interesse do Estado, da sociedade,  que seria punir o delator que tanto mal causou. E recuperar o dinheiro que perdemos com transações escusas e atos ilícitos. Incriminar um presidente da República corrupto é de interesse da sociedade, desde que seja feito na forma correta, prudente e segura. Não afoitamente.

Não houve em relação ao Temer o cuidado que estão tendo com Lula. Ambos farinha do mesmo saco.

Poderiam ter melhor apurado, documentado mais, sem deixar qualquer sombra de dúvidas sobre os crimes que lhe foram atribuídos. Duvido que mesmo o mais inescrupuloso, incompetente, interesseiro parlamento como o nosso, tivesse coragem de inocenta-lo. Falo de Temer, claro.

Somos o país dos que querem levar vantagem em tudo, do roubado é melhor, do sete a um, do jeitinho brasileiro.

O que faço para modificar este estado de coisas? O que vocês fazem? Você diz para o dentista que se ele fizer desconto não exigirá recibo? Se você é dentista – ou médico – diz para o seu  cliente que sem recibo poderá cobrar menos?

Você dá caixinha ao vistoriador para que ele ignore seu pneu sem condições de uso na vistoria anual?

Você, jovem, senta nos lugares destinados a idosos, grávidas e deficientes na esperança de que não haverá reclamação por receio de vergonha de reação em público? Você um dia envelhecerá! Ou não ... mas terá sido pior.

Enfim, quem de nós pode reclamar das autoridades, da criminalidade, da insegurança, da falta de assistência médica?

Vejo e ouço pessoas entrevistadas após ocorrências de crimes ou omissão do poder público a seguinte frase: pagamos  impostos e não temos a contrapartida.

21 de agosto de 2017

LÍNGUA MORTA

Vocês sabem que existe um dicionário brasileiro da língua morta? Sei lá, pode até haver mais de um. Mas só conheço um, e tenho. É este aí ao lado.

Muito interessante seja pelo cardápio de palavras ou expressões que morreram, caíram em desuso ou foram substituídas por outras mais contemporâneas, seja também pela forma bem-humorada como foram colocadas como verbetes.

Não se trata de um dicionário de palavras ou expressões necrosadas, posto que, aqui e ali, são usadas, em grupos restritos ou vetustos. Os escribas barrocos. 

Pessoas assim como eu que ainda falavam, até bem pouco, em “tríduo momesco”, para desespero de meus filhos. Tão inusitado quanto falavam os narradores de futebol mais antigos relatando, nos casos de lesões nos jogadores, que “o facultativo adentra ao gramado”. Facultativo, no caso, era o exercente da medicina.

Língua morta, é o latim. OK! Também não, eis que ele sobrevive nas expressões  usadas por advogados para justificar os escorchantes honorários cobrados.

Se eu tivesse cobrado escorchantes honorários não estaria neste momento perpetrando estas mal traçadas linhas. Bingo!!!

Olha onde vim parar. Antigamente as cartas (não havia internet), começavam assim: "Espero que estas mal traçadas linhas vá encontra-la, assim como às pessoas que lhe são caras, gozando perfeita saúde."

Agora dou logo um exemplo para ilustrar melhor o que escrevi sobre o dicionário: “dar no pé” usávamos no sentido de se mandar, cair fora.

Embora as palavras incluídas não sejam necessariamente gírias, em alguns casos parecem. Querem palavra mais engraçada do que desmilinguido?

E como um post outro dia publicado, tinha por tema a palavra “xongas”, lembrei-me do dicionário do Alberto Villas, que repousava em minha estante, sem uso, há já um decênio.

Quem diz hoje em dia que o filho de seu vizinho é “levado da breca”? O menino é um capeta, é o que provavelmente seria dito.

O mencionado dicionário não esgota, claro, o enorme elenco de palavras ou expressões fora de uso, que constituem a língua morta, como chama o dicionarista.

Não encontrei, por exemplo, parangolé, ou bafo de boca, que usávamos como conversa fiada, ou lábia. E entretanto há séculos não ouço alguém falar em parangolé. Você tem ouvido?

Sim, é falho, ou incompleto, o dicionário, mas não deixa de ter seu valor.

Querem outra palavra, que consta do Aurélio e outros, e ninguém mais usa? Fatiota!

E pitel? Imagine-se chegando perto da Paola Oliveira e sussurrar no ouvido dela: você é um pitel.

O dicionário da língua morta mencionado apresenta a palavra grafada como acima: pitel;  mas quer me parecer seja uma corruptela de pitéu.

Cá para nós, pitel ou pitéu, convenhamos, é dose para mamute. 

20 de agosto de 2017

Melhores da semana

Das piadas, charges, cartoons que recebi esta semana, destacaram-se:





19 de agosto de 2017

A ganância



Não me preocupava muito com o novo (nem tanto) acordo ortográfico, aquele que aboliu o trema e criou outras dificuldades para se escrever corretamente. Os de minha geração.

A propósito do trema, leiam a piada que ouvi: "não trema sobre linguiça".

É só isso a piada, acabou. Entenderam o duplo sentido? A malícia contida na frase? É verdade, não se usa mais o trema sobre a letra “u” em linguiça.

Voltando à língua culta, como não tinha leitores, pois os poucos que tinha eram de casa e já conheciam de sobejo minhas limitações literárias, pouco se me dava se havia erros de grafia, de concordância ou de sentido em meus escritos.

Ia escrevendo no correr da pena, como se dizia em tempos d’antanho, antes dos teclados de notebooks, tablets e assemelhados.

Até que um belo dia, um destes internautas aposentados apareceu, primeiro por e-mail e depois aqui no blog. Mandou uma mensagem eletrônica alertando para pequeno erro de grafia numa postagem.


Fiquei todo pimpão, mais feliz do que pinto no lixo. Que bom! Aparecera um leitor. Agradeci o comentário, a visita virtual e por noblesse oblige arrematei que ele deveria voltar sempre, se e quando quisesse. O espaço é também seu, menti.


Aí ele gostou e acostumou. Todos os dias tinha um reparo para fazer em meus textos. Foi perdendo a inibição e passou a reescrever parágrafos inteiros.










Insinuei que poderia ser revisor ad hoc. Alertei que não tendo patrocínio não tinha receita e, logo, não poderia pagar pelos seus serviços. 

No princípio aquiesceu, mas aos poucos a ganância fez- se presente e já pretendeu que eu pagasse in natura, com água de coco. Aos domingos, no calçadão.

Pensei com meus botões, R$ 5,00 por semana dá para bancar. Mas abri uma brecha para maiores exigências decorrentes da ganância. Da eterna insatisfação.

Pois é, a ganância tomou conta do “revisor” que passou a achar que ganhava pouco. Prometi pagar o dobro, ou seja, dois cocos por domingo. Não aceitou e abandonou o emprego (o que configura justa causa).

Nossa relação piorou a partir de março, porque ele queria um bônus em comemoração ao dia do revisor. Queria levar uma garrafinha com água de coco para casa.

Parênteses. Ronald Golias, o bom humorista falecido, em entrevista contou uma história excelente sobre isso. Vinham ele e o Carlos Alberto de Nóbrega, num táxi, pelo aterro do Flamengo, voltando de um show na Barra da Tijuca. Iam em direção ao aeroporto Santos Dumont pois precisavam chegar rápido em São Paulo, onde ainda fariam outro show no mesmo dia.

O Carlos Alberto pediu ao taxista: “você poderia andar mais rápido, por favor, porque temos um voo daqui a pouco?”

O motorista, solícito, atendeu prontamente e apertou o pedal do acelerador. Conclusão: o carro derrapou numa curva, subiu no canteiro, as portas se abriram e caiu cada um para um lado do automóvel.

Constatado que estavam apenas tontos, mas todos vivos, apenas assustados, contou o Golias na tal entrevista que o Carlos Alberto olhando para ele disse: é muita ganância!!!

Pois é, a ganância, se não é, deveria ser pecado capital. De giro ou imobilizado (atenção contadores).

Agora pensem comigo. O cara tinha o privilégio (se eu escrevesse previlégio iria passar, pois estou sem revisor) de ler em primeira mão os meus escritos. Ria a bandeiras despregadas de minhas tiradas de fino humor. Aplaudia quando eu execrava Lula, Dilma et caterva. Tinha orgasmos quando eu ressaltava derrotas do time da urubuzada. E ainda queria palpitar na forma e conteúdo de minhas matérias.

Esquece, ou não sabe, que o estilo é o homem (Lecrec, na Academia Francesa). Pouco culto, não fala e/ou escreve sânscrito, aramaico e tampouco javanês. Nada sabe sobre apicultura hindu no século XIII. Que contribuição, poderia dar para o enriquecimento cultural do blog? Não sabe, pasmem, como é o nome de batismo de Zeca Pagodinho.

Olha aqui, cara pálida, se quiser voltar a aparecer as minhas custas, tirando casquinhas do prestígio do blog, terá que ser pro bono.

Farei como sempre fiz. Darei crédito nos comentários informando quem corrigiu os equívocos. Raros por sinal.


Nota do autor: esta é uma história de ficção. Portanto qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, ou ainda com situações reais, terá sido mera coincidência. A bem da verdade, confesso que me inspirei em situação real. Levemente.

Só falta agora o mercenário pretender direitos autorais, danos morais e psíquicos. E reparação por perdas materiais. 

Vou propor uma audiência de conciliação, para acertarmos os ponteiros. Tomando água de coco no calçadão.

18 de agosto de 2017

Perdemos no vai e vem

Meus avós maternos eram portugueses, assim como  minhas duas tias mais velhas (de um total de seis). Nasceram em Viseu, ou Lamego, e chegaram aqui meninas.

Ambas casaram com portugueses que já viviam no Brasil. Eram comerciantes. Um tinha padaria no centro da cidade do Rio de Janeiro, na Rua Frei Caneca, próxima da Praça da República; o outro um armazém no bairro do Grajaú, na  Rua Borda de Mato. Eram classe média.

Usavam anéis, medalhas e cordões de ouro, alardeando que era ‘ouro português’, por isso de alta qualidade.

Estudante, ouvia na sala de aula a professora falar nas nossas minas de ouro na época pós-descoberta. E que o ouro extraído destas minas era todo levado para a coroa portuguesa. Ou na mão grande ou em forma de tarifas (quinto do ouro).

Uma destas professoras afirmou, em alto e bom som, que Portugal não possuía reservas do precioso metal, não extraía de seu solo uma única grama do minério.

Ora, o que tínhamos com o orgulho dos patrícios que aqui ostentavam joias de “ouro português”, não era outra coisa senão propaganda enganosa, falsa identidade, estelionato, coisa do gênero.

Assim foi durante anos em relação às exportações de matérias primas e importação de produtos manufaturados.

País agrícola e rico em commodities, mandávamos para o exterior os produtos primários e importávamos chicletes.

Comprávamos produtos importados muitas vezes fabricados com matéria prima brasileira.

No futebol, dá-se coisa semelhante. Saem daqui os meninos, pedras brutas ainda em fase de lapidação.

Vai a matéria prima (jogadores) e compramos o espetáculo pagando elevado preço pela transmissão (TVs) dos jogos dos campeonatos europeus.

É bem verdade que alguns destes jogadores exportados fazem seu pé de meia e retornam ao Brasil como produtos acabados, consagrados.

Só que, na maioria dos casos, chegam com problemas de ordem física, ou com pouca motivação, e já não rendem o esperado.

De novo somos prejudicados. Exportamos atletas promissores e trazemos para nosso consumo chicletes, ou seja, jogadores que embora mastigados são difíceis de engolir.



Nota: sobre o quinto do ouro acesse

16 de agosto de 2017

XONGAS

Esta gíria esteve em voga durante muitos anos. Acho-a  uma palavra perfeita, significando coisa alguma ... mesmo.

Assim como indeed, no inglês, é uma palavra que serve para dar ênfase, para confirmar uma frase, xongas dá a exata medida de nossa afirmativa.

Ou como substituto do not at all que é utilizado para enfatizar resposta negativa. Quer café? No thanks ... not at all. Não quero mesmo, não é cerimônia não.

Xongas, pura e simplesmente, significa nada mesmo.

Por exemplo: o que sei de física quântica?  Não sei xongas. Pronto! Não sei mesmo coisa alguma.

Não tinha xongas para escrever, um vazio intelectual combinado com uma preguiça abissal.

Aí, folheando uma revista, detive-me numa crônica onde li a palavra perrengue, que apesar de ser vernáculo (vem do espanhol perrengue), tem aqui no Rio de Janeiro o sentido popular (giria) de aperto, situação difícil.

Então, no popular, diria que estava num perrengue pois não tinha xongas para escrever a guisa de post.

Meu pai não admitia o uso de gírias em casa, achava vulgar. Na mesma linha não aceitava leitura de gibis, que considerava uma coisa menor. Qualquer coisa em quadrinhos significava não ter que imaginar, raciocinar, ou seja, não obrigava a exercitar a mente.

Assim, em nosso ambiente familiar, no linguajar cotidiano gírias eram toleráveis, mas reprováveis; e o palavrões, as chamadas palavras obscenas, proibidas.

Mas a tese de meu pai não é vitoriosa, eis que a meninada desde a  tenra idade se acostuma com os desenhos animados japoneses, com as historinhas e personagens do Maurício de Souza e nem por isso deixam de desenvolver raciocínio lógico e bem articulado.

Aqui entre nós, ficar privado de falar ou escrever fuzuê, traquitana, breguete, e outras gírias, não tem nada a ver. Mesmo que importe criação de um dialeto. Médicos e advogados têm seus próprios dialetos. Ninguém, para um médico, tem dor de cabeça, tem cefaleia. Assim como não existe viúva para advogado, e sim cônjuge supérstite.

Assim é também com algumas expressões idiomáticas, como "chuchu beleza", atualmente pouco usada. Agora seu sucedâneo é uma palavra: "irado". Está na moda o “deu ruim!” É ruim, hein!? Digo de aceitar.

Roberto Carlos, o cantor/compositor, consagrou o "é uma brasa mora?" Que agora soa cafona, antiquado, rançoso.















Os palavrões são vizinhos de muro das gírias, e também eles têm seu lugar e hora adequados nas conversas coloquiais. Tem um que, assim como xongas, é definitivo.

Recorro ao reverenciado Millôr para tornar publicável, sem risco de ferir os olhos das senhoras de pruridos (no sentido figurado) mais agudos.

A tese dele, a seguir, é inquestionável. Só que a autoria não é confirmada, não havendo sequer uma fonte fidedigna de que alguma vez, em algum veículo, o Millôr Viola Fernandes o tenha publicado.

Mas se caiu na rede é peixe. Lembram?




Era o que deveria dizer (ou pensar), ao constatar que não tinha sobre o que escrever. Poderia usar o dane-se. Mas faltaria contundência.

Tergiversei e cheguei até aqui contando com sua leitura. Na verdade dando uma de migué. Morou?


Nota do autor: A internet é rica em textos apócrifos. O que chama atenção é que muitos deles são bem escritos e bem ao estilo daqueles cuja autoria lhes é atribuída. Millôr Fernandes e  Luis Fernando Verissimo, são dois dos consagrados autores vítimas deste embuste. 

Vrissimo
Millôr










 



Referências:
1)http://eltonvaletavares.blogspot.com.br/2012/03/o-direito-ao-foda-se-millor-fernandes.html

2) http://rosemerynunescardoso.blogspot.com.br/2013/11/o-direito-ao-foda-se.html

13 de agosto de 2017

DIA DOS PAIS II

Este cartoon abaixo é de 1993. Publicado originariamente no "Washington Post". Muito provavelmente eu o recortei  do jornal "O Estado de São Paulo", eis que de 1988 até 1995 residia na capital paulista.

Conservo-o porque acho sensacional. Criatividade a dar com pau.


Quando publicado meu pai havia falecido há 10 anos.

Minha saudade é do tamanho de meu respeito e minha gratidão por ser quem sou, o que devo a ele em grande parte.

Não somente pelos genes, pelos conselhos, mas principalmente pelos exemplos de dignidade, caráter e lealdade.

12 de agosto de 2017

DIA DOS PAIS


Por
Ana Maria Carrano



Amanhã se comemora no Brasil o Dia dos Pais.
Criou-se o hábito de criar datas comemorativas para tudo. Profissões, parentesco, estado civil, esporte …
Algumas muito bizarras. Há por exemplo o Dia Mundial da Luta de Braço.
Saibam que no dia 16 de dezembro se comemora o Dia da Levitação. Aliás, quem comemora?
Dia da Rotação da Terra, Dia Internacional do Riso, Dia da escrita à mão, Dia Mundial do Backup, são apenas alguns exemplos.
Tantas opções e tal diversidade acaba por desmerecer as efemérides, realmente dignas de comemoração.
Esse é o caso dos dias dos genitores – pais e mães.
É verdade que o segundo domingo de maio é mais prestigiado que o segundo de agosto. Afinal, mãe é mãe.
Mas pai é o pilar. É nosso modelo masculino, nosso primeiro herói.
Esqueçamos o conceito de doador de genes. Pai é aquele que educa, alimenta, orienta e guia.
Exatamente como determinava o antigo comercial de "Gelol", não basta ser pai,  tem que participar.
Fernando da Motta Carrano,
meu pai.
Eu tive esse pai. Meu modelo, meu guia e responsável por minha educação.

Ouvíamos música clássica, comentávamos sobre literatura e compartilhávamos o gosto pela poesia.

Por isso neste dia vou enviar sentimentos de amor e admiração que, tenho certeza, irão encontrá-lo onde quer que esteja.

Aos pais que me leem, meus votos de feliz domingo ao lado de suas famílias.

Café Sul América

Se você nasceu em Niterói, há mais de sessenta anos, ou sua família mudou para esta cidade na mesma época mencionada, como é o meu caso, há de se lembrar dos cinemas da cidade, a menos que seja vítima de Alzheimer.

Ou não gostasse de cinema. Pena!

Pena estar com diagnóstico de Alzheimer e também por não gostar de cinema.

Tem um sitio na internet que apresenta fotos e pequeno resumo dos mais conhecidos cinemas de rua da cidade.

Se menciono "cinemas de rua", é porque atualmente eles quase que só existem no interior de shoppings centers.

Que me recorde, no tal blog há omissão apenas do cinema que eu mais frequentava, porque era mais próximo de minha casa, era barato e exibia dois filmes por sessão, além de seriados eventualmente. Falo do cine "Rio Branco", na Rua Visconde de Rio Branco.

Não, não era “pulgueiro”, como era por exemplo o Imperial, o mais majestoso em matéria de arquitetura.
Vá até o blog citado utilizando o link acima. Mas deixe isto para depois porque vou explicar a razão do título do post não aludir a um cinema e sim a um dos mais antigos cafés/bares da cidade.

A razão é simples e não é engraçado e nem inusitado. É que ontem, me dei conta de que o Café Sul América está ainda em funcionamento. Diferentemente do Santa Cruz que fechou as portas.

Estes dois cafés ficavam na mesma quadra, um na esquina com a Rua da Conceição e o outro (o Sul América) na esquina com a Rua José Clemente, ambas defronte e estação das barcas.

O que as meninas que serviam o café ouviam de piadinhas, cantadas e propostas indecentes não era normal.

As outras mulheres muito assediadas, das que trabalhavam no centro da cidade, eram a manicures.  No "Salão Líder", pricipalmente.

Mas isto também nada tem a ver com o Sul América, que ainda vende charutos, motivo de minha ida até lá ontem.

Como uma coisa puxa outra lembrei da polêmica, aqui no blog, sobre o nome da bebida servida num balcão dentro do "Banco Lotérico": para uns era Hidrovita, para outros (que estão com a razão) era Hidrolytol.

E qual é a relação do Banco Lotérico com os citados cafés? É que o Banco Lotérico era uma loja que vendia bilhetes de loteria, e ficava entre os dois cafés. Também fechou.

Rastreando em busca de imagens para o post d’outro dia, achei estas abaixo que evocam a Niterói desta época. Inclusive a fachada do Banco Lotérico.

Todos os estabelecimentos que funcionavam naquela quadra defronte à estação das barcas encerraram suas atividades, fecharam as portas. Com uma exceção.

Da esquerda para a direita, de quem de frente olha a quadra delimitada pelas ruas da Conceição e José Clemente: Café Santa Cruz, Banco Lotérico (e o Hidrolytol), Padaria Modelo (Pão Quente), Cine Central, Loja Central (vendia frios e laticínios e massas frescas) and at last, o "Café Sul América".






O "Café Sul América" é único sobrevivente, nesta quadra do centro, nestes sessenta anos.

Daí que merece esta citação honrosa.