22 de junho de 2011

Ainda a infância nos anos 40

Brincar de escambida, como narrado na primeira parte das memórias de infância, não era o único jogo dos meninos. A bola de gude, nas 3 versões conhecidas - búricas, beú, e círculo – era outro dos jogos mais freqüentes naqueles tempos, e hoje meio comprometido inclusive porque requer chão de terra. Onde há alfalto não dá para jogar búrica, que exigia 3 pequenas cavidades localizadas a razoável distância uma da outra, em linha reta.     

bolas-de-gude

Nas búricas, que eram estes buracos, o objetivo era percorrer o trajeto, a partir de uma das extemidades, fazendo com que a bola fosse jogada sucessivamente dentro de cada uma das búricas, que como já mencionado eram pequenas covas no chão, num percurso de ida e volta no qual quem errasse poderia ter sua bola mandada para longe por um teco do adversário. Quem chegasse primeiro na volta à primeira búrica ganhava e ficava com as bolas de jogo dos adversários.

No beú, era desenhado uma forma fusóide no chão onde cada jogador 'casava' suas bolas, como se fossem fichas num jogo de cartas. Do beú os jogadores atiravam suas bolas em direção a uma linha riscada no chão que ficava distante uns 4 metros e a ordem de jogar então obedecia à maior proximidade das bolas de cada jogador desta linha. A esta primeira jogada classificatória, dava-se o nome de 'tirar o ponto'. Desta linha então as bolas eram atiradas em direção ao beú com o intuito de deslocar para fora deste as bolas que lá estavam 'casadas' que eram então conquistadas por quem as deslocava, até que errasse; aí o próximo jogador, pela ordem do 'ponto tirado', fazia a mesma coisa.
pião

Bem, tinha a época do pião. Explico melhor este negócio de época. Algumas destas atividades (jogos) infantis, com algumas exceções, tinham sua temporada. A época das cafifas, por exemplo, era o verão. É imperativo que não chova, ou, se houver chuva, tem que ser aquela passageira, de curta duração, nada que um desenho de sol, com giz ou carvão, no chão não faça parar.

Na minha infância as estações climáticas eram mais definidas.

Então, voltando ao pião, era o que menos gostava, principalmente por minha total falta de habilidade para fazê-los girar, como outros meninos faziam, inclusive aparando-os na palma da mão. Que inveja!

Mas nas cafifas eu me virava bem. E gostava muito. A cafifa era uma coisa lúdica, pelo uso do cerol, que permitia cotar a linha dos outros, fazendo com que perdessem as suas.
cafifa


raia
E tem mais, a graça, a brincadeira, a ocupação, começa bem antes de serem empinadas ao sabor do vento. Começa por colher bambu, fazer as varetas no cumprimento e espessura certos, e fabricar as cafifas. E depois o cerol.

No meu bairro havia um fazedor de cafifas de grande reputação. Chamava-se Nininho, e as cafifas dele eram consideradas vintage (na época não se conhecia esta palavra), dizia-se estilosas. Eram bem acabadas, bonitas e com bom desempenho quando “soltadas” (dizia-se soltar pipa ou cafifa). Pipas, era como denominadas no Rio de Janeiro, e tinham formato diferente, sextavado, e eram fabricadas não com bambu, mas com varetões daqueles utilizados nos foguetões (fogos de artifício). Mas as cafifas do Nininho custavam caro para os padrões e orçamento infantil. Assim, eu fabricava as minhas próprias cafifas, como também o cerol.

A cafifa toma denominações diferentes, em função de seu formato ou da região do país; no sul, por exemplo, chama-se pandorga. As que não têm rabiolas chamam-se morcego ou raia.

Par fazer o cerol, que é um líquido denso, encorpado, quase pastoso, feito com cola de madeira e vidro moído. Derrete-se a cola, que fica meio pastosa e acrescenta-se o vidro moído. O vidro era moído com uso de paralelepípedo, com o qual se batia até tritura-lo. E para o pó atingir o ponto perfeito, tinha que ficar tão fino quanto o açúcar refinado.

Este líquido era passado na linha que era utilizada para soltar a cafifa e a deixava cortante. Depois de aplicar o cerol, era preciso dar uma sacudidela na linha (para evitar bolhas), que em geral estava estendida de um poste ao outro da rua, e deixá-la secar.

E cafifa “voada”, ou seja, cuja linha fora cortada no ar, não tinha dono. O dono perdia o controle sobre a cafifa, com a linha cortada e elas voavam apenas ao sabor do vento indo cair em algum ponto onde era disputada ferrenhamente por bando de outros meninos. Então muitos garotos não compravam e nem fabricavam cafifas. Pegavam as dos outros. Estes que pegavam as cafifas então sem dono, eram os maiores ou mais velozes. As vezes dava briga e a pipa ficava destruída na disputa.

Não pensem que nossa diversão estava limitada as estas brincadeiras. Não. Havia as matinês, principalmente no cine Rio Branco, que por ser o mais perto de casa e o mais barato, era o preferido da garotada do bairro. E exibia os famosos seriados.

Volto, oportunamente, a este tema - minha infância - que ficou num passado bem remoto.





13 comentários:

Carlos Frederico disse...

Carrano, vai manso nessa de cafifas... Eu fui expert na arte de fazer alguns tipos de cafifa, não todos, porque cada formato tem a sua arte própria.
O nome cafifa, como comentou, é genérico em Niterói e corresponde em geral a pipa e pandorga. No entanto, em Niterói/S.Gonçalo há os tipos carcterísticos e são:
- cafifa, parecida com a "pipa do Rio" que você postou no blog; no entanto tinha uma aerodinâmica diferente (varetas encurvadas)e em geral sua rabiola era de tiras de pano.
- Pipa do Rio, com rabiola de papel de seda (é a cafifa do blog)
- morcego: com 3 varetas, formato parecido com o da pipa do Rio, sem rabo - minha especialidade!
- pião: com 2 varetas, é o que você apresentou como raia. Em Niterói/SG é sem rabo, mas há cidades em que é a pipa predominante, com rabo.
- raia, ou arraia: com duas varetas mas sem armação de linha; tem o formato absolutamente quadrado.

Infelizmente não tenho fotos, mas pode ser que um dia consiga algo para ilustrar melhor o que disse acima.

Manda brasa, a descrição no geral está "porreta"!

Carlos Frederico disse...

Genial sua lembrança da dinâmica dos jogos de bola de gude. Eu nem me lembrava mais do BU !!!
Pião, pouco posso falar sobre. Meus pais o consideravam "perigoso". Mal jogado, podia retornar em nossa cara, com aquele prego pronto a fazer estragos irreparáveis...
E o principal de tudo: sua lembrança de que havia épocas que se repetiam anualmente para esses e outros jogos de infância.
Vai fundo, saudade não tem idade!

Carlos Frederico disse...

Voltando à questão das épocas dentro de cada ano para os jogos infanto juvenis: cafifa era quando ventava e isso acontecia em fevereiro (c/ final de janeiro e início de março) e agosto, estendendo-se por parte de setembro.
No meu caso, havia também os balões, típicos das festas juninas. Fui fanático na época que eu chamo de "romântica", balões pequenos e caseiros, mas depois (recentemente) passou a ser associado a morros e traficantes, e afinal de contas é crime colocar em risco o eco-sistema. Hoje em dia considero essa uma parte a esquecer de meu passado.

Jorge Carrano disse...

Prezado Carlos Frederico,
Antes de mais nada, grato pelas retificações e acréscimos de informações que acabam por tornar mais fidedignas as descrições que fiz.
Quanto à epoca das festas juninas, estarei postando mais adiante texto já escrito, falando de balões, bandeirolas, lanternas, etc, num post que terá o título de "terreno baldio" (que havia diante de minha casa.
Na bola de gude, ainda desafio qualquer um para uma disputa, seja na búrica, seja no beú. Meu teco é bem forte e minha mira precisa, modéstia à parte. Mesmo remontando há 60 anos (estou com 71), ainda sou mais eu. Certas coisas a gente não esquece, inclusive fazer cafifas, não é?
Abraço

Carlos Frederico disse...

Convide Paulo para bolas de gude.
Ele se acha um expert e tinha uma coleção de "olhinhos". Eu era um mero participante e jamais joguei "à vera", sempre "à brinca". Lembra desses termos?
Por isso nunca joguei beú, porque era um jogo essencialmente "à vera".

Jorge Carrano disse...

Lembro destes termos, sim, Carlos.
E lembro também de "bola ou búrica";"bola ou beú"; "feridô sou rei", "marraio".
Também gostava dos "olinhos".
Abraço

Carlos Frederico disse...

Aqui vai uma versão pessoal, sujeita a pedras, ovos e tomates.
"Marraio tudo, firidô sô rei" pra mim era uma simplificação da expressão:

Minha raia é tudo (todo o campo de jogo). Se minha bola for tocada (ferido), serei o primeiro a jogar (rei).

?? <:o) Viajei, não?

Jorge Carrano disse...

Se non è vero, è ben trovato.
Fico com sua versão, Carlos Frederico, pois é bem consistente.
Abraço
Você tinha teco forte? Ou seja, conseguia partir a bolinha do companheiro de jogo, acertando em cheio?
Tive um amiguinho que jogava com uma bilia (ou será bilha), à guisa de bola-de-gude. A gente protestava pois um "teco" forte quebrava a bolinha de vidro.
Valeu, Carlos.
Abraço

Jorge Carrano disse...

Amigos,
Hoje, dia 1º de julho, em visita ao blog "Primeira Fonte", como faço habitualmente, encontrei um texto excelente, refinado na forma e fiel no conteúdo, sobre esta época da qual falamos.
Quem tiver interesse está em http://primeirafonte.blogspot.com/2011/07/brincando-na-rua-na-chuva-na-fazenda.html

Anônimo disse...

Gente, vamos lembrar que em cada regiao as coisas tinham um nome diferente. Eu cresci no Barreto em Niteroi e cafifa era o LOSANGO com a vareta do meio e a de cima encurvada. Pipa or cortadeira era aquela com tres varetas e sem curvar e usava rabiola. Morcego era mais quadradao e nao tinha rabo. Maria larga era um tipo de morcego mais retangular. E por falar nessas coisas estou com uma armacao de cortadeira de um metro quadrado e a de um morcego para encapar para mostrar ao meu filho de 14 anos de idade. So que nos EUA papel de seda como no Brasil nao tem, e o papel fino colorido aqui e muito fraco. Mais vou acabar achando alguma coisa que de pro gasto. Saudacoes e continuem contando os casos ai. Piao de laranjeira que nao partia, bola de gude daquelas grandes pra fazer a limpa, baloes, setra ou estilingue, serol com caco de vidro afinado na linha do trem, cacada de calango de pedra, tudo isso foi muito bom e me deu muita flexibilidade nos estudos profissionalizantes. Ate la. Celso

Jorge Carrano disse...

Obrigado pela visita, Celso. E pelo comentário que, diga-se, enriqueceu o post.
Apareça sempre!
Abraço

Jorge Carrano disse...

Ah! Poderia ter dito que na infância não conheci o bairro tradicional do Barreto.
Mas adolescente frequentei esporadicamente o Humaita, onde eram realizados bailes muito bons.
Saudações cordiais.

Carlos Frederico disse...

Realmente o comentário do Celso procede. Lá para o lado do Barreto em direção a SG sempre predominou a arraia, que parece se chamava losango pela descrição. O morcego era predominante no Fonseca. Pião apareceu mais na região onde morei, Santa Rosa, e não era muito comum na minha tenra infância.
No caso de cafifas com rabo, uma delas a que o Celso chama de cortadeira, havia várias aerodinâmicas diferentes. A de 2 varetas encurvadas necessitava de rabiola de tiras de pano progressivas, senão carecia de estabilidade (rodava). Já o modelo em uso hoje (que o Celso cita, c/ varetas retas ou apenas 1 ligeiramente curva) pode usar rabiola de tiras de papel.
Isso dá um seminário!!!
Abraços
Carlos