31 de outubro de 2011

Religião, quem precisa?

Estou longe das religiões, não da fé. Sou ateu não praticante. Já apregoei isto aqui no blog.

Binômio de atriz e cronista quinzenal, Fernanda Torres, em recente crônica afirmou que o sincretismo religioso, somado a superstição medieval, não lhe dão coragem de mandar um panteão inteiro de divindades plantar coquinhos. E arremata: “Pelo sim, pelo não, cultivo uma discreta credulidade”.

Mesmo quando coroinha, e fui durante dois anos, não levava muito a sério a história de Adão e Eva, e muito menos que Maria fosse virgem.

Se há um Deus – e a grafia com letra maiúscula tem mais a ver com regra de escrita de nomes próprios do que com reverência ao criador – porque o truque de escolher Maria, concebida sem pecado, para gerar seu filho? Para Adão e Eva não usou um ventre. E porque Adão não é chamado de filho de Deus, como Cristo?

E a virgindade de Maria? Segundo li alhures¹, na Sura² 19, cujo título é Maria ( Maryam), está descrito como Jesus veio ao mundo. O anjo Gabriel, travestido de homem, vai até Maria e anuncia que ela daria à luz um filho imaculado. Maria, provavelmente com um misto de ironia e incredulidade, teria rebatido: “Como poderei ter um filho se nunca nenhum homem me tocou e jamais deixei de ser casta?” O anjo então redarguiu que assim seria, porque o Senhor disse: “Isso me é fácil! E faremos disso um milagre para os homens...”

Ora, uma dúvida em assalta. Seria José um dos primeiros Gays da hitória? Ou sofria de misoginia? Não relou um dedo em Maria?

E não me conformo que ele - Deus - onisciente e onipresente, não soubesse que o ser humano não daria certo. Deveria saber. E depois mandar um filho para nos salvar e ao mundo? Corrigir seu engano em relação a criação do homem, entregando este filho a própria sorte, a ponto deste filho ficar decepcionado? Lembram?

"Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?"("Eli, Eli, lama azavtani", em hebreu), ou com a pequena variação em aramaico "Eloi, Eloi lama sabachthani". (http://www.fraternidaderosacruz.org/frcp_pqma.htm)

Para a religião judaica, segundo o Torá,  "Jesus é um obstáculo que faz a maioria do mundo errar para servir a uma divindade além de Deus".Os judeus que acreditam que Jesus é o Messias "cruzaram a linha" para fora da comunidade judaica. Ou ainda, segundo  o movimento judaico progressista moderno: "Para nós, da comunidade judaica alguém que afirma que Jesus é seu salvador já não é um judeu e sim um apóstata".(ver em http://en.wikipedia.org/wiki/Mishneh_Torah)


Bem, acho que vou abrir outra frente de discórdia com amigos e parentes que por ventura visitem este espaço. Já não bastam as posições políticas que assumo e me trazem criticas e reprimendas, ainda venho com criticas a igreja e as religiões em geral?

Assisti, recentemente, um belo filme argentino, chamado “O Filho da Noiva”. Se outras virtudes não tivesse, o filme tem um diálogo entre o personagem “filho da noiva” e um padre, que é um primor de critica contundente a algumas posturas hipócritas da igreja.

Em síntese, o padre se recusa a efetuar um casamento, sob a alegação de que a mulher sofre do mal de Alzheimer e, logo, não tem consciência do ato. O filho reage dizendo que no batismo da mãe, recém-nascida, também destituída de consciência, a igreja não se preocupou com tal fato.

Vou contar dois casos, apenas dois dos muitos que vivenciei, que foram importantes em minha tomada de decisão de abraçar o ateísmo.

Já contei que para me casar, em Cachoeiro de Itapemirim, precisava provar ao padre de lá , que me submeti a uma prova de suficiência religiosa, na paróquia de meu bairro em Niterói. Deveria levar uma declaração do padre, atestando o fato e autorizando o matrimônio.

Não contei a história por inteiro,  porque não era o caso, pois falava das dificuldades de comunicações no passado e o quanto avançamos nos tempos atuais, com telefonia móvel e internet.

Mas agora que o tema é religião, vou contar. Alertado de que precisava da autorização do padre, fui até a igreja da Vila Pereira Carneiro em cuja área de influência eu morava.

Procurei o padre e pedi a autorização. Ele me fez perguntas sobre o catecismo, batismo e primeira comunhão, que respondi. Mas a horas quantas me pediu para provar (juro!) que eu sabia rezar o Pai Nosso e a Ave Maria e a Salve Rainha. Ai fiquei fulo, afinal eu fora coroinha naquela mesma igreja e já havia dito isto a ele. Recusei-me e fazer as orações para ele. Ele não me deu a tal autorização. O resto da história já contei em http://jorgecarrano.blogspot.com/2011/10/geracao-marisco.html

Outra decepção muito grande ocorreu quando fui, pela primeira e última vez, padrinho de batismo. As negociações preliminares, envolviam preço. É, isso mesmo, preço. Não seria um batizado coletivo, mas sim individual. Logo, vestir todos os paramentos e banhar a cabeça da criança, para o padre tinha um custo. Até ai, vá lá, já que não tínhamos um Rio Jordão nas proximidades. Mas o estarrecedor veio quando o padre perguntou se eu queria com sagração ou sem sagração³. Perguntei a diferença e ele: “Sem sagração é tanto e com sagração é xis” (digamos que fosse R$ 100,00 sem sagração e R$ 150,00 com sagração). Horrorizado respondi: Quero com sagração porque se é mais caro deve ser melhor.

No batismo não tinha uma tabela para consulta, pois afinal eram apenas dois preços. Mas no casamento a tabela era imensa e contemplava, mais ou menos, o seguinte: Com música é tanto se for gravação; se for com órgão, ao vivo, custa mais tanto; se forem acesas 20 velas é tanto, com 50 velas mais xis e assim sucessivamente, aumentando a cada 10 velas que se queira; a ornamentação também varia em função da quantidade de flores e do tipo que se queira; com arranjos nas laterais dos bancos ou só nos altares; o tapete estendido no corredor tem um custo adicional; repicar de sinos? Tem que pagar.

Ah! Você quer, além do órgão executado ao vivo, que tenha uma soprano? Vai pagar uma nota preta.

Onde as sandálias da humildade do pescador? Você poderá argumentar que é a vaidade dos nubentes que leva à cerimônias dispendiosas. Eu acho que a igreja não deveria oferecer as opções de pompas e circunstâncias.


¹) Ali Kamel, “Sobre o Islã” (Nova Fronteira, 2007)

²) Sura, é nome dado a cada capítulo do Alcorão. O livro sagrado da religião islâmica possui 114 suras.

³) Por tradição, os padrinhos pagavam as despesas e gratificavam os coroinhas.

4) Torá  é o nome dado aos cinco primeiros livros do Tanakh, e que constituem o texto central do judaismo.

3 comentários:

Gusmão disse...

Gostei da ironia: "não havia um rio Jordão por perto".
Na minha opinião o que falat a igreja é marketing. O produto é bom, mas andaram fazendo umas mexidas equivocadas. A primeira foi acabar com o latim e os padres ficarem de frente e não de costas, como no passado. Conclusão, o povo passou a entender as bobagens ditas. E mudaram a embalagem dos padres ( a batina). Seria a mesmo que substituir a caixinha amarela tradicional da Maizena. Ninguém acharia nas prateleiraas.
Boa semana!
Gusmão

Jorge Carrano disse...

Caro Gusmão,
Já que você entrou no assunto, dá uma olhada em
http://jorgecarrano.blogspot.com/2010/02/deus-uma-grande-invencao.html

Abraço

Freddy disse...

Hmmm. Li o texto de fev/2010 que em si já foi uma reedição de 2004. Realmente você gosta de polêmicas, não? OK, vamos nessa... mas como leitor, porque não pretendo ser perseguido por fanáticos religiosos. Vai que você resolve chutar o Islã?
Abraços
Carlos