22 de fevereiro de 2012

Reminiscências

ATENÇÃO: VEJAM AS NOTAS DE RODAPÉ, ACRESCENTADAS DEPOIS DA PUBLICAÇÃO DO POST.

Este episódio, este pequeno capitulo de minha vida, na passagem da adolescência para a vida adulta, e de outros igualmente adolescentes e idealista, já foi rememorado aqui e ali, sem contudo formar um todo inteligível. Trocamos cartas abertas, eu e Esther, e já comentamos em posts, sucintamente, mas a história, com princípio, meio e fim, está para ser escrita.

Vou  pedir socorro, aqui e ali, porque haverá lapsos e traição de memória. No próximo post, a repercussão do programa na imprensa local e outras matérias da época.

Assim como o Eastwood filmou uma mesma história sob dois pontos de vista (Cartas de Iwo Jima e A Conquista da Honra), o americano e o japonês, vou contar como vi começar, mas acho que a coisa já era embrionária quando entrei no roteiro e terminou quando eu já não estava em cena.
Soldado de Exército

Eu prestava o serviço militar obrigatório, como soldado burocrata, na 2ª Circunscrição de Recrutamento, em Niterói.

Lá conheci o soldado, colega de farda (risos), Alódio Moledo Santos, de passagem transitória pelo Exercito, como a minha seria e foi, e conheci também, entre outros, o cabo engajado Oswaldo Czertok.


Liceu Nilo Peçanha
Um belo dia, o Alódio me pergunta se eu toparia participar da feitura de um programa de rádio. Na época, sem ser um proeminente líder estudantil, eu participara de algumas atividades, seja porque fora presidente do Grêmio do Liceu Nilo Peçanha, seja porque fui diretor da Federação dos Estudantes Secundários de Niterói.

Topei sem saber do que se tratava. Alódio convidou, também, o cabo Oswaldo, que ara o datilógrafo da seção onde estávamos lotados. E precisaríamos de um.

Bem, fiquei sabendo, vagamente, que o programa seria na Rádio Federal de Niterói, emissora recém inaugurada pelo casal Léa e Antenógenes Silva. Abro parêntese para informar que havia um padre envolvido de algum modo, assim como o produto de beleza chamado Leite de Rosas (ainda no mercado?). Fica aqui meu primeiro pedido de ajuda, a quem possa me esclarecer (Esther?).


O horário conseguido, e outra vez tenho falha de memória, afinal são passados 50 anos, acho que pela mãe do Alódio, era aos domingos, no horário do almoço. Quando me refiro à falta de certeza, não é quanto ao dia e horário de veiculação, mas sim se o conhecimento com a administração da rádio era da mãe do Alódio.

O programa seria voltado para os estudantes. E se chamaria, adiante foi decidido, “O Estudante em Foco”. Esta escolha, assim como o prefixo musical (uma faixa do disco Metais em Brasa), foram escolhidos no primeiro encontro do grupo de produção e apresentação.

Como precisaríamos de redatores e eu tinha um amigo, colega liceísta de bom texto, chamado Eugênio Lamy, devidamente autorizado o convidei para  integrar a equipe.

Na aludida primeira reunião, fui apresentado a uma jovem, viva, de raciocínio rápido, bem articulada, chamada Esther Maria Duarte Lucio Bittencourt. Não, naquela época ela era simplesmente Esther Bittencourt.


Vejam nota de rodapé
Embora tivesse me causado boa impressão, afastei de meu pensamento qualquer chispa, centelha, que me induzisse a insinuar uma conquista, um namorico. Afinal, na época, eu era "boa pinta", quem sabe teria chance?


Mas tinha duas razões para não ousar uma aproximação, digamos, romântica: a primeira foi a postura da própria Esther, que jamais me lançou aquele olhar, que era um código conhecido, de que havia um alvará liberatório para um aprouch, uma paquera. A segunda foi respeito ao Alódio.

Isto porque era, para meu olhos, visível que o Alódio sentia alguma coisa pela Esther e me parecia que isto era endossado pela mãe dele. Ela faria gosto, acho.

Devo acrescentar que o Alódio era um menino mimado, e não vejam nisso qualquer desdouro. Ter a mãe protetora ao lado é privilégio de poucos.


Aquele programa radiofônico teve repercussão nacional, quiça também no exterior, por conta de uma proeza da Esther, que conseguiu convencer o famoso astro americano Neil Sedaka, então campeão das paradas de sucesso, a vir até Niterói, sem custo (até porque não tínhamos verba alguma) e se apresentar em nosso programa na modesta Rádio Federal. 


Esther foi procurá-lo no hotel em Copacabana e conseguiu que ele aceitasse vir até aqui a terra de Araribóia.

Rebuliço na cidade, porta do prédio tomada pelos admiradores, trânsito congestionado na Rua da Conceição. Uma loucura.

Gina
Assim como conseguiu, a danadinha*, outras grandes façanhas. Estiveram no programa a Miss Brasil, Gina Macpherson, diretores de colégios importantes na cidade, como o Figueiredo Costa e o Bittencourt Silva, e outros convidados, como por exemplo: o presidente da UFE, Claudio Moacyr de Azevedo, mais tarde eleito deputado estadual e mais adiante prefeito de Macaé; e a bonita Angela Maria Carrapatoso, rainha dos estudantes de Niterói.

Conseguíamos, no comércio local, algumas prendas de pequeno valor, para sorteio entre os ouvintes.

Bem, no que me diz respeito, a aventura levada a sério e com respeito, terminou antes do programa sair do ar.

Deu-se que já não me sentia confortável apenas estudando e meu sustento dependendo do pai. Embora o discurso dele fosse de que o estudo era a herança que me deixaria, dada a inexistência de bens materiais, o fato é eu precisava dar um rumo a minha vida, eis que as atividades estudantis paralelas (grêmio e federação), programa de rádio, e, ainda, bailes e peladas (futebol de salão) acabaram por me tirar um pouco do foco principal que era me formar. Ganhei experiência de vida, amadurecimento, mas perdi tempo na caminhada em busca de um diploma.

Assim, para mim, terminou o programa, abruptamente, sem despedidas formais dos amigos, companheiros de façanhas, alguns dos quais só voltei a encontrar passados anos**: Oswaldo, como dentista, com consultório no Fonseca; Esther, festejada poeta e jornalista com sólida carreira na imprensa do Rio de Janeiro, via internet, há pouco mais de um ano; Lamy, médico psiquiatra, recentemente, na praia, caminhando como eu. Finalmente Alódio, de cujo paradeiro não tenho notícias. Mas que era o dono da bola, pois como mencionei acima, se me não falha a desgastada memória, era a mãe dele tinha ligação com os donos da rádio.

Sei, apenas, que não se casou com a Esther, se é que tinha esta intenção, pois posso ter me equivocado no julgamento de que ele nutria um certo “quê”, pela lourinha culta e engraçadinha (não a do Nelson Rodrigues, mas a nossa musa).

Em minha memória auditiva, tenho ainda registrada a apresentação feita pelo locutor oficial da rádio, antes de nosso programa. Acho que se chamava Gercy Sueth (é esse o nome ?): “Das margens da Guanabara, para os céus do Brasil, fala a ZYP40, Rádio Federal de Niterói”.

O que ara uma balela, pois a emissora, de ondas dirigidas, não alcançava além de Itaboraí, onde  eram refletidas de volta.

A música de maior sucesso do Neil Sedaka, era “Carol”, cuja letra vai a seguir:

Oh! Carol

Neil Sedaka

Oh Carol!
Oh! Carol, I am not a fool,
Darling I love you tho' you treat me cruel,
You heart me and you made me cry
But if you leave me I will surely die
[instrumental]
Oh! Carol, I am not a fool,
Darling I love you tho' you treat me cruel,
You heart me and you made me cry
But if you leave me I will surely die
Darling there will never be another
Cause I love you so, don't ever leave me,
Say you'll never go
I will always want you for my sweetheart
No matter what you do
Oh! Carol, I'm so in love with you
[brake]
Darling there will never be another
Cause I love you so, don't ever leave me,
say you'll never go
I will always want you for my sweetheart
No matter what you do
Oh! Carol, I'm so in love with you

* Aurélio: 16.Bras. Indivíduo hábil, vivo, esperto, inteligente, capaz de coisas extraordinárias.
** Nos casos de Lamy e Esther, mais de 50 anos.

Legenda da foto: notem que eu fumava, tinha cabelo, não tinha bigode, usava cinto e relógio. Hoje, a maior parte dos cabelos caiu, uso suspensório, não fumo há anos e deixei de usar relógio também faz tempo.

Imagens Google (as demais)

NOTAS:
Primeira: A Esther localizou Alódio Moledo Santos, no Facebook. Ele já esclareceu para ela e eu acrescento aqui: 1) com efeito havia o padre Laurindo, que seria sócio na emissora; 2) como a Esther já havia corrigido, o produto de beleza era o Creme Marsília; os locutores da rádio, eram Gersy Suett e  Ivan Borghi;  o Alódio é Defensor Público.

Segunda: Leiam, no post que se segue, em comentários, a narrativa feita pela Esther de como foi a deliciosa aventura de trazer o Neil Sedaka para Niterói (travessia da Guanabara, almoço, camisa rasgada, etc)

8 comentários:

Gusmão disse...

Esse Claudio Moacyr de Azevedo é o que dá nome ao "Moacyrzão", estádio onde estão sendo disputados alguns jogos do campeonato Carioca?
Bem-vindo de volta!
Abraço

Jorge Carrano disse...

É o próprio, Gusmão.
Além do estádio de futebol, em Macaé, ele tem seu nome num trecho de rodovia na Ragião dos Lagos e numa escola pública em Araruama.
Aquela região do Estado era, digamos, seu reduto eleitoral (Iguaba, São Pedro D'aldeia, Araruama, etc.)
Foi um dos últimos bons oradores parlamentares, inflamado e gestual, escola do Lacerda, embora não alinhado com este.
Abraço
PS: obrigado pela fidelidade ao blog.

esther disse...

Carrano, você sabe como entrei no grupo? Não servi exército, não estudava no Liceu, era professora primária, com apenas 15 ou 14 anos de idade, no Leopoldo Fróes, no Largo da Batalha. Não lembro como tudo aconteceu.
bjs

Jorge Carrano disse...

Querida Esther,
No primeiro dia de encontro do grupo, numa grande e confortável casa, você simplesmente estava lá.
Eu, o Lamy e o Oswaldo não a conhecíamos.
Sabe, eu contava que você pudesse preencher algumas lacunas desta narrativa.
O que deduzo é que você e o Alódio já se conheciam do colégio (ele também não estudou no Liceu), ou as famílias se conheciam. Never mind.
Amanhã publico uns poucos recortes que sobraram em meus alfarrabios.
Beijo

esther disse...

uai, carrano, já havia postado isto, anterior ao outro post, mas parece que se perdeu nas calendas. mas, lá vai:

Muito bom, Carrano. Sabe que já havia esquecido tanta coisa! A Léa Silva, mulher do Antenógenos foi a primeira locutora feminina do rádio. -Nacional, CBS-NBC EUA- Era violinista e química e criou a fábrica dos cremes marsília, que são fabricados até hoje. Não foi deles o leite de rosas , pelo que sei.
Antenógenes escreveu saudades de matão e ganhou o concurso das gaitas honner, na alemanhã e , até hoje é considerado o maior acordeonista do Brasil. http://www.youtube.com/watch?v=9kCCFCpxpeA Este link é de saudades de ouro preto que também é dele e ele toca.
Depois que você saiu radioteatralizamos o pequeno príncipe de saint exupery e, quando o programa terminou continuei trabalhando na rádio sob a tutela da lea e do antenógenes, além do marques meu patrão da silva, com quem aprendi o rádio. grande escola!
fascinante as tuas lembranças. Posso publicar no PF?

Jorge Carrano disse...

É verdade Esther, você já havia contado alhures este desfecho, inclusive sua permanência na emissora, depois do fim do programa estudantil. A minha intenção era e é consolidar num mesmo lugar as informações esparsas que já trocamos.
Quanto ao produto de beleza, com efeito me enganei. O da Lea Silva era mesmo o Creme Marsília que, se não me engano de novo, era vendido em duas versões: líquida e em creme (numa bisnaga).
Informo aos meus seguidores que ainda não sabem, e também aos visitantes ocasionais, que o PF referido pela Esther é o Jornal Primeira Fonte, cujo blog é encontrável em http://www.primeirafonte.blogspot.com/

Sim Esther, a história também é sua. Portanto utilize-a como e onde quiser.
Obrigado pelas informações complementares.
Beijo

Anônimo disse...

Legal o reencontro, ainda que virtual, no mundo cibernético.
:D Fernandez

Paulo disse...

Muito legal a narrativa e os adendos de vcs .... queria poder reencontrar minha tchurma assim, para relembrar passagens sensacionais que nos marcaram. Tenho muitas boas lembranças da minha juventude.
Abrs