15 de fevereiro de 2016

OBSERVÂNCIAS

Por
RIVA



Sempre faço meu pequeno e mesmo trajeto de casa até o ponto do ônibus, na Praia de Icaraí, todas as manhãs. E na rua Moreira César, sempre vejo um cara varrendo a calçada do seu prédio, todos os dias.


E aí tive um insight .... repentino .... como eu gostava, numa certa idade, de varrer a calçada da minha casa. E até varrer nossos quintais ... sem minha avó me pedir, pegava a vassoura de piaçava e saía varrendo as áreas, mas com uma metodologia, um processo perfeito de varrição, de forma a terminar o processo com perfeição. E como gostava de terminar e ver o serviço bem feito !

Isso me arremete aos dias de hoje, um Riva movido a processos ... com certeza meu DNA. Mas não é isso que quero passar a vocês. O que desejo passar é na verdade ter observado um processo ou atitude da minha infância, de outra geração, nos dias de hoje, numa Niterói de 2016. Captaram ? Ver um cara fazendo o que eu fazia há 50 anos, da mesma maneira.

Tenho ido ao Rio diariamente pelas Barcas, e como já devo ter contado a vocês, fico esperando o  catamarã chinês com ar condicionado. Não entro de jeito nenhum nos catamarãs “sociais”, lamentáveis, mal cheirosos, com baratas, sem ventilação, sem nada!!

Catamarã social

Catamarã novo - chinês
E nessa espera por um catamarã novo, sentei hoje num banco com um cara que também estava aguardando um transporte mais digno, e conversamos sobre outros tempos – ele também devia ter a minha idade, uns 60 anos. Saudade das barcas antigas, arejadas, confortáveis.

Barcas antigas  -  arejadas e confortáveis
Para resumir a nossa conversa .... nossos pais fizeram uma reengenharia, em 22 de maio de 1959 ... começar do ZERO todo esse merdalhal, desrespeito ao usuário Niterói-Rio. Infelizmente, foi a solução que na época encontraram para um recomeço. Mas recomeçaram, com muita coragem e determinação.

22 de maio de 1959 -  "Revolta das Barcas"
Hoje, não .... a galera aguenta passivamente esse tsunami de desrespeito ao usuário .... reclamam, reclamam, e nada ! ...... apesar de toda a violência que vemos diariamente na mídia, contra inocentes, contra a população, o serviço de transporte urbano é apenas mais um cenário no nosso dia a dia, assistido passivamente. O que importa, parece, é quanto foi o jogo Daquele Time do Mal, qual a escola de samba que foi campeã ...

Somos todos como os siris na lata, com água fervendo, morrendo devagarzinho, sem reclamar.

Uma geração de merda, é o que temos para os brasis à frente !


Notas do editor: Para quem não sabe ou não lembra, o episódio ocorrido em 22 de maio de 1959:

13 comentários:

Jorge Carrano disse...

Em 1959 ocorre, durante o governo de Juscelino Kubitschek, a maior revolta por parte dos usuários do transporte aquaviário contra as Companhias, o episódio ficaria conhecido como a “Revolta das barcas”. O contexto era de filas de passageiros cada vez maiores, atrasos constantes dos horários das barcas e insatisfação por parte dos funcionários. No dia 18 de fevereiro de 1959, o Grupo Carreteiro (dono da Companhia de navegação Frota Barreto) ameaça paralisar as barcas caso não haja o aumento da tarifa ou um maior subsídio do governo. Sem sucesso, em seis de março do mesmo ano, o Grupo retira algumas barcas de circulação com o objetivo de pressionar o governo a aumentar o subsídio ou permitir o aumento das tarifas. Em seqüência, cinco sindicatos de trabalhadores do transporte aquaviário (marítimos) ameaçam entrar em greve (marinheiros, foguistas mestres arrais, motoristas e eletricistas) e o Grupo Carreteiro não paga os salários de março alegando falta de verba. Em conseqüência disso, no dia 22 de maio de 1959, o tráfego na baía é paralisado devido à greve dos marítimos, uma vez que o Grupo Carreteiro se recusou a pagar o aumento salarial decretado pelo governo. Com a greve, as estações das barcas amanhecem ocupadas por policiais e Fuzileiros Navais. Toda esta proteção, no entanto foi insuficiente, pois a população, uma multidão de mais de três mil pessoas, transpõem a linha de fogo dos Fuzileiros Navais, que atiravam de suas metralhadoras contra a multidão, e invadem as estações das barcas de Niterói ateando fogo, apedrejando e destruindo toda a sua estrutura, além da casa e a fazenda da família Carreteiro. O Presidente da República, Juscelino Kubitschek desapropriou os bens da Frota Barreto, transferindo-a para o controle da União. A partir de então, o transporte enfrentou uma profunda decadência ponto de vista da infraestrutura, pois passou a ser feito pelas Companhias menores que seguiram operando o trajeto Rio - Niterói e embarcações emprestadas pela Marinha, além de pequenas embarcações alternativas.

http://www.cchla.ufrn.br/cnpp/pgs/anais/Artigos%20REVISADOS/A%20hist%C3%B3ria%20do%20transporte%20aquavi%C3%A1rio%20na%20ba%C3%ADa%20de%20Guanabara%20Uma%20an%C3%A1lise%20da%20rela%C3%A7%C3%A3o%20entre%20Capital%20privado%20e%20Poder%20p%C3%BAblico%20no%20planejamento%20de%20transportes%20do%20Rio%20de%20Janeiro.pdf

Carlos Frederico disse...

Não usava barcas naquela época, mas jamais esquecerei o dia 22/05/59. O niteroiense tem dentro de si o orgulho de não ter ficado como vaca de presépio frente aos desmandos da família que tomava conta do transporte marítimo.

Durante a década de 60, as poucas vezes em que fui sozinho de barca para o Rio foi para fazer comprinhas no centro da cidade. Eu era aficionado por eletrônica e dava umas voltas na rua República do Líbano, reduto de venda desse tipo de material, bem mais farto e barato que na Rua Coronel Gomes Machado, no centro de Niterói. Outras vezes era para compras de discos na R. Rodrigo Silva ou uma ou outra ida à Palomar, extinta e famosa loja de discos destruída durante a construção do Largo da Carioca.

Por isso me lembro pouco da "precariedade" do transporte. Sim, lembro-me do aviso da Marinha, o Biguá, que ajudava no transporte por escassez de barcas. Este era feito pela Maracanan, Lagoa, Neves (de um tipo - 500 pax) e Leblon e Gávea (de outro, para cerca de 350 pax).

Quando passei na faculdade e tive, a partir de 1969, de usar diariamente o trajeto marítimo, não demorou e entraram em funcionamento as grande barcas, para 2.000 pax (sendo 900 sentados). A primeira foi a Vital Brazil e seguiram quase 10 delas. Eram grandes, arejadas, rápidas (15 minutos) e limpas.

É curioso que havia uma divisão social interna. Eu frequentava o andar de cima na frente, que era o de estudantes e executivos. O andar de baixo era um caos - os apressados, e o andar de cima, atrás, era frequentado por uma classe mais baixa, com uns modos menos corteses, e não era tão limpo...

Quando recentemente tive de voltar a usar o transporte marítimo, cheguei a usar o catamarã social ainda com ar condicionado. Pareceu-me confortável, apesar da vista horrorosa para os arredores por ter as janelas altas demais em relação aos bancos. No mais das vezes procurei usar os aerobarcos e catamarãs da Transtur ou os de Charitas.


Ana Maria disse...

Apesar da legitimidade das reclamações de usuário e passageiros, o ônus da ação continuou sendo do povo. Com a desapropiação, adivinha quem pagou os consertos?
Se o governo tivesse tomado providências antes, o resultado seria melhor.

Anônimo nº 36 disse...

A frase "nossos pais fizeram a reengenharia" foi metafórica ou seu pai era marítimo?

Riva disse...

Façam as contas .... 1959 !! 57 anos ........

Em 2016 ainda não aprendemos a fazer o transporte marítimo entre Rio e Niterói com um preço justo e conforto para os usuários.

Alguém, em sã consciência, acredita nessa M........ de país ?

Muito siri nessa lata !

Carlos Frederico disse...

Eu não acredito em brasileiros. Tá certo, digamos que exista aí uns 1.000 ou 2.000 que se salvem. Mas são mais de 200 milhões de imbecis culturais, dos quais uns 150 milhões sejam de classe muito baixa pra decidir algo para si mesmo ou para o país. E são manipuláveis e essa m... é uma democracia.
Não, a equação não fecha, por isso sempre deu errado.

Jorge Carrano disse...

Anônimo 36:
Explique-se melhor. Ninguém entendeu. Era isso mesmo que você queria dizer?

Riva disse...

Quem tem o privilégio de viajar para o exterior com certeza já viu em muitas cidades e localidades um transporte marítimo de alta qualidade, e com preço justo - se não fosse, haveria protesto, etc.

Eu conheço alguns nos EUA, e todos eles - para pessoas ou automóveis - são excelentes. Bonitos, confortáveis, bem explorados. Mas aqui temos a mania xenófoba de não pedir ajuda a quem sabe fazer ou já fez com sucesso.

E o resultado dessa mentalidade é essa aberração do catamarã social: janelas que não permitem apreciar a beleza da travessia, sem ar condicionado, sem ventilação forçada, usuário tratado como gado no embarque e no desembarque, e pior ... imundos e fedorentos.

Um outro ponto preocupante é o dimensionamento dos cais de atracação no Rio e em Niterói. Hoje os catamarãs ficam boiando parados, esperando um outro desatracar, ou seja, colapso do sistema.

Hmmm ... lembrei-me de 31 de dezembro de 1988. Que infelizmente a grande maioria esqueceu. Muitos não esqueceram, nem poderão jamais esquecer.

Carlos Frederico disse...

Sim, a tragédia do Bateau Mouche. Li que os responsáveis foram condenados a 4 anos em regime semi-aberto mas no ano seguinte fugiram para a Espanha.

Já me expus a uma viagem em superlotação numa barca na travessia Rio-Niterói numa noite de sufoco por conta de chuva intensa. O povo entrou pela porta de saída e o controle de lotação se perdeu. Quando a próxima barca atracou foi literalmente invadida. Não havia como controlar a quantidade de passageiros, de modo que o piloto tomou uma atitude drástica: desatracou na marra e f...-se se alguém caiu na água!
Eu já estava dentro com meu chefe e, tendo colocado um colete salva-vidas, consegui um canto do lado de fora, na traseira superior. Ninguém me convenceria naquele dia a ficar do lado de dentro, uma verdadeira ratoeira!
Por sorte nada de grave aconteceu, mas foi uma noite inesquecível.

Jorge Carrano disse...

O PSG, com seis brasileiros em campo, está enfrentando o Chelsea pela Champions.

Riva disse...

Freddy, eu teria feito o mesmo. Do lado de fora, na parte traseira, e com o colete.
Só não pode pular perto dos hélices !! (é no masculino mesmo ... não me conformo com isso, rsrsrs )

Carlos Frederico disse...

Oh, céus, de novo...

Riva disse...

COMO NOSSOS PAIS METAFÓRICOS E/OU MARÍTIMOS

Não quero lhe falar meu grande amor
De coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto é menor do que a vida
De qualquer pessoa

Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens...

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina, na rua
É que se fez o seu braço,
O seu lábio e a sua voz...

Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento cheiro de nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva do meu coração...

Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória esta lembrança
É o quadro que dói mais...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...

Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então que eu tô inventando...

Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem...

Hoje eu sei que quem me deu a ideia
De uma nova consciência e juventude
Tá em casa, guardado por Deus
Contando vil metal...

Minha dor é perceber que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo, tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...

FLU i