24 de janeiro de 2016

La Tempête





Por
Carlos Frederico March
(Freddy)








La Tempête, A Tempestade - P.A. Cot 1880

Pronto, sem mais delongas apresento meu quadro preferido: La Tempête, The Storm, A Tempestade. Seu autor é o francês Pierre Auguste Cot (17.02.1837 - 02.08.1883), nascido em Bédanieux, Hérault (parte da região francesa Languedoc -Rousillon). Cot fez estrondoso sucesso, ganhando vários prêmios e medalhas, e em 1874 foi sagrado Cavaleiro da Legião de Honra da França.

Preciso deixar claro que não entendo quase nada de pintura. Quando estive na Europa, nos idos de 1977, tinha completa noção dessa realidade e reconheço ter deixado de curtir um bom número de atrações. Contudo mesmo um leigo fica extasiado com certos quadros. Comigo aconteceu em Amsterdam, quando dei de cara com "A Ronda Noturna" de Rembrandt no Rijksmuseum. Parei e pensei comigo: "- É, preciso estudar mais um pouco..."

A Ronda Noturna, de Rembrandt - 1642

Comprei e li uma coleção da Universidade de Cambridge chamada História da Arte e o volume mais útil de todos veio a ser "A arte de ver a arte". É o que eu precisava. Abordava pintura, escultura, arquitetura e explicava o simbolismo usado nas imagens e as influências da época nas obras.

Acompanhei o desenvolvimento do uso de perspectiva nas pinturas, que foi um dos aspectos que mais me impressionou, trazendo dimensão e profundidade aos trabalhos. Foi-me apresentado o mesmo tema (em geral religioso), pinturas absolutamente similares, mas evoluindo com os anos e chegando ao ápice na Renascença, depois se deteriorando com as pinceladas emocionais dos movimentos posteriores, como impressionismo, modernismo, e outros mais que não me atrevo a mencionar (medo de dizer asneira).

Mesmo assim, minha veia cartesiana venceu e, em termos de pintura e música, fixei-me no período barroco e clássico, em que as pinturas procuravam imitar a realidade com a máxima precisão e as músicas eram belíssimas.

Foi em 1999, quando em visita ao Metropolitan Museum of Art de New York, que dei de cara com as pinturas de Pierre Auguste Cot, as duas mais famosas: Le Printemps (A Primavera, The Spring - 1873) e La Tempête (A Tempestade, The Storm - 1880). Na verdade, a única exposta era A Tempestade e estava tão eufórico que quase fui agredido pelo segurança, um caribenho mal encarado. Aproximando-me demasiado da pintura (que é grande: 2,34m x 1,57m) para que me tirassem uma foto, esqueci-me da bendita mochila que carregava às costas e ela quase encostou no quadro!

P. A. Cot havia alcançado grande destaque quando foi exposto seu quadro A Primavera no Salão de Paris em1873, na época uma das mais conceituadas mostras de arte do mundo. Não vou dizer que desgosto dessa obra, e reconheço um fundo de verdade quando as pessoas a consideram o melhor quadro de Cot.


Le Printemps
A Primavera - P.A. Cot 1873

Contudo, no gostar ou não de uma pintura ou escultura ou de uma criação arquitetônica, uma obra de arte em geral, vale mais a emoção que a razão. O que eu senti vendo A Tempestade não consigo explicar. Mexeu mais comigo que A Primavera. Fim.

Estudiosos afirmam que A Primavera (terminada em 1870 mas apresentada em 1873) teria sido a inspiração de Cot para pintar A Tempestade, que ficou pronta em 1880. Como já disse, não entendo quase nada de pintura, mas fiquei quase alucinado com a perfeição de detalhes nas feições e trajes do par romântico que protagoniza o quadro. Há quem relate influência da novela Paul et Virginie (Bernardin de Saint-Pierre, 1788), outros vão mais longe e citam o romance Daphnis and Chloe, do escritor helênico Longos (aprox. século III).

Detalhe de La Tempête, A Tempestade

No Metropolitan tem uma imperdível lojinha de gifts e comprinhas, e lá estavam disponíveis vários itens referenciando ambas as pinturas de Cot. Tinha guardanapos de papel, descansos de copo, baralhos, mini posters, posters de tamanho convencional...

Comprei posters grandes e miniposters, que emoldurei. Na sala de minha cobertura estavam os 2 grandes, na minha casa de Friburgo os 2 pequenos. Com o passar dos anos, o da Primavera perdeu cores e tive de descartar, mas A Tempestade ainda retém as cores originais quase que intactas. Quando mudei de apartamento, consegui um lugar para expô-lo. 

La Tempête, na minha sala

Os dois miniposters emoldurados estão cuidadosamente armazenados, esperando aparecer um lugar para novamente verem a luz do dia. Comprei também um par de baralhos, um deles com A Tempestade, outro com A Primavera. Nunca foram usados, estão bem guardados como lembranças raras daquela viagem a New York.

Baralho com obras de P.A. Cot
 UM ADENDO

Tem gente que já me criticou por emoldurar um poster como se fora um quadro. Assim como eu fiz com todos do P.A. Cot que comprei, grandes e pequenos. Considera-se cafona. Pode ser, mas eu gosto tanto dele que banco a cafonice.

Durante minha vida de casado, sempre enchi as paredes com fotos ampliadas (em geral formato 28x35), sejam tiradas por mim ou compradas em sites de astronomia. Algumas eu simplesmente colava sobre madeira e eucatex, sem moldura, outras eu chegava ao extremo de colocar moldura e proteção de vidro. A decoração de meu quarto de dormir era (no passado) recheada de posters de Mary e das meninas. 

Possuo também quadros "reais". Tenho 3 do Paulo de Almeida (que expunha no Campo de S. Bento), um do Célio Tomás (do Recife, tema: instrumentos musicais), um casario do Ivan (Praça da República, S. Paulo), além de entalhes diversos em madeira.

Tenho até uma tela desenhada por mim (lápis e esfuminho) quando estudava desenho em 1991 com a Sandra Hoskens, que não é um original e sim uma ampliação de um desenho que me foi mostrado numa revista. Só que ficou tão bonita que emoldurei - está exposta no corredor do apartamento.

Portanto, não tenho vergonha do poster emoldurado de "La Tempête" ocupando lugar de destaque em minha sala.


Créditos das imagens:
Imagens dos quadros de P.A. Cot obtidas na Wikipedia, a enciclopédia livre.
Imagem no Rijksmuseum obtida no Google.

As 2 últimas, pertencem ao acervo do autor.

10 comentários:

Riva disse...

Infelizmente, me incluam fora dessa. Não entendo nada, não curto muito, embora admire algumas pinturas naturalistas. Nada mais que isso.

Há alguns anos fiquei muito impressionado com uma estranha pintura da filha de um amigo, Antonio Moutinho. Arrematei, e a tenho no "Quarto de Som" até hoje. Impulso.

Em A TEMPESTADE, não há chuva. Provavelmente se aproximando, pelo olhar da menina. Mas ele está olhando o que ? A nuca da menina ?

PS : Incógnita, finalmente o último fim de semana sem futebol por aqui !!!

Jorge Carrano disse...

Passei a apreciar mais esta arte quando aprendi um pouco, muito pouco, sobre escolas, estilos, técnicas, tudo por razões circunstanciais.
Tenho minhas preferências, com fulcro na emoção que a tela me proporciona, e não no muito pouco que aprendi lendo bastante e admirando os mestres pelo mundo afora: Vaticano, Paris, Roma, Madrid, Barcelona, Berlim, Londres, Viena ...
Quem sabe escrevo um post falando do que mais me impressionou, sobretudo, sem trocadilho, entre os impressionistas.

Ana Maria disse...

Com certeza os retratados no quadro não moram nas cidades serranas fluminenses. Com aquele fundo escuro - prenúncio de temporal - a sirene teria tocado, a vizinhança se deslocaria para os pontos de apoio e a expressão facial seria de medo.
Belo quadro, e não importa de é gravura ou reprodução.

Carlos Frederico disse...

Eu escrevi num parágrafo: “Há quem relate influência da novela Paul et Virginie (Bernardin de Saint-Pierre, 1788), outros vão mais longe e citam o romance Daphne and Chloe, do escritor helênico Longos (aprox. século III).”

Posso continuar a dar a informação que obtive na Wikipedia. Evidências da primeira interpretação vêm do motivo específico da pintura: um casal correndo da chuva cobertos por um agasalho, que corresponde a uma cena frequentemente ilustrada de “Paul et Virginie”.
Ei-la:

“ Um dia, quando descendo do alto da montanha, eu vi Virginie correndo no final do jardim em direção à casa, sua cabeça coberta por seu casaco, que ela havia levantado atrás de si de modo a ficar abrigada de uma chuvarada. À distância pensei que ela estivesse só. Contudo, aproximando-me para ajudá-la em sua caminhada, percebi que ela segurava pelo braço Paul, que estava inteiramente coberto pelo agasalho. Ambos riam juntos abrigados sob o guarda-chuva improvisado que haviam inventado.”

Quanto à posição dos olhos de ambos, um instantâneo de uma corrida quando olhando para trás de vez em quando seria a descrição exata do momento retratado. Não vejo nada demais. Se uma crítica houvesse, e não pretendo mais que apenas comentar um detalhe de uma obra que considero quase perfeita, no próximo passo a moça corria o risco de tropeçar na perna esquerda do parceiro, pois ambos os pés são posicionados muito juntos no solo.

Carlos Frederico disse...

Talvez por minha característica plural, tenho me esforçado para produzir textos sobre assuntos variados, para manter a genética do blog. Os mais recentes:
24.01.2016 - La Tempête
20.01.2016 - Nostalgia
16.01.2016 - Será que dá para fugir para as montanhas?
12.01.2016 - Disparidade de preços
08.01.2016 - Papo de astronomia - 2015, o ano de Plutão
30.12.2015 - Smartphone ou câmera?
26.12.2015 - Sapo em água morna

Reconheço que escrever sobre pintura é forçar uma barra, porque é uma área das artes bastante ampla e, porque não dizer, polêmica. Desde o advento da fotografia a referida arte passou por crises e soluções, sempre se afastando da realidade fiel - já perfeitamente retratada pela fotografia.

Como disse Carrano, o que importa é a emoção que o quadro provoca em nós e não especificamente os detalhes técnicos da mesma. Claro que situá-la na História ajuda a entender certas nuances, como a evolução ocorrida na Renascença (esmero técnico) ou o movimento contemporâneo (focado em emoção e não realidade).

Eu, apesar de eminentemente cartesiano, cheguei a admirar um quadro de pintura abstrata que vi numa feira em São Paulo e que custava uma baba. Curioso é que havia 2 praticamente iguais, diversos tons de azul pintados a esmo sem nenhum significado real. Um deles me atraía sobremaneira, o outro nada me dizia!

Bom, sei que Carrano não pode obrigar nenhum de seus parceiros de Pub Berê a escrever, mas seria interessante que o blog se mantivesse aderente à genética inicial, mesclando desde política e futebol (inevitáveis) a artes, comportamento social, gerência, viagens, etc.

A "ameaça" feita por ele em comentário acima - escrever sobre sua experiência com pintura - é aguardada com interesse.
<:o)

Jorge Carrano disse...

Freddy,
Na linha "generalidades", amanhã o Riva estará falando do cotidiano dele, em nova versão, revista e atualizada.

Riva disse...

Nova versão ..... já tinha escrito sobre isso? rsrsrs Não lembro !!

PS: Aquele Time do Mal conquistou o 1º título de 2016-merecidamente.

Jorge Carrano disse...

Novo empregador. Novo local de trabalho. Você comentou bastante sobre um emprego em local distante, que consumia muito tempo de viagem, se estressava no trânsito, e sobre a criminalidade e pouca segurança da região.
Ou estou enganado?

Jorge Carrano disse...

Sobre a conquista do bonde sem freio, imagina o fedor no Pacaembu. De um lado gambás e de outro urubus. A carniça ficou com as aves.

Riva disse...

Ah, ok, isso mesmo rss