3 de dezembro de 2017

Vagar, devagar e divagar

Tenho enorme curiosidade, mas nenhum desejo de conhecer o universo. O Cosmos, para mim, deve se assemelhar a um enorme deserto.

Se no deserto é possível caminhar horas e quilômetro com uma mesma paisagem, imagino que no espaço sideral deva ocorrer o mesmo.

Tirante, talvez, o momento de aproximação com um planeta, ou outra Galáxia, deve ser tudo monotonamente parecido. Ou não?

Quem, por estudo ou experiência astronáutica souber, que me corrija se estou enganado.

Chegar próximo a Saturno e divisar seus coloridos anéis deve ser uma experiência e tanto. Mas e a jornada até lá? Teria alguma graça?


Noutro dia em conversa telefônica com o Sergio, ex-colega de lides estudantis, na extinta FESN, ele me falava de seu desapontamento com viagem marítima que acabara de fazer. Para ele cruzeiro, nada obstante o conforto do transatlântico, não tem a menor graça quando em alto mar.

A mesma paisagem, composta de céu e mar. Como arrematou ... um tédio.

Já outro amigo, da mesma época, mas de convivência no Liceu, o Carlinhos, acha os cruzeiros marítimos interessantíssimos. Inclusive me estimulou a programar e fazer um passeio porque é muito prazeroso, sob todos os aspectos.

Bem, vagar pelo nosso planeta é uma experiência única, rica, comovente, enriquecedora. A diversidade de hábitos e costumes, os idiomas, as religiões, a gastronomia, as histórias de conquistas, tudo é muito interessante e curioso.

Recapitulando, mentalmente, as viagens que empreendi, constato não haver arrependimento a lamentar. Talvez que a um ou outro país não retorne jamais. Mas ter conhecido valeu a pena.

Em contrapartida são inúmeros os países e/ou cidades que tenho enorme vontade de voltar a visitar.

E aí entra a segunda palavra do titulo: devagar.

Lógico, não havendo alternativa, vá e volte num pé, mas se puder viage com calma, devagar, aproveitando cada minuto de cidades como Viena, Paris, Londres, Roma... e tantas outras.

Resta-me divagar sobre o tema viagens, eis que empreender novas está se tornando cada vez mais improvável.

As razões são muitas, e os custos só têm peso porque a classe econômica está cada dia pior. E este era (é) meu padrão de viagens. 

Os transtornos nos aeroportos – atrasos, alterações de portões de embarque, rotinas da imigração, sciopero na Itália, esquemas de segurança constrangedores – são parte de um enorme leque de desconfortos, desencantos e aborrecimentos.

Em minhas divagações tento estabelecer um roteiro para uma viagem marítima que, salvo melhor juízo, elimina alguns dos inconvenientes elencados.

Não se trata apenas de escolha do roteiro, mas também e principalmente de seleção dos portos de atracação para passeios pela cidade.

Vagar pela cidade aportada, devagar, tirando proveito de cada instante, e assim poder no retorno divagar sobre a viagem, os lugares, o inusitado, o apaixonante.

As belas catedrais e mesquitas, as pontes sobre rios históricos, os castelos medievais, os teatros com concertos inesquecíveis.

Duomo Milão

La Sagrada Familia - Barcelona

Catedral de Santiago de Compostela
Como esquecer a missa do peregrino na catedral de Santiago de Compostela, quando rezada com todas as pompas: o incensário, coral e sinos. Como olvidar uma apresentação de parte da sinfônica, em Viena, no palácio de Schönbrunn; o curioso relógio astronômico de Praga.

Relógio astronôimico em Praga

Ou ainda o acervo do Musée D’Orsay, em Paris; o David, de Michelangelo, em Florença; o bacalhau degustado no D. Tonho, restaurante na cidade do Porto, à margem do Douro; e locais, obras, casas de pasto, teatros e pubs pelo mundo afora.

Dom Tonho, no cidade do Porto
Ficaram em minha retina as belas paisagens naturais dos Lagos Andinos; a imensidão do Rio da Prata, separando, como se fora um oceano, as capitais do Uruguai e da Argentina.

Os vinhos e queijos degustados, com  baguette e salame, em descompromissado bistrô parisiense;  o sorvete na gelateria La Carraia, em Firenze; um pedaço de torta da Gerbeaud, em Budapeste ...
Gelateria em Firenze
E o que conheço é apenas o correspondente a um pontinho de tinta, deixado por ponta de alfinete, ou menos, na rica imensidão do planeta.

Folheando devagar velhos álbuns, da época em que ainda tirávamos fotos, ponho-me a divagar, pensando em quem sabe voltar a vagar pelo mundo. Com lenço e com documento, itinerário fechado e dinheiro contado.

4 comentários:

Carlos A. Lopes Filho disse...

Talvez seja, por isso, Carrano, que o ser humano seja um personagem tão interessante: porque ninguém é exatamente igual ao outro. Podem até ser semelhantes, mas cópia do outro é impossível. Por isso, até surgiu o DNA para eliminar algumas dúvidas antigas. E nas preferências pelas coisas talvez esteja a maior diferença: uns preferem assim, outros assado. Alguns são Lula doentes, outros são Bolsonaro. Em matéria de viagens, respeito muito a opinião de seu colega, que acho que conheci apenas superficialmente, na primeira viagem que fiz com Irapuam e Dario Seixas em 1958 a Cachoeiro do Itapemirim e lá fomos convidados para levar o Liceu até aquela cidade para os jogos Inter-liceístas. A viagem de navio para mim é mais prazerosa, já que nela não tenho preocupações com a bagagem, com subir e descer de trens, com deslocamentos para e dos hotéis para a estação ferroviária. E, bem diferente de seu amigo, o trecho que mais me atrai é a travessia do Atlântico, que normalmente dura quatro ou cinco dias. Nesse período, não tenho hora certa para acordar, aproveito para ler um bom livro, às vezes pouco saio da cabine, ficando na varanda sem maiores preocupações. Também é muito interessante a escala nos diversos portos, mas prefiro a tranquilidade da travessia oceânica. Talvez seja a idade, não sei se há 30 ou 40 anos atrás pensaria da mesma forma. Mas, se ainda tiver saúde para tanto, ano que vem, 2018, devo fazer minhas duas últimas viagens marítimas. O cansaço chegou com força total e já não tenho mais pique (nem paciência) para aguentar alfândegas com paranoia de terroristas, muita burocracia de embarque e desembarque, além do alto preço das passagens.

Jorge Carrano disse...

Pois é, Carlinhos. Você está quase me convencendo a fazer a viagem marítima.

Só preciso convencer minha mulher. Seria (ou será) também minha última viagem internacional. O peso da idade é uma realidade. Você tem razão.

Aproveitarei para conhecer as ilhas gregas, que não conheço.

Como me apaixonei por Capri, imagino que gostarei da Grécia. As cores do oceano, as casas brancas ...

Os romanos e os gregos deram origem ao mundo ocidental civilizado. E, aí? Vou me decepcionar?

Abraço

Carlos A. Lopes Filho disse...

Das ilhas gregas (nem sei realmente se é ilha) só conheço Corfu, justamente numa parada de um navio que me levou à Veneza há uns três ou quatro anos atrás. Gostei muito, pela diversidade do ambiente, o povo muito alegre e sempre sorrindo. Também visitamos a casa onde Sissi, a imperatriz austríaca, costumava ficar. Capri é maravilhosa, não só a gruta, mas principalmente Anacapri.

Jorge Carrano disse...

Também acho, Carlinhos.

Fiz postagem sobre Anacapri. Está em:

https://jorgecarrano.blogspot.com.br/2011/08/capri-e-anacapri-atraves-de-fotos.html

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