12 de maio de 2010

A lista do Dunga

Oskar Schindler era polonês e proprietário de uma fábrica de utensílio de cozinha. Ganhou muito dinheiro empregando judeus, que eram mão-de-obra mais barata. A estes, mais do que bom salário, importava manterem suas vidas.

Depois salvou a vida de centenas daqueles judeus, subornando, com parte dos lucros que obteve em sua fábrica, os oficiais da Gestapo, a fim de que fossem enviados para a Tchecoslováquia, e não para Auschwitz, os nomes constantes de uma lista com mais de mil nomes.

Dunga, de certa forma, mal comparando, também se manteve fiel ao grupo de jogadores que se engajaram em sua filosofia de trabalho, com entrega, atitude e determinação, recompensando-os com a inclusão de seus nomes na lista dos convocados para disputar a Copa da África do Sul, ontem divulgada.

Portanto, nenhuma novidade na lista do Dunga.

A imprensa, ou boa parte dela, vem massacrando o treinador. Menos por discordância com alguns nomes incluídos e nomes outros não incluídos, do que com o cerceamento de suas liberalidades (mais que liberdades) ou corte de seus privilégios.

Lembro bem (eu assisti) de uma entrevista concedida à Fátima Bernardes, da TV Globo, por jogadores da seleção, às duas horas da manhã, horário da Alemanha, em face das diferenças de fuso horário, na apresentação do Jornal Nacional.

Esta farra, este condenável procedimento, seja dos jogadores, seja da imprensa, não irá se repetir. É preciso que todos estejam focados na competição, que será das mais disputadas.

Fiquei muito bem impressionado com as manifestações de alegria dos jogadores convocados. Mesmo alguns veteranos se comportaram como se fosse a primeira vez que envergarão a camisa da seleção e participarão de uma Copa do Mundo.

O Brasil pode até não se sagrar campeão. Esta será uma das mais difíceis copas, pelo alto nível de muitas seleções. Mas espírito de luta e vontade de ganhar não faltarão.

Assim espero.

11 de maio de 2010

Peladas

As peladas do título não são as mulheres desnudas. Afinal este é um blog família, e as crianças estão na sala.
Quero falar das partidas de futebol entre amadores, disputadas em campos improvisados. Elas são a mais pura e genuína expressão do jogo de futebol. Solidário, alegre e solto. Bom modelo de vida em sociedade.

E as peladas autênticas, que são as que não têm qualquer formalidade, são as melhores. Os jogos, minimamente estruturados que sejam, entre solteiros e casados de uma firma ou as disputas intercolegiais, têm características de pelada mas não são autênticas, porque envolvem, em geral, uso de uniformes, chuteiras ou tenis, exigem a presença de árbitro e têm tempo de jogo cronometrado. Nada disso existe na verdadeira pelada.

Nelas, os times são escolhidos na hora, entre os presentes no campo. Campo? Bem, um terreno baldio qualquer, nem sempre de dimensões regulares. Os dois jogadores reputados como os melhores, e todos os presentes sabem quem são, pois são geralmente os mesmos participantes, escolhem, um a um, alternadamente, depois de um par ou impar, para ver quem será o primeiro, as duas equipes. Óbvio que o critério é o da qualificação, da habilidade para jogar. É claro que os melhores vão sendo escolhidos primeiro, ora para uma equipe, ora para a outra. Esta sistemática confere um certo equilíbrio de forças entre os dois times. E a disputa da partida fica melhor.

Alternativamente, ao invés da formação das equipes ser decidida pelos dois mais hábeis jogadores, a tarefa fica com os dois piores jogadores, que em geral serão os goleiros. E o resultado final não discrepa, eis que o critério de escolha alternada, vai privilegiar os melhores, numa ordem descrescente de mérito, até que os times estejam completos, ou que não haja mais ninguém para jogar naquele momento. Se as equipes se completam, com onze de cada lado, quem sobrar sobrou. É a pena que devem pagar os sem preparo técnico ou determinação. E fica na espera para entrar no jogo, até que alguém tenha que sair. Se as equipes não estão completas e chega alguém atrasado, deverá esperar que chegue um outro, para que seja possível entrar um para cada lado e manter o equilíbrio de forças.

Nada de uniformes; quando muito um time joga com camisas (as que trazem vestidas) e o outro sem camisa. Todos descalços. Juiz? Nem pensar. As decisões são tomadas em consenso. Como os campos muitas vezes não têm qualquer tipo de marcação de seus limites, a bola saiu (está fora de jogo), ou não, por decisão da maioria.

Pode acontecer controvérsia e discussão, quando, por não haver travessão superior, apenas duas balizas, é necessário definir se vale o gol ou não, dependendo da altura em que a bola transpasse a linha imaginária, no espaço delimitado apenas pelas traves verticais. O critério da altura para que o gol seja validado, é o de fazer a estimativa da altura máxima atingida pelo goleiro num salto vertical. Se com este salto o goleiro fosse capaz de alcançar a bola, então o gol é válido. Ora, se o goleiro é muito baixinho, não valerá como gol uma bola que trasponha a linha numa altura que, embora pequena, esteja fora do alcance de suas mãos, quando saltando. Se eventualmente o goleiro fosse maior, talvez aquela bola, naquela altura, fosse tida como gol. É a decisão diferenciada em face das circunstâncias. E todo mundo acata.

As faltas, sejam as de jogadas mais violentas, sejam as de colocação da mão na bola, são decididas no grito. Se alguém grita “parou!”, para mesmo. Quem sofreu, afirma que foi atingido e machucou. O autor da falta nega. Mas outra vez o consenso decide. Não há violência explícita. Não há má-fé. O adversário de hoje, amanhã poderá estar no seu time. Depende do par ou impar.
A pelada é alegre e franca. A partida é disputada pelo puro prazer que proporciona. Não há cobrança de torcida. Quando muito, haverá gozação com a vítima de uma finta mais humilhante, ou de um frango do goleiro.

A pelada tem suas caracteristicas. Uma delas, pertinente, é a de que não há jogador em impedimento. Todos podem jogar e fazer gols em qualquer situação. Como não há juiz, não há tempo controlado. As partidas terminam quando uma das equipes atinge o número de gols previamente estabelecio. Assim, depois da escolha das equipes, é decidido que a partida será de dez, virando em cinco. Ou seja, quando um time fizer dez gols, a pelada acabou. Atingido o quinto gol, mudam de lado, para que os defeitos do campo, a posição do sol e a força do vento não prejudique uma só equipe.

Ninguém beija a camisa após um gol. Não há mercenarismo. Não há patrocínio. Não há dirigente. Este é o grande segredo do sucesso das peladas. Não há dirigentes. Já imaginaram um mundo onde não há espaço para Ahmadinejads, Saddans e Osamas; Chaves, Morales ou Bushs? Os participantes decidem e controlam eles mesmos o que vale e o que não vale. A pelada é democrática e liberal: o mérito individual tem peso; há alternância de poder e equilíbrio de forças, pois as equipes não têm sempre as mesmas constituições; e as decisões são tomadas pela maioria. Tudo com e pelo prazer.

N do A: Estas memórias são fruto da infância vivida na Rua São Diogo, na Ponta d'Areia. Hoje esta rua é asfaltada e nela transitam ônibus. Na década de 40 e  início dos anos 50, por ela passavam um ou dois carros, por dia. Os verbos deveriam, pois, estar no passado.

10 de maio de 2010

Lista de convocados

Amanhã, dia 11, será divulgada a lista dos 23 jogadores convocados para compor a seleção brasileira que irá disputar a Copa do Mundo, organizada pela FIFA, e que será realizada a partir de 11 de junho, na África do Sul.

Há uma expectativa enorme em relação aos nomes que serão anunciados. Neste momento, é irrelevante querer antecipar qual dos candidatos já anunciados, que disputarão o pleito para presidência da república, irá vencer nas urnas e será responsável pelo destino do país nos próximos 4 anos.

Mais importante, agora, é saber nos pés de quem estará o destino da seleção nos campos de futebol.

A mão que assinará as leis, sancionando-as ou não, ou os decretos regulamentadores, perde em importância para as mãos do Julio César, provável goleiro titular.

Se temos um bom universo de jogadores convocáveis, de bom potencial, o mesmo não ocorre com o elenco de candidatos à presidência.

Mas a esta altura tem mais importância o que sairá da cabeça do treinador Dunga, do que o que resultará de nossas cabeças, como eleitores, ao final do ano.

Neste passo é Copa do Mundo. Depois, se muito ou pouco tempo depois, a depender do resultado da competição de futebol, é que iremos cuidar da presidência da república e, de quebra, do parasitário Congresso Nacional.

Espero que estejamos de bom humor na hora da eleição, com o “peito em festa e o coração a gargalhar”, como diria o velho prefeito Odorico Paraguaçu, e tenhamos sabedoria para votar.

6 de maio de 2010

Jorge Carrano III

Não, meu neto não foi registrado e batizado como Jorge Carrano III. Mas por meu gosto teria sido. Ainda tenho esperanças no futuro, e terei um descendente com este nome.

Quem sabe ele, meu neto, dará ao filho o nome de Jorge Carrano III. Afinal, Luis XVI era neto, e não filho, de Luis XV, aquele que perpetrou a famosa frase: “Depois de mim, o dilúvio”.

Logo, não haverá problema em ser saltada uma geração.

Não há necessidade de vínculo imediato, paterno, para adoção do nome a ser prestigiado. Napoleão III era sobrinho do Napoleão I.

Até minha neta, sabe-se lá, poderá dar ao filho o nome de seu pai, que, não por acaso, é também o meu. E não haveria como fugir do III (terceiro).

Historicamente isto já aconteceu um sem número de vezes. Ricardo I, conhecido como Coração de Leão, e que liderou a 3ª Cruzada, juntamente com Felipe IV, o Belo, não foi o pai de Ricardo II, também da Inglaterra. Este último, por sua vez, não foi o pai do Ricardo III, imortalizado por Shakespeare , que atribuiu a este monarca a conhecida frase “A horse! My kingdon for a horse!

Não vou exemplificar com o papado pois, em tese, um Papa não deixaria descendentes diretos, em linha reta. Mas as homenagens que fazem aos antigos prelados, demonstram o quanto eles se identificam com um Pontífice antecessor, mesmo que não tão imediato.

João XXIII, estava há séculos de João I. Embora João Paulo II estivesse bem próximo do João Paulo I.

E não vou recorrer a empresários, tipo Henry Ford III, pois antes a família deveria construir a fortuna deles.


N.A: O Rei-sol, o Luis XIV, da frase "L'État c'est moi", seria, há controvérsias, filho de Luis XIII. A controvérsia fica por conta do fato de Luis XIII e Ana de Austria terem sido casados por 23 anos e nada de filhos até então . O futuro Luis XIV, portanto, segundo alguns historiadores, poderia não ser filho biológico do Luis XIII.

4 de maio de 2010

Dinheiro não tras felicidade

Sei. Me engana que eu gosto.
Algumas destas frases prontas, genéricas, utilizadas de forma indiscriminada, guardam em si mentiras absurdas. Ou são meias verdades.

Por exemplo: o vinho, quanto mais velho melhor. Mentira! Depende do vinho, se é tinto ou branco, se é espumante ou tranqüilo e, mesmo entre os da mesma natureza, como por exemplo os tintos secos, há os que são de guarda, e aí sim melhoram com o tempo, se mantidos em locais e condições apropriados, ou devem ser degustados enquanto jovens, como Beaujolais nouveau.

Esta – frase - aí do título, por exemplo, merece um reparo. O dinheiro não tras, mas leva você à felicidade. Ao estado de felicidade.

Não fosse a falta de dinheiro (eu ia acrescentar também de tempo, mas seria redundante, pois se tivesse dinheiro faria o meu tempo), a esta hora estaria em Viena.

Trago ainda, na memória olfativa, o aroma dos cafés vienenses. Os melhores que jamais tomei. Refiro-me a infusão da rubiácea propriamente dito, embora possa afirmar, em acréscimo, sem vergonha ou medo de errar, que os locais onde são servidos (os Cafés), são os mais elegantes do planeta.

Podem não ser os mais charmosos, pois os franceses ganhariam neste quesito.

Antes que alguém queira me contestar, faço a ressalva que estou me referindo a locais até onde meu parco dinheirinho me permitiu conhecer. Se você tem muito dinheiro (e bom gosto) é possível que tenha conhecido locais mais sofisticados.

Falo comparando os Cafés da rua Graben, em Viena, ou, ainda na capital austríaca, localizados na simpática rua de pedestres chamada Karntenstrasse (o nome está nas minhas anotações de viagem), com os localizados em St. Germain-des-Près ou Montparnasse, em Paris.

Outra cidade encantadora, que tem bons cafés, é Dresden, na Alemanha, que quando conheci estava ainda em fase final de reconstrução, bombardeada que foi, ao final da 2ª Guerra Mundial (13 para 14 de fevereiro), por determinação do Churchill, segundo consta numa atitude desnecessária. A guerra já havia praticamente terminado.

Estou divagando, mas retorno ao café infusão, e aos Cafés estabelecimentos de Viena. Aqueles de excelente qualidade (só importam grãos de primeira) e estes elegantes, clássicos, com a nobreza possivelmente herdada dos Habsburgos.

3 de maio de 2010

Entreouvido no Manel´s

O nome foi inventado pelo Carlinhos e pelo Irapuan *. Mas o bar existiu mesmo. Ficava na Domingues de Sá. O dono, de trás-os-montes, chamava-se Manuel.

Já falei deste bar em post mais antigo, e volto hoje, já que escrevi recentemente sobre a bobagem do politicamente correto, para contar uma situação muito engraçada, presenciada lá no Manel´s.

As conversas, como sempre, rolavam soltas. As poucas mesas ocupadas. Entre cinco e seis da tarde (atualmente batizado de happy hour), era o horário de praxe para reunião do grupo liderado pelos dois citados amigos, os mais assíduos frequentadores do bar, onde tinham conta pendurada. Que pagavam e, para comemorar, tomavam várias portuguesinhas**, dando início a um novo pendura***. Eu era bissexto, pois a grana era extremamente curta mesmo.

Na mesa ao lado conversavam três rapazes. Assim como nós éramos. Todo mundo tinha entre 15 e 18 anos, com uma margem de erro de 10%, para mais ou para menos.

À horas quantas um deles estava relatando uma situação que vivera na véspera, cerca de 11 da noite, muito escuro, perseguido por um cão de rua, porque correu com medo de um negão enorme que vinha na mesma calçada, em sentido contrário, alí no pedaço de Santa Rosa, hoje apelidado, por razões mercadológicas, pela indústria imobliária, de Jardim Icarai.

Ele contava que não só girou nos calcanhares, dando meia volta, como atravessou a rua e saiu em disparada, com receio de ser abordado pelo negão. Com isso, chamou a atenção do cão que correu atrás dele por duas quadras. Chegou em casa quase evacuando nas calças.

Solitário numa mesa, que ocupava, segundo o Manuel contou depois, desde uma da tarde, e já tendo tomado pelos menos umas 5 cervejas e duas talagadas de cachaça, um negro forte, meia idade, perguntou, com voz ameaçadora, para o rapaz que acabara de contar o seu caso: - Por que tu disse que o cara era um negão enorme? Que qui tu qué dizer. Se fosse um branco tava limpo? Você não corria?

Restabelecido do susto, o rapazinho respondeu irônico, mas sem poder disfarçar que estava assustado: - Falei porque era um negrão mesmo, um armário. Não poderia ser um branco, porque os brancos são uns tísicos, quero dizer, todos franzinos como tuberculosos.

Por via das dúvidas, apressou-se em explicar a questão do tísico. A isto chamavamos de botar o galho dentro. Às vezes é melhor mesmo.

Bem, ao fim e ao cabo tudo terminou em batucada, para desespero do Manuel, que gostava de ordem em seu estabelecimento. Era gente boa p'ra lá, amigão p'ra cá, e com isso reinou a paz. O negrão cantava bem, muito embora a lingua meio enrolada, tinha suingue. Às 9, como de praxe, o bar fechou.



* Carlos Augusto Lopes Filho e Irapuan Paula de Assumpção

** A cervejaria Antarctica mantinha um rótulo com a marca Portuguesa, que era bem leve.

*** As contas pendentes, de fregueses confiáveis, ficavam espetadas num prego existente na parede atrás do balcão. Daí o penduradas.

1 de maio de 2010

Filhos e pais

Se os filhos soubessem a falta que o pai vai lhes fazer, quando o mesmo morrer, tratariam-no à “pires de leite como se fosse uma úlcera.”

Peço licença ao Nelson Rodrigues para usar sua metáfora, aplicando-a nesta abordagem, à falta de outra, de cunho próprio, que desse uma idéia do quanto os filhos, devem valorizar a importância dos pais.

E irão se arrepender por não terem tido um convívio mais próximo, por não terem desfrutado mais, quando era possível, a amizade e a lealdade daquele que com toda a certeza foi seu melhor amigo.

A perda do pai é uma dor que custa muito a ser anestesiada e produz uma saudade que se não é contínua, é intermitente e infinita. E não é “enquanto dura”, é e como dura.

Estou falando de filhos e pais emocionalmente equilibrados, socialmente ajustados e que se amam.

Pai que atira a filha pela janela, ou filha que mancomunada com o namorado mata os pais a porretadas, são animais irracionais, bichos peçonhentos, absolutamente selvagens, não podendo portanto conviver em sociedade humana. Estes e outros animais que povoam as páginas policiais não se encaixam nesta minha digressão sobre respeito e amor filial e paternal.

A saudade a que me refiro vem quando menos se espera, de forma inopinada, mas com mais força nos momentos de nossos êxitos, quando gostaríamos de com ele compartilhar, e também nos momentos de aflição, sabendo que poderíamos contar com um ombro amigo e uma palavra de esperança e conforto.

Colocando-me como referência, no papel de pai e também no de filho, de coração aberto, o que somente o ter alcançado a idade provecta permite fazer com isenção e clareza, afirmo que tanto num quanto noutro papel, sinto-me e me senti realizado e feliz. Sou um privilegiado.

Em relação aos meus filhos, mais do que com recomendações, advertências, conselhos ou ensinamentos, penso que me desincumbi com exemplos. E eles deram certo. Como homens de caráter, responsáveis e respeitados, e amorosos.

Com meu pai, noutra época e outros costumes, a relação foi sempre muito mais de respeito do que de afeto. Havia um certo distanciamento. Os pais se colocavam, pois era a cultura da época, num nível acima.

Mas com o tempo, me dei conta do quanto ele me amava, e que as restrições e castigos impostos, que me aborreciam, eram fruto de cuidado e amor.

Sem contar, o que mais tarde enxerguei com nitidez, o orgulho que ele sentia de mim, sem que eu tenha dado motivos relevantes para tal. Mas seu amor era tão grande, que mesmo pequenos detalhes, coisas sem expressão maior, eram motivo de alegria e orgulho.

Dou como exemplo um fato banal, quase bizarro. Prestei a maior parte de meu serviço militar na 2ª Circunscrição de Recrutamento, unidade, digamos, burocrática do Exército.

Certa feita, num dos corredores, parei para prestar continência ao General Comandante da Infantaria Divisionária da 1ª Divisão de Infantaria, do I Exército (que título, hein !?) que estava em visita àquela repartição.

O general parou diante de mim, e de forma muito educada, diria mesmo cordial*, disse-me que a continência estava errada e, ato contínuo, pegando minha mão que levara ao bibico**, posicionou-a corretamente.

Eu colocara a mão quase na frente do casquete***, quando o correto, segundo ele, seria bem na lateral, na têmpora. Minha maneira, copiara a de um oficial protagonista de um filme de guerra americano. Errada para nossos padrões.

Este episódio, que relatei em casa, foi comentado com ele, ao me apresentar a amigos, numa oportunidade em que fui ao seu local de trabalho.

Vejam o que quero dizer. Uma coisa tola, sem maior expressão, ficou para o meu pai como um fato de dar-lhe orgulho. O general, em pessoa, corrige a prestação de continência de seu filho.

Só um pai muito amoroso, muito orgulhoso registraria aquele acontecimento como coisa significativa. E eu, ao contrário, achando que ele se comportara como um tolo,  não dei o devido valor ao fato, percebendo que nele se continha um prova de orgulho e afeto.  

Estas e outras lembranças, que hoje valorizo, e o vazio no coração, dão-me, com freqüência, uma enorme saudade dele, mesmo passados 47 anos de sua morte.

Não sei se consegui passar a idéia que faço da importância do convívio entre pais e filhos. Mas estou convicto de que este convívio deve ser explorado o quanto possível, em proveito recíproco. Mais tarde restará saudade.


* Na 2ª CR, serviam os soldados que tinham pistolão. Eram, em geral, como no meu caso (primo de oficial), parentes de oficiais graduados. Era necessário ter o ginasial completo, pelo menos.


** o mesmo que casquete


*** casquete é um chapéu, usado por soldados, reto em cima, fazendo dois bicos, um à frente e outro atrás.