25 de novembro de 2016

Lamento ter acabado

É lamentável que o Canto do Rio Foot-Ball Club, simpático clube com sede em Niterói tenha deixado de disputar o Campeonato Carioca de Futebol.

O curioso é que o campeonato carioca, como o nome sugere,  era disputado por clubes com sede na cidade do Rio de Janeiro, antigo Distrito Federal, e o Canto do Rio era a única exceção. Era o único fora do Rio de Janeiro.

E era formidável a gente poder assistir aos jogos dos grandes clubes do Rio, porque todos tinham que vir ao Caio Martins disputar uma partida  com o Cantusca, ou no turno ou no returno.

Equipe do Canto do Rio em 1956

Nesta época eram, com um pouco de boa vontade, seis grandes clubes no Rio de Janeiro, os tradicionais Flamengo, Vasco, Botafogo, Fluminense,  e mais o Bangu e o América.

O Estádio do Caio Martins lotava. 

Estádio  Caio Martins
O futebol era jogado em outro ritmo. As equipes tinham seus uniformes tradicionais e reconhecíveis  facilmente, porque o alternativo, ou segundo uniforme, era apenas uma variação do oficial, sempre mantidas as cores clássicas.

Até mesmo os menores clubes mantinham a tradição em seus uniformes: Olaria, Bonsucesso, Madureira, Portuguesa e Campo Grande. Além do Canto do Rio.

O Rio de Janeiro era a “cidade maravilhosa” e Niterói tinha a “mais bela vista para o Rio de Janeiro”. Stanislaw Ponte Preta sacaneava dizendo que em Niterói urubu voava de costas.

O inexplicável é que durante anos Niterói teve um representante no campeonato carioca. Agora Saquarema tem, Campos tem, Volta Redonda tem, Friburgo tem, Macaé tem, e Niterói não tem.

Sabem outra coisa que faz muita falta? O serviço militar obrigatório. Não porque precisamos preparar soldados para a guerra. Até porque, guerra convencional não teremos mais nem nos filmes feitos em Hollywood.

Mas porque aqueles  jovens, sobretudo os de classe social economicamente  mais baixa, hoje seduzidos pelo tráfico, recebiam treinamento para se tornarem homens.

As noções de disciplina, responsabilidade, respeito à hierarquia e higiene pessoal, eram uma tônica na fase de adestramento. Recebiam roupas e alimentação. Faziam ginastica pela manhã cedo. 

E a convivência entre eles, com tratamento igualitário era muito salutar. Todos faziam faxina, inclusive nos banheiros. Varriam e coletavam o lixo nos pátios internos. Tiravam serviço como sentinelas.

Até os mosquetões precisavam estar bem cuidados, com a parte interna do cano bem limpa. Como por exemplo se faz com o cachimbo.

A higiene era controlada com banhos diários, com água fria. Cabelos cortados com máquina zero evitavam piolhos.

Os uniformes deveriam estar sempre limpos, com a fivela do cinto reluzente e os sapatos engraxados.

Os rapazes, aos 18 anos, encorpavam, ganhavam massa muscular, fruto de exercícios (marchas, manobras, ginástica, ordem unida) e alimentação garantida.

Muitos deles estavam fisicamente preparados para ingresso nas Polícias Militares dos Estados. E preparados também disciplinarmente. 

Acabou-se. Por que?

Comentei noutro dia, em outro contexto, o trabalho dos menores de idade, a partir dos 14 anos; era uma coisa positiva sobre vários aspectos.

Mencionei apenas os empacotadores dos supermercados. Mas se retrocedermos um pouco mais no tempo, teremos um quadro mais amplo.
Empacotador

A conversa fiada de que eram muito jovens e deveriam estar nas escolas é pura balela. O trabalho jamais atrapalhou a frequência a escola.

A maioria dos meus três ou quatro habituais leitores há de lembrar. Havia lei obrigando a que as empresas mantivessem em seus quadros de empregados, um percentual de  menores que deveria ser calculado sobre o total de suas folhas de pagamento.

E eram de duas naturezas, claramente definidas em lei. Um percentual seria de menores aprendizes, que deveriam frequentar cursos de formação no SENAI ou no SENAC. A grande maioria, ao final do curso era aproveitada nos quadros efetivos, como eletricistas, marceneiros, mecânicos, etc.

Mimeógrafo

Outro percentual de menores, de caráter obrigatório, trabalhava nos escritórios, como office-boys. Como é que vocês pensam que os documentos transitavam entre as salas dos diferentes setores das empresas? E quem ia aos bancos?


Não havia internet, o sistema reprográfico era a fotocópia e as circulares eram datilografadas num stencil e depois rodadas em mimeógrafo.

Nunca mais ouviremos histórias sobre um office-boy que se tornou presidente de uma empresa ou até banqueiro, como o Amador Aguiar, do Banco Brasileiro de Descontos, atualmente BRADESCO.

E o que aconteceu? Melhorou o nível de ensino no país? As crianças estão todas nas escolas? Não! O sistema educacional faliu. Invenções como progressão automática e provas no sistema de múltipla escolha, levaram ao surgimento de milhares de analfabetos com diploma primário ou fundamental.

Na área de segurança outro fato a lamentar. Acabaram com uma experiência exitosa, que foi a dupla de policiais apelidados de Cosme e Damião, que patrulhavam os bairros.


Sempre em dupla percorriam as ruas dos bairros e coibiam pequenos delitos, como a ação de punguistas, brigas nos bares, e com suas presenças inibiam ou abortavam outras tentativas delituosas.

A guarda noturna, que surgiu tempos depois, tinha seus méritos, mas ao final sofreu desgaste natural, degradou e finalmente desapareceu.

Agora é cada um por si. Blindar os carros, contratar segurança privada. As ações conjuntas são no sentido de colocar grades nos edifícios ou eletrificar cercas. Colocar guarita na esquina com guarda particular.

E a criminalidade aumentando muito. Discursos e ações sobre respeito a cidadania de marginais e às políticas de direitos humanos, mal concebidas e pior ainda delimitadas, tendo a frente populistas, demagogos e hipócritas, foram um incentivo ao crime, por causa da impunidade.

Bem, pode ser que volte com outras coisas que acabaram e que fazem muita falta.  

Inclusive na área farmacêutica.  Que falta fazem o emplastro "Sabiá "e a pomada "Picrato de Butesin".

4 comentários:

Riva disse...

Eu realmente não acredito numa reversão desse desastre nacional - insegurança total, que impacta qualquer tipo de atividade.

Não enxergo nada que possa indicar um início de reversão, nada !!

Jorge Carrano disse...

Nada comentado é reversível. Por isso lamentei haver acabado.

Ou, águas passadas não movem moinhos. Ou ainda, ninguém entra duas vezes no mesmo rio.

Ou como dizíamos quando crianças: acabou-se o que era doce, quem comeu arregalou-se.(será que este pronome está corretamente colocado?)

Riva disse...

Profª Rachel ???

Jorge Carrano disse...

Pois é, ela faz falta
Usei a forma que rima: arregalou-se com acabou-se.