31 de outubro de 2016

Chão de fábrica, sim senhor!

Para chegar às 7 da manhã, no Barreto, eu acordava às 6 horas. Banho, café e ônibus até a fábrica de fósforos da Cia. Fiat Lux. Corria o ano de 1962.

Eu era chefe de contas correntes no Banco Metropolitano, função que herdei de meu amigo Hermes Santos, que havia me levado para o banco um ano antes.

O Hermes foi trabalhar no departamento de pessoal da Cia. Fiat Lux, levado por seu colega de faculdade de psicologia, chamado Abigacyr Ribeiro, que era o aplicador dos testes psicotécnicos tão em moda na época.

Ora vejam só, apresentado pelo Hermes ao Abigacyr, acabei convidado pera trabalhar na empresa fabricante de fósforos, numa nova função que estava sendo criada. Haveria aplicação dos famigerados testes (Rorschach, PMK, etc.), no Escritório Central, no 8º andar do prédio 134, na Rua Visconde Inhaúma, no Centro do Rio de Janeiro.

Aparentemente seria um retrocesso. Deixar o centro do Rio de Janeiro (Rua da Carioca) onde trabalhava das 9 às 16 horas, de gravata, para ir trabalhar num fábrica em São Gonçalo seria uma aposta de risco. Mas arrisquei.

Passados dois anos fui transferido da fábrica para o Escritório Central, porque a função que eu exercia na fábrica seria extinta. Éramos quatro nesta função, e três de nós fomos transferidos, para diferentes áreas na administração central. Como já cursava a faculdade de Direito, acabei sendo lotado no Departamento Legal.

Nunca deixei e nem deixarei de ser grato a esta empresa, que na época tinha controle acionário inglês.

Tive muitas oportunidades, aproveitei algumas e negligenciei outras. Aprendi muito. Em vários sentidos.

No departamento legal acabei, pelas circunstâncias, ficando especialista em Direito do Trabalho. Ainda não era formado, mas este fato não me impediu de, à curto prazo, fazer audiências, representando a empresa como preposto, fazendo a defesa oral.

A empresa tinha sob contrato (advocacia de partido) o Escritório do Nélio Reis, uma dos mais festejados advogados trabalhistas do Rio de Janeiro, professor na PUC e com livros publicados.

Assim, as causas de maior complexidade ou que envolviam maiores valores, eram acompanhadas pelos advogados Mario Cálcia ou Chermont de Brito, dois dos advogados que trabalhavam no escritório do Nélio Reis.

A par disto, tinha a minha disposição, nas estantes do setor legal, além da legislação em vigor, algumas coleções de autoria de consagrados autores, como Evaristo de Moraes (pai), Orozimbo Nonato, Mozart Vitor Russomano (na época o mais respeitado doutrinador, depois ministro do TST) e outros.

Acrescente-se que na Faculdade de Direito de Niterói (UFF), tive como professor da matéria (Direito do Trabalho) ninguém menos do que Geraldo Montedônio Bezerra de Menezes, jurista e professor, fundador e primeiro presidente do TST.

Acreditem que nos três anos em que permaneci no setor legal da Fiat Lux aprendi muito sobre legislação trabalhista e previdenciária. Sabia mesmo. A CLT tinha de cor.

Por conta disto viajei bastante pelo Brasil, visitando as diversas unidades da Companhia (São Paulo, Jundiaí, Curitiba, Piraí do Sul), para treinar e supervisionar o trabalho dos funcionários das seções de pessoal.

A cada norma legal trabalhista ou previdenciária, interpretava e emitia circulares com instruções para as fábricas e escritórios regionais.

Consolidada minha reputação como bem preparado advogado (já diplomado), da área trabalhista, fui consultado se aceitava migrar para a área administrativa, para implantar a gerencia de Relações Industriais, denominação originária da área de Recursos Humanos, nome importado dos USA.

Aceitei, claro, pois seria elevado ao nível gerencial e receberia mais dindim. O projeto básico era da Deloitte consultoria e auditoria internacional contratada. Minha tarefa seria a implantação do projeto, compreendendo seleção e contratação da equipe.

O organograma previa criação de setores de recrutamento e seleção; cargos e salários; treinamento e desenvolvimento; serviço social e setor de pessoal.

Bem, conhecer a legislação trabalhista ajudaria mas não seria o suficiente para a empreitada. Então a empresa me propiciou os cursos necessários, sendo os dois mais importantes os que fiz no IAG da PUC, com foco em administração de recursos humanos, e o básico de administração, realizado na Fundação Getúlio Vargas.

Foi assim e por conta disto, que nos anos 1970 conheci cidades na época desconhecidas e até bastante atrasadas em termos econômicos. São exemplos São Lourenço da Mata, em Pernambuco, que agora tem até Arena que foi utilizada na Copa de 2014; e Icoaraci,  no Pará. Nenhuma destas cidades tinha atividades industriais, senão artesanais e a atividade principal era rural mesmo.



Orla de Icoaraci - antes
Orla de Icoaraci - atualmente








Projeto aprovado da SUDENE, a fábrica de São Lourenço do Mata, levou-me a trabalhar na fase pré-inaugural cuidando de seleção e treinamento de mão-de-obra. Mais capacitação. E pouco tempo depois, em Icoaraci, em projeto aprovado pela SUDAM.

Muçuã ou jurará
Bem, nem tudo era trabalho nestas viagens. No Pará jantei mais de uma vez no Circulo Militar, e até comi uma espécie de tartaruga chamada muçuã, de aspecto desagradável mais gosto aceitável.


E também comi boas peixadas e moquecas paraenses em Icoaraci. A cerveja era a regional Cerpa.


Cerpa, versão atual
Trabalhando nestas cidades de poucos recursos (Icoaraci e São Lourenço da Mata), a saída era ficar hospedado em Belém e Recife, respectivamente.

A lagosta ao thermidor do Leite, um dos mais tradicionais restaurantes da capital pernambucana, com música ao vivo (pianista), ficou em minha memória gustativa.

Sobre trabalho voltarei outro dia, agora vou jantar pensando na moqueca de Icoaraci e na lagosta de Recife.

25 comentários:

Riva disse...

Carrano, vc tem um extraordinário poder de síntese.

Se eu for comentar ou fazer um post nesse contexto, vou gastar ums 40 páginas em A4. Então, aki ouvindo Massive Attack e teclando com Johnnie me vigiando, apenas .... leio.

Sds TETRAcolores !!

PS: kd elas ??? onde estamos errando, para elas sumirem ?

Jorge Carrano disse...

Não é poder de síntese não, Riva. É que são poucas as coisas a contar mesmo (rsrsrs).

Esta série não vai ter fim, com pequenas "tréguas" para outros temas.

A gente deve escrever as memórias enquanto elas ainda são residuais. Quando os neurônios ficam necrosados não há mais como.

Como diria Azagalo, vocês vão ter que eme aguentar (rsrsrs).

GUSMÃO disse...

Além de tudo é modesto (he he he he).

E distraído. O nome do técnico autor da frase é Mario Jorge Lobo Zagalo. E ele disse vocês terão que me aturar.

O nome dele e a frase saíram trucados em seu comentário.

Jorge Carrano disse...

O comentário não saiu "trucado", Gusmão. Porque não teve truque algum.

Ele saiu truncado, ou empastelado se você prefere uma linguagem mais pertinente.

KKKKKKK

Quem rí por último ri melhor.

Simone Sarow disse...

Você sabe se o Abigacyr Ribeiro ainda vive? Tem contato com ele?

Jorge Carrano disse...

Não Simone, perdi o contato com ele há muitos anos.

Mudei para São Paulo em 1972, e nunca mais tive nos encontramos.

Encontro, vez ou outra, com o Hermes Santos. Ele foram contemporâneos na Faculdade de Psicologia, em Niterói.

Jorge Carrano disse...

Aproveitando o gancho da consulta da Simone, informo que a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, funcionava, à noite, no prédio da Escola Aurelino Leal, na Rua Presidente Prudente, no Ingá.

Quase defronte a Faculdade de Direito, onde eu estudava.

Com isso encontrava frequentemente, na porta do Aurelino Leal, com o Hermes, o Abigacyr, o Álvaro Cardoso de Oliveira e o Antonio Carlos Bonard Dias. Todos trabalharam ou ainda trabalhavam na Fiat Lux.

Álvaro e Bonard faziam História.

Jorge Carrano disse...

A função extinta na fábrica, foi a de Supervisor de Produção. Eramos 5 ocupantes: Péricles Sodré, Alvaro Cardoso de Oliveira, Antonio Carlos Bonard, Fernando Palma e eu.

Simone Sarow disse...

Obrigada pela sua resposta. Sou sobrinha dele, também Psicóloga e o meu filho está fazendo Psicologia.
Também mudei para São Paulo anos atrás ( Itaim Bibi), mas já moro há 10 anos nos USA.
Nossa família também perdeu o contato.

Jorge Carrano disse...

Eu é que agradeço Simone, sua visita virtual e a participação em comentários.

Ainda que mal pergunte: Hillary ou Trump ?

Vou perguntar ao Hermes Santos, que foi colega do Abigacyr na Faculdade, e trabalharem juntos, se ele tem notícias.

Até o final da semana volto aqui com informação.

Simone Sarow disse...

Jorge eu sou Conservadora, aqui Republicana, logo o meu candidato é o TRUMP!
E mais uma vez vez obrigada pela atenção e cordialidade.

Jorge Carrano disse...

Simone,
Muito raramente encontro o Hermes Santos no Fórum, porque ele atua basicamente na área criminal e eu no cível.
Mas em minha agenda tenho os números de telefones.

Tentei o convencional e a operadora (Oi), informa estar desligado. No celular entra gravação informando que o número não existe ou está fora de área.

É possível que ele tenha se aposentado, pois está com mais de 80 anos (é mais velho do que eu). Na última vez em que nos encontramos referiu dificuldade com o processamento eletrônico. Depois de certa idade fica mesmo mais difícil aprender os segredos e mistérios da computação e ele sempre resistiu (nem endereço eletrônico tem).

Sem compromisso, mas apenas também por curiosidade minha, se acaso venha a encontrar o Hermes procurarei me informar sobre o Abigacyr.

O Hermes formou-se em psicologia e lecionou durante alguns anos. Depois, porque graduado também em Direito, passou a advogar, inicialmente na área de direito de família e depois criminal. É também poeta (com livro publicado).

Se eu morasse nos USA (coisa que nunca cogitei, pois preferiria a Europa, se fosse o caso), ficaria em dúvida entre Hillary e Trump.

Antigamente, muito antigamente, dizia-se que o que era bom para os EEUU era bom pra o Brasil. Então que vença o menos ruim (lol).

Tenho amigos na Carolina do Norte (Greenville) e no Kansas (Wichita).

No Itaim Bibi mora uma grande e antiga amiga (se eu escrever velha ela ficará braba), chamada Marcia de Carvalho Santos.

Em São Paulo, morei no Brooklin Novo (Rua Michigan) e depois no Campo Belo (pertinho).

De novo, obrigado pela visita.

Saúde e paz.


Simone Sarow disse...

Jorge eu moro na Califórnia, já morei na Inglaterra, em Londres.
Posso dizer firmemente, sem pestanejar, sou muito mais os USA para morar e
a Europa para viajar!!!
Tenha um excelente dia!

Jorge Carrano disse...

Obrigado! Volte e quando queira.

Você, afastada do Brasil há tanto tempo, ainda lembra o Lulu Santos? E de sua composição abaixo?

"De Repente, Califórnia"

"Garota, eu vou pra Califórnia
Viver a vida sobre as ondas
Vou ser artista de cinema
O meu destino é ser star

O vento beija meus cabelos
As ondas lambem minhas pernas
O sol abraça o meu corpo
Meu coração canta feliz

Eu dou a volta, pulo o muro
Mergulho no escuro
Sarto de banda
Na Califórnia é diferente, irmão
É muito mais do que um sonho

A vida passa lentamente
E a gente vai tão de repente
Tão de repente que não sente
Saudades do que já passou

Eu dou a volta, pulo o muro
Mergulho no escuro
Sarto de banda
Na minha vida ninguém manda não
Eu vou além desse sonho

Garota, eu vou pra Califórnia
Viver a vida sobre as ondas
Vou ser artista de cinema
O meu destino é ser star"

No YouTube
https://www.youtube.com/watch?v=930fQuQeK48&list=RD930fQuQeK48#t=13

(Copy and paste)

Riva disse...

Simone, vc mora em que cidade da California ?

Jorge Carrano disse...

Simone,

Além da curiosidade do Riva, nosso confrade, uma outra amiga e também frequentadora do blog andou bisbilhotando seu perfil no Facebook.

E me telefonou lamentando o pouco domínio do idioma inglês (lol).

Simone Sarow disse...

A sua amiga não tem o domínio do inglês, ela não é obrigada!!!
A maioria dos meus posts são em Português, pelos meus amigos, família e poucos seguidores.
Fale para ela que nunca é tarde para aprender!
Abraços!!!!

Simone Sarow disse...

Oi Riva! Eu morei em Mountain View ( Vale do Silício) e agora moro em Rocklin, uma pequena cidade a 30 minutos da Capital.

Jorge Carrano disse...

Tenho resistido ingressar no Facebook. É um universo que não conheço. Vários amigos, irmã e filhos (todos com contas lá) já me incentivaram a entrar. Sugeriram até uma identidade fake.

Mas ainda prefiro ficar limitado aqui no meu cantinho. Pelo menos por enquanto.

Como ainda trabalho meu tempo é bastante restrito.

Jorge Carrano disse...

Simone (repeteco de comentário em outro post)


Tendo tempo e paciência dá uma espiada nos posts com links abaixo.
Foram escritos por amigos que moram nos EEUU.
Têm visões interessantes sobre o país.

http://jorgecarrano.blogspot.com.br/2011/05/um-brasileiro-na-carolina-do-sul.html

http://jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/01/carnaval-em-wichita.html


É preciso selecionar e colar na barra do navegador.

Agora a segunda intenção (inconfessável). Está disposta a enviar alguma coisa sobre a cidade onde reside? Obrigado.

Simone Sarow disse...

Claro que estou disposta a escrever sobre a cidade em que resido, que por sinal é uma graça!!!
Vou colhendo alguns dados e quando estiver pronto eu te envio com imenso prazer.
E quem quiser me adicionar no Facebook : Simone Sarow
Vou fazer uma campanha: CARRANO NO FACEBOOK!!!!

Jorge Carrano disse...

Vamos combinar uma coisa Simone. Fico aguardando, ansioso, seu texto sobre Rocklin (que confesso nunca ouvira falar), em contrapartida você fica "sittin' on the dock of the bay" aguardando minha adesão ao Facebook (rsrsrs)

Brincadeirinha, no espírito da sua campanha.

Riva disse...

Olá Simone ! Desculpe a demora no comentário, mas o trabalho me consome atualmente rsrsrsrs.

Um dos meus filhos morou em Truckee, e chegamos a visitá-lo. Naquela oportunidade, pousamos em Reno. Depois de fazermos o perímetro do Lake Tahoe (lindíssimo), descemos a serra de Truckee até San Francisco - paramos em Vacaville para umas comprinhas.

Depois de Frisco, descemos até o Big Sur pela US1. Foi uma das viagens mais bonitas que fiz na minha vida, sem exagero. Carmel então .... a US1 é um desbunde !!

Vou xeretar sua cidade, pois não a conheci, mas sendo onde é, deve ser uma belezinha.

Eu não tenho Facebook, pego carona no da minha esposa. Ansioso pelo seu post aki no Pub da Berê.

Riva disse...

Simone fade away ..... LoL

Jorge Carrano disse...

Sem deixar vestígios.

Nem impressões digitais, nem pegadas, nem migalhinhas de pão que pudéssemos acompanhar, nem caixa postal, nem um so long ou bye-bye.

Pluft!