30 de março de 2010

Escusas e crítica

Quero me penitenciar em razão de minha açodada crítica à intervenção no trânsito da Alameda São Boaventura, levada a efeito pela administração municipal. Passadas as primeiras 48 horas da implantação do sistema, quando efetivamente a coisa piorou, parece que, a julgar pelo relato de usuários, o trânsito sofreu uma sensível melhora naquele corredor viário. Que bom!

Todavia, continuo achando que a solução mais eficaz seria a ligação direta, São Gonçalo-Rio de Janeiro, através da baía da Guanabara.

                                                                            - X -

Dizem alguns críticos, que enaltecem o chamado futebol arte, que Dodô é o artilheiro dos goals bonitos. Isto é de um romantismo ultrapassado que dá pena e me provoca risos. Ou se trata de hipocrisia ou de santa ingenuidade. Bota ingenuidade nisso.

Desde há muito o futebol de competição deixou de ser apenas talento individual do jogador, o artista da bola. Quem quer ver este futebol arte, descompromissado, deve se limitar a assistir às peladas de final de semana.

O futebol atualmente praticado, exige do jogador um elevado preparo atlético. O jogo tornou-se muito corrido. Combativo, de poucos espaços. A velocidade passou a ser um fator importante. A marcação apertada e a ocupação de espaços tornou-se vital até mesmo como papel dos atacantes. O posicionamento em campo e a disciplina tática de um jogador, pode torna-lo mais importante para a equipe do que um outro mais habilidoso no trato da bola, mas inteiramente indisciplinado taticamente.

Poderia dar dezenas de exemplos de jogadores que hoje não escalaria em meu time, mesmo tendo atuado em seleção nacional.

Mas quero voltar ao Dodô.

E para falar dele, e de seu epíteto, vou me socorrer de frases e posturas de outros jogadores.

Dizia o Dadá Maravilha, grande artilheiro, e emérito frasista, que não existe goal feio; existe goal perdido.

O Dodô deveria ficar atento a isto.

Romário, um dos maiores artilheiros de todos os tempos, no início de sua carreira, conseguia, em grandes arrancadas em direção ao goal adversário, driblar e superar na corrida seus marcadores, e enfiar a bola no fundo da meta.

No final da carreira, já sem o mesmo preparo físico, com pouco fôlego, posicionava-se bem dentro da área, onde era um perigo para os adversários.

E o que dizia o Romário em suas entrevistas nesta fase de encerramento da carreira: agora eu entro em campo para fazer goals.

Ou seja, jogar futebol, já não dava mais. E ele levava isto ao pé da letra, não se envergonhando de fazer goals até chutando de bico. E goals importantíssimos.

É isto que tem que ser incutido na cabeça do Dodô. Jogar ele já não joga há muito tempo. Poderia continuar fazendo goals, não necessariamente bonitos, mas importantes para sua equipe. Deveria mirar-se e prestar atenção no que disseram o Dadá e o baixinho. Se não, fora Dodô!!!

29 de março de 2010

O recall

Este e outros bons textos, você encontra em www.cavernaweb.com
Trata-se de meu filho homônimo

O recall
Por Jorge Carrano

Um dia, o telefone toca na sua casa. Do outro lado da linha, uma voz gentil, calma e fria confirma seu nome e endereço, se apresentando como representante da empresa NewturEx. O assunto é grave:

- Estou ligando para agendar sua visita ao nosso laboratório para procedimento de recall.

- Recall? De que? - pergunta você, meio desconfiado.

- Bem, o recall é do seu fígado, aquele que o senhor “renovou” a partir de células-tronco, há 11 meses, protocolo número AXS2361-H6.

- Mas como assim, recall do fígado? Já ouvi falar de recall de carro, de celular, de televisão, mas de fígado?

- Pois é, meu senhor, o fato é que essa tecnologia é muito promissora, muito moderna, tem dado resultados incríveis, mas ainda não está totalmente consolidada.

- Como assim, vocês me venderam um serviço que ainda não estava pronto?

- Sabe como é, a concorrência hoje em dia é global. Só para o senhor ter uma ideia, tem uma empresa chinesa, nossa concorrente, que está oferecendo um pacote de fígado, coração, rim direito e ainda dá uma lipoaspiração e implante de cabelo pelo preço que cobramos só para revitalizar um fígado! E ainda temos que parcelar o tratamento em pelo menos 10 vezes, sem juros! Com o mercado desse jeito, não podemos investir tanto em testes com pacientes.

- Então, vocês simplesmente formulam a técnica e começam a vender, assim imediatamente?

- Pois é, mas não é só culpa nossa!

- Como não?

- As pessoas ouvem falar desse negócio de célula-tronco, implantes, revitalização de órgãos, criogenia e já fazem fila para conseguir o tratamento. E o que querem, que a gente se recuse a fazer o procedimento?

- Mas não seria isso o correto, já que há riscos envolvidos?

- Pode até ser, mas aqui entre nós, os acionistas não iam gostar nada disso…

- Mas, um momento, quem é mais importante, o paciente, que é o cliente de vocês, ou o acionista?

- O senhor quer mesmo que eu responda essa pergunta?…

- Não, não precisa… olha aí na agenda quando pode ser feito esse recall. Dá pra ser na segunda-feira?

27 de março de 2010

Ainda as cotas raciais nas universidades


O negro que se preza, não briga por estabelecimento de cotas raciais. O negro que se orgulha de sua raça, que tem dignidade, que se respeita, não quer favores. Ele briga por melhores escolas públicas, de boa qualidade, para todos. Inclusive os chamados remediados, que constituiriam a classe média. E esta não deveria ser uma luta dos negros. Deveria ser de todos os brasileiros.

Quem tem mais de sessenta anos, ou cinqüenta e muitos, sabe e deve lembrar que em Niterói, por exemplo, havia uma escola pública de alto padrão, referência no antigo Estado do Rio de Janeiro (antes da fusão), que era o Liceu Nilo Peçanha.

É verdade que o prédio está lá no mesmo lugar, mas infelizmente a degradação do ensino, por todas as razões conhecidas, levou o Liceu para a vala comum do ensino precário.

Vale acentuar que lá, no Liceu, nas décadas de 50 e 60, estudavam pobres, que se habilitavam através de provas de suficiência, mas também frequentavam seus bancos escolares os filhos de deputados, de médicos conceituados, de empresários bem sucedidos e de governador (fui contemporâneo de um filho de governador e de filhos de vários deputados).

Lá estudava a elite cultural, representada por alunos de bom nível primário (por vezes feito em boas escolas públicas estaduais e municipais), que passavam nas provas seletivas, e, também, a elite social, econômica e política, que eventualmente entrava pela janela, na base do pistolão, que era como se dizia naquela época.

Mesmo os pais que tinham recursos financeiros não colocavam seus filhos em escolas particulares, pois nestas o ensino era reputado inferior ao oferecido pelo Liceu, em Niterói, e ao Pedro II , no Rio de Janeiro. Este último mantido com recursos federais.

Logo, é possível manter alto padrão de ensino em escola pública. É preciso alocar recursos, para qualificar o corpo docente e melhor remunera-lo, para equipar laboratórios, e para fazer a manutenção dos prédios.

E o Liceu não se destacava apenas no quesito de formação curricular, com os cursos ginasial, científico e clássico que oferecia. Seus alunos se destacavam também nas competições esportivas. Nas olimpíadas estudantis realizadas periodicamente.

Sim, havia o curso clássico, no qual eram ministradas aulas de latim e grego, e era voltado para os alunos que pretendiam cursar ciências humanas.

E todos os bons alunos ingressavam nas faculdades, de engenharia, medicina, odontologia, direito e até mesmo nas academias militares, sem necessidade de cursinho pré-vestibular.

As populações da cidade e do estado eram menores, mas em contrapartida a arrecadação tributária era muito menor.

Só que, naquela época, havia menos corrupção passiva, peculato, concussão e prevaricação. E mais vontade política. Mais espírito público.

24 de março de 2010

Reflexões mais recentes e mais inteligíveis

Fizeram obras na Alameda São Boaventura, em Niterói, com o propósito de melhorar o fluxo do trânsito, que é extremamente intenso naquela via.

Pois bem, instalou-se o caos. Melhor, me corrijo, antes das obras aquele trânsito já era o caos, se considerarmos que o significado filosófico da palavra seria um vazio obscuro e ilimitado que precede e propicia a geração do mundo.

“Assim, o Deus poderoso, ardente de vida, faz surgir do caos o homem, a mulher, os astros” (Graça Aranha, A Estética da Vida, pp. 51-52), apud Dicionário Aurélio.

Não tenho qualquer tipo de informação privilegiada, reservada ou sigilosa, mas suspeito que autoridades públicas municipais e estaduais têm interesses nas empresas de ônibus intermunicipais que ligam Rio-Niterói-São Gonçalo.

Apenas este fato justificaria a não adoção da ÚNICA medida realmente eficaz para solucionar o problema do trânsito, não só na Alameda, bem como na cidade de Niterói, inclusive o acesso à ponte Rio-Niterói.

Alô! Ministério Público, com competência para defesa dos direitos coletivos e difusos.

A solução, óbvia, seria estabelecer uma ligação marítima entre São Gonçalo e Rio de Janeiro. Centenas de ônibus que vêm de São Gonçalo, até o terminal rodoviário de Niterói, localizado perto da estação das barcas, deixariam de circular. Milhares de passageiros são despejados diariamente neste terminal e o objetivo dos mesmo é um só: fazer a travessia da baia de Guanabara.

Simples assim.

                                                                           - X –

Vou completar 70 anos de idade, no próximo dia 21 de abril. Nesta idade, os magistrados se aposentam, com vencimentos integrais, e  uma boa parte deles começa a advogar. Inclusive Ministros do STF. Um deles, pelo menos, faz uso indevido de sua condição de ex-ministro (do STF), para defender causas suspeitas.

Este ex-ministro é o autor de uma das maiores bobagens que já ouvi de uma autoridade pública. Para justificar porque os magistrados têm direito a dois períodos anuais de férias, cunhou a seguinte preciosidade: “os juizes pensam o tempo todo”. Você e eu, pensamos part time.

                                                                          - X –

O Messi fez um goal maravilhoso no último jogo do Barcelona, pelo campeonato espanhol. Mais um para seu vasto repertório.

No campeonato inglês, o Drogba pelo Chelsea, e o Wayne Rooney pelo Manchester United, vêm fazendo goals aos borbotões, disputando a artilharia do certame.

Enquanto isto, no Vasco, temos o Dodô. Que vem a ser um Léo Lima com febre.

                                                                         - X –

Lendo uma matéria sobre a Academia Brasileira de Letras, deparei-me com nomes de integrantes sobre os quais nada sei. E de outros, o que sei não os credencia. José Ribamar, por exemplo.

Quero propor uma experiência: relacione 5 (cinco), apenas 5, ministros de estado, membros da ABL, ministros do STF e 5 amigos (mesmo!)

Você provavelmente constatará que: 1) está muito mal informado; 2) não tem amigos (a menos que tenha um cão).

                                                                         - X –

Está aumentando a altura média do brasileiro. E a longevidade. E o peso. Falta aumentar a educação.

23 de março de 2010

Refllexões aleatórias e ininteligíveis

No início de 2009, certamente num momento relax, naquela hora em que temos dever profissional a cumprir, mas quando se torna mais difícil raciocinar do que o habitual, escrevi estas reflexões que agora localizo na pasta "Rascunhos", de meu diretório "Pessoal", neste computador. Perdão por publicar.

Chineses e franceses têm uma coisa em comum. Ambos os povos gostam de cachorro em restaurante. Os primeiros sobre a mesa e dentro do prato; os franceses os preferem sob a mesa, refestelados. Qual destes povos gosta mais de cachorro?

Sob a tutela romana, os judeus crucificaram Jesus. Os mesmos romanos que agora, vários séculos depois, acreditam que Jesus veio a mundo para nos salvar. Quando é que os romanos estavam certos, há dois milênios quando lavaram as mãos ou agora no século vinte e um. Jesus foi mesmo o messias salvador ou era um precursor do Gentileza (personagem famoso das ruas)?

Há não muitos anos, indianistas embrenhados na selva, buscavam identificar e atrair tribos indígenas, oferecendo-lhes bugigangas. Sou vivido o suficiente para lembrar de enormes reportagens na revista O Cruzeiro, relatando as aventuras dos irmãos Vilas-Boas, que se arriscavam para atrair e catequizar os índios. Vez ou outra, conseguiam fotografar um rosto em meio a mata e o retrato ilustrava a matéria da revista. Os índios deixaram-se seduzir por espelhinhos e miçangas, pois eram atrasados. E desocupados. Muito atrasados e indolentes. Eram selvagens em estado bruto e preguiçosos por natureza. Preguiçosos ainda são. O que e onde os índios cultivam, com sucesso, em suas vastas extensões de terras? Se as terras indígenas pertencessem a um homem branco ou negro qualquer, não filado ao PT, já estariam incluídas na reforma agrária, sob o rótulo de improdutivas.

E agora? Deveríamos apoiar e cultivar as tradições indígenas, o que significaria mante-los no estágio de selvageria e de indolência? Ou atribuir aos mesmos os direitos e obrigações inerentes a todos os cidadãos, sem tutela ou protecionismo, considerando-os capazes para a prática de todos os atos da vida civil? Índio não quer mais apito. Agora arrendam suas terras para madeireiros e garimpeiros.

Eu achava uma coisa horrível aquelas figuras de índios nas estampas do sabonete Eucalol (décadas de 40 e 50) ou que ilustravam os livros de história e geografia. Gravetos espetados nas orelhas e no nariz. Cunhas de madeira nos lábios para que ficassem bem protuberantes. Corpos pintados com urucum e outras tintas extraídas da vegetação. Enfim, cá para nós, eram bem ridículos aqueles índios, não é não? Pois bem, cala-te boca, pois corro o risco de ver um neto (será que mereço este castigo?) usando piercings nas orelhas e no nariz e ter seu corpo tatuado com figuras grotescas. Quem sabe, ainda, se comunicando por grunhidos tipo huga-huga. Na Internet, o vocabulário e a grafia que utilizam já são ininteligíveis para mim.

Falar em índios, lembro que durante muito tempo oscilei entre ama-los e odia-los. Tanto torci para que o Gal. Custer os eliminasse da face da terra, não restasse um só chyenne ou sioux vivo, como aspirei para que Touro Sentado acabasse com toda a 7ª Cavalaria americana e ocupasse o Forte comandado pelo genro do General. Meu coração pendia ao sabor do enfoque dado pelo diretor cinematográfico. Assim, num filme eu era contra, no outro a favor. Na vida real, sou contra os privilégios outorgados aos índios. Está na hora de atribuir deveres e dar obrigações, como outra face da moeda dos direitos e prerrogativas, os mesmos que são cobrados e atribuídos aos brancos, negros e amarelos.

Já que falei nos negros, me pergunto porque o quilombo, qualquer deles, é cantado em prosa e verso e o gueto é condenado? Qual é a diferença? Os guetos tinham melhor infra-estrutura dos que os quilombos. A diferença é a liberdade? Liberdade para quê, cara pálida? Passar fome? Matarem-se uns aos outros de forma selvagem? Os guetos surgiram como solução de problemas e benefício social. E hoje a palavra tem caráter pejorativo.

Os negros, na África, antes da chegada dos europeus, viviam divididos em centenas de tribos, cada qual mais atrasada que a outra e em luta permanente. E faziam seus escravos os integrantes das tribos vencidas. Tal qual os romanos faziam há mais de dois milênios. E também os macedônios e os persas, e todos os vencedores. Os negros viraram escravos não por sua cor, mas por serem divididos entre eles mesmos, disputando miséria em conflitos mortais. Eram vulneráveis. Em Benim, a grande maioria dos escravos enviados para o Brasil e para Cuba e Haiti, foram vendidos pelos vencedores, mais fortes.

Voltando aos guetos, eles surgiram quando os europeus se fixaram no continente africano, em busca de riquezas naturais e ajudavam os habitantes locais, oferecendo água encanada, escolas, assistência médica e outros benefícios. Estes serviços oferecidos aos negros africanos, não eram fruto exatamente de compaixão humana, vá lá, e sim interesse em manter seus serviçais fortes e saudáveis para o trabalho. Mas e dái? Nos anos 70, quando em São Paulo grassou um surto de meningite e as vacinas eram raras, o Conde Matarazzo utilizou seu prestígio e seu poderio financeiro para conseguir muitas doses de vacinas, que foram aplicadas em todos os seus empregados, que direta ou indiretamente pudessem ter contato com ele. Não havia sentido humanitário na iniciativa do Conde em vacinar seus empregados. O que ele pretendia era se preservar.

De novo, voltemos aos guetos. Como os africanos moravam espalhados e em lugares afastados e até de difícil acesso, os colonizadores decidiram reuni-los, para facilitar o atendimento médico num posto de saúde, ter uma escola funcionando perto do local de moradia, oferecer um mais eficaz suprimento de água corrente e potável, e outros serviços, pois estariam todos concentrados em alguns poucos locais. Era mais fácil levar água até alguns poucos pontos de concentração, do que leva-la aos diferentes e muitos pontos onde residiam os trabalhadores. Seria necessária uma enorme rede de distribuição, inviável aquele época. Com o tempo, o gueto virou apartheid.

Fico pensando num mundo no qual todas as mulheres fossem como a Rose Di Primo (homenagem aos mais idosos), ou como a Vera Fisher (dos anos 80) ou como a Luma (este como aí corresponde a semelhante à, não ao verbo). Os homens iriam trabalhar? Claro que não, seria um desperdício. Lembram do personagem criado pelo Jô Soares, que se chamava Padilha e tinha uma mulher bonita e sensual? Pois é, o personagem não se conformava que com uma mulher daquelas o Padilha ficasse na rua jogando conversa fora. Faz sentido. Digo que os homens não iriam trabalhar, mas esqueci que cabeleireiros e carnavalescos homossexuais assumidos ou enrustidos, trabalham para as mulheres dos Padilhas ficarem atraentes e desejáveis. Diferentemente do que ocorre em alguns países do oriente, onde os homens podem ter várias mulheres ao mesmo tempo, nós aqui só podemos ter, oficialmente, uma mulher de cada vez. Daí porque não têm amparo legal os versos do poeta popular, que cantou que o homem não pode viver somente com uma mulher: “uma é para o pensamento, outra para o coração; uma é mulher de verdade , a outra é a inspiração”.

Em que madre Tereza foi igual a esta Suzane que freqüenta as páginas dos jornais por ter planejado e participado do assassinato dos pais? Só pode ser por ambas serem bípedes. Mas se também os ursos e os gorilas conseguem ficar eretos sobre duas patas, é mais correto comparar esta Suzane com um animal irracional. Em alguns países ela seria executada com injeção letal, ou tiro na nuca.

Circula na Internet uma piada antiga, que quando apareceu há vários anos, tinha como personagem um Lord inglês. Contava-se que ele estava deixando a Inglaterra antes que o homossexualismo virasse compulsório, já que na era vitoriana era combatido, depois passou a tolerado e mais recentemente passou a ser aceito oficialmente.

O meu bife preferido se ficasse um minuto a menos na frigideira, viria com o mugido do boi. Há quem prefira comer a carne turricada como uma sola de sapato. Eu sou cheio de contradições. Gosto do bife quase cru, mas não gosto de carpaccio, nem de quibe cru e nem de sushi ou sashimi. Coisas do complexo ser humano.

Com certeza não sou um ariano puro. Devo ter um pé na cozinha, como diria Fernando Henrique Cardoso, ou, quiçá, numa tribo tupi ou tapuia. Verdade que este sangue negro ou índio, está diluído em sangue italiano e português, mas ainda assim, impuro. Logo, não procurem qualquer manifestação racista nas minhas opiniões. Meu preconceito limita-se a burrice.

22 de março de 2010

Os norte-americanos

Meu pai comprava Seleções do Reader’s Digest. Eu era garoto, mas lembro de algumas das seções permanentes, tais como “Rir é o melhor remédio” ou “Meu tipo inesquecível”. A revista era pura propaganda do american way of life.


Além disso, os filmes mais comuns que assistíamos eram americanos, sempre inaltecendo as excelsas virtudes dos soldados americanos, sua bravura, seu patriotismo, sua luta pela liberdade.

E tinha a música, que eu ouvia e gostava. Aqui e alí, tomavamos ciência do funcionamento do sistema judicial norte-americano, e eu ficava fascinado com a independência, o elevado sentido de que a lei deve ser cumprida, por todos, indistintamente, e como os crimes tinham sempre consequências, ou seja, os culpados cumpriam as penas.

Convivi num ambiente universitário anti-americanista, mas sempre me mantive refratário a este espírito. Era (e ainda é em alguns setores inclusive do governo) moda ser anti-americano. Imagine, imperialistas, subjugam os paises mais pobres, importam nossas matérias primas e nos vendem o produto final, industrializado, a preço de dólar muito valorizado. Nos impingem chiclets. O capital escraviza o trabalho. E todas estas bobagens que, se tinham um resquício de veracidade, era por culpa nossa.

Bem, toda esta digressão, é para dizer que sempre fui admirador do povo americano, de seu “profissionalismo” no trato das coisas, sua supremacia no campo científico, no desenvolvimento de tecnologia de ponta. Diga-se, de passagem, que todas as conquistas no campo científico, deveram-se, ou devem-se, ao fato de que cérebros privilegiados sempre foram aceitos sem restrições de cor, religião ou nacionalidade. Os americanos abriram suas fronteiras as pessoas capazes. Acolheram de braços abertos, os bons atores, bons médicos, bons jogadores (Pelé foi importado por eles), físicos, matemáticos, enfim, quem fosse bom no seu ramo de conhecimento ou atividade, era mais do que aceito, era valorizado pelos americanos. Isso ajudou a construir uma grande nação. Nós continuamos com nossa xenofobia, mas isto é outra história.

Voltando aos americanos e à filosofia de vida deles, a seu sistema político e comercial calcado na livre iniciativa e no reconhecimento do desempenho, digo, sem qualquer vergonha ou arrependimento, que era fã dos americanos e do seu país.

Todavia, minha visão mudou. Não se trata de arrependimento, mas de decepção. Desde o episódio do onze de setembro, quando ficou revelada a fragilidade do sistema de defesa norte-americano, que na minha santa ignorância julgava inexpugnável; desde o terremoto que destruiu Nova Orleans, quando a demora na reação da defesa civil no atendimento às vítimas me deixou estarrecido; desde um recente episódio quando um casal, não convidado, compareceu a um jantar de recepção a uma autoridade indiana, e chegou a cumprimentar o casal Obama, revelando o quanto é vulnerável o serviço de inteligência e de proteção do chefe de estado, não confio mais na eficiência e profissionalismo dos americanos.

Mas eles ainda têm algumas coisas que devem ser admiradas e copiadas.

Ontem, domingo, dia 21 de março, a Câmara de Representantes, que vem a ser a Câmara dos Deputados, reuniu-se desde às 15 horas, para debater e votar a reforma do sistema de saúde . A votação terminou à noite. De domingo, gente!

Aqui, os congressistas comparecem, quando comparecem, às casas legislativas durante três dias na semana, de terça até quinta-feira. E olhe lá.

Trabalhar domingo, nem pensar. Nem com jetom.

Por estas e outras é que, malgrado as minhas decepções quanto as falhas estruturais americanas, ainda os admiro e respeito.

17 de março de 2010

Camelôs

Pior do que perder a capacidade de se indignar; pior do que não reagir, exigindo medidas objetivas, contra a violência que hoje impera; pior do que se omitir quando há oportunidade de agir a favor da justiça e da legalidade; pior do que tudo é aceitar como sendo sensato, inteligente e oportuno, que é melhor um delito do que o outro. Que se deve aceitar uma contravenção porque poderia ser pior. Isto é duro de engolir.

Maluf, quando governador de São Paulo, teve, entre tantos, um especial problema na área de segurança. Um estuprador matava suas vítimas depois do abuso sexual. O que recomendou o governador, pedindo com veemência, aos delinqüentes do gênero: estupra, mas não mata.

No outro dia repetiu-se uma cena já comum nos noticiários: ação da polícia ou guarda municipal, contra os ambulantes. Pois muito bem: o repórter, despreparado e equivocado quanto ao seu papel, entrevistando um dos ambulantes, que se considerava vítima da ação dos policiais, disse para o citado camelô – pelo menos você não está roubando, não é mesmo?

Bem, roubando o camelô não estava mesmo. Mas estava, ou poderia estar, cometendo uma enorme gama de outros delitos. Não é segredo para ninguém que boa parte das mercadorias vendidas nas ruas são contrabandeadas. Um crime. Os ambulantes não pagam impostos. Com isto, perdemos todos. Principalmente os mais carentes. É, em tese, com a arrecadação de impostos que os governos desenvolvem (ou deveriam) seus programas sociais.

Pode ser, e é bem provável, que os ambulantes, alguns, vendam também mercadorias roubadas ou furtadas. São inúmeros os roubos de cargas, nas estradas. E esta mercadoria é entregue ao mercado através de camelôs.

Comerciantes estabelecidos, e que pagam impostos (a maioria) e oferecem empregos formais, são duramente prejudicados pelos ambulantes, que fazem uma concorrência desleal, eis que não pagando impostos e trabalhando com contrabando e artigos roubados podem vender mais barato.

Lojas fechadas, representam desemprego e menor oferta de trabalho.

A sujeira que os ambulantes fazem nas ruas também é outro ponto nocivo. São toneladas de lixo a cada dia, que precisam ser retirados. Os restos, principalmente de comestíveis, frutas, biscoitos e tudo o mais, servem de alimentação para os ratos, que já não são poucos nos centros urbanos.

E o trânsito pelas calçadas? Fica um horror, porque eles ocupam os espaços dos pedestres. Ouvi, recentemente, um comentário muito pertinente de uma senhora que disse que teria que aprender, depois de certa idade, a andar de lado, como os caranguejos, pois era a única maneira de poder andar pelas calçadas, no estreito corredor entre os tabuleiros e barracas dos camelôs e as paredes dos prédios. Isto quando os tabuleiros não estão dispostos junto ao meio-fio e também junto aos prédios comerciais, deixando uma estreita faixa para os transeuntes. Só andando de lado mesmo.

A economia informal é considerada solução, porque pior seria o desemprego. Não concordo. A solução é mudar as leis trabalhistas e a política de impostos para incentivar a geração de emprego com carteira assinada.

E a manifestação do povo, quando da ação dos policiais é, como regra geral, de apoio aos camelôs: - tadinho, está trabalhando. Ou ainda, que pecado, o cara tá ganhando o dele honestamente. Não consigo aceitar discursos e posturas hipócritas. São as mesmas pessoas que reclamam que o transporte é ineficiente e caro, que as ruas são sujas e esburacadas, que faltam vagas nas escolas e os hospitais não têm leitos e profissionais para atender a todos com dignidade. Os ambulantes não contribuem em nada para ajudar a melhorar este estado de coisas, antes pelo contrário.

Se todos deixassem de comprar mercadorias em ambulantes, sob qualquer circunstância, eles não se propagariam como uma praga.

Mas enquanto acharem que é melhor vender contrabando ou mercadoria roubada, do que assaltar, então estamos mesmo resignados com nossa sorte.