Vou tentar situar no tempo e no espaço o que pretendo
comentar. Corriam os anos da década de 1940 e a II Guerra Mundial tinha acabado
oficialmente, com a rendição dos alemães. E chegada, na Baia da Guanabara, dos
pracinhas brasileiros que combateram ao lado dos Aliados, em campos da Itália.
O local era o bairro Ponta D’Areia, não muito distante do
Centro de Niterói. A rua na qual residíamos era a São Diogo,
Não lembro o nome do menino (de minha idade) porque não fomos
coleguinhas de escola, não jogamos peladas ou soltamos cafifas juntos. Episodicamente
nos encontrávamos.
Ele morava próximo. Na verdade a casa dele ficava na Vila
Pereira Carneiro, na divisa desta, murada, com o lado do bairro (Ponta D’Areia),
onde eu residia. Um pouco mais para a direita do morro e um pouco mais para baixo,
fica (ficava?) uma vila de casas geminadas, idênticas, estilo que lembrava vila
operária, onde minha família morava.
O acesso a esta vila se dava pela Rua São Diogo, no número 21
desta rua sem calçamento, de terra batida.
O que me atraia na casa dele, era o pombal. Sim, ele tinha um
pombal. Avistava-se desde longe, uma vara de bambu, na ponta da qual tremulava
uma pequena bandeira (um pedaço de pano branco). Orientação para os pombos.
Nesta época, nos meus 8 ou 9 anos de idade, esta ave me
atraia. As brancas, as cinzas, as rajadas de marrom, numa variedade grande de
matizes. Entretanto percebia-se a formação de alguns grupos de mesmos caracteres
hereditários.
Gostava e ir lá, pelo morro,para ver de perto ao pombos.
Na minha santa inocência, o pombo era a ave da paz. Era a
anunciadora de vida, com raminho de planta trazido no bico. Era um correio
confiável desde tempos imemoriais, medievais. E compunha pinturas sagradas,
religiosas, ao lado de anjos e santos.
Enfim, uma ave do bem. Até que cresci a comecei a conhecer
melhor suas facetas condenáveis: emporcalhavam estatuas e outros monumentos públicos,
peitoris das janelas e igrejas.
Ademais eram (são) transmissores de doenças. Considerados
ratos com asas. Puxa! Que decepção.
Assim, para mim, o pombo perdeu seu glamour, sua simpatia,
sua condição de portador de boas novas.
O mesmo se deu, no campo político, com certo parlamentar, que
embora contando já com alguns mandatos,
era desconhecido do grande público. Afinal transitava num pequeno gueto, um
feudo formado por militares e policiais. E agora, sabe-se, milicianos.
Jamais tive despertada minha atenção para a atuação parlamentar
dele. Nunca apresentara um projeto relevante, nunca presidiu uma Comissão,
nunca liderou uma bancada, em suma uma negação, uma nulidade.
Integrando o chamado “centrão”, grupo parasitário do
Congresso, incapaz de se manter fiel a uma sigla partidária, tendo transitado
por várias delas ao sabor de interesses pontuais, surpreendentemente sem vínculos
ideológicos, mas somente fisiológicos, jamais teve meu voto.
Mas deu-se que de repente, do nada, surgiu como o nome capaz
de derrotar o PT e o lulismo.
Meu horror ao governo petista, que combinava explosivamente
corrupção com incompetência, me assombrava. Eu estaria (se pudesse) no rol dos
brasileiros ansiosos por deixar o país por conta da possível permanência petista
no poder. Afinal eles tinham um projeto de poder, não de governo, bem articulado.
O tal obscuro parlamentar despontava como adversário do PT, capaz
de acabar com a corrupção, com a política populista, da prática do toma lá, da
cá, do é dando que recebemos, dos clãs, do viés socialista sindicalista.
Enfim tudo que eu execrava.
Embarquei na campanha e sufraguei seu nome nas urnas.
Quando ele se revelou, tirou a máscara, trouxe aos holofotes
sua família, exibiu seu negacionismo, sua vocação nazista, fiquei sem chão,
perdi a fé e o respeito por ele, e tudo que passou a representar no cenário político.
Assim como aos pombos, o desprezo como um ser nocivo,
detestável, que precisamos apear do poder.