sábado, novembro 16, 2019

Saint Bent's Fields forever

Por
Esther Lúcio Bittencourt



Foto ilustrativa:  Julio Piñon.


Saint Bent's Fields forever

não há parque das águas
central park, nada.
dona hermínia tem razão
tudo brilha no campo 
de são bento. tem mercado
na esquina, cine são bento
ruelas escondidas, botequim,
conversa, criança que faz birra
igreja para pecar e ser perdoado
bolinhas de ficos que espoucam
sob o andar de minha avó
algodão doce, pipoca caramelada, 
café, parar nos respingos
da fonte, cruzar um rio
e no lago jogar migalhas 
para peixes, patos, ir no coreto
para ver pinturas ou encontrar
e a igreja com hera que cobre
os muros, ortodoxa creio
cantar " eu vim passando pela
rua dos ingleses...." tem correio
padaria com doces transparentes
se não me engano uma livraria
na esquina pisar os seixos
do caminho chiando no caminhar
um perfume joaninhas louva a deus
lavadeiras um céu azul marinho
caramelo nas árvores na moita
um beijo consentido viajar na
gangorra subir ao limite da vida
rarefeito ar  intensa terra lavada
de sal salsugem metal submerso
trazer na mão cheiro de inseto
e servio tulio, saitn bent's fields forever.


Esther Maria Duarte Lucio Bittencourt, poeta, jornalista, violinista, membro da Academia Caxambuense de Letras, vários livros publicados.

quinta-feira, novembro 14, 2019

Deixei morrer sem nem mesmo tentar


Parece haver uma versão que fala em "quando os sonhos se tornam esperanças perdidas". Gosto mais. Comparem. Pincei via Google, os versos abaixo:

"E quantos sonhos se tornam esperanças perdidas

Que alguém deixou morrer sem nem mesmo tentar."

O que deixei morrer, sem tentar, parafraseando o astronauta, para mim foi uma pequena perda, mas enorme para a humanidade. Desisti de escrever um romance, com princípio, meio e fim.

Fiquei no terreno das intenções. Pensei nos personagens, em algumas interações, imaginei um par de situações sociais que mereceriam abordagem critica (para o bem e para o mal), e localizei o meio ambiente, o núcleo geográfico pra a trama: seria um condomínio. 

Não um condomínio edilício, tipo classe média, mas um condomínio horizontal, com belas e luxuosas casas, e toda uma infraestrutura de lazer como pier, quadras de tênis e até, talvez, um mini-campo de golfe. Coisa de ricos.

E aí estaria o cerne da convivência, porque rico pode ter origem no berço, de família tradicional aristocrática, mas pode ser um novo rico, quem sabe traficante internacional, ou jogador de futebol que construiu fama e fortuna, ou um empreendedor que construiu um império societário com ramificações em vários segmentos de negócios.

Bem, como diria, sobre o refinamento e gostos? Será que o pagode tão ao gosto de jogadores de futebol, por exemplo, iria contrariar o morador de família de quatrocentos anos, eventualmente com título de nobreza, conforme os Scarpa e os Matarazzo?

Aquele batuque, e não faço juízo de valor, inclusive porque sou eu mesmo admirador do Zeca Pagodinho, do Dudu Nobre, só para citar alguns, cairia bem nos ouvidos do homem de negócios (lícitos) que pretendia desfrutar de um final de semana tranquilo, em paz com a família e com amigos de gosto igualmente mais sofisticados?

E o traficante, descoberta a sua origem e em especial a de sua fortuna, seria abem acolhido neste meio? Difícil prognosticar porque traficantes internacionais costumam ter amigos influentes nos poderes da República. Somente quando os personagens ganhassem vida própria é que eu iria saber o rumo destas relações suspeitas, perigosas, espúrias.

Meu filho caçula, a quem confidenciei a intenção, me incentivou. Ele mesmo tem livro publicado.

Não contei a ninguém, mas a ideia do núcleo social que tem como denominador comum apenas o dinheiro, sem outros valores éticos, morais, de status familiar, surgiu há muitos anos quando num evento promovido pelo Grupo Matarazzo no clube Harmonia de Tênis, em São Paulo, tido e havido como fechado, elitista, alguém contou na roda de convidados em que estava, que o Silvio Santos, já então empresário e dono de canal de TV bem-sucedido, não fora admitido no quadro social porque não teria berço, por causa de sua origem modesta, de camelô.

Jamais soube se a versão era verdadeira ou falsa; o que importa para mim é que se havia esta lenda é porque algo bem próximo poderia ocorrer na vida real.

Dois condomínios que embora distantes do padrão daquele que elegi para ambientar meu livro, abrigam a classe média alta, passaram recentemente por situações incômodas.

Num deles reside o presidente da República, mas também um miliciano suspeito de ter assassinado a vereadora Marielle.

Outro, aqui em Pendotiba, na cidade de Niterói, uma das casas serve de locação apara vídeos pornôs.

É notória a prática das bolas pretas para barrar candidatos a sócios em clube elitizado no Rio de Janeiro.

Refinamento, bom gosto, sofisticação não se compra em loja de departamento. O dinheiro poderia ajudar a construir um verniz, uma couraça para encobrir a falta e elegância no trajar e no comportamento social.

Mas e o gosto literário, conhecer os grandes clássicos; a capacidade de se emocionar diante de uma tela de um mestre do renascimento, ou do movimento impressionista; reconhecer a arte numa bailarina virtuosa do balé, ou da prima-dama de um elenco de ópera? 

Bem, claro que você estão livres ... por enquanto. Porque se esta ideia abortei, outra poderá estar em gestação.


terça-feira, novembro 12, 2019

Saborizado artificialmente


Você compra, conscientemente, ou seja, sabendo, que um determinado sorvete é saborizado artificialmente? Mas não sabendo é capaz até de enaltecer  a presença do morango no sorvete.

Olha qui. Um quilo de carne de segunda pode custar entre R$ 15,00 e R$ 18,00, não pode? Mas o quilo da salsicha, feita com - sabidamente - carne de segunda pode custar um terço deste valor o quilo. Como pode ser? Mas compramos a salsicha porque não sabemos com ela é feita.


Você é capaz de comprar gato por lebre, como no ditado popular ou, na vida real, comer espetinho de gato? Sim, é! Isto porque o que os olhos não veem o coração não sente.

Assim era e deveria continuar sendo no futebol.

A inteligência artificial, tida e havida nos dias atuais como passo gigante não me entusiasma, se planejada para todos os fins. Exemplo? Ficar fora do alcance e controle do homem. Algorítimo ... 

Afinal a falibilidade é ou não inerente ao homem?

Há muitos anos, mais precisamente em 1963, numa mesa-redonda sobre futebol, chamada, salvo engano, de "Grande resenha Facit", Nelson Rodrigues decretou que o video-tape era burro.

Fico imaginando nosso maior dramaturgo, apaixonado comentarista de futebol, tendo que suportar o tal do VAR.

Num determinado jogo foi suscitada a dúvida do impedimento, o VAR confirmou a irregularidade do gol, após quase cinco minutos de verificação das imagens, com recursos ultra super tecnológicas.

Exibidas as imagens oficiais, do tal do VAR, verificamos que havia uma diferença desprezível que colocava o jogador em posição ilegal. O chamado, se me permitem a vulgaridade do termo, pentelésimo de milímetro de diferença.

Condenar o árbitro auxiliar (bandeirinha) por não assinalar seria um julgamento injusto. Era impossível determinar que o ombro estivesse a míseros milímetros a frente da cabeça do defensor adversário, acompanhando a jogada desde o nascedouro, ou seja, o penúltimo toque na bola, em velocidade real.

Mas pergunto. Você acha que foi feita justiça? Que a torcida comemorar, como aconteceu, a anulação do gol, e a adversária cujo time marcara o gol ficar frustrada e ter que engolir o grito de gol? O momento do gol e  o momento em que uma máquina valida o gol, tornaram o futebol mais justo? 

E a emoção onde entra nesta história? O gol era antológico para quem o marcara, iria para suas lembranças inesquecíveis e também dos torcedores de seu clube. Afinal ele se superara e contrariando sua falta de arte realizara uma jogada de pura genialidade.

A torcida já gritara e já esgotara seus rojões. Já desfraldara as bandeiras. E aí? Vai virar meme no dia seguinte.

O zagueiro que falhara na jogada, estando mal posicionado e não se antecipando, terá sua falha ignorada, passará desapercebida. Por milímetros desprezíveis. Três virgula noventa e nove por cento é mais significativo do que quatro por cento? É mais preciso para que finalidade?

Se fosse uma nota de corte para reprovação, eliminar quem conseguiu 3,99% é mais legal, é mais justo, do que arredondar e considerar  o candidato aprovado? Um centésimo pode alterar, para o bem e para o mal a vida de alguém. 

Uma calculadora poderá, ou não, fazer o arredondamento? Deve trabalhar com quantas casas decimais?

De minha parte acho que o futebol perdeu em humanidade e não ganha, necessariamente, em legalidade. Por que? Simples; a localização da linha virtual do impedimento é colocada na máquina por um humano e nem sempre ele é fiel a realidade dos fatos.

Um frame para a frente colocaria o atacante em posição legal porque a passada do defensor era maior e na hora do passe ele - atacante -  estaria atrás da linha.

Sou e continuarei crítico desta modernidade que em nada contribui para a emoção e prazer do futebol.

Viva a pelada, o futebol de várzea, sem impedimento e muitas veze sem juiz.

Em lance interpretativo continuará havendo "injustiças".


Notas:
Pentelhésimo 
https://www.dicionarioinformal.com.br/pentelh%C3%A9simo/

O videotape é burro (Nelson Rodrigues)
https://jornalggn.com.br/noticia/nelson-rodrigues-o-video-tape-e-burro/

Frame : fotograma, quadro, em imagens.

sábado, novembro 09, 2019

Inclusão: um direito de todos




Por
Alessandra Tappes







                Professora educadora, Neuropsicopedagoga, Especialista em Comportamento Aplicado, Especialista em Intervenção Precoce, Assistente Terapêutica.



Novamente fui convidada pelo manager do blog a matar a saudade de escrever nesse conceituado espaço. Como recusar um convite tão especial?

Mas primeiro preciso explicar o porquê trago aqui um texto técnico.

Estou ausente há dois anos em função da minha formação acadêmica, mergulhada em estudos o que me faz abrir mão dos meus hobbys: a escrita e o artesanato. (Lamentavelmente)

Essa convocação me motivou a trazer um texto voltado para meus estudos como forma de compartilhar a dura realidade dos bastidores da inclusão escolar.


Inclusão: um direito de todos.  
Mais do que um direito, uma conquista está causando pane na rede educacional.

O direito da criança autista ser inserida em educação regular está tirando o sono da rede de ensino. Como incluir sem excluir? Uma grande questão.

Estamos sofrendo um choque de conflitos sobre as normas estendidas da lei, que exige um profissional gabaritado para dar assistência as crianças atípicas. Mas tropeçamos com pouquíssimos profissionais com esse crivo, uma vez que para ser mediador precisa ter no mínimo especialização no assunto.

Existem duas questões bastante relevantes sobre o trabalho do mediador. A primeira se refere a formação. Segundo a  LDB – Lei nº 9.394 de 20 de Dezembro de 1996, Art. 59, inciso III: “professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns são indicados para atender a inclusão, porém diante da observação da prática da mediação escolar, profissionais da área da saúde e educação estão atuando como mediadores, principalmente da área da fonoaudiologia, psicologia, pedagogia, psicomotricidade e psicopedagogia por terem em sua formação um currículo mais próximo a compreensão do desenvolvimento infantil em sua totalidade para melhor entender os desvios no desenvolvimento global”.

A segunda questão: o salário. Rara a escola que consegue reconhecer que para se ter um profissional com tanta habilitação, é necessário um salário a altura. Afinal, o horário estabelecido por lei é de 20h semanais, o que permite ao profissional atuar profissionalmente seja clínico seja educacional.

Agora, um fator muito importante é a ineficácia das escolas tanto da rede privada como pública. Além de não levarem a risca a contratação de profissionais qualificados, não existe conscientização quanto a inclusão, conscientização essa junto ao corpo docente, discente e grupo de apoio escolar. Ter uma sala de recurso é uma condição necessária as escolas e não a única! Para se garantir uma boa inclusão, é preciso entender todo o processo, buscar novos recursos, reciclar ideias, preparar funcionários.

Recentemente passou a vigorar em nosso ordenamento jurídico a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno de Espectro Autista, consagrada pela Lei nº 12.764, a qual dispõe que os autistas passem a ser considerados oficialmente pessoas com deficiência. Ao enquadrar o autista na condição de deficiente, esse terá direito a todas as políticas de inclusão. O direito a educação sem dúvidas é uma batalha travada há muito tempo por pais que lutam pela inclusão desses menores em escolas regulares.
As escolas regulares públicas e privadas são obrigadas a fornecer acompanhamento especializado para alunos com TEA em casos de comprovada necessidade e, já adianto, não poderão cobrar mais por isso! A instituição de ensino não pode criar obstáculos para a inclusão do autista, do contrário seria a responsável por gerar desigualdades.

O Ministério da Educação já emitiu nota técnica (nº 24/2013) dispondo que as escolas privadas deverão efetuar a matrícula do estudante com transtorno do espectro autista no ensino regular e garantir o atendimento às necessidades educacionais específicas. O valor desse atendimento integrará planilha de custos da instituição de ensino, não cabendo o repasse de despesas decorrentes da educação especial à família do estudante. Da mesma forma, por óbvio, não será possível a inserção de cláusula contratual eximindo a instituição das suas obrigações.

Em uma de minhas passagens pela rede particular, fui contratada pela escola, que exigiu a apresentação de credenciais que garantisse a competência para o cargo. A minha qualificação era inquestionável, mas a escola não conseguiu adequar aos custos para o pagamento cabível  ao cargo. Foi no momento em que atendi uma criança de 8 anos, grau moderado/severo de autismo, com outras cormobidades (as cito aqui pois as mesmas são requisitos primordiais para um bom tratamento) e que infelizmente não é assistida da forma correta pela escola. Repito que nenhuma escola no Rio de Janeiro está preparada para manter crianças atípicas. Infelizmente estamos longe de sermos excelência em autismo...

Só para frisar, todo o material que pesquiso e toda minha formação, vem de fora. Não temos no Brasil know-how e todo conhecimento é baseado em estudos elaborados no exterior.

Curiosos sim, formadores de ponta somente Europa e os EUA. Por isso a ineficácia e ineficiência dos profissionais,  da rede educacional e consequentemente do cumprimento da lei de inclusão.


Notas do blogueiro:
1. Alessandra Pereira Tappes, é paulista nascida na cidade de Santos, de onde tem orgulho e saudade.
É graduada em Português/Literatura, mas o sonho de infância de ser professora, transformou-se no desejo de ajudar crianças com déficit cognitivo.
Para tanto pós graduou-se em Neuropsicopedagogia - voltada para educação inclusiva -  e  continua em processo de conclusão de cursos sobre Autismo, terapia sistêmica e psicopedagogia clínica e institucional.

2. Foi difícil convencer Alessandra a voltar a este espaço, que ocupou, para nossa alegria, algumas vezes no passado, com seus textos carregados de romantismo sem pieguice.

quarta-feira, novembro 06, 2019

Superação - minha vivência




In Memoriam

Carlos Frederico March
(Freddy)





Lendo os comentários variados do post “Superação” de meu irmão Paulo, o “Riva” deste blog, vieram-me à lembrança vivências pessoais relacionadas com o tema.

O maior exemplo de superação com o qual tive contato direto foi o de minha mãe, que se viu às portas da cegueira com cerca de 39 anos, dois filhos pequenos pra criar (eu com 6 e Paulo com 4). O prognóstico se concretizou com rapidez. Apesar de criteriosamente operada em Campinas, seu destino foi cruel: com 45 anos o último vislumbre de luz se foi.

Ela era uma pessoa dinâmica e independente, chefe de seção no IAPI (mulher chefiando na década de 50 era raro). A expectativa de se tornar inválida quase a fez desistir de viver mas um psiquiatra a lembrou justo dos 2 filhos pequenos e ela, com a ajuda inestimável de nosso pai, decidiu-se por encarar. Sobreviveu, superou a cegueira com garra e determinação. Envolveu todos à sua volta em sua luta, mas isso é outra história.

Sua segunda superação se deu em 1982, quando nosso pai, que para ela era seu “olho virtual”, faleceu e ela ficou simplesmente só. Nossa participação como filhos era comparativamente pequena, ambos tínhamos esposa e crianças. Esse outro drama de superação só terminou em 2008 com seu falecimento aos 89 anos.

Elogiando o empenho de Rodrigo em completar a maratona, feito digno de nosso respeito e admiração, e também sem querer chegar ao exagero de me comparar à minha mãe em sua luta, ocorreu-me relatar minha própria superação, uma vivência de grande impacto em minha vida.  

ANTES

No início de 1968, eu era um sujeito simplório. Gordo, “quatro-olho”, CDF, pacato, assim ia levando a vida. Adiava ao máximo a chegada da maturidade, quando as pessoas em geral falavam de grandes responsabilidades. Preferia estender minha infância ao máximo, com meus balões, cafifas, jogos, conversa fiada... Era como se minha vida fosse durar 100 anos. E eu só tinha 17, que beleza!

Entre as coisas que fazia, uma delas era estudar piano clássico na Escola Fluminense de Música, dirigida por D. Alice Amarante. Fazia-o mais para satisfazer minha mãe que, dentre as metas que se impusera (e aos demais) como motor da família, achava que eu deveria ser concertista.

Isso era um tremendo saco, teria de estudar coisa de 4 horas por dia de piano para manter a forma, mas só estudava 1, mesmo assim obrigado. Contudo, gostava de tocar - e muito! Não gostava era da perspectiva futura. Minha meta profissional era ser engenheiro eletricista e não pianista de carreira, como minha mãe queria e forçava.

Lembro-me do justificado horror de meu professor de piano, Aurélio, quando me via chegar nas aulas com os dedos cortados de cerol ou com as pontas calejadas e verdes do zinabre das cordas de aço dos toscos violões que usávamos para tocar Beatles e Jovem Guarda! Teve um dia que pensei que o pobre homem fosse ter um ataque apoplético, tal sua revolta ao me ver.

Dizem os esotéricos que minha mente influenciou o acidente. Em janeiro daquele ano de 1968 cheguei a fantasiar deixar o dedo numa porta batendo para quebrá-lo e não ter de comparecer a uma audição - aquela coisa terrível a que os alunos são obrigados quando em conservatório. Sempre achei audição um massacre emocional para quem não gostava - e eu não gostava. 

Toquei no malfadado evento a Polonaise Militar de Chopin sob intensa pressão de minha mãe - a quem eu não tinha coragem de confessar minha insatisfação. Em 4 de março fiz a prova final para tirar o diploma técnico de pianista. Dali para a frente, seriam mais 2 anos para obter o diploma integral. Já havia até comprado as partituras a estudar.  Não durou mais que 2 semanas...

O ACIDENTE

Em 16 de março de 1968, por conta de uma estúpida brincadeira entre irmãos, esbarrei numa porta de vidro ao perseguir Riva no quintal de casa e cortei minha mão direita. Foram-se 11 tendões, 2 nervos e uma artéria. Não passei da porta e tinha sangue no meio da cozinha.

Quem me levou de carro até o Hospital Antonio Pedro em nosso Simca Chambord foi Riva, que tinha 15 anos mas sabia dirigir. No banco de trás, meu pai tentava manter um torniquete em meu braço para estancar o sangue e eu murmurava  “Meu piano... Meu piano...”

Quase perdemos nosso cão (Boy), que perseguiu o carro em alta velocidade e não conseguiu achar o caminho de volta. Riva o achou à noite, perambulando sem rumo longe de casa.

Uma operação de 4 horas e meia no Hospital Santa Cruz, realizada pelo Dr. Paulo César Schott tendo como auxiliar o Dr. Sérgio Vianna, reduziu o corte, religando 10 tendões. 45 dias depois, no início de maio, uma segunda operação de 4 horas e meia tentou religar os 2 nervos. A artéria ulnar não foi religada, ou não funcionou o reparo - fiquei sabendo décadas depois.

COMEÇANDO A ENCARAR

Eu ainda não disse, mas era o ano de meu pré-vestibular para engenharia. As aulas no Instituto Gay-Lussac, para onde havia me transferido vindo do Liceu Nilo Peçanha, já haviam começado no início de março. Perdi pouco mais de uma semana de aula com a primeira operação e mais outra com a segunda.

Eu sou, ou era, destro. O resultado das 2 operações em sequência foi que do meio de março até meados de junho fiquei com a mão direita engessada. Quem estudou naquela época sabe qual era o ritmo de um pré-vestibular. Passei a assistir as aulas e fazer toscos rabiscos nas apostilas com a mão esquerda. Por sorte minha, as provas eram tipo teste, de modo que fazer “x” nas respostas era fácil com a mão esquerda. Mas tinha Descritiva...

Algumas aulas me foram copiadas sem que eu pedisse por um anjo em forma de colega, Lúcia Maria Mendes Simões. Ajudou-me bastante a guardar anotações de algumas matérias onde muita coisa era dita em aula, fora das apostilas, e eu não conseguia escrever.

Aos poucos fui aprendendo a ser canhoto. Para estudar em casa, a solução foi bastante simples: passei a escrever em quadro negro com giz, pois era muito mais fácil escrever em quadro que em caderno com a mão esquerda.  

Como já disse acima, o gesso da primeira operação foi tirado para fazer a segunda e só 45 dias depois eu me vi livre dele em definitivo. Entretanto o braço havia ficado confinado desde março, de modo que sua aparência era simplesmente trágica. As carnes ficaram inchadas e as cicatrizes afundadas, entremeadas de dezenas de pontos, formando grotescos sulcos. A munheca estava torta, por ter sido mantida dobrada para facilitar a união dos tendões. Eu tinha a aparência de um aleijado.

Lembro que, sozinho no terraço de minha casa, chorei olhando aquele membro retorcido e disforme.  Era-me difícil acreditar que voltaria ao normal.

SUPERANDO

Então começou minha luta, com o pré-vestibular à toda. Tinha de dormir amarrado numa cadeira porque o braço não podia descair, para que o afluxo de sangue não prejudicasse os pontos internos. Tinha de andar com a mão pra cima, presa na tipóia com o pulso na altura do ombro esquerdo.

Tive de aprender algumas coisas simplórias, como me limpar no banheiro, escovar os dentes, comer, escrever, me vestir, tudo usando apenas a mão esquerda com a direita no alto 24h, engessada.

Claro que todos à minha volta me ajudaram. Por exemplo cortavam carne pra mim nas refeições. No início papai me ajudava a tomar banho com o braço direito pro alto e envolto em plástico, na maioria das vezes em banheira.  Tinha carona pra ir e voltar ao colégio.

Não comentei ainda, mas aquela droga doía! Passei meses tomando analgésicos até que passei a me acostumar com a dor. O ápice foi uma consulta em dentista que, como praxe, mete o motor até onde a gente agüenta. Lá pelas tantas ele parou perplexo, pois eu não reclamava. Então eu expliquei a ele da resistência à dor adquirida e ele respirou aliviado, comentando: “- Achei que o nervo estava morto!”

A escola relevou minhas ausências nas provas de descritiva até julho, quando fiz uma valendo por todo o semestre. A mão direita, já sem o gesso mas essencialmente inerte, apenas ajudava a apoiar esquadro e régua, o resto a mão esquerda tinha de fazer sozinha.

A fisioterapia intensiva que passei a fazer numa clínica mostrou que a sensibilidade da mão avançaria 1cm por mês a partir do corte no punho e  passei a contar o tempo que restava para chegar à ponta dos dedos, mas houve problemas. Apenas um dos nervos regenerou e resultou em movimentos reduzidos.

Para resumir a progressão, consegui pegar num lápis/caneta mais ou menos em setembro, pois a mão estava absolutamente sem força ainda. Minhas primeiras notas ao piano se deram no final de outubro, com grande esforço pela fraqueza, alguma dor e pela dificuldade provocada pelo nervo que não regenerou.

A essa altura eu já me transformara em pequeno gênio. Aprendera a fazer contas de cabeça, minha memória desenvolveu de maneira extraordinária. Antes que chegasse ao final das toscas anotações canhotas, já sabia as respostas dos cálculos. Aprendi a estimar grandezas e resolvia questões de física e de geometria muitas vezes sem usar a progressão das fórmulas, apenas por intuição.

Quando chegou o vestibular, em princípio de janeiro/69, eu já conseguia escrever novamente com a  mão direita, meio fraco é verdade, mas não mais precisava ser canhoto. Só a prova de Descritiva do vestibular é que foi feita com a esquerda, usando a direita só para segurar régua, esquadro e compasso. Eu ainda confiava mais na esquerda.

ACOSTUMANDO

Passei no vestibular. Aos poucos a mão foi melhorando e fui me acostumando com as limitações. Na PUC só tive alguma dificuldade no curso de desenho a mão livre, como era cobrada a Descritiva no 1º período do ciclo básico.

Meus pais sofreram mais que eu, pois para eles o médico (a maioria deles insensível quanto aos sentimentos do próximo) dizia que eu tinha poucas chances de voltar a ter movimentos e sensibilidade. Para mim todos diziam que a cura dependia de minha persistência nos exercícios fisioterápicos.

Sem muita maldade nem desconfianças, acreditei. Passei a viver 24 horas alongando os tendões da mão direita com a esquerda. Conversando, assistindo aula, vendo TV, ouvindo som, o tempo todo eu ficava alongando, alongando... Virou uma segunda natureza.

Em relação aos tendões, essa persistência deu resultado. A parte neurológica dependeu de sorte e dos exercícios de choque que forçavam os nervos a reagir. Repetindo, um dos dois não correspondeu e é fonte de problemas até hoje. Não consigo unir os dedos com a mão espalmada, há uma área insensível no dorso e perdi o discernimento para coisas pequenas.

Por exemplo, às vezes é um tormento bater foto. A ponta do dedo indicador não acha o botão de disparo e não raro perco o instantâneo por causa disso. Preciso olhar para o botão, colocar o dedo em cima e então voltar ao visor para compor a foto. Às vezes ele escapa de novo e perco mais tempo. As máquinas em sua maioria esmagadora prevêem o uso do indicador direito para clicar. Os smartphones vieram para resolver isso (rs rs).

Voltei a tocar piano! Contudo, a falta do tal movimento de junção de dedos me impede de tocar acordes complexos. Além disso, peças muito velozes e cansativas me causam cãibra na mão, porque a perda de irrigação sanguínea pela artéria que não foi ligada se faz sentir.

Ainda toco algumas peças clássicas, remanescentes do tempo em que eu estudava a sério. Faço-o com algumas adaptações de partitura, seguindo recomendações de um jovem professor de piano que me deu aulas durante poucos meses em 1982:
“- Jamais deixe de tocar por causa das limitações. Adapte os acordes, simplifique trechos e cadências, invente, mas toque!”

É como faço. No mais, a maioria de meu repertório atual é de peças populares que adapto às limitações existentes. Voltei a gostar do piano, sem a pressão de ter de ser concertista.

Violão é mais fácil, pois os acordes são feitos com a esquerda. Mesmo assim, não consigo segurar uma palheta de guitarra por longo tempo, ela me foge dos dedos sem que eu perceba. Passei então a privilegiar cordas de nylon, praticando o chamado violão dedilhado. Pra mim é mais fácil.

Enfim, sou canhoto para um monte de coisas hoje em dia, como por exemplo para pegar pequenos objetos em caixas ou bolsos, escovar dentes, limpar-me. Dependendo da tarefa que estiver executando, um observador ocasional pode decidir que eu sou canhoto.

CONCLUINDO

Confesso que passei por uma fase de revolta, lá mesmo em 1968. Achei que minha vida trilharia um caminho de exceção, diferente dos demais mortais, perfeitas e saudáveis criaturas.

O maior trauma a superar, aquilo que mexeu lá dentro de mim,  foi que meu braço, àquela época ainda bastante deformado (melhorou com o tempo), aumentou a timidez que eu já tinha frente ao sexo oposto. Pegou-me em plena juventude. Não bastasse achar-me gordo e desajeitado, usar óculos (o que na época ainda era esquisito), ainda tinha aquelas imensas cicatrizes a piorar minha auto-estima.

Então - isso percebi décadas à frente - passei a usar, intuitivamente, a teoria de que devemos aproveitar as crises como oportunidades de melhoria, encarando os novos desafios com as armas reduzidas com que passamos repentinamente a dispor. Tinha acabado de descobrir que o dia de hoje não garante o de amanhã, havia que fazer algo.

Mudei o comportamento, que era de pasmaceira frente ao cotidiano para uma maior atenção ao que realmente me importava. Minha mãe, coitada, declarou que “havia perdido um filho”. Sim, de certa maneira parei de estar ao lado dela no dia-a-dia, como era costumeiro de minha parte, para então começar a cuidar de meus próprios interesses. Minha real adolescência começara! Tardou mas veio.

O tempo, afinal, se encarregou de me demonstrar que mazelas e limitações  não fizeram grande diferença no que realmente importa para sermos felizes. Trabalhei, diverti-me, tive altos e baixos como todo mundo, com grandes e pequenas superações de menor monta no cotidiano.

Casei-me e assim estou há 38 anos. Nem minha esposa nem minhas filhas jamais fizeram comentários acerca da aparência de meu braço direito. 

Talvez porque haja outras coisas mais importantes a considerar do que cicatrizes num braço.

Um de meus pianos eletrônicos - Yamaha DGX630


Notas do editor: 

1) Carlos Frederico, o Freddy dos parente e amigos mais íntimos, era engenheiro de telecomunicações. Vascaíno, fotógrafo e astrônomo diletante, era amante da boa mesa, da boa música e apaixonado pela família. E adorava viajar.
2) Publicado originariamente em 31/07/2015.
3) O post "Superação" citado no primeiro parágrafo é encontrável em 
4) Agradeço à família, a autorização para republicação deste post. Valeu Mary, Renata, Flávia e Paulo.

domingo, novembro 03, 2019

Generalidades especializadas 10 anos



Por
Riva


O Generalidades Especializadas nasceu em novembro de 2009, criado pelo meu amigo Jorge Carrano.

Uma idéia genial, tendo em vista que não tinha um assunto focal (como o próprio nome induz), escreve-se o que quiser, dentro das regras de respeito total ao próximo.  Mas com o objetivo de deixar para sua família e amigos um histórico da sua vida .... e deixará, com certeza.

Já foram quase 3.000 postagens nos seus 10 anos de existência, riquíssimas em conteúdo diversificado, de experiências e leituras pessoais sobre tudo que se pode imaginar .... política, artes, viagens, cinema, gastronomia, esportes, astronomia, literatura, aviação, comportamento humano, tecnologias, vinhos, meio ambiente, sustentabilidade, sei lá mais o que ... TUDO !

Se você é um devorador de livros (e eu sou), pense sobre a possibilidade de ler um livro intitulado GENERALIDADES ESPECIALIZADAS, embora ainda não tenha sido publicado.

Com certeza um livro maravilhoso, sei lá de quantas páginas ( comercialmente imagino uns 7 volumes de umas 400 páginas cada um ), uma leitura profunda, divertida, inteligente, variada, networking maravilhoso entre amigos e desconhecidos, uma fonte maravilhosa de conhecimento.

Existe algo mais gratificante do que compartilhar conhecimento ?  Pois é, o Blog GENERALIDADES ESPECIALIZADAS proporciona isso tudo.

Eu adoraria aqui poder escolher algumas pérolas entre os milhares de posts que foram publicados e que li, mas vou com certeza cometer uma mega injustiça se tentar fazer isso. 

Mas no meu caso, em especial, adoro o meu primeiro post publicado ... estava inspiradíssimo quando escrevi sobre um ‘Domingo Spicy e sem Brasileirão” ...


Well, foi e está sendo gratificante participar desse trabalho maravilhoso do meu amigo Jorge Carrano.

Não tenho participado do Blog como antes em função do exaustivo trabalho em meu dia a dia atual, mas leio diariamente suas publicações ;  o “PUB DA BERÊ” (ele vai explicar isso) faz parte da minha vida, dos meus valores, do meu norte do BEM ...

Amigo Carrano, obrigado por nos proporcionar esse canal de ligação, numa época em que infelizmente nos vemos pouco presencialmente, só virtualmente.

A riqueza da sua criação nos faz sentir que estamos numa mesa de bar, todos juntos, tomando um drink, e debatendo assunto super relevantes e bacanas em nossas vidas.

Isso é VOCÊ ! Valeu demais !!


Nota do blogueiro:  O autor é engenheiro, tricolor, leitor voraz e contumaz, escuta Led Zeppelin, mas aprecia igualmente outros artistas  e gêneros musicais. Fica fulo quando declino seu nome de batismo, preferindo abrigar-se no apelido oriundo das quadras e campos de futebol).

sábado, novembro 02, 2019

Sic Transit Gloria Mundi



Latim e inglês combinados. De qualquer forma seria pouco mais ou menos como "a gloria do mundo é transitória". Assim como nas usuais siglas abreviatórias, onde RIP, pode tanto ser rest in peace quanto pode ser requiescat in pace.

Não irei ao cemitério Parque da Colina neste dia dedicado aos mortos.

Mas estive no outro dia, para verificar o estado de conservação do jazigo. Isto porque há algum tempo um larápio, ou um bando deles (são muitos desocupados no local oferecendo serviços), subtraiu a pequena lápide, onde estavam gravados com letras forjadas em liga metálica, os nomes de meus pais.

A própria lápide era em granito negro, e também levaram. Quando questionei na administração, comunicando o furto, prontificaram-se a recolocar a peça e os dizeres nela gravados.

Só que o fizeram desta maneira vista nas fotos.

Não vou brigar por isto, não compensa. Aliás, pela minha mulher, nós venderíamos o jazigo e manifestaríamos junto aos filhos, desde já, o desejo de cremação de nossos corpos. É uma hipótese ...

Sei que meus pais não estão ali, nem em matéria e nem em espírito, posto que estes não podem ficar aprisionados em uma cova, rasa ou profunda. No próximo ano (2020), meu pai terá de desencarnado o mesmo tempo de vida terrena, 57 anos, eis que nasceu em 1906 e o óbito ocorreu em 1963.

Mas tem o simbolismo e a facilidade de, na data do óbito, a gente "ter onde cair morto", para utilizar ditado popular que significa, no sentido inverso, estar na pindaíba, sem um mísero tostão.

Vista parcial da fachado do Parque da Colina, em Niterói, e vista do gramado defronte a entrada, onde na quadra 45 temos o jazigo, minha última morada.  Ou não!






Notas: 
1) Comprei o jazigo quando venceu o prazo de ocupação do carneiro no cemitério do Maruí e as cinzas de meu pai foram colocadas em pequena urna, trasladada para o Parque da Colina, onde alguns anos depois foi sepultada minha mãe.

2) Estou melhorando a média de longevidade da família. Meu viveu apenas 57 anos e minha mãe 65.

3) Desde 1987 o local permanece intocado, sem sepultamento e sem exumação.