15 de abril de 2017

Eu e as palavras que me surpreenderam

Meu pai tinha um vocabulário rico. Fruto, imagino, de longo período em que foi linotipista na imprensa oficial (Diário Oficial) e em jornais privados.

Foi, também, revisor. Ficou familiarizado com palavras, e as empregava no cotidiano com naturalidade, sem afetação.

E esse, por assim dizer, rico vocabulário, empregava com propriedade para o bem e para o mal. Se era para enaltecer, elogiar, ou se era para criticar, contestar, usava sempre palavras inusuais nos diálogos de filmes, novelas ou seriados.

A primeira que tenho lembrança – era menino – foi parcimônia. Ele havia deixado sobre o móvel dinheiro para despesas da casa com um escrito lacônico onde se lia: parcimônia nos gastos.


Uso culto da palavra
Ora, isso gerou comentário de minha mãe, porque nem era tanto dinheiro assim que ela pudesse gastar perdulariamente. A repetição da palavra parcimônia fixou-a em minha memória.

Mais tarde, no curso ginasial ouvi do Otávio, colega de classe, que fulano, outro colega, era um bucéfalo. Assustei-me porque ele falou em voz alta e me parecia ser um palavrão daqueles proibidos no ambiente familiar.

Alexandre e Bucéfalo (aqui um cavalo)
Em casa, à noite, meio encabulado disse para meu pai que ouvira uma palavra desconhecida e não sabia do que se tratava.

Ele disse para eu falar qual era. Como estivesse hexitante, ele incentivou, diga!

Que alívio, não era um palavrão, não era obsceno.

Nos testes psicotécnicos para ingresso na Escola Preparatório de Cadetes do Ar, na década de 1950 do século passado, havia uma pergunta: Costuma se masturbar?

Mulher se masturba.
Na época os meninos não sabiam
Ora, nós candidatos estávamos numa faixa de idade entre 14 e 16 anos, recém-formados no ginasial e embora o ato em si pudesse fazer parte de nosso cotidiano, o nome pelo qual conhecíamos era outro. Outros na verdade porque conhecia pelo menos mais duas variações.

Sorriso geral na sala quando um dos candidatos levantou o dedo pedindo esclarecimento sobre o vocábulo.

Ah! É isso?!

Outras palavras, sem dúvidas inéditas para mim, apareceram ao longo da vida e me levaram aos dicionários. Mas foi já “burro velho”, pai de filhos e advogado, que me deparei com “esgargalado” numa obra do José Saramago.

Caramba! Que será isso? Indagava a mim mesmo a caminho da estante onde repousava e repousa ainda o Aurélio (embota tenha agora versão digital).

Achei tanta graça que acabei por escrever primeiro um conto que mais tarde foi adaptado para um post publicado neste blog.

http://jorgecarrano.blogspot.com.br/2014/08/palavras-sao-palavras.html

Que surpresas o idioma ainda me reserva?


7 comentários:

GUSMÃO disse...

Uma mais ou menos nova que está na moda: empoderar.

Riva disse...

Hoje no meu grupo do Whapp dos colegas/amigos da turma de 66, surgiu um intenso debate quando um dos nossos mencionou a palavra FRACTAL no meio de um assunto.

Demorou uns 40 minutos para a turma se acalmar e parar de trocar mensagens ......

Carrano, seu post me faz relembrar a primeira vez que ouvi a palavra BICHO, se referindo a alguém, e esse alguém era EU. Meu professor particular de Matemática, insatisfeito com uma dúvida minha sobre equações do segundo grau, falou pra mim : "Pô, bicho ! "

Fui pra casa p.... da vida, e a ficha só caiu dias depois, pois não estava ciente da nova forma de tratar as pessoas.

Tá difícil entrar aqui e não ver comentários do Freddy. Sua ausência ainda é uma fortíssima presença em mim, não dá para me acostumar que ele se foi, que não estará mais entre nós.

Sorry.

Jorge Carrano disse...

Riva, meu caro:

Venho em seu socorro. Memorize a fórmula (-b±√(b^2-4ac))/2a

Quanto ao Freddy e sua marcante presença no blog, creia que também eu, embora sem pretender mensurar o tamanho da perda, que sou levado a buscas e liberação de comentários em posts antigos da lavra do teu irmão.

Vira e mexe esbarro em textos dele.

Já nem falo dos comentários, espaço onde polemizamos e divergimos inúmeras vezes. Será que deveria me penitenciar de uma contundência menos controlada ou de extrapolar na defesa de minhas teses?

Confesso que por vezes a hipótese me aflige, mas por outro lado se ele não tivesse importância e simplesmente o ignorasse aí sim teria mais remorso.

Requiescat in pace.

Riva disse...

Nada para se penitenciar. Blogs têm exatmente essa riqueza das diferenças a debater, polemizar. Não teria graça, ninguém acessaria, se fossem assuntos em que todos concordam com o exposto.

Freddy foi-se, com seu jeito de ser, de ver, sua música, suas manias, cedo demais.

Ana Maria disse...

Creio que o rico vocabulário que tinha nosso pai era fruto de leitura. Embora com pouca instrução formal, ele era um "devorador" de livros. Em sua estante encontravam-se títulos dos mais variados assuntos que iam de livros técnicos na área do direito e da contabilidade até instrutivos volumes que versavam sobre como criar galinhas.
Aprendi com ele a respeitar e apreciar a literatura. Adorava manusear cada um dos exemplares e procurar saber sua origem. Como o senhor conseguiu este aqui? Era minha pergunta constante.
Muitas preciosidades me entroduziram na prosa e verso. Sim, diferentemente de seu primogênito, meu pai amava poesia e "cometia" algumas incursões na área.

Jorge Carrano disse...

Flamengo não ganha nem no tapetão.

KKKKKKK


http://globoesporte.globo.com/futebol/brasileirao-serie-a/noticia/stf-indefere-recurso-do-fla-e-sport-segue-como-unico-campeao-de-87.ghtml

Jorge Carrano disse...

Do repertório de meu pai, palavras que seriam fartamente utilizado no quadro político atual:
Pulha, biltre, canalha, traste, safardana e outras encontráveis nos melhores dicionários.