Êta coisas boas, sô!!!
Mas são coisas diferentes? Sei lá, vamos aos “aurélios”. E ao
Google. Em apertadas definições, encontrei:
- ócio: folga, espaço de tempo em que se descansa;
- preguiça : estado de prostração e moleza; aversão ao
trabalho.
Inventaram um “ócio criativo”. A monografia, o livro, é de
Domenico Di Masi. Mas será dele a ideia de que a pausa na atividade diária, no estudo, no exercício da profissão, para descanso e lazer, é uma coisa importante e que se inclui
no conceito de trabalho?
Não deve ser, é coisa dos romanos.
Eu deveria ter conhecimentos, rudimentares que fossem, da
língua dos romanos, o latim. Tive alguns anos de estudo durante o ginasial e no
vestibular era matéria que reprovava.
Falo do latim agora porque o nosso ócio vem da palavra
latina otiu, que significava, para eles, lazer. Logo, nada condenável. Não é
pecado querer momentos de lazer, folga do trabalho. O dolce far niente.
De meu ponto de vista entendo o ócio como um tempo livre,
disponível, vago, para nada fazer mesmo, nem pensar (se é possível), apenas relaxar,
vadiar, descansar, um momento de preguiça.
Olha a preguiça aí, associada ao ócio.
Mas da preguiça eu me envergonho, reluto e reajo contra. O
ócio é socialmente aceitável. Quem condena o desfrute de alguns momentos de
ócio, de prazer?
Colocar uma coletânea do Ray Charles para tocar, fechar os
olhos é deixar o pensamento livre, leve e solto, sem destino, easy rider, é muito prazeroso, é muito
produtivo pois alimenta a alma.
A preguiça faz limite com a malandragem, que é diferente da
vadiagem.
Agora explico o porquê de estar escrevendo sobre isto. Estava
ontem deitado, à tarde, no pós almoço, agasalhadinho (devia fazer menos de 20
graus) e tirei uma pestana. Afinal um feriado de cunho religioso, num país
laico, tem que servir para alguma coisa.
Despertei e comentei com minha mulher, que já estava acordada: a cama está uma delícia, não é que não tenha coisa alguma para fazer, sempre se
tem, mas estou com preguiça.
Essa preguiça era falta de ânimo, de vontade, de levantar para
dar sequência a uma empreitada que comecei há três anos: descartar inservíveis,
incinerar papeis velhos, livrando-me de muitos ácaros que devem povoar meus
arquivos de casa. E do cheiro, nada agradável, de papeis velhos quando se abre
uma ou outra gaveta.
Mas o ócio, o estar ali deitado confortavelmente sem
sentimento de culpa pois era feriado, acabou cedendo lugar ao estado de
preguiça que me pareceu presente.
Não posso, não devo, ter preguiça. Afinal tenho tarefas, que
eu mesmo me impus, para cumprir. Logo o momento de ócio (necessário, positivo)
foi sucedido pela sensação de preguiça (negativa, censurável).
A conclusão a que chego (perdoem a bobagem) é que a preguiça
é um ócio do mal, a preguiça é a face perversa do ócio.
Ontem acabei deixando a cama, rápido, não para me dedicar a
arrumação e organização dos arquivos, mas para perpetrar este texto, que terei
a ousadia de fazer publicar no blog.
Em suma. Quando ainda deitado pensando sobre uma eventual diferença
fática entre ócio e preguiça, estava exercendo o ócio criativo, pois bem ou mal
resultou neste post que você acaba de ler.
Notas do autor:
1) tenho enorme vocação para o ócio, por isso combato pertinazmente este impulso trabalhando duro e com responsabilidade.
2) passei toda a infância e pré-adolescência ouvindo que o latim era uma língua morta e por isso não fazia sentido estuda-la (apenas o suficiente ara não ser reprovado). Ledo engado, verifiquei mais tarde. Nos anos 1960 quando ingressei na faculdade e sabia muito pouco latim. E aí vieram os fundamentos básicos de nosso Direito, os institutos do direito romano (uma cadeira no curso de bacharelado) que são ainda o alicerce de nossa legislação. Sem contar que é a fonte da qual deriva nossa língua. Quem conhece latim tem mais qualificação para escrever em português.
3) imagens pinçadas no Google.