quarta-feira, janeiro 20, 2016

Nostalgia




Por
Carlos Frederico March
(Freddy)






Faz mais de 2 anos que entregamos a casa de Friburgo aos novos felizes proprietários. Sua venda fez parte de uma revisão orçamentária, sem a qual estaríamos o tempo todo fazendo contas para sobreviver em nossa aposentadoria. Não é razoável... Ou a gente encara e continua trabalhando (aí não é aposentadoria) ou se ajeita para que as coisas continuem macias - dentro do que permite a economia e a política brasileira, mas isso não vem ao caso agora.

Tudo começou em 1980. Conversando com o já falecido colega da Embratel, Ulysses (aquele que fez a guitarra pra mim, assunto de post publicado), ele me mostrou as facilidades de um programa de férias do Pargos Club (parece que ainda existe). Dentre as cidades disponíveis, constava Nova Friburgo.

Dos destinos previstos no programa do Pargos, experimentamos os de Rio das Ostras, Cabo Frio e Nova Friburgo. Para nossas necessidades da época, o da serra se mostrou maravilhosamente adequado. Chama-se Villa Rica Country Club e fica no km 2,5 da estrada que liga os distritos de Mury e Lumiar.

Villa Rica Country Club
Na época a gente só tinha Renata e quando Flávia nasceu (1982) já éramos frequentadores assíduos do Pargos. Uma lembrança quase trágica marcou esse período: em 24/03/1984 Flávia achou um buraco num parapeito de madeira e se jogou, caindo de mais de 3m sobre um jardim. Por pouco não foi pior, ela caiu sobre um arbusto a centímetros do caminho de cimento que atendia ao pavimento inferior do bloco de chalés.

Passamos um bom tempo indo com as meninas e familiares passar dias ou semanas no Vila Rica, até que em meados de 1987 as deficiências do estabelecimento começaram a nos incomodar. Orientado por meu psicoterapeuta (“você já alcançou um patamar acima desse padrão de vida”), resolvi frequentar Friburgo em hotéis, mesmo tendo o Pargos como quase grátis.

A escolha foi o Hotel Schumacher, hoje Dominguez Plaza na Praça dos Suspiros. Fomos diversas vezes durante 1988, quando aproveitei para sondar propriedades na cidade. Comecei procurando terreno para construir, depois a preguiça me levou a procurar apartamentos prontos e então recaí no condomínio Serraville, o mais novo em construção na cidade no padrão veraneio serrano.

Comprei um pequeno apartamento de 2 quartos em dezembro/88 e comecei a usá-lo efetivamente em janeiro/89, plena época de um daqueles mirabolantes planos econômicos do governo Sarney: o Plano Verão. Quase que não consegui pagar os móveis e eletrodomésticos, mas sobrevivemos ao plano e a vida seguiu.

Condomínio Serraville

Flávia e Renata foram criadas participando ativamente de grupos da mesma idade no condomínio e eu era quase pinto no lixo. Havia muita atividade social no clube Serraville e passei a participar ativamente de noitadas musicais. Várias delas foram patrocinadas por mim (disponibilizava meus instrumentos para o pessoal se divertir junto). Em outras tantas, eu era parte da noitada que algum de meus amigos patrocinava. Ou fazíamos tudo em grupo. Sempre tinha música lá.

Pouco tempo depois, Collor assumiu e imóveis se mantiveram por algum tempo muito baratos. Aproveitamos para incluir no patrimônio familiar 2 apartamentos num condomínio similar ao Serraville, mas num patamar superior de concepção: o Parcville.  Foram construídos na modalidade plano condomínio, de modo que ao terminar não havia saldo devedor. Eu e meu irmão Paulo (Riva deste blog) ficamos lado a lado em belos e compactos apartamentos duplex no bloco D2, tendo a mata e jardins floridos como vista perene em nossas minúsculas varandas.


Condomínio Parcville

Paulo logo assumiu seu apartamento mas eu relutava em sair do Serraville. Sim, claro, o apartamento do Parcville era muito superior ao do Serraville, mas eu já tinha um enorme grupo social. Contudo, por pressão, acabamos nos mudando (acho que foi em 1996).

Foi o primeiro de nossos grandes erros em Friburgo.  Na cidade havia pouco o que fazer: restaurantes, compras eventuais, e passeios mais eventuais ainda. Não há tanto o que se ver na região, ainda mais sendo veranista constante. Passamos a frequentar muito o distrito de Mury, onde alguns excelentes bistrôs eram (e ainda são) referência gastronômica.

Fora comer e comprar calcinhas e sapatos (putz, como tem sapataria naquela Av. Alberto Braune!), pouco resta a não ser a vida social nos nossos condomínios. Se por um lado fui pinto no lixo no Serraville, no Parcville definhei... Não consegui intimidade com nenhum dos moradores e a gente basicamente só interagia localmente com Paulo e família - quando íamos juntos.

Parcville, vista da varanda
Nem por isso deixei de lado meu belo apartamento de frente para a mata. Levávamos com frequência parentes e amigos para lá e passamos grandes momentos - só entre nós, não junto aos demais moradores como era no Serraville... Poderia talvez ter mantido contato com meus velhos amigos, afinal era a mesma cidade. Acho que foi falha pessoal...

E assim foi até 2006. As filhas cresceram, deixaram de participar de nossa rotina familiar. Cada vez era mais comum subirmos eu e Mary, solitários. Começou a perder a graça, quase que passou a ser obrigação ir a Friburgo, para não deixar o apartamento mofar, sujar, etc...

Preciso deixar claro que justo durante a “era Parcville” foi quando comprei em Niterói a cobertura duplex. Muitas de nossas festas e algazarras sociais eram realizadas no terraço, que aos poucos foi sendo melhorado, culminando com o piano-bar e a boate. Ficava difícil para o Parcville competir em termos de união familiar festiva. Ainda mais sem a vida social local.

Em 2006 aposentei-me e não demorou, conversando com um corretor de imóveis que morava no Parcville, pedi-lhe indicação de poucos, bem poucos imóveis dentro de um padrão fechado que eu escolhera, incluindo faixa de preço. Ele me mostrou a casa de meus sonhos, duplex, belíssima vista, mas que tinha uma escadaria para ser acessada que inviabilizaria seu uso dentro de poucos anos - a gente envelhece...

Como um de meus requisitos era uma certa liquidez (quem garantia que eu me adaptaria a morar para sempre em Friburgo? - premonição braba), acabei deixando de lado a casa dos sonhos e optando por uma casa plana numa aconchegante “vila americana” no Cônego.  

Condomínio Pedra do Cônego
A casa 10 tinha um inteligente projeto arquitetônico, bela decoração interna e excelente qualidade de materiais, situada num bairro nobre e de grande liquidez imobiliária. Foi, de fato, uma escolha “quase” perfeita. Tinha um  ou outro senão que com o tempo foram superados.

Sobre nossos demais imóveis em Friburgo: vendêramos o apto do Serraville já há alguns anos, acabamos vendendo também o do Parcville depois de curto tempo de moradia na casa 10. Esta era suficiente para um casal que eventualmente receberia hóspedes. Costumo dizer que de todos os imóveis que tive na vida, foi o melhor deles em concepção, decoração e uso. Coloquei em prática minha veia jardineira e operei pequenos milagres, como salvar e transformar em atração especial a trepadeira de arco no jardim lateral.

Trepadeira de arco


Seus jardins eram também meu estúdio fotográfico de macrofotografia, com grandes oportunidades em flores, insetos (principalmente aranhas e suas teias) e cogumelos. A única coisa que a casa não tinha era horizonte...

Cogumelo no jardim da casa 10
Isso a cobertura em Icaraí tinha, e era lindo, quase 360º de vistas, incluindo o Cristo Redentor ao longe! Apesar de praticamente morarmos a partir de 2007 em Friburgo,  ainda mantínhamos nossa base niteroiense.

Infelizmente não podíamos nos fixar direto em Friburgo, por causa da necessidade de atendimento constante à minha mãe cega e a essa altura limitada a uma cama, Semanalmente descia para Niterói, o que gerava um desgaste emocional muito grande.

Além disso, nossas filhas ainda lá moravam e mesmo depois que elas saíram, cada uma para viver sua vida independente, quando eu descia a serra vivia batendo centenas de fotos de nascer e por do sol lá do terraço. 

Crepúsculo visto da cobertura em Niterói

Mesmo com esses percalços, quebrando semanalmente a calma rotina serrana, conseguimos um início empolgante, quando nos inserimos rapidamente na vida social da pequena comunidade. Estava indo tudo bem, eventualmente minha mãe faleceu em 2008 e a necessidade de vir a Niterói com frequência se restringiu a visitar as filhas, que por seu lado podiam nos visitar em Friburgo, para isso existia um bem montado quarto de hóspedes.

Eis que acontece o momento de ruptura: o desastre de 12 de janeiro de 2011.

Havíamos subido depois de uma ausência desde antes do Natal e Réveillon de 2010/11, que passamos em Gramado/RS. Justo no dia 11/01/2011 subimos. À noite fomos jantar no La Bamba, como de hábito. Em Nova Friburgo é o nosso restaurante preferido, tanto pelo cardápio, pelo preço, pelo atendimento. Saímos de lá às 22h, já sob temporal insistente. Deu pra chegar em casa. De madrugada, os raios e trovões sacudiam a estrutura da casa (que não tinha laje no teto, apenas forro de gesso e o telhado) e o cheio de terra era intenso.

Quando amanheceu sem luz, sem TV, sem internet, sem telefone, sem celular, tudo destruído em torno, aos poucos fomos nos inteirando da enormidade do acontecido. Quando soubemos que o retorno da eletricidade era incerto, quem sabe 3 dias, pegamos tudo da geladeira e freezer, um tico de roupas e nem arrumamos o resto: descemos a serra que estava com inúmeros pontos de retenção e quedas de barreiras.

Os vizinhos olharam para nós tipo “vão nos deixar sozinhos?”. Respondemos que não tínhamos motivo algum para permanecer no local da tragédia pois tínhamos nosso apartamento em Niterói. Pronto! Olhares desaprovadores nos seguiram quando nosso carro se foi...

Quando voltamos, já tudo praticamente normalizado, passamos a ser alijados de rodas de conversa, de pequenas reuniões caseiras. Não éramos mais “parceiros”, não havíamos sido solidários no desenrolar da crise. A coisa chegou ao clímax quando, no Natal de 2012, chegamos dois dias antes e percebemos movimentos de festa. Havia uma comemoração no condomínio e não fomos convidados. Até caminhão de Papai Noel chegou, e era numa casa em frente à nossa.

Lá pelas 21:30 um vizinho foi eleito para desfazer a gafe e nos chamou lá do portão. Éramos convidados a participar - isso depois de meia festa andando. Preferimos declinar do convite. A partir daí, não éramos mais parte do corpo social do Condomínio Pedra do Cônego.

Como parte da reestruturação financeira familiar, já estávamos com a cobertura à venda e juntamos a casa de Friburgo. Um acaso do destino fez com que ambas fossem vendidas com 2 dias de intervalo. Primeiro a cobertura, na base de troca e torna financeira, e logo após a casa em dinheiro vivo.

O apartamento da troca era excelente e suficiente, mas vender junto a casa foi uma decisão adequada . Apesar de não mais essencial em termos de reestruturação financeira, a rejeição de que éramos alvo no condomínio era motivo mais que suficiente para nos desfazermos dela. Posso acrescentar que Mary já não agüentava mais a cidade. Até concordo: veranear é uma coisa, morar é outra!

No dia 28 de novembro de 2013 tomamos posse do apartamento no qual moramos agora, porém subimos imediatamente para Friburgo para fazer a retirada dos pertences para permitir a ocupação pelos novos donos. Portanto, no dia 2 de dezembro de 2013 foi quando nos despedimos definitivamente da cidade de Nova Friburgo, depois de 33 anos de convívio constante.

Nunca mais voltamos... Por quê?

Em parte, porque não nos faz falta, a não ser um ou outro restaurante no qual costumávamos passar incontáveis noites entre acepipes e bebidinhas. Essa prática se restringiu ao Cônego depois da Lei Seca, que acontece raramente mas é uma loteria... Nos momentos finais, raramente íamos a Mury e quando íamos ao La Bamba à noite, a gente evitava consumir álcool...

E finalmente porque, se pensar bem, nos libertamos da “prisão” de termos de ir somente a um destino turístico: Friburgo. É puramente emocional, mas quando você já tem uma casa de serra, fica estranho pagar para ir a outra. Agora vamos com certa freqüência a Petrópolis, Campos do Jordão, Penedo e também Teresópolis.

Como derradeira justificativa, vi-me diabético da noite para o dia (novembro/2015). Frequentar uma cidade na qual o lazer é comer e beber não é exatamente o programa adequado a quem precisa manter uma alimentação controlada...

Assim sendo, já se vão hoje mais de 35 anos de minha história de vida...

Friburgo a cada dia se torna uma lembrança mais distante... 

segunda-feira, janeiro 18, 2016

Trabalho escravo de animais

Minha mãe não gostava do Jerry, achava que ele fazia muitas maldades com o pobre do Tom.  Com efeito o ratinho de cara simpática judiava muito do gato que, afinal, estava só cumprindo seu papel e seguindo sua natureza.

O que esperava a dona da casa que o Tom fizesse era exatamente aquilo, afugentar os ratos.

Mas vamos a explicação do porquê de ter escolhido este tema apara o post de hoje. Acabei de ler, no livro da vez,  uma passagem sobre o Palácio de Cristal, um gigantesco salão construído  para a Grande Exposição  de 1851, numa borda do Hyde Park, na época da rainha Vitória.

Importaram um par de gaviões para cuidar dos pássaros que invadiriam as galerias, daquela enorme estrutura de mais de seiscentos metros de comprimento, com área  de noventa mil metros quadrados, todo construído em ferro e vidro.

Assim é, a natureza dos animais, suas índoles, colocadas a serviço do homem.

E os jacarés que habitavam os fossos que circundavam alguns castelos medievais? Estavam ali prestando serviço, longe de seu habitat natural.

No Clube Líbano Fluminense, na sua sede campestre, eram mantidos alguns carneiros com a missão precípua de manter a grama aparada e evitar o crescimento do capim indesejável.

Lembro que na fiação que o Grupo Matarazzo mantinha em São Bernardo, no ABC paulista, havia gansos para proteger a área  contra  ação de intrusos. Os gansos, como é sabido, são excelentes guardas.

O conde tinha tanta preocupação e carinho com os tais gansos, que quando um deles apareceu morto, exigiu que fizessem uma autópsia para saber a causa da morte e, se o caso, responsabilizar a administração da planta fabril.

Claro, eu mesmo tive um cão que se impunha pelo porte avantajado e pela disposição para enfrentar perigos. Claro que tinha afeição pelo animal, davamo-nos muito bem, mas a verdade é que ele tinha uma missão: proteger minha propriedade em São José de Imbassaí.

Os burros puxam carroças, as focas fazem gracinhas em parques aquáticos e os coelhos, coitados, ajudam os mágicos.

Tudo trabalho escravo. Deixemos de hipocrisia, porque mesmo a velhinha que mantém um gato de estimação, o faz para ter uma companhia. 

sábado, janeiro 16, 2016

Será que dá pra fugir para as montanhas?





Por
Carlos Frederico March
(Freddy)







Recentemente veio à baila o tema "será que um dia a Terra vai acabar?". Foi abordado num artigo publicado no site da UOL. O articulista cobriu praticamente tudo, mas como já me acostumei que, mesmo havendo 3.958 artigos na internet sobre um assunto, sempre podemos acrescentar nossa visão pessoal, e também instigado pelo blog manager, lá vai.

As hipóteses que nos ocorrem podem ser divididas em capítulo, ou sub-temas:

1) A Terra ser consumida pelo Sol em seu declínio como estrela

2) Sermos atingidos por um grande asteroide ou cometa

3) A Terra entrar em convulsão interna

4) A Terra ser tornada inabitável por humanos (guerra, efeito estufa)

5) Catástrofes biológicas

De todas as hipóteses acima elencadas, a única que certamente acaba com a Terra é a de número 1, contudo num futuro pra lá de longínquo em se tratando de raça humana. A 2 poderia até ser, mas a chance de sermos atingidos por um astro que consiga destruir a Terra como planeta é essencialmente nula. As demais implicam em extinção da raça humana, mas não da Terra como planeta.

Hipótese 1 - Terra ser consumida pelo Sol

É uma quase certeza astronômica. Pelo tipo do Sol, a evolução esperada segue uma sequência como a mostrada na figura a seguir:

Autoexplicativa, não precisa de caption

Ele irá queimando seu combustível interno, hoje majoritariamente hidrogênio e um pouco de hélio, até começar a queimar elementos mais pesados. Com isso ele vai esquentar bem mais do que é hoje. Só isso já é o suficiente para fazer evaporar oceanos e dispersar a atmosfera. Dizem os pessimistas que isso pode acontecer já nos próximos 500.000 anos.

Em cerca de mais uns 4 a 5 bilhões de anos ele finalmente atingirá o segundo estágio mais significativo, que é o de gigante vermelha. Sua atmosfera causticante aumentará tanto de tamanho, apesar de ser muito tênue, que vai engolir sucessivamente Mercúrio, Vênus, Terra e quem sabe também Marte. Esse não temos certeza porque não há como antecipar até onde o Sol vai expandir antes de... antes de atingir o próximo estágio em sua evolução esperada: ejeção do envelope de gás rarefeito num evento chamado de nebulosa planetária. Sobrará apenas uma estrela bem pequena, uma anã branca. Pequena em tamanho, mas densa a ponto de uma colher de matéria pesar tanto como um edifício.
 
                                                            Nebulosa do Anel, M57

Após o estágio de anã branca, cercada apenas dos planetas que sobreviveram a isso tudo, provavelmente de Júpiter em diante, ela vai esfriar por éons até desaparecer de vista no tempo infinito, cadáver frio do que foi uma fulgurante estrela.

Não creio que haja civilização que resista a uma espera de 500 mil anos, a experiência mostra que a gente vai se destruir antes. Se num acaso divino sobrevivermos, até lá já teremos desenvolvido tecnologia pra cair fora daqui.

Hipótese 2 - sermos alvo de asteroide ou cometa

Escrevi artigo sobre essa hipótese em junho/2015, antecipando o evento "Asteroid Day". Pode ser consultado através do link:

http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/06/papo-de-astronomia-asteroid-day_6.html

Recentemente a mídia voltou a abordar o perigo de sermos alvo, agora focando na ameaça de grandes cometas que orbitam os confins do Sistema Solar na chamada Oort Cloud (Nuvem de Oort). Milhões de cometas nela vagueiam inocentes mas, de vez em quando, algum planeta ainda desconhecido, ou algum dos incontáveis planetas-anões das extremidades do Cinturão de Kuiper (abordado no recente texto sobre Plutão), podem lhes perturbar a órbita e lançá-los em direção ao Sol.

Mera loteria, isso acontece amiúde e no passado recente temos notícia de poucos grandes o suficiente para causar danos consideráveis, como relatado no post "O medo dos gauleses". Eles não temiam nada, a não ser que o céu lhes caísse sobre as cabeças! Consultar, se interessar:

http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2012/04/papo-de-astronomia-o-medo-dos-gauleses.html

A catástrofe seria, provavelmente, restrita a alguma localidade ou, num exagero imenso, poderia afetar toda a ecologia terrestre. Contudo, a figura de "destruição da Terra" não se aplicaria.

Hipótese 3 - Convulsão interna na Terra
 
Vulcão Calbuco, Chile
Pouco ainda se sabe sobre o que nosso planeta nos reserva. Estamos sobre grandes placas sólidas que nadam sobre um manto de magma fervente. Vez por outra uma fissura acontece e temos a erupção de um grande vulcão. Um exemplo recente (historicamente) foi a explosão do Monte Tambora na Indonésia em 1815, causando uma condição climática no planeta similar a um inverno nuclear. As colheitas foram atingidas em diversos continentes, muita gente morreu de fome e o ano de 1816 foi conhecido na Europa como o "ano sem verão".

Os cientistas bem que tentam monitorar as profundezas, mas o planeta pode se tornar irascível de um momento para o outro e a movimentação de algumas placas continentais pode causar uma série de erupções vulcânicas, terremotos e tsunamis capazes de arrasar a civilização. Por destruição imediata ou por alteração climática posterior.

É uma condição que traria as mesmas consequências da queda de um grande asteroide ou cometa. Portanto, como dito na hipótese anterior, a figura de "destruição da Terra" não se aplicaria.

Hipótese 4 - Auto destruição da civilização

O homem já deu mostras de constituir sociedades que não se agradam umas das outras. Seja por fanatismo religioso, necessidade de expansão territorial, radicalização de opiniões de cunho político, divergências comerciais, motivos não faltam.

Nada impede que entremos numa guerra que venha a destruir toda a civilização, provavelmente de cunho nuclear ou bacteriológica. As consequências seriam imprevisíveis. Desde a extinção completa de seres vivos na superfície como uma destruição seletiva. Apenas algumas espécies sobreviveriam, com mutações ou não.

Uma morte mais lenta seria, como tem sido previsto e é um tema bastante atual, o efeito estufa. Levado a um estágio de descontrole, pode causar escassez de água potável, perda de safras em âmbito global e, como consequência, fome generalizada. As florestas definhariam, os campos se tornariam uma imensa planície estéril, o acesso à água doce seria dependente de tecnologia para dessalinização dos oceanos. Recurso para poucos e mesmo esses poucos acabariam se extinguindo.

Mais uma vez, é uma hipótese que resultaria na extinção da humanidade sem a destruição física do planeta. E vejam: mesmo que a Terra se mostrasse por alguns milênios inóspita, um dia haveria novamente estabilidade ecológica e algum tipo de vida voltaria a dominar os mares, campos e céus.

Hipótese 5 - Catástrofes biológicas

Fruto de guerra ou de falhas de manipulação de espécies perigosas em laboratórios de pesquisa, pode acontecer um dia sermos assolados por algum tipo de doença global, destrutiva e incurável.

O resultado seria um planeta cheio de vida, ecologicamente equilibrado, mas sem o homem. Quem sabe daí a dezenas de milênios uma nova raça de seres "inteligentes" não se formaria, um pouco melhor que a nossa atual?

CONCLUINDO

Em quaisquer das hipóteses acima elencadas, eu sinto muito mas creio que não vai adiantar fugir para as montanhas. Talvez prevendo isso começa-se a cogitar colônias humanas em Marte, mesmo tendo a Lua aqui do lado. O que eles sabem que nós não sabemos?


quinta-feira, janeiro 14, 2016

Posso usar seu telefone?

Nosso número de telefone era 2-4806.  Corria o ano de 1951. Era um privilégio ter telefone em casa. Alguns números telefônicos possuíam apenas quatro dígitos. 

Não havia “orelhões” de sorte que a maioria das pessoas dependia dos telefones de estabelecimentos comerciais. No botequim do Sr. Henrique, na Rua Santa Clara, era preciso pagar Cr$ 0,50 (cinquenta centavos) se a ligação fosse local. Ou "incomodar" o vizinho que tinha linha instalada.

Na farmácia era impossível telefonar. O aparelho tinha até um cadeado no disco, para que os empregados não facilitassem para algumas pessoas. Eles recebiam ligações, mas só o proprietário – Demerval – podia fazer chamadas.

Alguns destes estabelecimentos admitiam, excepcionalmente, para fregueses conhecidos, chamadas interurbanas. Mas era muita mão-de-obra porque ao final da ligação era preciso entrar em contato com telefonista e pedir o custo da chamada para poder pagar ao dono do negócio.

Ligações  interurbanas para o Rio de Janeiro eram feitas através do prefixo 07, mas para o restante do país era preciso discar  01 e pedir a ligação à telefonista. Dependendo do local e hora, poderia levar horas.  A telefonista fazia uma previsão do tempo de espera.

A concessionária era a Companhia Telefônica Brasileira, e as contas eram pagas na sede da empresa, ou seus escritórios, e não em bancos.

Vocês podem estar pensando que sou um decrépito, dos tempos dos sinais de fumaça ou batida de tambor, para comunicação à distância. Nada disso tenho só 75 anos, a caminho dos 76 brevemente. Já contei em algum momento neste blog que quase não consegui me casar no dia aprazado por falta de comunicação telefônica.

Esta dificuldade era para ligação entre o Brasil e a Cochinchina? Não, entre Niterói e Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. Tudo porque naquela que era a segunda cidade do Estado não havia rede telefônica. Havia, apenas, um Posto Telefônico onde era possível pedir ligações. No local havia três cabines, pedida a ligação num balcão, a atendente apregoava: “Sr. Jorge, sua ligação para Niterói, cabine dois.”

Mas deu-se que na véspera de meu casamento, surpreendido com uma informação do pároco local de que para casar lá em Cachoeiro eu precisava de um documento expedido pelo padre da paróquia da região onde eu residia em Niterói, dando autorização, fiquei aturdido. E Wanda em pânico.
E aí como nada está tão ruim  que não possa piorar, como ligar para Niterói, para a casa de minha mãe, que tinha telefone em casa, e pedir que ela providenciasse com o padre da igreja da Vila Pereira Carneiro o tal documento de autorização?

Sim, havia o Posto Telefônico, só que não sei porque cargas d’água, ou melhor sei, problemas nas linhas de transmissão deixaram a cidade de Cachoeiro sem comunicação com o resto do mundo, naquele dia.

Olhem a maratona necessária para pedir a minha mãe, em Niterói, para conseguir a autorização do padre. Coitada, teria pouco tempo, num dia 30 de dezembro (eu casaria no dia 31), para achar o padre, negociar a expedição do documento e depois levar para Cachoeiro, onde ela chegaria no dia 31 pela manhã.

A gincana foi mais ou menos a seguinte: na sede da Viação Itapemirim, em Cachoeiro,  com autorização do Camilo Cola, foi feito contato por rádio com o guichê da empresa  na Rodoviária do Rio de Janeiro. Foi informado ao operador do rádio, no Rio de Janeiro, o número telefônico de nossa casa, a fim de que ele telefonasse e reproduzisse o recado: “favor providenciar, urgente, autorização do padre da igreja dos Sagrados Corações, para o Jorge casar fora da jurisdição da paróquia em Niterói.”

Só deu certo porque tinha que dar. Nosso casamento civil ocorreu às 11 horas da manhã, na casa de meus sogros, naquela cerimônia com o Juiz de Paz, cumprindo as formalidades e ritos legais: “de portas e janelas abertas, etc...”

Minha mãe já havia chegado, pouco antes, com o documento e foi então possível, às 18 horas, casar na igreja na citada cidade capixaba. Ana Maria, minha irmã, que costuma visitar este espaço virtual a tudo presenciou. Se me engano em algum detalhe ela certamente atalhará. Era final do ano de 1964.

O objetivo do post não é meu casamento, mas evidenciar o atraso que vivemos durante muito tempo com os serviços públicos concentrados nas mãos do governo. Somente com a privatização, agora em anos mais recentes, é que todo mundo se comunica com todo mundo. Posso até perpetrar estes relatos sem pretensões outras senão registrar fatos.

Wanda combina com a manicure e marca diarista pelo celular. Eu fiz contato, hoje, com um estofador, utilizando o celular  dele. Um dos porteiros do prédio onde moro passa o dia no celular (até ser demitido, o que não tardará a acontecer). Ou seja, a comunicação telefônica, em aparelhos celulares, está absolutamente democratizada.

E o cancelamento de linha convencional, de telefone chamado fixo, é tão difícil quanto foi no passado conseguir uma linha. Depois de casado entrei em fila de plano de expansão, pagando carnê, e esperei 15 meses para receber meu telefone.

terça-feira, janeiro 12, 2016

Disparidade de preços






Por
Carlos Frederico March
(Freddy)






Outro dia estava a navegar a esmo, mera diversão, em sites de instrumentos musicais. Eu gosto de violões, apesar de ser prioritariamente pianista e ter, de fato alguns pianos e sintetizadores. Tenho, porém, violões de vários tipos e gosto de tocá-los, sozinho (solo e acompanhamento) ou com amigos, quando faço apenas acompanhamento.   

A marca Gibson é uma das mais conceituadas e tradicionais no mercado internacional e, por isso, me vi atraído pelo site. Cara, os preços me impressionaram! Claro que no site é preço de tabela e lá, como aqui, é costume nas lojas haver promoções. Ou não, depende da cidade, do volume de vendas, essas coisas.

Observem os dois modelos abaixo:

Gibson SJ-200

Gibson SJ-250 Monarch

Colocar preço aqui, como disse acima, é mera referência, mas os descontos nas lojas não seriam tão grandes a ponto de desfazer a relação entre eles. Vocês talvez não acreditem, mas as diversas versões do SJ-200 têm preço de tabela entre US$ 3.799,00 e US$ 4.499,00 e o SJ-250 Monarch custa a bagatela de US$ 21.399,00.

É muito? Um amigo meu achou no eBay um SJ-250 Monarch sendo anunciado por US$ 50.000,00. Deve ser porque é difícil de achar nas lojas e quem tem pede o que quer. Ou quem sabe vem assinado por algum grande músico da atualidade ou do passado... 50 "grands" por um violão?!

Vamos falar sério! Pra começar, é cara de um, focinho do outro, com discretas alterações estéticas. Sim, claro, deve ser a qualidade da madeira, algum ouro incrustrado (não consegui ver)... Mas será que justifica uma diferença tão brutal de preço? O Monarch custa por volta de 5 vezes o preço de um SJ-200, que já é de per si caríssimo!

E a gente, que mora no Brasil e o dólar disparou? Para trazer um brinquedo desses legalmente teríamos de pagar imposto de importação: 50%. Vai daí, a preço de tabela um SJ-200 custaria uns R$ 23.000,00 e um Monarch nos custaria nosso reino inteiro, ou seja, coisa aí de uns R$ 128.000,00.

Você pode optar por um violão Gibson ou por um BMW X1 básico, por exemplo! Teve colega meu que disse que, como não sabia tocar violão, compraria é o BMW mesmo (rs rs). No meu caso, fico numa dúvida imensa... (rs rs rs)
 
BMW X1

Bom, mas a disparidade não termina aí. A Epiphone é uma fábrica que fazia "réplicas" dos violões e guitarras Gibson (creio que na China) e as vendia baratinho. Para não complicar muito uma eventual batalha judicial sobre cópia do design, a Gibson resolveu: comprou a Epiphone e a manteve ativa. Pronto! Hoje em dia, diz-se que a Epiphone é a 2ª linha da Gibson, sob bênção da proprietária.

Mas dá uma olhada no modelo abaixo: 
 
Epiphone EJ-200ce

Ele tem um "cut away" no corpo, coisa que alguns modelos Gibson também têm. Facilita quem sola nas notas mais agudas e, pelo menos para meu gosto, fica mais bonito. Não fosse esse pormenor, poderíamos dizer que é igual a um SJ-200 de US$ 3.799,00 ou até a um Monarch. Só que você vai consegui-lo por aproximadamente US$ 750,00,  quem sabe menos no varejo internacional.

Aqui no Brasil, mesmo depois da disparada do dólar, ele pode ser encontrado a cerca de R$ 3.000,00. Um pouco menos, um pouco mais. E tem versões em todas as cores tradicionais: natural (da foto), preto e sunburst, como você acha também em inúmeros modelos da Gibson. A cor não influi no preço, é mera estética.

Fechando, fica a pergunta: como assim modelos praticamente iguais em aparência, fabricados por uma mesma empresa ou sua subsidiária, podem apresentar tal disparidade de preços, custando desde US$ 750 até US$ 21.399 ???

Eu não consigo entender... 

domingo, janeiro 10, 2016

MISCELÂNEA


As tartarugas continuam na praia de Icaraí. Aliás, em respeito aos limites geográficos é preciso retificar. Elas habitam, na verdade, a Praia das Flexas, grafada assim mesmo: 
http://www.guiadepraias.com.br/praia.php?id=225).

Itapuca
Isto porque são encontráveis, há algum tempo (eu testemunho três anos), ao lado da Pedra de Itapuca na face voltada para a aludida praia do bairro do Ingá.

Ali, no calçadão, existem uns bancos, a partir dos quais é possível assistir quando colocam suas cabeças  acima da linha d’água e, dependendo de como submergem, expõem parte do casco.


São, agora, seguramente, mais de 10 indivíduos. Não eram tantos há dois anos. É curioso num mar poluído a sobrevivência destes quelônios.

0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0

A moda, agora, entre os jogadores de futebol, é deixar as barbas crescidas. Já foi raspar a cabeça, já foi fazer corte de cabelo no estilo moicano.
É difícil, também, identificar um jogador que não esteja todo tatuado

0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0

Sabiam que as igrejas estão tendo acentuada queda em suas “receitas”? As espórtulas, dízimos ou esmolas, como queiram chamar estão escasseando, ou diminuindo de valor.
Tem igreja evangélica sendo despejada por falta de pagamento de aluguel.

0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0

É controvertida a relação dos Beatles com o futebol. Naturais de uma cidade que tem dois times vencedores, de grande prestígio, como são  o Everton e o  Liverpool, não encontrei vestígios de paixão de Lenon, Paul ou George por nenhuma destas agremiações. Consta que o Ringo Starr seria torcedor do Arsenal. ????????



Elton John foi diretor e chegou a assumir o controle acionário do modesto Watford.

0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0

A desacreditada ONU, com seu Conselho de Segurança outrora um pouco respeitado em suas deliberações, agora não assusta nem ao bebê ditador Kim Jong-un, fã dos personagens da Disney, que comanda a Coreia do Norte.  Se eles desenvolveram mesmo a bomba H, pode ser que o fim do planeta previsto por astrônomos e cientistas pesquisadores do espaço sideral ocorra mesmo. Não por morte do Sol ou colisão com grande asteroide.

0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0

Ainda acho a campanha dos Postos Ipiranga a mais original, mais criativa de quantas estão sendo veiculadas. Falo daquela do matuto que faz cestos e a todos indica o posto Ipiranga. Morri de rir com o cacique, que pergunta se em caminho de paca tatu caminha dentro.

0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0

Lamento o fim da série "Downton Abbey", uma das mais interessantes já produzidas. Locações maravilhosas, cenários caprichados, roteiro consistente, elenco afiado. Um belo retrato da aristocracia britânica. Oportunas referências a fatos históricos bem inseridos no contexto.


Kate Middleton, duquesa de Cambridge,  em visita ao set de filmagens

0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0

Pouco mais de um ano após haver escrito o post sobre futebol (soccer) nos USA 
(http://jorgecarrano.blogspot.com.br/2014/10/qual-o-seu-time-na-major-league-soccer.html)
tenho que fazer uma ressalva. Assim como na economia mundial, os chineses querem disputar com os americanos. Já notaram como os chineses estão investindo no futebol?

0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0-0

Não quero saber se o pato é macho, quero é comer ovo. Não me interessa quem pintou a zebra, quero o resto da tinta. Espero que chova em minha horta e que venham bons ventos para eu empinar minha pipa.



Nota do editor: Faz três anos que comento sobre as tartarugas. Leiam em:
http://jorgecarrano.blogspot.com.br/2013/02/caminhada-na-praia-com-pombos-e.html

sexta-feira, janeiro 08, 2016

Papo de Astronomia - 2015, o ano de Plutão




Por
Carlos Frederico March
(Freddy)








"2015, the year of Pluto"

Assim foi considerado o ano que acaba de se encerrar pela comunidade científica internacional. O impacto das imagens do sistema formado pelo ilustre planeta-anão e suas 5 luas provocou exclamações em todos aqueles que se interessam por ciências espaciais e astronomia.

Recapitulando, comecei a série sobre assuntos de grande importância astronômica do ano de 2015 em 4 posts, publicados entre os dias 1 e 4 de março. Posteriormente fiz alguns posts adicionais atualizando o status das referidas missões. A lista com os diversos links está no final deste texto, por questões práticas.

Por que o impacto científico? Creio que as razões são diversas e deve haver uns 2.386 textos sobre o assunto na internet. Aqui procurarei dar minha visão pessoal.

COMPLEXIDADE DA MISSÃO

A aprovação da missão New Horizons se deu em novembro de 2001 e a sonda foi lançada em 19 de janeiro de 2006. Os computadores que são o centro de controle inserido na sonda eram o estado da arte do ano de 2003 e se qualquer um voltar sua mente para este longínquo passado (12 anos atrás), há de constatar o que já se avançou em termos de tecnologia, tanto em aplicações de ponta (espaciais e militares) como no cotidiano social.

O objetivo não era nada simples... A sonda deveria seguir milimetricamente uma trajetória que a faria passar "lotada" (a mais de 49.000 km/h) por Plutão num determinado ângulo, especialmente escolhido para poder fotografá-lo e à sua grande lua Charon em close, num movimento tipo panorama: girando lentamente de modo a manter seus alvos em foco. Um pouco de Plutão, um pouco de Charon, o que pudesse das 4 luas minúsculas (Nix, Styx, Hydra e Kerberos), além da procura de possíveis anéis e novas luas (sabemos agora que não tem).

No dia 14 de julho de 2015 ele faria o fly-by e em 4 horas, mais ou menos, já estaria se dirigindo para os confins do sistema solar... Nenhum plano B, nada. Torcia-se para que a nave não esbarrasse numa pedra qualquer no caminho, isso estragaria tudo. Se houvesse anéis, a poeira poderia danificar as lentes. Tudo tinha de ser antecipado. O centro de controle mantinha as câmeras e radares apontados para a frente procurando desesperadamente algum empecilho.

Diferente de outras missões, onde a americana NASA (ou europeia ESA ou japonesa JAXA, etc) escolhe frear e circular seu alvo por vários meses ou anos, a missão a Plutão foi um tiro direto, usando a meio caminho uma assistência gravitacional de Júpiter para acelerar mais ainda. Sem chance alguma de frenagem por conta da velocidade com que ela estava programada para chegar ao destino. A quantidade de combustível que seria necessária para a manobra de entrada em órbita inviabilizaria chegar em Plutão "em tão pouco tempo", por conta do peso extra a ser lançado no espaço. A viagem seria muito mais lenta.

Continuemos... Plutão está orbitando o Sol além de Netuno, sendo portanto o mais distante astro a ser visitado por uma sonda. Está no momento a aproximadamente 5 bilhões de quilômetros e é tão longe de nós que a luz demora cerca de 4 horas e meia para chegar lá.

Ei! Não só a luz!  Os comandos da nave, caso tenham de ser dados aqui da Terra também! Pois é... Entre dar um comando e receber a resposta da nave seriam 9 horas quando ela estivesse passando por Plutão. Sem contar que estava prevista a condição de silêncio de rádio por 22 horas justo no sobrevoo. Tipo: teria de ser tudo programado antes e não poderia haver nada de errado, pois não haveria como consertar a tempo...

Os computadores a bordo são 2, cada um deles duplicado por segurança: total 4. Um par cuida de processamento de comandos e dados, o outro par cuida da navegação e controle da sonda. Lembremo-nos que foram construídos com a tecnologia de meados de 2003.

O plano de voo da New Horizons previu um esquema de hibernação prolongada para economia de energia. Nesse esquema de hibernação, que foi colocado em prática após a passagem por Júpiter em 2007, ela foi reativada rapidamente 2 vezes por ano para testes e correções eventuais de trajeto, voltando a dormir. Acordou de fato no dia previsto (6 de dezembro de 2014), fez as correções finas de rumo indicadas pelo centro de controle e passou a cumprir todas as fases da missão (consultar posts específicos nos links informados ao final) sem grandes problemas.

EXPECTATIVA !

Houve, de fato, dois momentos de tensão nesses 9,5 anos de voo, que fizeram a sonda entrar em "safe mode", sem contato com a Terra, aguardando se reconfigurar das falhas internas:

- Durante a passagem próxima a Júpiter, quando recebeu assistência gravitacional para acelerar, aconteceu em 29/03/2007 um erro irrecuperável de memória. Os computadores entraram no "safe mode" e só retomaram contato 2 dias depois, tendo perdido apenas dados sobre a magnetosfera de Júpiter, mas nada que colocasse em risco a missão principal.

- Em 4 de julho de 2015, a apenas 10 dias do fly-by, os controladores de voo na Terra sobrecarregaram o computador com instruções, excitados que estavam com as imagens que iam chegando. Ora, lembremos que é um hardware antigo, e o computador travou!  Foi um alerta para que deixassem o computador cumprir sua missão sozinho, sem mais nenhuma interferência terrestre. E assim foi feito: a partir de 7 de julho, nenhum comando adicional.

Plutão e Charon, melhor imagem antes do sobrevoo
Foi tirando fotos cada vez mais perto e em14 de julho, dia do fly-by, foi cortada a comunicação com a Terra, entrando no modo silêncio rádio de 22 horas de duração. A medida era necessária para que o lento computador (versão 2003) pudesse se concentrar na intrincada manobra que teria de fazer ao passar por Plutão e Charon a quase 50.000 km/h, mantendo os dois alvos alternadamente em foco.

O centro de controle cruzou os dedos e torceu para que, quando ela voltasse a entrar em contato, dissesse: tudo OK! O centro de controle explodiu em palmas e vivas e abraços quando a sonda "phoned home" na hora prevista. A New Horizons havia executado tudo conforme planejado há mais de 12 anos, quando do início de sua construção.

A massa de dados recolhida na memória está sendo lentamente (quando digo lentamente é lentamente: 1 a 2 kb/s) transmitida para a Terra e deverá permanecer por volta de 16 meses nessa tarefa.

COMO SÃO PLUTÃO E CHARON?

OK, o primeiro requisito para o estardalhaço relacionado ao sucesso de uma missão tão arriscada foi ela ter chegado no objetivo no prazo correto e cumprido tudo sem falhas. Mas o melhor estaria por vir: os resultados práticos!

Plutão em 13.07.2015
Quem estuda astronomia, mesmo leigamente como eu, está acostumado a dar de cara com pequenos astros cheios de crateras, insípidos. Uma ou outra característica pode chamar a atenção, mas se comparar fotos do planeta Mercúrio com nossa Lua, com o planeta-anão Ceres (ainda sendo orbitado pela sonda Dawn), e inúmeras outras luas e asteroides do sistema solar, é tudo parecido.

Não falo aqui dos grandes planetas, como Terra, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, cada um com seus mistérios. Contudo, a maioria das luas e planetas-anões é uma coleção de crateras sobre um terreno rochoso. Exceções? Io e Europa (luas de Júpiter), Enceladus e Titan, a única lua com atmosfera consistente (de Saturno), Tritão (de Netuno)...

Sobre Tritão cabe uma ressalva. Ela circula Netuno numa órbita retrógrada (contrária à rotação do planeta) o que indica que poderia ser um planetoide capturado. Mais que isso, uma hipótese reza que ela seria da mesma classe que Plutão, pois tem mais ou menos o mesmo tamanho (diâmetro de 2.707 km contra 2.375 km de Plutão) e os estudos sempre apontaram para origens similares.

Tritão, maior lua de Netuno
É porque o próprio Plutão tem uma órbita bastante esquisita: inclinada em 17º com relação à órbita dos demais planetas - Netuno incluído - e tão excêntrica que em determinados anos ele fica mais perto do Sol que Netuno, tornando-se por um tempo o 8º "planeta" (versão antiga). Não esbarram (Netuno e Plutão) nessa dança cósmica por conta de uma ressonância orbital - não cabe aqui explicá-la.

Essa excentricidade permite que se conclua que Plutão escapou de ser capturado por Netuno, como aconteceu com Tritão, deixando de se tornar mais uma lua do grande planeta.

Eis que, ao chegarem as fotos, Plutão se mostrou um "prato cheio"! Em vários aspectos similar a Tritão, tão ou mais rico em termos de detalhes de superfície. A variedade de terrenos é extraordinária, muitas cores beirando o marrom avermelhado (ver foto 2), e grandes áreas planas, outras regiões com montanhas e fissuras. Além, claro, de algumas crateras e uma surpreendente atmosfera azul, tênue mas com várias estratificações.

Plutão em detalhe - p&b


Plutão em detalhe com atmosfera estratificada - p&b

Atmosfera de Plutão é azul!

A figura mais característica de sua superfície foi apelidada de "O Coração" (The Heart), e é assim tratada amiúde pela mídia especializada. Contudo, alguém fez um desenho sobreposto a essa mancha que tem uma semelhança absurda com o cão Pluto das histórias de Walt Disney. Aliás, o citado cão recebeu seu nome (Plutão = Pluto em inglês) por causa da descoberta do então 9º planeta em 1930 por Claude Tombaugh. Haja coincidência...

Meme de Pluto, the Dog

Charon não fica atrás. Também recheada de características únicas, é mais uma exceção no sistema solar. Seu tamanho (diâmetro = 1.206 km) relativo ao de Plutão (diâmetro = 2.375 km) permite que chamemos o sistema de planeta-anão duplo, já que ambos orbitam um ponto virtual entre eles, como um haltere cósmico. Uma grande mancha polar em Charon intriga os astrônomos. Sua origem, bem como a de uma grande fissura que se assemelha a uma cordilheira longa, são alvo de estudos que apenas começaram.

Charon em close-up, quase "cheia" - cores realçadas

PANO RÁPIDO

Aproveitando o combustível restante na New Horizons e sua altíssima velocidade, os cientistas escolheram um alvo complementar para visita: um pequeno astro do chamado Cinturão de Kuiper (Kuiper Belt), do qual Plutão faz (ou fez) parte. Assim sendo, e o congresso americano dando o aval para o orçamento complementar ainda em 2016, haverá continuidade da extraordinária missão com o sobrevoo do objeto denominado 2014 MU69, com expectativa de chegada em 01/01/2019.

Dentro da New Horizons há uma pequena caixinha contendo 30g das cinzas de Claude Tombaugh, descobridor de Plutão em 1930.

Um dos equipamentos de ciência incluídos na New Horizons, um contador de partículas de poeira cósmica, leva o nome de Venetia Burney, a menina que, então com apenas 11 anos de idade, sugeriu o nome Pluto para o recém descoberto 9º planeta, hoje rebaixado oficialmente a planeta-anão.

CONCLUINDO

Apesar de 2015 ter sido agraciado com outras missões de grande interesse astronômico como a Dawn, que depois de fazer sobrevoo do asteroide Vesta está em órbita em torno do planeta anão Ceres, como a Rosetta que ainda estuda o cometa Churyumov-Gerasimenko com resultados ímpares, sem sombra de dúvida a missão New Horizons a Plutão, pela sua complexidade absoluta, sem que houvesse chance de erro, e os espetaculares resultados dela obtidos, a fazem símbolo de expertise científica.

O  epíteto procede: 2015 foi o ano de Plutão!



Links de posts

A seguir relacionamos posts já publicados neste blog e relacionados ao tema missões espaciais em 2015 (copiar e colar em seu navegador):

http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/03/papo-de-astronomia-novidades-em-2015-1.html
http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/03/papo-de-astronomia-novidades-em-2015-2.html
http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/03/papo-de-astronomia-novidades-em-2015-3.html
http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/03/papo-de-astronomia-novidades-em-2015-4.html

http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/04/papo-de-astronomia-status-das-missoes.html
http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/10/papo-de-astronomia-status-das-missoes.html

Créditos de imagens

Imagens obtidas no Google, todas creditadas à NASA e respectivo centro de controle da missão New Horizons.

O meme do cão Pluto sobre a imagem de Plutão, também obtida no Google, é atribuída ao site bbc.co.uk

O meme I love Pluto, também obtida no Google, é atribuída ao site alienunion.com