7 de janeiro de 2016

A MATEMÁTICA DOS ANOS BISSEXTOS

A origem do ano bissexto

Este ano de 2016 é bissexto. Em nosso calendário, chamado Gregoriano, os anos comuns têm 365 dias e os anos bissextos têm um dia a mais, totalizando 366 dias. Esta informação praticamente todo mundo sabe, mas o entendimento sobre o funcionamento dos anos bissextos ainda é recheado de dúvidas na cabeça de muita gente.

Muitas “regras populares” foram criadas para calcular anos bissextos, do tipo: 
“Todos os anos que sejam múltiplos de 4 mas que não sejam múltiplos de 100 (terminem em 00) são bissextos”.  

Mas será que isto está correto? E o ano 2000, que foi bissexto e contrariou a regra acima?

Bom, neste caso é necessário adicionar um “detalhe” à regra, que ficaria assim:
“Todos os anos que sejam múltiplos de 4 mas que não sejam múltiplos de 100, com exceção daqueles que são múltiplos de 400, são bissextos”. 
Ah, agora sim! Mas por quê? Quem inventou esta regra? Por qual motivo? Com base em quê foi criada?

A origem do ano bissexto

Em 238 a.C., em Alexandria no Egito, durante a monarquia helenística de Ptolomeu III (246-222 a.C.), foi decretada a adição de 1 dia a cada 4 anos para compensar a diferença que existia entre o ano do calendário, com duração de 365 dias e o ano solar (em astronomia chamado de ano astronômico sazonal) com duração aproximada de 365,25 dias, ou seja, de 365 dias + 6 horas.

Com este excesso anual de 6 horas, que após 4 anos completa 24 horas, 1 dia extra deveria ser acrescentado ao calendário oficial, a cada 4 anos, para evitar os deslocamentos das datas que marcavam o início das estações.

A programação das épocas de semeaduras e colheitas eram baseadas no calendário das estações. Qualquer discrepância neste calendário afetava a agricultura, que era base da economia dos povos antigos.

Lamentavelmente, esta tentativa de reformulação do calendário não teve a aceitação necessária e as discrepâncias permaneceram na contagem dos dias.

Quase 200 anos depois, em 46 a.C. (que naquela época era chamado ano 708 da fundação de Roma), o imperador romano Júlio César (102-44 a.C.), retomando as idéias helenísticas, resolveu intervir no sistema de contagem do calendário, para corrigir mais de 3 meses de desvios acumulados até então e criou o “Calendário Juliano” que evitaria novos erros.

Para elaborar esta tarefa, trouxe de Alexandria o astrônomo grego Sosígenes (90-?? a.C.) para auxiliá-lo e, entre outras modificações, decretou que: 
- O ano de 46 a.C teria 445 dias de duração, para corrigir os desvios acumulados até então.
- Os anos teriam 365 dias e haveria 1 ano bissexto a cada 4 anos a partir de 45 a.C (que também seria bissexto)
- Seria deslocado o início do ano romano de 1º de Março para 1º de Janeiro, a partir de 45 a.C.

Em função destas modificações, o ano de 46 a.C. ficou conhecido como o “Ano da Confusão” e apesar dos esforços, os anos bissextos que se seguiram não foram aplicados corretamente até o ano de 8 d.C, quando então finalmente passaram a ser regularmente contabilizados de 4 em 4 anos em todos os calendários. E assim permaneceu por mais de 1500 anos. Assim: 
Para o calendário Juliano, o ano possuía: 365 + 1/4 = 365,25 dias

A origem do nome bissexto

Algumas pessoas pensam que o ano é bissexto porque tem dois números 6 na quantidade de dias (366), o que está errado.

No antigo calendário romano, os dias tinham nomes com base no ciclo lunar e um mês dividia-se em três seções separadas por três dias fixos: Calendas (lua nova), Nonas (quarto-crescente) e Idus (lua cheia). Os dias eram designados por números ordinais contados em ordem retrógrada em relação ao dia fixo subseqüente, algo como o costume que temos em dizer um horário de 14:45h com sendo “15 para as 3”.  
Assim o dia 3 de fevereiro, por exemplo chamava-se “antediem III Nonas Februarii”, ou seja “três dias antes da Nona de Fevereiro”. 

O dia 24 de fevereiro chamava-se “antediem VI Calendas Martii” ou “antediem sextum Calendas Martii”, ou seja “sexto dia antes da Calendas de Março”. 

Ao fazer a introdução de mais um dia no ano, Julio César escolheu o mês de fevereiro, e dentro deste mês escolheu por “fazer um bis” ou “duplicar” o dia 24, chamando-o de “antediem bis-sextum Calendas Martii”. Daí surgiu o nome “ bissexto”, que passou a designar o ano que tivesse este dia suplementar. 

Júlio César escolheu o mês de fevereiro para adicionar um dia porque, além de ser o mês mais curto do ano, com 28 dias, era também o último mês do ano entre os romanos, que ainda por cima o consideravam como um mês nefasto. A escolha da duplicação do dia 24, ao invés de se introduzir o novo dia 29 (como fazemos hoje) se deu por motivos supersticiosos.

Por que a reforma Juliana do calendário não resolveu o problema em definitivo?

Com o avanço dos instrumentos de medição, percebeu-se que, apesar da correção quadrienal, o ano Juliano não era preciso, uma vez que criava um excesso de 11 minutos e 14 segundos (ou seja 0,0078 dia) em relação ao ano solar. Essa diferença, com o passar do tempo, foi causando implicações no calendário das estações e nas datas de alguns ritos religiosos.

Como foi resolvida então a questão?

Em 1582, o Papa Gregório XIII (1502-1585) introduziu uma reforma no calendário Juliano e criou o “Calendário Gregoriano”. Este calendário havia sido elaborado, durante vários anos, por uma comissão composta pelo próprio Papa e vários sábios, entre eles o astrônomo e médico italiano Aloisius Lilius (1510-1576) e o jesuíta e matemático alemão Cristophorus Clavius (1537-1612).

Essa comissão decidiu o seguinte: 
Inicialmente descontaram 10 dias do mês de outubro de 1582 para corrigir o erro que vinha sendo acumulado até então (neste mês o calendário saltou do dia 4 para o dia 15) e para acertar o calendário e evitar os futuros erros, fizeram o seguinte:
Levando-se em conta que a discrepância de um 1 ano Juliano era de 0,0078 dia a mais que o ano solar, ao final de 1 século o excesso atingia 0,78 dia, ou seja, aproximadamente 3/4 de dia. Ao final de cada 400 anos haveria, então, uma diferença de aproximadamente 3 dias.

Considerando-se que estes dias excedentes seriam introduzidos pelos futuros anos bissextos, a solução do problema seria então eliminar 3 anos bissextos em cada 400, ou seja, a partir de 1582 somente poderiam existir 97 anos bissextos em cada 400 anos.

A engenhosidade para resolver este problema ficou resolvida assim:
Como os anos bissextos acontecem a cada 4 anos, temos 100 bissextos em cada 400 anos. Para termos 97, bastaria "eliminarmos" 3 anos bissextos. Escolheu-se então retirar, a cada 400 anos, aqueles que são divisíveis por 100 e manter o único ano que é divisível por 400, ou seja, em um período de 400 anos temos 4 anos divisíveis por 100 a serem retirados (os anos 100, 200, 300 e 400 deixariam de ser bissextos) e 1 ano divisível por 400 a ser re-incluído na lista (no caso, o próprio ano 400 voltaria a ser bissexto). A “fórmula” do ano ficaria assim: 
365 + 1/4 - 1/100 + 1/400 = 365 + 97/400 dias

E esta regra do ano bissexto permanece até os dias de hoje assim intitulada:
 “Será bissexto todo ano cujo número seja divisível por 4 e não divisível por 100, sendo também bissexto os anos divisíveis por 400”.
Assim: 
Para o Calendário Gregoriano o ano tem 365 + 97/400 = 365,2425 dias

E será que o problema da contagem do ano bissexto foi definitivamente resolvido?

Infelizmente não, pois como citei anteriormente, apesar do calendário Gregoriano ter sido criado para resolver o problema dos acréscimos causados pelo calendário Juliano, o valor aproximado usado nos cálculos para este acréscimo (3/4 dia a cada 100 anos ou 0,0075 dia por ano) é diferente do valor real do acréscimo (0,78 dia a cada 100 anos ou 0,0078 dia por ano). Isso dá uma diferença de 0,0003 dia por ano, ou seja, a cada 3300 anos teremos, aproximadamente, 1 dia extra que deveria ser retirado.

Assim um ano “moderno” passaria a ter 
365 + 1/4 - 1/100 + 1/400 - 1/3300 = 365,2421969697 dias

Mas não podemos esquecer que, para retirar este dia após 3300 anos, deveríamos fazê-lo a partir do ano de 1582, o que provocaria uma tremenda novidade para o ano de 4882, pois este não será um ano bissexto (não é divisível por 4) e ainda deveria “perder” um dia, ficando com 364 dias! Será? Creio que não...

Na verdade diversas pessoas já propuseram, entre elas o astrônomo britânico John F. W. Herschel (1792-1871), uma regra diferente para anos bissextos, ao invés do termo 1/3300 proposto acima, dever-se-ia calcular a fórmula do ano com o termo 1/4000 (por ser múltiplo de 4), assim o ano ficaria:
365 + 1/4 - 1/100 + 1/400 - 1/4000 = 365 + 969/4000 = 365,24225 dias

Isso jogaria o famoso “erro” de 1 dia extra para daqui a mais de 20 mil anos! Mas na verdade esta regra nunca foi aceita e hoje não existe oficialmente nenhuma regra para ano bissextos além daquela que conhecemos e que foi instituída pelo calendário Gregoriano em 1582.

Por que não é possível termos um calendário perfeito?

A busca por um calendário perfeito não terminará nunca, apesar da precisão dos instrumentos de medida aumentarem constantemente, pois o máximo que poderemos calcular será sempre um valor médio, já que o período em que a Terra dá uma volta em torno do Sol não é constante. Em sua longa viagem pelo espaço em volta do Sol, o nosso planeta sofre pequenas alterações de velocidade, causadas pela influência das forças gravitacionais de outros corpos celestes. Essas pequenas variações, ao longo de muitos anos, sempre causarão erros em relação aos nossos calendários “fixos”.

Marcelo Sávio


Bibliografia
[1] Artigo “Ano Bissexto”, de Vincenzo Bongiovanni, publicado na Revista do Professor de Matemática (RPM) nº 20, 1992 – Editada pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM).  
[2] Nota científica sobre “Anos Bissextos”, publicada no livro “Anuário de Astronomia” de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, 1996 - Editora Bertrand Brasil. 
[3] Documento “Frequently Asked Questions about Calendars”, mantido por Claus Tøndering - Disponível na Internet em [http://www.tondering.dk/claus/calendar.html]. 
[4] Livro: “Fim de Milênio–Uma história dos calendários, profecias e catástrofes cósmicas”, por Betília Leite e Othon Winter – Ed. Jorge Zahar Editor, 1999. 
[5] Livro: “Calendário–A epopéia da humanidade para determinar um ano verdadeiro e exato”, por David Ewong Duncas – Ed. Ediouro, 1999. 
Por: Matemática Divertida - Malba Tahan

Notas do editor: 
1) Este estudo é de autoria de Marcelo Sávio, que foi, durante algum tempo, amigo virtual do Paulo Bouhid, confrade nosso, também virtual (viva a internet), que me enviou por e-mail. Achou oportuno por estarmos num ano bissexto. Como o texto é bastante didático, não obstante a complexidade do tema, e bem documentado, fruto de profícuo trabalho de pesquisa (vide a bibliografia), acho que seria útil ajudar em sua divulgação, embora sem a autorização do autor. Se e quando houver objeção do Marcelo Sávio, retirarei do ar deletando a publicação.
2) O trabalho é antigo, por isso, no original, inicia com : "O próximo ano de 2008 será bissexto". Tomei a liberdade de modificar para aludir a este ano corrente.

5 de janeiro de 2016

A ARCA DE NOÉ

Em um dos alguns cursos que fiz, na área de desenvolvimento de executivos, ao tempo em que era um yuppie, foi contada a história da construção da arca de Noé, numa versão livre, de sorte a evidenciar alguns dos males que atrapalham algumas empresas, ou instituições em geral.

Passados tantos anos, o texto vem a minha caixa de entrada no correio eletrônico, e não resisto à republicação, pedindo vênia por não declinar a autoria, pessoa física ou jurídica, titular de direitos, se o caso. Desconheço a origem e, na época inicialmente aludida, se foi informado, a memória hoje já me trai.

Mas é sem dúvida um clássico  dentre os exemplos, cases, e histórias de administração, assim como o "Mensagem a Garcia"  ou a "Lei de Parkinson".

"Absalão era um homem que se podia conceituar como justo. Era um estudioso, e quando repetia os sábios dizendo que os lados de um quadrado eram iguais, realmente tornava-se difícil entendê-lo.

Dos seus 65 anos de idade, a maior parte havia dedicado à arte da guerra, onde conceitos técnicos e científicos eram aplicados. Particularmente, era apaixonado pela organização das forças de combate e o uso de armas avançadas, tais como lanças de grande alcance, setas orientadas, e na última novidade bélica: o lançador de pedras. Era um verdadeiro general!

Com o avanço da idade e o aumento correspondente da sabedoria, Absalão também se preocupava com os assuntos humanos, os quais porém, o perturbavam um pouco. O Criador já não era reverenciado como no seu tempo, os filósofos eram ridicularizados. Havia uma inversão completa na política, acreditava-se mais na energia e na estultice dos jovens do que na ponderada e segura orientação dos mais velhos.

Um dia, Absalão andava pela ravina, imerso em seus pensamentos, quando, de repente ... “PUFF” - uma nuvem de fumaça apareceu, acompanhada de uma voz tonitruante :

- "ABSALÃO!"

Absalão prostrou-se apavorado. Só podia ser o Criador, pensou.

E era. Em Pessoa!

- "Absalão, - voltou a voz - não estou contente com os homens. Estão politizados. Guerreiam entre si e só defendem interesses pessoais. O trinômio Adão/Eva/Cobra deu nisso aí.

 Por isso, farei chover por 40 dias e 40 noites, até cobrir a Terra de água. Isso será conhecido como “O Dilúvio”. Vou matar todo mundo, mas quero uma nova Humanidade, nascida de um Homem inteligente, prático e com objetivos.

 Vá e construa um barco para você e sua família, e coloque dentro um casal de cada ser vivo. Você terá 4 meses para esse empreendimento. Meu contato com você será, doravante, o Arcanjo Gabriel, que costumam chamar de “Ministro de Deus” ".

E ... “PUFF” ... a nuvem se foi.

Absalão levantou-se lívido. O Criador elegera-o gerador da nova Humanidade! Todas as suas idéias seriam propagadas para o futuro!

Mas, Absalão nada conhecia de barcos, nem de navegação. Porém não discutiria para não perder a grande oportunidade dada pelo Criador; Absalão era um sexagenário e estava difícil ganhar a vida com o status de que se achava merecedor. Todavia... 4 meses ... era muito pouco tempo. 

Era preciso resolver um problema técnico - construir um barco enorme. Que objetivo! Absalão provaria que era capaz de salvar a Humanidade com a sapiência dos mais velhos, usando a energia dos mais jovens!

Absalão rebuscou a memória. Conhecia um engenheiro naval chamado Neul... não, Noé! Sim, era esse o seu nome. Noé poderia construir-lhe o barco. Absalão seria o coordenador do EMPREENDIMENTO, e Noé seria o elemento técnico. Tão logo pensou, tão logo já conversava com Noé.

- "Meu caro, quero encomendar um barco... e dos grandes!"

- "Sim, senhor, mas qual tipo, para qual carga, para que navegação?"

- "É um barco para grande carga e das mais pesadas. Quero fazer uma longa viagem com a família, e levarei tudo".

- "Está bem, senhor. Aqui mesmo temos floresta com madeira de densidade 0,8 g/cm3, em quantidade suficiente. Se a carga é grande, faremos o centro de gravidade baixo e o centro de empuxo alto, de modo a obter grande estabilidade. Acho que com 10 bons carpinteiros, que consigo arranjar, e mais um mês de trabalho duro, estaremos com o barco pronto".

- "Perdão, caro Noé, não quero interrompê-lo, mas como pode ter certeza dessa cadencidade da madeira? E se os homens são realmente competentes? E se trabalharão com eficiência?"

- "Senhor, a unidade a que me referia chama-se densidade, e os homens são carpinteiros já meus velhos conhecidos".

- "Não, não, Noé - disse Absalão com um sorriso de condescendência - Este EMPREENDIMENTO é grande e a coordenação é minha. Serei como que um Presidente, e você será o técnico. Combinado?"

- "Combinado, Senhor Presidente, o barco é seu e quem manda é o senhor", retrucou Noé, dando de ombros. Levantou-se para cumprimentar Absalão, e retirou-se.

Absalão pensou: puxa, não havia pensado nisso! São precisos carpinteiros para cortar as árvores e construir o barco, e preciso selecionar bem esses homens pois o EMPREENDIMENTO não pode fracassar. Ah! Já me lembro.

 Meu auxiliar na Cruzada Santa de Três Pedras fez ótima seleção de lanceiros. Roboão é o seu nome. Hoje está selecionando beterrabas para as indústrias egípcias, mas virá trabalhar comigo por um salário um pouco maior.

- "Mas, Chefe, se o técnico disse 10 carpinteiros, precisamos no mínimo de 15. O Senhor sabe: faltas, doenças, “turn-over”, férias, etc. E para selecionar bem 15 homens, temos que explorar um universo de, pelo menos, 150 a 200 homens. Levarei algum tempo para isso e precisarei de auxiliares".

- "Confio em você, Roboão. Já fez um bom trabalho para mim e tem grande experiência com Pessoal. Realmente, achei Noé muito simplista. Convide quem você achar melhor para realizar o recrutamento e a seleção dos homens para a tarefa. Mantenha-me informado".

- "Certo, Chefe. Obrigado pela confiança. Sairei em campo imediatamente".

Nessa noite, Absalão dormiu satisfeito. Após a missão do Senhor, em menos de 14 horas já tinha o técnico e o especialista em Pessoal. Dormiu embalado ainda pela algazarra de sua família (20 membros) na festa de inauguração do lançamento do EMPREENDIMENTO.

O 2º dia amanheceu tranquilo e claro. O Presidente foi acordado por Roboão, com boas notícias.

- "Chefe, já tenho 5 homens anunciando no povoado. É a fase do recrutamento. De acordo com o mercado, estamos oferecendo 5 dinheiros".

- "Mas, Roboão, minha mulher ganha 9 dinheiros cozendo pra fora. Não será pouco?"

- "Deixe comigo, Chefe. No recrutamento da última batalha, pagamos 8 dinheiros para valentes combatentes. Esses são apenas carpinteiros, que não podem ser comparados com a sua senhora. Temos assim 5 recrutamentos e 10 examinadores para a fase de seleção; menos de 10 % dos candidatos esperados".

- "E quanto ganharão?"

- "O salário dessa equipe varia de 8 a 12 dinheiros, por serem especialistas. Apenas um probleminha: não quero responsabilidade com o Numerário, não sou bom em contas. O trabalho com o pessoal já é bastante. Não acha melhor termos um homem para a gerência financeira do EMPREENDIMENTO?"

- "Bem lembrado, Roboão! Mas não conheço nenhum, e ele deve ser um homem de confiança".

- "Chefe, se me permite, quero lembrar-lhe o Judas, aquele nosso velho Capitão, que se ocupava dos dinheiros da força de combate".

- "Não, não, Roboão. Esse negócio de dinheiro com o pessoal das armas não dá certo. Pensemos em outro. Deve ser um especializado na coisa ... você me compreende."

- "Então, Chefe, podemos fazer uma seleção entre candidatos. Sairei em campo!"

O EMPREEDIMENTO crescia de vento em popa. As equipes de recrutamento e seleção já estavam em plena operação. As finanças já tinham um responsável.

Mas, onde colocar esse pessoal? Absalão partiu, com seu habitual dinamismo, e logo adquiriu uma grande cabana de madeira, já com divisórias e tapetes, e contratou imediatamente o pessoal de Zeladoria e Segurança, convidando alguns antigos conhecidos das forças de combate. Iniciou-se, assim, a operação em grande escala.

- "Senhor Presidente, falou timidamente a graciosa recepcionista, está aqui o Dr. Noé, com alguns desenhos e ..."

- "Minha filha, já lhe disse para não me interromper. Diga ao Dr. Noé que falo com ele após o almoço".

Absalão continuou a entrevista com o futuro gerente de material, Jacob, também seu velho conhecido de carreira, dos tempos da campanha do Sinai.

- "Pois é, meu amigo Jacob, preciso cercar-me de gente de confiança, para o sucesso do EMPREENDIMENTO. Material é uma área delicada: não tolerarei desvios de estoque e má especificação dos itens".

- "Certo, Chefe. Sabe que pode confiar em mim. Nunca sumiu uma flecha ou lança no meu tempo. Mas o armazenamento de madeira necessita de um almoxarifado adequado e de um bom almoxarife. Para o controle, necessitarei de alguns arquivos Kardex, prateleiras e pessoal de apoio".

- "Justo, Jacob. Encomende as prateleiras na carpintaria do povoado, e fale com Roboão para o recrutamento do pessoal necessário".

Nesse momento, entrou Job, o Secretário Executivo do Presidente. Jacob afastou-se discretamente.

- "Senhor Presidente, acaba de chegar um relatório da Segurança, indicando certos nomes que não devem ser contratados. Há suspeitas de que alguns não sejam confiáveis".

- "Ótimo trabalho do Gau, jamais lhe faltou intuição. Precisamos estar alertas!"

- "Ah! Outra coisa, Sr. Presidente. O Dr. Noé telefonou novamente. Parece aflito para a aprovação de alguns desenhos".

- "Ora, esse Noé! Sempre querendo me confundir com cidades de madeira, centros de fluxos, etc. Ele acha que não posso, sozinho, me responsabilizar pela aprovação desses desenhos. Diga-lhe que nomearei um Grupo de Trabalho, o GT-BAR, Grupo de Trabalho do BARco, para dar-me um parecer. O rapaz é bom de projeto, mas nada entende de custos ou de administração por objetivos! Mas teremos tudo nos eixos tão logo chegue o chefe de administração; vai colocar ordem e método nessa turma. Quero ver produção!"

15 dias se passaram, e o organograma proposto já estava na mesa do Presidente. Uma Diretoria de Coisas (DC), uma dos Investimentos (DI), e uma de Barco (DB).

A DB já havia montado um laboratório especializado para a medida de densidade da madeira, análise de fungos e cupins, e já estavam instalados os equipamentos para medida de elasticidade e flexibilidade.

A Administração, em apenas 15 dias, já havia elaborado as provas de seleção para arquivistas de desenho naval, prova de seleção para a seleção do pessoal de seleção e recrutamento, pessoal de apoio, etc.

Naquela noite, Absalão estava cansado, mas não pode esquivar-se de receber Noé em sua residência.

- "Sr. Presidente, desculpe-me interromper o seu descanso, mas o projeto já está pronto, e as pessoas do GT-BAR ainda não foram nomeadas. O material já está especificado, porém o laboratório ainda não emitiu o laudo de aprovação da madeira, e não consegui os carpinteiros para o corte. Se o Sr. Presidente pudesse autorizar-me a trazer os carpinteiros conhecidos do povoado ..."

- "Não se preocupe, Noé. Falarei amanhã com o DB e apressarei a contratação do pessoal. Você sabe, apesar de ser Presidente, não posso mudar as normas da organização, autorizando diretamente seus carpinteiros. Se o fizesse, não precisaria delas. Da chefia vem o bom exemplo do cumprimento das normas. Não se preocupe que o EMPREENDIMENTO está nas mãos de profissionais - os melhores! Boa noite, Noé".

Noé afastou-se sem entender muito bem. Havia sido convidado para construir um barco. Agora estava às voltas com normas, instruções, exames de seleção... Balançou a cabeça: as coisas devem ser complicadas mesmo, e o Presidente é um homem capaz, senão, não seria Presidente. Partiu otimista para sua cabana. Se o Presidente disse, é porque tudo vai indo muito bem.

25º Dia. Manhã linda. Job anuncia a chegada de Roboão.

- "Entre logo, meu velho, sente-se. Aceita um leite de cabra?"

- "Sim, Chefe, obrigado. Por falar nisso, segundo a lei, mandei distribuir leite de cabra pela manhã e pela tarde, para todos. Já está até codificado o material para controle pelo computador. Mas, para isso, foi necessário adquirir 200 cabras, alugar um pasto, e contratar 5 pastores. Jóia, Chefe! Veja só: são 40 cabras por pastor, e os pastores só ganham 10 dinheiros!"

- "Você é um bicho na administração de pessoal, Roboão. Falarei ao seu Diretor para propor sua promoção na próxima vez. Como vai a sua avaliação pessoal?"

- "Realmente não sei, Chefe, é confidencial ..."

- "Darei um jeito para que seja boa. Afinal, já temos 500 pessoas no efetivo e todas passaram por você. E você ainda conseguiu comprimir o quadro, que era de 800 pessoas. Quanto economizamos, em média?"

- "Nessas 300 pessoas, cerca de 4.000 dinheiros, Chefe" - respondeu Roboão com um sorriso de modesta satisfação. Talvez fosse aumentado para 30 dinheiros, pensou.

- "Roboão, não quero incomodá-lo, e nem por sombra desfazer do belíssimo trabalho de sua equipe, mas Noé me disse que ainda não foram contratados os carpinteiros para o corte."

- "Ora, Chefe, Noé é um sonhador. Só pensa nos seus benefícios. Já lhe expliquei a complexidade da contratação. Por exemplo: já aumentamos a oferta para 6 dinheiros, porém todos os carpinteiros foram reprovados no primeiro psicotécnico. Não adianta contratar pessoal sem aptidão psicoprofissional para o corte da madeira. Se não passam nem nesse exame, imagine nos outros. Além disso, o psicotécnico deve ser o primeiro exame para eliminar logo os agressivos. O Sr. Sabe, com toda essa madeira para cortar, pode haver acidentes muito sérios."

- "Realmente, você tem razão, Roboão. Noé desconhece o que é uma boa organização. Toque como você achar melhor. Se o contratei, é porque tenho total confiança no seu trabalho."

40º Dia. Finalmente, a primeira reunião da Diretoria. Era o momento solene das grandes decisões de cúpula do EMPREENDIMENTO. Todos com seu melhor terno, sentados à mesa de reunião com suas pastas tipo 007. O Presidente, satisfeito, relatava que o EMPRENDIMENTO era o orgulho do povoado. Havia muito trabalho, e emprego para todos.

Aproveitando o clima de satisfação, o DC informou que havia feito um convênio com a Escola de Carpinteiros, pois a mão-de-obra necessária estava aquém do exigido, requerendo treinamento. Além disso, havia criado o Departamento de Recursos Humanos, com a missão de retreinar os carpinteiros para a técnica naval, e também treinar datilógrafos, secretárias e auxiliares para administração. Havia também criado um Departamento de Segurança e Higiene do Trabalho, por força de lei. O ambulatório já atendia 20 pessoas por dia.

O DB, aproveitando uma brecha do DC, ponderou timidamente que faltava papel para desenho, e que a eficiência dos carpinteiros era baixa: havia só um, e que cortou 3 árvores, sendo duas bichadas, de acordo com o relatório do Controle de Qualidade. Noé estava tentando suprir a falta, desenhando em folhas de bananeiras, e cortando árvores à noite, após o expediente.

Quando o DB propôs aumentar o salário de Noé para 15 dinheiros, o DC explodiu, seguido pelo DI.

- "Esses tecnocratas paisanos não funcionam e ainda querem aumento! Sr. Presidente, sou de opinião que devemos aumentar a equipe de recrutamento e apertar as provas de seleção. Nossa equipe técnica deixa muito a desejar!"

- "Perdão, retrucou o DB. O laboratório funciona. Veja como detetou as árvores bichadas. Acontece que não temos o apoio necessário. O Sr. está desviando recursos para a área de Operação do Barco, recrutando timoneiros, taifeiros, etc."

- "Mas é lógico, interveio o Presidente. Temos que agir com antecedência no treinamento. Treinar é investir no futuro!"

80º Dia. Absalão passeava na ravina. Estava orgulhoso. Era Presidente de um EMPREENDIMENTO que já contava com 1.200 pessoas. As preocupações de Noé eram infundadas. Não passava de um tecnocrata pessimista. Felizmente, já havia o Diretor Técnico para despachar com Noé - menos um aborrecimento.

Subitamente... “PUFF”... uma nuvem de fumaça. O ministro do Senhor! Absalão prostrou-se.

- "ABSALÃO, PONHA GENTE DE MAIS PESO NO TOPO, CASO CONTRÁRIO O EMPREENDIMENTO AFUNDARÁ".    ...“PUFF”...

Absalão correu à cabana de Noé.

- "Noé, Noé, ponha um convés no alto do mastro. Vou colocar as pessoas mais pesadas em cima".

- "Mas, Sr. Presidente, isso é impossível. Sempre o convés é embaixo, e o mastro aponta para cima. Se aumentarmos a massa no topo, o barco vai emborcar".

- "Não discuta alimentação agora comigo, Noé! O Ministro mandou colocar homens pesados no topo e é isto que vou fazer ... e cumpra as minhas ordens!"

Noé não retrucou. O Presidente estava nervoso. Talvez Job pudesse fazê-lo ver mais claramente. Correu à Secretaria Geral, mas lá encontrou o Comandante de Operações do Barco, que já o esperava havia duas horas. Com ele estavam o Subcomandante nível 3, o Imediato, o Pré-Imediato, dois assistentes e três assessores.

- "Noé, disse o Comandante, o seu projeto não anda! Como vou treinar meus homens sem barco? Vou pedir aprovação do Sr. Presidente para adquirir um Simulador de Barco, caso contrário, não me responsabilizo".

Noé balançou a cabeça e retirou-se vagarosamente. Realmente, o que ele conseguira? Uma meia dúzia de desenhos, e alguns em folha de bananeira. Isso em 80 dias. Ele havia prometido que faria o barco em 120 dias ao Presidente! Estava acabrunhado e sentia-se um incompetente. Mas, o que estaria errado?

O Presidente entrou furioso, desabafando em Job.

- "Veja só! Faltam apenas 40 dias e a Divisão de Importação diz que há crise de transportes, e a madeira só chegará no prazo médio de 10 dias! O Pessoal de P. O . , mais o Pessoal de O&M, juntamente com o CPD, já haviam feito tudo para diminuir o caminho crítico de um tal de PERTO - mas estou vendo tudo longe! Quero uma reunião de emergência com os Diretores. Vou despedir o Setor de Carpintaria e contratar outro. Se não fosse o Roboão com a equipe de Recrutamento, não sei o que seria."

- "Mas, Sr. Presidente, perguntou Job, faltam 40 dias para quê?"

- "Para o Dilúvio, meu filho, para o Dilúvio! Envie o seguinte telex :

De: Absalão Presidente (AP)
Para: Senhor Criador (SC)

SOLICITO PRORROGAÇÃO PRAZO RESTANTE 40 DIAS. DIFICULDADES INTRANSPONÍVEIS. CRISE INTERNACIONAL DE MADEIRA. PROSTRAÇÕES. ABSALÃO."

O ruído monótono da teleimpressora deixava Absalão ansioso, mas a resposta veio finalmente.

"De: Senhor
Para: Absalão

CONCEDIDO PRAZO MAIS CINCO DIAS IMPRORROGÁVEIS ELEVAÇÃO DAS ÁGUAS EM ANDAMENTO".

Absalão desesperou-se e partiu para a reunião. Job pelo telefone interno iniciou a telefofoca do Dilúvio.

82º Dia. Gau adentra o gabinete do Presidente.

- "Chefe, tenho aqui um relatório de que há desvio de cipós de amarração no almoxarifado. A listagem do Computador não bate com a da Auditoria."

- "Que inferno, Gau! Coloque sua equipe em campo. Jacob está fora de suspeita por ser meu antigo companheiro de batalha. Verifique o pessoal da carpintaria. Mande um memorando ao Roboão para aumentar a equipe de Segurança. Job, Ponha o Roboão na linha".

- "Roboão, aqui é o Presidente. Já recrutou os carpinteiros?"

- "Infelizmente não passam nos testes psicotécnicos, meu Chefe. Já até afrouxamos essas provas, mas o exame de reconhecimento de tipos genéticos de cupim reprova todo mundo. É por isso que a madeira do estoque está bichada, conforme o relatório do Departamento de Materiais".

- "Presidente, interrompeu Job, é urgente! Há dois pastores na ante-sala dizendo que há crise de leite nas cabras, e não está havendo distribuição aos funcionários há uma semana. O Suprimento parece que não providenciou capim no pasto seco. Qual a sua decisão?"

100 º Dia. Reunião de Diretoria.

- "Sr. Presidente, falou o DI, dentro de uma semana vencem nossos empréstimos internacionais com os povoados vizinhos, e o Caixa não é suficiente. Nosso EMPREENDIMENTO economicamente vai muito bem, mas financeiramente estamos à beira de uma crise de insolvência de Caixa. Sugiro uma redução de pessoal".

- "Toda vez que se fala em redução, todos olham pra mim, explodiu o Comandante de Operações. Sem meus homens não há operação do barco, que nem sairá do porto. E meu simulador ainda não foi aprovado!"

- "Sr. Presidente, timidamente tentou o DB, acho que o Comandante tem razão, mas não prometeram ao Ministro que o barco estaria pronto em breve? Mas, sem material ..."

- "Como posso fabricar madeira?", gritou o DC. "Meu laboratório não acha apropriada a madeira local, e há crise de transporte. Os carpinteiros são incompetentes. E esse tal de Noé? O que fez ele até agora? E ganha 10 dinheiros."

- "Senhores, falou gravemente o Presidente, a situação do EMPREENDIMENTO é razoável, mas temos que tomar uma atitude mais séria quanto ao projeto do barco".

- "Sr. Presidente, não quero interrompê-lo mas em nossos arquivos não constam os exames de admissão de Noé, e nem sabemos se ele é mesmo Engenheiro Naval".

- "Sim, a culpa é minha, falou o Presidente, mas quando contratei Noé ainda não existiam as Normas do EMPREENDIMENTO".

- "Tudo era muito improvisado naqueles dias, Sr. Presidente, e a culpa não pode ser somente aceita por V. Excia.", acrescentou o DI. "Esse Noé é um oportunista sem escrúpulos, querendo se fazer passar por Engenheiro Naval, sem ter frequentado nenhum curso regular".

- "Ele é um bom homem", concedeu o Presidente.

- "Mas está desviado de função, Sr. Presidente" - redarguiu o Comandante de Operações. "Não podemos permitir que o mau exemplo prolifere! O que vou dizer ao meu pessoal?! Como vou manter o moral da equipe, permitindo que eles pilotem um barco construído por um arrivista qualquer, que nem engenheiro é? Não há outra solução, Sr. Presidente".

Todos se entreolharam. Alguns começaram a rabiscar flechas nos blocos de anotações. Absalão calado. Por fim decidiu :

- "Noé está despedido!" E virando-se para Roboão : "Providencie a anotação em sua Carteira de Trabalho".

- "Mas, Chefe, nem Carteira ele tem!"

- "É isso! Um desorganizado total! Cada vez me convenço mais do erro de tê-lo convidado. Notifique-o, então, que ele está sendo despedido “no interesse do EMPREENDIMENTO...”."

Noé realmente ficou furioso com a notificação. Nem exigiu a fração do 13º salário que lhe cabia. Estava disposto a sair daquela terra e o caminho mais fácil era pelo rio. Partiu para a floresta e reuniu 5 companheiros.

- "Amigos, vamos cortar essas árvores bichadas mesmo, construir um barco, e sair daqui!"

- "Mas, Noé, nem mesmo somos carpinteiros, nem sabemos fazer barcos ..."

- "Não importa. Ensinarei a cortar a madeira, e já tenho os desenhos. Faremos uma equipe motivada, com o objetivo de construir um barco para uma vida melhor em outras terras! Levaremos uns bichos a bordo, para comer na viagem. Mãos à obra!"

A madeira começou a ser cortada. Lascas por todo lado. As partes mais bichadas eram isoladas e jogadas fora. Mosquitos voavam ao tombar das árvores! Em poucos dias, o casco do barco já tomava forma.

125º Dia. O Presidente acordou preocupado. A madeira havia chegado, mas só havia 3 carpinteiros no Setor de Carpintaria. Sua charrete tomou o caminho mais rápido para o Escritório, para evitar o mau tempo. Nuvens pesadas cobriam os céus. Absalão foi direto ao telex, mas Job só chegava às 10 horas. Absalão correu ao CPD.

- "O que há aqui? Ainda não começou o expediente? Quem é você?"

- "Sou uma digitadora, Senhor. Há dias que não há ninguém. Dizem que pelo Plano de Classificação de Cargos e Salários, e pela política de promoções, não fica ninguém".

Absalão voltou ao escritório. No caminho encontrou com Gau, que lhe disse, preocupado, haver um zum-zum-zum acerca de um tal de Plúvio, que poderia ser um terrorista, mas que sua equipe... Absalão ficou branco e correu ao telex.

- "Job. Rápido!

De: Absalão Presidente (AP)
Para: Senhor Criador (SC)

DIFICULDADES INSUPERÁVEIS COM O PROJETISTA ATRASARAM EMPREENDIMENTO. SOLICITO PRORROGAÇÃO PRAZO".

A resposta foi imediata.

"De: Senhor
Para: Absalão
 
PRORROGAÇÃO NEGADA".

E começou a chover. Absalão correu para fora, seguido de Jacob. A chuva era forte, tremendamente forte.

Jacob gritou:

- "Veja, Chefe, há um barco descendo o rio. Veja... na proa... está escrito... está escrito... ARCA DE NOÉ!!!" 



Notas do editor:
1) Mensagem a Garcia:
 http://augustocampos.net/msg_garcia.pdf

2) Lei de Parkinson:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_de_Parkinson

4 de janeiro de 2016

Planejar é melhor do que deixar a vida levar

O samba é interessante, mas o conteúdo da letra não é bom ensinamento. Deixar a vida levar pode nos causar dissabores.

“Deixa a vida me levar (vida leva eu!)
Deixa a vida me levar (vida leva eu!)
Se a coisa não sai do jeito que eu quero
Também não me desespero
O negócio é deixar rolar
E aos  trancos e barrancos, lá vou eu!.
......................................................”
(Zeca Pagodinho)

Definitivamente planejar é melhor, e organizando fica melhor ainda. Vejamos os quenianos. O país é referência em atletas que disputam provas de corridas de longas distâncias. É acaso?

É porque, como brincou um comentarista da São Silvestre, é só gritar, na largada, “olha o leão” e eles assustados correm desesperadamente?

Tive oportunidade de assistir  a um documentário sobre o centro de treinamento e formação de corredores no Quênia. Os meninos e meninas começam bem cedo, aos 10 anos de idade. Os treinadores têm programas e métodos de treinamento. Que é duro.

Na fase adulta, já preparados, são escolhidos pelos treinadores para esta ou aquele disputa em função das características da prova.

O entrevistado, o chefe do centro de treinamento, deu como exemplo a São Silvestre, disputada em São Paulo. Falou primeiro da distância da prova (15 Km), curta em relação às maratonas (42 Km). Falou também das condições climáticas do país onde haverá a prova e do horário de sua realização.

Explicou que para os que viriam ao Brasil os horário de treinamento, lá, começa às 10 horas,  e não mais cedo como regra geral. A pista de treino também apresenta subidas e descidas a fim de que os atletas estejam adaptados a estas condições.

Enfim, a palavra chave é planejamento.

A Venezuela é tida e havida como forte concorrente aos títulos de beleza feminina. Já venceram vários concursos de misses. E, uma vez mais, a explicação está no planejamento.

As meninas começam cedo a treinar desfile em passarelas, têm aulas de etiqueta, de maquiagem, fazem exercícios físicos localizados para determinadas partes do corpo e ainda contam com cirurgia plástica se e quando necessária para corrigir um detalhe ou outro.

Nunca vi um homem dizer que padrão de mulher é a venezuelana. As mais citadas são as italianas, as brasileiras e até argentinas (com minha aprovação pessoal). No entanto as venezuelanas ganham mais vezes o Miss Universo.

E no futebol? A conquista da Alemanha, na Copa de 2014, e a vergonha que nos impôs naqueles fatídicos e inesquecíveis 7X1? 

Aquilo foi obra de acaso? De deixa a vida levar? Claro que não.

Foi tudo planejado, nos mínimos detalhes, do local da concentração, até a cor do uniforme. Sim, foi muito bem bolado abandonar o branco tradicional e adotar o vermelho e preto. Cores de torcidas grandes e apaixonadas no Brasil: Vitória (Bahia), Flamengo (Rio), Atlético (Paraná).

Isso sem contar o fundamental que foi a preparação da própria equipe. O time estava em gestação há muito tempo, desde a copa de 2010. A tática de jogo revelou-se adequada ao estilo dos jogadores, suas habilidades pessoais.

E o resultado não poderia ser outro: sucesso.

Esses prolegômenos têm uma razão de ser. Nos últimos meses tem aumentado bastante o número de casos de inadimplência de alugueres e de taxas condominiais.

Malgrado admitir, por constatar, que a desastrosa e eleitoreira política econômica de  Dilma provocou muito desemprego, e que a inflação está, de novo, correndo a renda dos assalariados, é forçoso registrar que também há muita falta de planejamento no orçamento doméstico e total descontrole nos gastos com cartões de crédito.

O consumismo desbragado, a prática de dar passos maiores do que as pernas tem levado muita gente aos tribunais.

Falo de gente que troca de carro todo ano, seduzida por redução de impostos e prazos longos de financiamento, tudo temperado com falta de juízo e ostentação. Afinal o vizinho trocou seu automóvel.

Absurdo dos absurdos é que muitos destes inadimplentes em relação as cotas condominiais, são os que mais reservam os salões de festas para comemorações.

O que deixa indignados os demais comunheiros e a administração do condomínio. Com toda razão.  

1 de janeiro de 2016

Adeus Ano Velho! Feliz Ano Novo!






Por
Alessandra Tappes







Adeus ano velho, feliz ano novo!!! Meio clichê, aliás, totalmente... Mas é esse tema que me traz de volta às escritas. Os lucros e perdas de um ano que se foi e as esperanças sobre o ano que chega.

Esse ano que está se encerrando foi muito marcante para mim. Teve perdas, ganhos, conquistas, sonhos realizados, reencontros, despedidas, renascimentos, crescimento pessoal, enfim... Olhando daqui teve mais lucros do que perdas, e olha que estamos em plena época de crise.

Ao contrário do desapego, (falo no sentido emocional) as perdas acabam nos aproximando de certas situações que nem ousávamos mais viver, quanto mais dividir, passar. E foi exatamente isso que aconteceu comigo: apego emocional.

 Meu amigo, ídolo, confidente. Meu pai. Herói. Se foi na metade do ano. Não chegou a me ver realizando antigos sonhos, não me viu feliz na minha nova morada, mas sabia o quanto eu estava feliz. Certamente sabia o quanto eram importantes para mim essas conquistas.

Meu pai não era o centro das atenções, não era um homem politicamente correto, tinha seus defeitos sim mas era meu pai! Ao longo dos seus 69 ano de vida terrena, 48 anos ao lado de minha mãe e  45 anos como meu pai, não teve nenhum fato marcando sua passagem.

Mesmo assim, cresci usando muitos traços dele como referência pessoal, ouvindo suas queixas, seus dissabores pela vida dura; cresci vendo meu pai trabalhar em 3 empregos para dar conforto aos filhos. Influenciou muito minha vida em músicas, filmes antigos e a maravilhosa memória de que tudo sabia embora já estivesse dando sinais de cansaço.

Mas sua partida para o plano espiritual causou uma mudança radical em muitas vidas. Por mais preparados que estejamos (ou dizemos estar) para esse tipo de desenlace, é bem nessa hora que descobrimos que nunca estamos. Foi duro, confesso.

No começo então... Você lembra-se de fatos, a última frase que trocou; o último momento junto; entra no quarto adentro e ainda sente seu cheiro; vê seu chinelo no chão, na mesma ordem, seus pertences ainda no mesmo lugar, como se nada tivesse acontecido...

Imagino que para a minha mãe que só saía do lado dele por no máximo uma semana, tenha sido pior. Desde que meu pai adoeceu, ela não fazia outra coisa a não ser cuida-lo. A duras penas, ela tem se mostrado guerreira, e tenta passar a todos a fortaleza que se tornou em função dessa perda.

Por mais dor aguda no peito, por mais choro que sai sem controle algum, por mais saudade que tenhamos dentro da gente, a partida de meu pai teve um lado muito positivo para todos. Ele sempre fora muito família, criado entre 4 irmãos, contava histórias de sua infância em Artigas que adorávamos ouvir diversas vezes. Parecia piada, de tanto que ele se divertia ao lembrar.

Dos seus 4 irmãos, um já havia feito a passagem há muito tempo e o caçula encontra-se na cama há quase 2 anos (coma). Mas somos primos pelo menos 15 primos - que temos notícias - e foi nesse momento de dor que houve o reencontro. Estamos espalhados pelo Brasil e até fora, mas essa tal de internet (bendita inclusão) nos uniu de tal forma, que hoje estamos ligados por apenas um click.

A ordem para esse fim de ano seria o desapego. Desapegar de tudo aquilo que não nos cabe mais, de tudo o que nos aprisiona, que não faz bem. Mas estamos apegados sentimentalmente. O apego criado tem ajudado a cicatrizar a ferida, criando uma casca de proteção chamada amor, vemos outras dores, partilhamos outras situações e o ponto de partida passa a ser o imã de tudo isso.

No momento da solidariedade de familiares foi que descobrimos novamente o gosto pela velha infância. Rimos de muitas lembranças e dividimos tudo isso como se fosse à coisa mais simples da vida da gente.

Perdi sim, perdi meu pai querido. Dividi a dor da perda com primas que também perderam sua mãe. Mas ganhei de volta tios, primos, confidencias, risos, aprendi lições de vida, vi uma prima renascer após passar por um problema sério de saúde, estou acompanhando outro primo querido na mesma batalha.

Não quero desapegar. Não quero perder todo esse carinho. Quero um ano cheio de marcas, de trocas de afeto, de vencedores de plantão, de sonhos realizados. Quero o pé molhado no rio, o banho de chuva, o riso solto e frouxo no ar, quer o doce mais gostoso sendo degustado, a promessa da viagem sendo cumprida e se não der pra esse ano que seja quando você quiser, puder...

A minha paz interior, o meu sossego, as condições para uma saúde melhor, um futuro melhor realmente só vai depender de mim. 

Então, quero pra você tudo que quero para mim: entre a vida que se surge e a continuidade do que está tudo bom, dê direitos aos seus sonhos, suas vontades. Priorize-se, ame-se, cuide-se. O resto é lucro. A vida é breve e num instante que passa, cicatriza também. 

Seja feliz. Essa parte só cabe a você.

Tudo de bom para todos.