6 de março de 2015

Despreocupado


O autor/blogueiro, é Antonio Cavalcanti, juiz do trabalho e professor universitário. Tem formação em direitos humanos, letras e teologia, e é autor de vários livros de direito. Seu perfil completo é encontrável no endereço do blog cuja URL está acima. 

Conheço este palácio, que visitei quando em Berlim, a passeio, em 2004. Fizemos, eu e minha mulher, as fotos abaixo:



Blogueiro diante do moinho
Jorge e Wanda diante da fachada do jardim





















Agora vamos ao texto de Antonio Cavalcanti:

"Ainda há juízes em Berlim"

Foto parte integrante do post original
Frederico II, rei da Prússia, passou para a história como símbolo de déspota esclarecido. Amigo de Voltaire, com este compartilhava a ceia no castelo de verão em Postdam, nas cercanias de Berlim. O castelo, construído pelo monarca na encosta da colina, foi batizado com um nome curioso: sans-souci, termo francês que quer dizer sem-preocupação. Sans-souci também era o nome de um moinho da região, e de seu dono, imortalizados nos versos de François Andrieux, cujo título é Le meunier de sans-souci, ou seja, o moleiro de sans-souci.

Começa o poema dizendo que o homem é um estranho problema, e indagando: quem de nós é fiel a si mesmo o tempo todo? Com base nesse mote, passa a narrar o episódio. O rei resolveu construir para si um refúgio agradável, onde mais do que beber e caçar, pudesse degustar não só finas iguarias, mas refinados saberes, na companhia de intelectuais como Voltaire.

Porém, quando quis ampliar o castelo, deparou-se com um problema na vizinhança, o dito moinho que impedia a sonhada ampliação. Seu dono, o moleiro Sans-souci, era um pacato vendedor de farinha que vivia cada um dos seus dias livre de ansiedade e preocupação, daí seu nome e o do moinho. Às investidas insistentes do rei para comprar-lhe o moinho, o moleiro disse não. Dinheiro algum o faria desfazer-se daquele pedaço de chão, onde seu pai morrera, berço e morada de seus filhos.

Inconformado, disse o rei ao moleiro: ─ Você bem sabe que, mesmo que não me venda a terra, eu, como rei, poderia tomá-la sem nada lhe pagar. Mas o moleiro retrucou com a célebre frase: O senhor! Tomar-me o moinho? Só se não houvesse juízes em Berlim.

Do episódio vem a frase: Ainda há juízes em Berlim, que podemos usar em tempos difíceis, para dizer: não vamos desistir, nem tudo está perdido, ainda existe justiça nesse mundo, ou seja, ainda há juízes em Berlim.

Vivemos momentos de crise, cujos desdobramentos poderão mostrar ao mundo que espécie de república nós somos e queremos ser. Mais que um escândalo bilionário, com cifras nunca vistas em nossa história, conspurcando o grande ícone da riqueza e orgulho nacionais, o episódio, dependendo dos rumos que tomar, pode gerar um devastador turbilhão econômico e institucional ou, por outro lado, extirpar da república grande parte da insidiosa rede de corrupção que destrói nossas riquezas e nossa moral.

Que não fiquemos no mero discurso protocolar ─ necessário e adequado, reconheço ─ de governante que a vem a público e diz: queremos investigação e punição aos culpados, doa a quem doer. É preciso muito mais que isso. Temos que mostrar com atos e atitudes que o Brasil não é o país da corrupção aceita sem indignação, a ponto de alguém dizer pública e cinicamente: nesta terra não se faz obra pública sem propina, ou achar que se alguém com uma mão dá o bolsa-família, está automaticamente liberado para, com a outra, receber ou dar o bolsa-corrupção. Os fins não justificam os meios. Numa república séria, não se blinda corrupção com assistencialismo, nem existe ninguém intocável.

Se queremos, de fato, a partir da implosão desse sinistro castelo da corrupção ─ afinal, foi dito que não ficará pedra sobre pedra ─, construir um nova estrutura republicana, respeitada e respeitável, teremos todos de provar, na prática, que não somos a terra da corrupção disseminada e tolerada, mas um país cujos filhos ainda podem acreditar na ética e na justiça, pois como nos diz a frase do moleiro, para a sorte de todos nós, ainda há juízes em Berlim.




François Andrieux
Nota do editor: A expressão "ainda há juízes em Berlim" está originariamente no conto "O Moleiro de Sans-Souci (Le Meunier Sans-Souci)" de autoria do advogado e dramaturgo francês, François Guillaume Jean Stanilas Andrieux.
Colocados no Google, ou a expressão "ainda há juízes em Berlim" ou o nome da obra "O Moleiro de Sans-Souci", surgirão várias referências ao autor, a sua obra, a Frederico II, da Prussia, em vários textos literários (livros, artigos), ensaios jurídicos, matérias jornalísticas e blogs.

5 de março de 2015

LEGIÃO ESTRANGEIRA

















A Legião Estrangeira Francesa deu muitos enredos cinematográficos. Filmes bons e porcarias. Comédias, dramas e episódios de guerras.

A Legião Estrangeira teve sua origem em, digamos assim, circunstâncias ocasionais. Um certo rei (vá ao Google se tiver interesse), foi deposto  e o que o sucedeu, reuniu num só exercito todas as tropas  estrangeiras que estavam sob o domínio da França.

Depois a coisa mudou de figura e de objetivos e a Legião Estrangeira passou a recrutar bandidos, assassinos, criminosos, fugitivos, mendigos e imigrantes indesejados. A escória ou a ralé, no conceito vigente. Ou seja,  passou a ser um meio de depurar a sociedade, excluindo  os párias na visão deles.

E a um exército assim formado muitas missões de risco poderiam ser delegadas.

Aqui no Brasil, os detentores ocasionais do poder  (até quando?) estão produzindo algo semelhante, com estrangeiros importados sob diferentes rótulos.

São  “médicos” cubanos,  são “refugiados” haitianos e outros desocupados e malfeitores de outras regiões do planeta.

Todos, a soldo, terão missões de vandalismo, perturbação da ordem, agressões contra pessoas e patrimônios,  e doutrinação bolivariana.


Haitianos promovendo desordem  e fazendo ameaças

Cubanos (paus pra toda obra)

Exercito do Stédile (segundo Lula)

Além dos estrangeiros convidados, acolhidos ou recrutados, agora corremos o risco de uma guerra civil, porque o irresponsável do Lula, que governou o país e se acha "o cara" concita o bando de vândalos chefiados pelo Stedile, que chamou de exército, para que promovam o enfrentamento.

No final do vídeo que pode ser acessado com o link  a seguir, o agitador inconsequente conclama Stedile e seus marginais, e ainda alardeia que quer que a imprensa divulgue sua fala. Ouçam como ele encerra a peroração de sempre (é curto).

Clique em:
https://mail.google.com/mail/u/0/#inbox/14bdd764e76140e3?projector=1

A história irá responsabilizar este incitador da massa ignara
Quando a sociedade acordar, em especial os militares, os magistrados e a Rede Globo, poderá ser tarde. Se em 1964 a retomada do caminho da democracia, da paz e da ordem foi pacífica, agora poderá ser sangrenta por conta deste, repito, irresponsável cujo apelido, que deu origem a nome de registro, deveria ser camarão e não lula, pelo conteúdo da cabeça.





Nota do editor: Lula já havia feito ameaças quando da campanha para a reeleição de Dilma. Vejam e ouçam em:
ta
https://www.youtube.com/watch?v=zeNZ4VTzens

4 de março de 2015

Papo de Astronomia - Novidades em 2015 (4) Sonda New Horizons em Plutão











Por
Carlos Frederico March
(Freddy)








A maioria de nós aprendeu que o sistema solar tinha 9 planetas, o mais afastado deles sendo Plutão. Além deles, havia um cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter, com milhares de integrantes, a maioria pequenos. São tão espalhados entre si que as sondas espaciais cruzam o cinturão sem receio de colidir com um deles há décadas.

Avanços galopantes em eletrônica e informática produzem a cada ano mais maravilhas tecnológicas, de sorte que os astrônomos de hoje possuem muito mais recursos que há apenas 30 anos atrás. Como subproduto, a partir da década de 90, observações mais detalhadas dos confins do sistema solar começaram a dar frutos.

Hoje em dia a descrição do sistema solar inclui elementos como o Cinturão de Kuiper (Kuiper Belt) e a Nuvem de Oort (Oort Cloud), que lhe estenderam os limites para além do anteriormente imaginado.

Esquema do sistema solar com Kuiper Belt e Oort Cloud

Rapidamente, pois não é o tema central, o Cinturão de Kuiper contém diversos pequenos objetos (KBO, da sigla em inglês para Objeto do Cinturão Kuiper) além da órbita de Netuno, o último dos grandes planetas conhecidos. Em 1992 foi descoberto o primeiro deles e hoje em dia já os contamos aos milhares.

A Nuvem de Oort começa além do Cinturão de Kuiper e seu limite é o espaço interestelar, onde o Sol não tem mais influência sobre seus integrantes. Seria, de acordo com a teoria, o berço da maioria dos cometas (milhões deles) que eventualmente têm suas órbitas perturbadas e caem em direção ao Sol. Uns são capturados e se tornam periódicos, outros são ejetados de volta ao espaço interestelar. Alguns (muitos) se consomem ao se aproximar e simplesmente desaparecem.

Voltando aos KBOs, dezenas deles têm tamanhos respeitáveis (1.000km de diâmetro ou mais) e um deles (Éris) tem cerca de 2.320km de diâmetro, tamanho similar ao de Plutão, além de possuir uma lua (Disnomia). Orco, com estimados 917km de diâmetro, e sua lua Varth circulam o Sol com uma órbita essencialmente igual à de Plutão, apenas defasado de 180º. Quando Plutão se aproxima do Sol, Orco está afastado. E vice-versa, portanto não há o risco de choque entre eles.

E então? Éris é ou não o 10º planeta? Se tem o tamanho de Plutão, teria de ser planeta também! E Orco, que apesar de ser menor se comporta exatamente como Plutão em torno do Sol?

A União Astronômica Internacional (UAI), pressionada por todas essas descobertas, reviu em 2006 a definição de planeta e Plutão se viu rebaixado à categoria de planeta-anão, reduzindo o sistema solar a 8 planetas principais.

Parêntesis: por coincidência, essa decisão aconteceu pouco depois do primeiro astronauta brasileiro ir ao espaço (Marcos Pontes, 30/03 a 08/04/2006) e alguém já jogou o chiste na rede!



Junto a Plutão, a UAI reclassificou em 2006 alguns dos KBOs (Éris, Haumea e Make Make) e o maior dos asteroides (Ceres) como planetas-anões. A definição é incerta, de modo que - versão 2015 - outros KBOs também estão na relação de possíveis planetas-anões, o que diga-se de passagem não tem importância alguma (rs rs)!

Comentei no post inicial da série que a sonda Voyager 2 realizou o que  a história astronômica passou a conhecer como a Grand Tour, complementando nosso conhecimento anterior do sistema solar com imagens únicas de Urano e Netuno.

Faltava Plutão, que é tão pequeno e está tão longe que dele só temos imagens borradas e nada nítidas. Tão longe que apenas em 1978 foi descoberta Charon, a primeira de suas (posição de hoje) 5 luas.

Depois de muita controvérsia e revisões orçamentárias, a NASA conseguiu lançar a sonda New Horizons em 19/02/2006 com o objetivo único e específico de passar "lotado" por Plutão em 14/07/2015 e estudá-lo.

Para um planeta-anão até que Plutão tem muitos atrativos. Sua maior lua é Charon, que tem cerca de metade de seu diâmetro (1.205 km contra 2.322 km), o que faz de Plutão um planeta-anão-duplo, com o baricentro situado fora dele. Em outras palavras, Plutão e Charon circulam em torno de um ponto hipotético situado entre ambos, como um grande haltere irregular. Além dessa, foram descobertas até hoje mais 4 luas menores: Nix, Hydra, Kerberos e Styx, as duas últimas depois da sonda já ter sido lançada (2011 e 2012).

Como curiosidade, há quem classifique Charon como planeta-anão. No entanto, ela não cumpre alguns dos critérios da UAI, que não se resumem a tamanho e composição. Senão, como enquadrar Titã, a maior lua de Saturno, com atmosfera, lagos de metano e um tamanho maior que o do planeta Mercúrio? E por que Ceres, que é menor que Charon, é considerado planeta-anão? Critérios...

=> Qual a nossa expectativa para 2015?

Depois de mais de 9 anos viajando a uma velocidade alucinante (chegou a mais de 81.000km/h em determinado momento do percurso), esperamos que a New Horizons, já a partir de junho/2015, nos brinde pela primeira vez na história com imagens nítidas de Plutão, Charon e suas demais luas, culminando com o sobrevoo em 14/7/2015.

A expectativa do projeto é que as imagens obtidas no sobrevoo sejam depois enviadas lentamente para a Terra durante cerca de 1 ano (!).  A razão é um transmissor lento (cerca de 1 kbps) aliado a uma latência (retardo unidirecional) de mais de 4 horas e meia devido à distância entre a nave e a Terra, dificultando a "conversa" com o centro de operações.

Considerações finais da série

2015 fechará um ciclo de conhecimento que começou, para mim, em 1963. Terei a oportunidade de conhecer "de perto" e em detalhe todos os grandes (e alguns pequenos) astros do Sistema Solar que me foram ensinados quando eu tinha 12 anos e que à época eram apenas pontos em imagens pouco nítidas.

Cometas não são mais bolas de neve suja que deixam um rastro de luz refletida no céu. Têm superfície e pode-se pousar neles.  Saturno não tem 3 grandes anéis, e sim milhares deles numa configuração maravilhosa entremeada de luas pastoras. Júpiter tem anel e mais de 60 luas, não apenas 7 ou 8. Urano e Netuno também têm anéis e seus séquitos de luas. Plutão é duplo e tem pelo menos 5 luas.

Ceres e Vesta, antes os 2 maiores asteroides, são diferentes como água e vinho. Um é equilibrado, com um grande oceano submerso, a ponto de ser considerado planeta-anão. O outro é rochoso e amassado por uma gigantesca colisão no passado remoto.

Conseguimos detectar milhares de KBOs (alguns deles com dimensões planetárias), que aumentaram consideravelmente o portfolio do nosso Sistema Solar, além de uma nuvem com milhões de cometas mais além.

Conforme testemunhamos em filmes continuamente produzidos pela sonda SDO (Solar Dynamic Observatory), o Sol é um turbilhão assustador, produzindo línguas de fogo que engoliriam diversas Terras em tamanho, além de ejetar eventualmente imensas nuvens de partículas que, lançadas em nossa direção, podem cozinhar a eletrônica de satélites desprotegidos e desbalancear nossas quilométricas redes de distribuição de energia.

A Lua foi mapeada à exaustão. Tem o lado oposto bem mais craterizado que o que nós conseguimos ver, do solo. Fruto, talvez, de sua maior exposição ao espaço interplanetário.

E a Terra é azul!



Créditos das imagens:

Esquema do Sistema Solar com KO e OC: Google (www.nature.com)

Charge: Google (www.kibeloco.com.br)


3 de março de 2015

Papo de Astronomia - Novidades em 2015 (3) Sonda Rosetta e o cometa 67P



Por
Carlos Frederico March
(Freddy)






Na história os cometas já foram mensageiros dos deuses, trazendo benesses ou principalmente tragédias às nações. Quantos astrólogos perderam a cabeça por terem se enganado em suas predições aos reis e poderosos de antanho?

Ainda no início do século XX (1910), a passagem do Halley com a Terra cruzando sua cauda foi motivo para muitas sandices. A população se imaginava envenenada pelos supostos gases tóxicos, muitos se esbaldaram como se fossem os derradeiros dias de suas existências. Um ou outro se matou de fato!

Eis que em 1986 a sonda europeia Giotto (lançada pela European Space Agency - ESA) se aproximou do cometa de Halley e tirou belas fotos de seu núcleo. Cometa já não era mais um mensageiro do além, e sim um objeto astronômico corriqueiro, quem sabe uma bola de gelo e poeira vinda dos confins do sistema solar?
 
Cometa 1P/ Halley, foto pela Giotto
Aos poucos foram sendo lançadas sondas para o estudo de cometas (além de outras para asteroides e planetas), a ciência em geral se restringindo à observação em passagens próximas a seus núcleos. A Stardust (lançada pela NASA em fevereiro/1999) aproximou-se do cometa 81P/Wild2 em janeiro/2004, retornando à Terra em janeiro/2006 com amostras de sua poeira recolhida numa cápsula.

Outra missão interessante foi a Deep Impact, também da NASA. Lançada em janeiro/2005, seu objetivo foi aproximar-se do cometa 9P/Tempel 1 e jogar sobre ele um módulo de 364kg para que fossem feitas observações do resultado da colisão, tanto a partir da sonda como por observatórios em Terra. A missão foi bem sucedida e o impacto ocorreu em 9/7/2005, tendo produzido ciência com efeito desprezível sobre a órbita do mesmo.

Em vez de encerrar a missão, como projetado inicialmente, a NASA aproveitou que a sonda ainda se encontrava em bom estado operacional e a redirecionou para outro cometa, o 103P/Hartley 2, na missão estendida chamada de EPOXI. Em 4/11/2010 a Deep Impact fez o sobrevoo com imagens impressionantes do Hartley 2, que parece uma rolha de champanha.

Cometa 103P/Hartley 2, foto pela Deep Impact
Parêntese para comentar sobre a nomenclatura de cometas. É bastante complicado. Tem sites tentando explicar mas depois de ler tudo você ainda fica com dúvidas. De momento posso dizer que os cometas citados nesse texto têm todos o "privilégio" de receberem um número que indica sua ordem na sequência de descobertas, seguidos da letra P que significa periódico (volta de tempos em tempos bem determinados). Uma barra / separa a denominação genérica do seu nome próprio, em geral o do astrônomo que primeiro o estudou.

Por exemplo: 1P/Halley significa que é o 1º cometa identificado como periódico, por Edmund Halley. Só para formalizar, a designação oficial do cometa de Halley é 1P/1682 Q1, significando que é o 1º cometa periódico identificado e foi o 1º (no caso o único) encontrado na quinzena Q do ano de 1682. Cada mês tem 2 quinzenas, começando com janeiro (quinzenas A e B). Q seria a 1ª quinzena de setembro.

Deixemos de lado essa verborragia astronômica e vamos ao que interessa! A sonda Rosetta foi lançada pela Agência Espacial Europeia (ESA) em 2/3/2004 tendo a ambiciosa missão de alcançar o cometa periódico 67P/Churyumov-Gerasimenko, 67P para os íntimos, entrar em órbita e nele lançar o módulo Philae, que teria o objetivo específico de pousar em sua superfície e dele tirar fotos in loco.

Até o presente  momento a missão transcorre bem sucedida, "pero no mucho". De fato ela chegou ao 67P e começou a orbitá-lo em 6/8/2014 - por si só um feito magnífico. Até então isso só tinha sido tentado e conseguido com asteroides e planetas. Sempre houve receio de que a intensa emissão de partículas pelos cometas viesse a danificar as sondas espaciais.

Cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, foto pela Rosetta

 Aliás, é digno de nota que a própria Rosetta fez um "fly-by" de um asteroide, o 21 Lutetia, em sua rota da Terra até o 67P. O sobrevoo se deu em 10/7/2010 a cerca de 3160km de distância.

O próximo passo da missão seria lançar o módulo Philae, que pousaria num ponto que foi cuidadosamente escolhido durante as órbitas iniciais da Rosetta em torno do 67P.

Por um azar comum em experimentos científicos (a chamada Lei de Murphy: se algo pode dar errado, dará!), o Philae não se ancorou corretamente quando chegou à superfície do cometa, por defeito nos arpões que seriam lançados de suas 3 patas. Com isso, devido à baixa gravidade do 67P, ele bateu e voltou ao espaço. Repicou 2 vezes antes de ficar, por fim, pousado meio que de lado numa "encosta". Era o histórico dia 24/11/2014.

Na foto tirada pelo Philae pousado (abaixo) aparece parte de uma de suas 3 patas, que se encontra elevada, fora do solo. Ainda não foi feito contato visual com o módulo pousado, porque não se sabe exatamente onde ele finalmente parou de quicar. Uma tentativa remota foi feita para que ele ficasse em melhor posição para recarga das baterias solares, mas com pequena efetividade. Ele finalmente silenciou.

Sítio de pouso do Philae no 67P, foto pelo próprio

Mesmo com falhas, o pouso foi um marco científico! De nefastos mensageiros inesperados do além, os cometas se transformaram em pequenos objetos sólidos, com composição complexa (não apenas gelo e poeira), que ao orbitarem o Sol de maneira geralmente bastante excêntrica, sublimam gases de sua superfície quando muito próximos. Eventualmente são inteiramente consumidos e desaparecem - muitas vezes na primeira aproximação!

=> Qual a expectativa para o restante de 2015?

Que as baterias do Philae se recarreguem de maneira a permitir que ele mande mais informações diretamente do solo do cometa. Inicialmente projetadas para recarga com a luz solar, pela posição incômoda em que o Philae acabou se alojando elas recebem pouca luz. À medida que o cometa for se aproximando do Sol, a equipe científica tem esperanças de que as baterias recebam por fim carga suficiente para que o Philae saia de seu sono e realize mais experimentos.

Se isso não ocorrer, o restante da missão continua e a Rosetta, mantendo-se em órbita do 67P, transmitirá em tempo real o processo de sublimação de seus gases, que irão constituir sua costumeira pequena coma e cauda. É experimento inédito e constituirá outro marco científico da sonda. Está no portfolio de ações o paulatino afastamento do cometa para que os instrumentos não sejam danificados pelos gases e poeira emanados durante o período "ativo" do mesmo.

Uma hipótese não descartada é testemunhar a quebra do núcleo do 67P em 2, fato bastante comum em cometas. Já foi detectada uma rachadura de grandes dimensões (0,5km) entre a cabeça (4,1km x 3,2km x 1,3km) e o corpo (2,5km x 2,5km x 2,0km) do cometa, que tem o formato parecido com o de um pato. Como as primeiras emissões de gases detectadas estão acontecendo na região do "pescoço", a quebra é possível pela drenagem de material no processo.

Rachadura no pescoço do cometa 67P, foto pela Rosetta

O periélio, ou ponto de máxima aproximação do Sol - e provável máxima atividade do cometa - vai se dar em meados de agosto/2015. Há, portanto, muito que observar no 67P/Churyumov-Geramisenko em mais uma de suas jornadas periódicas, que se repetem a cada 6,45 anos.


Créditos das imagens:

Cometa 1P/Halley, foto pela Giotto
Halley Multicolor Camera Team, Giotto Projetct, ESA

Cometa 103P/Hartley 2, foto pela Deep Impact
NASA/JPL-Caltech

Cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, foto pela Rosetta
ESA / Rosetta / Philae

Sítio de pouso do Philae no 67P, pelo próprio
ESA / Rosetta / Philae

Rachadura no pescoço do cometa 67P, foto pela Rosetta
ESA/Rosetta/MPS for OSIRIS Team


Nota do editor:
Para acompanhar a série:
Parte 1 - http://jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/03/papo-de-astronomia-novidades-em-2015-1.html

Parte 2 - http://jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/03/papo-de-astronomia-novidades-em-2015-2.html


2 de março de 2015

Papo de Astronomia - Novidades em 2015 (2) Sonda Dawn em Ceres




Por
Carlos Frederico March
(Freddy)






O cinturão de asteroides é conhecido desde o século XIX. Os primeiros a serem descobertos foram os maiores, a saber: 1 Ceres (1/1/1801), 2 Palas (28/3/1802), 3 Juno (1/9/1804), 4 Vesta (29/3/1807). O número acrescido antes do nome posiciona o asteroide no tempo com relação à data de sua descoberta, mas os mais populares são denominados frequentemente sem o número.

Durante curto período, supôs-se que Ceres seria o planeta a ocupar um vazio existente entre as órbitas de Marte e Júpiter. De acordo com as teorias vigentes à época e tendo em vista o pouco que se conhecia do sistema solar (só até Urano), não fazia sentido o espaçamento entre ambos. No entanto, mal Ceres foi descoberto, seguiram-se mais 3 astros na mesma região do espaço e logo a comunidade astronômica percebeu que não eram planetas, mas apenas membros de uma classe nova: os asteroides.

Dezenas de milhares seguiram, muitos deles do tamanho de uma casa, apenas. Um ou outro já caiu na Terra recentemente (astronomicamente falando), sendo o mais famoso o de 65 milhões de anos atrás, que provocou a extinção dos dinossauros, espécie animal que dominava nossa superfície. Outro famoso foi em Tunguska, na Sibéria, em 1908.

Referenciando esse tema, fiz post publicado em 09/04/2012 (O medo dos gauleses):
http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2012/04/papo-de-astronomia-o-medo-dos-gauleses.html

O senso comum é que o que diferencia asteroides de cometas é que os primeiros não se desgastam com as sucessivas passagens próximas ao Sol, enquanto que os últimos tendem a desaparecer de todo com o tempo, consumidos nas passagens e deixando um rastro de partículas e poeira que formam as conhecidas caudas. Na verdade, a diferença teórica é sutil, pois hoje se conhece asteroides que orbitam o sistema solar bem longe e que, se por acaso se aproximassem do Sol, se transformariam em enormes cometas.

Eventualmente já foram mandadas missões para estudar alguns deles. Uma das mais significativas foi a Hayabusa, lançada pela agência espacial japonesa JAXA em 9/5/2003 para pousar e trazer para a Terra uma amostra do pequeno asteroide 25143 Itokawa (0,54 km). Fê-lo com sucesso, pousando no asteroide em novembro/2005, colhendo alguns grãos de poeira de sua superfície e voltando à Terra em 13/06/2010 com as amostras.
 
Asteroide Itokawa (crédito: JAXA, agência espacial japonesa)

Em 27/09/2007 a NASA (agência espacial americana) lançou a sonda Dawn, com o objetivo declarado de estudar os dois maiores integrantes do cinturão: Ceres e Vesta. A Dawn já cumpriu a primeira etapa, tendo orbitado Vesta de julho/2011 a setembro/2012. Este é o mais brilhante de todos os asteroides, apesar de ser apenas o 2º maior em tamanho físico, com um diâmetro máximo de 576km.

Seu formato é bastante estranho, por conta de colisão com algum grande astro no passado. Tem um interior de níquel-ferro (como a Terra) recoberto por um manto de olivina (uma mistura de silicatos de ferro e magnésio) e e a superfície é recoberta por rocha basáltica. Atualmente não existe nenhuma atividade vulcânica, ou seja, nenhuma expectativa de mudança de aspecto de sua superfície.



Ceres é bastante diferente de Vesta, pertencendo a uma classe diferente - asteroides são classificados de acordo com a composição. Tendo em vista seu tamanho e características físicas, Ceres deixou de ser o maior dos asteroides e foi elevado à condição de planeta-anão. Tem cerca de 950km de diâmetro e concentra 1/3 de toda a massa dos demais integrantes do cinturão de asteroides. Os estudos mais recentes apontam para uma composição como no esquema abaixo:

(créditos: Wikipedia, domínio público)


Em 2012 descobriu-se em Ceres a emissão de jatos de vapor d'água, o que parece comprovar a estrutura acima. Esse fato o coloca numa lista à parte: a dos corpos do sistema solar que possuem água em grande proporção em seu interior. Além de Ceres, temos Europa (lua de Júpiter) e Enceladus (lua de Saturno).

Abrindo parêntesis a esse respeito: já nos 2 filmes e 4 livros da série Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke, a lua Europa foi descrita como berço de outro tipo de vida no nosso sistema, portanto a raça humana deveria dela se manter afastada. No entanto - vida real - já está nos planos da NASA o lançamento de uma sonda para explorar e quem sabe pousar em Europa.

Toda essa curiosidade se deve a que, dentro do atual ponto de vista científico, água é fundamental para a existência de vida. Se houver água e fontes de calor (energia), a chance de haver vida é imensa. A curiosidade humana é tão grande que promove o aporte de bilhões de dólares em pesquisa de vida extraterrestre. Quem somos, de onde viemos, para onde vamos? Questões viscerais...

Voltando ao tema, uma outra característica externa em Ceres que foi descoberta em 2003/4 pelo telescópio Hubble é uma área brilhante em sua superfície, assunto para muitas especulações. A imagem abaixo é bem recente e comprova a existência do(s) ponto(s) branco(s).


Ceres e os pontos brancos (crédito: NASA / JPL)

Qual nossa expectativa para 2015?

Que a sonda Dawn complemente sua missão aproximando-se e orbitando Ceres, como fez em Vesta com sucesso. Espera-se que já agora, em março/2015, tenhamos resposta para essas e outras indagações acerca desse planeta-anão.   

A Dawn  deve permanecer em órbita até julho/2015, data do encerramento oficial da missão.

Nota do editor: a parte 1, está em http://jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/03/papo-de-astronomia-novidades-em-2015-1.html

1 de março de 2015

Papo de Astronomia - Novidades em 2015 (1)



Por
Carlos Frederico March
(Freddy)







Astronomia... Ficar olhando o céu e imaginando os confins do Universo, porque estamos aqui, o que nos espera, qual nosso lugar nisso tudo...

E em volta de nós a realidade, o roubo perpetrado pelos políticos, não apenas do PT mas de toda a corja que consegue um lugar iluminado pelo sol do poder... Fruto do voto da massa ignorante, comprada com programas assistenciais de pequeno alcance. Soubessem eles o quanto o país poderia ter progredido se todo o dinheiro desviado tivesse sido corretamente aplicado em programas para o bem da nação... Tanto pobres como ricos, todos teríamos nos beneficiado, ao contrário da realidade, que beneficia a poucos.

Cadeia para eles, é o que desejo!

No entanto, o Universo prossegue independente das mazelas de um ou de vários povos - Síria, Líbano, Venezuela e Guiné Equatorial, entre outros tantos, estão aí para não nos deixar mentir. Em consonância com o Universo, por obra de várias nações de 1º mundo os programas científicos continuam, mesmo que dependentes de verbas cada vez mais restritas, mesmo nos EUA. A cada ano a NASA recebe menos, e tem de refazer seus programas de exploração dentro de novos e mais enxutos orçamentos. Vida real, fazer o quê?

Lá vamos nós, portanto! Desde 12 anos de idade eu estudo astronomia. Os primeiros passos me foram dados por minha saudosa mãe, que me instruiu dedicadamente nas nossas conversas na cama, lado a lado. Ela já era essencialmente cega e conversa era tudo o que ela tinha a nos dar. Eu usufruí. Ganhei um telescópio em 1965, mas nem sabia direito como usá-lo, só fui aprender 17 anos mais tarde.

Naquela época, o que se sabia do sistema solar se limitava a 9 planetas e um cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter. Cometas não eram mais mensageiros do além para assombrar a humanidade, mas não deixavam de ser incógnitas. Bolas de neve que derretiam ao se aproximar do Sol? Ninguém sabia ao certo.

Desses 9 planetas, mal conhecíamos Júpiter e Saturno através de imagens incertas dos grandes telescópios como o de Hale, com 5m de diâmetro no Monte Palomar. De Marte e Vênus, quase nada, apenas discos mais ou menos borrados. Urano, Netuno, Plutão e asteroides nada mais eram que pontos pouco maiores que estrelas nas imagens fotográficas.

Nem a própria Terra a gente sabia como era vista do espaço, e da Lua só conhecíamos a metade que ela nos mostra em solo. O russo Yuri Gagarin foi o primeiro humano a ver a Terra lá de cima, em 12/4/1961.

Sondas americanas e europeias (principalmente russas) abriram o livro do conhecimento à comunidade científica, através de imagens nunca dantes registradas. Exemplificando com algumas americanas, em 1962 a Mariner 2 mandou para a Terra as primeiras imagens de Vênus, de 1964 a 1973 as Mariner 4 ~ 7 fizeram o mesmo em Marte, em 1973 a Mariner 10 visitou Mercúrio.  Júpiter e Saturno foram inicialmente visitados pelas sondas Pioneer 10 (Júpiter - 1973) e Pioneer 11 (Saturno - 1979).

Em 1977, foram lançadas as Voyager 1 e 2, sendo que a segunda realizou o que é conhecido hoje como a Grand Tour, com imagens detalhadas de Júpiter, suas imensas luas e anéis (antes desconhecidos), depois Saturno e então as inéditas imagens de Urano  (em 24.01.1986) e Netuno ( em 25.08.1989), que também exibiram anéis e novos satélites.
 
Netuno, foto da Voyager 2 (crédito: NASA, JPL)
As sondas Pioneer 10 e 11 e as Voyager 1 e 2 foram os primeiros artefatos produzidos pela Humanidade a ganhar o chamado espaço sideral. Todas já ultrapassaram de longe as órbitas dos planetas conhecidos, sendo que a Voyager 1 foi a primeira a se libertar do jugo do Sol em agosto de 2012. As Pioneer já silenciaram, mas as Voyager continuam mandando dados importantes.

O final dos anos 90 nos brindaram com a descoberta dos primeiros astros de médio porte no sistema solar, alguns deles dignos de comparação com Plutão, nosso então 9º planeta. Por conta disso, em 2006 a União Astronômica Internacional acabou por definir planeta de uma maneira que excluiu Plutão do rol e incluiu na nova nomenclatura de planeta-anão: Plutão; Ceres, o maior dos asteroides; Éris, um astro que vem dos confins do sistema solar, numa órbita de 560 anos; Makemake e Haumea, que são os maiores de inúmeros dos novos corpos celestes descobertos.

Temos sondas passeando por Marte e mandando imagens soberbas de seu solo em princípio inóspito, mas que com algum esforço pode se tornar habitável. Já escrevi dois posts referenciando Marte:


A sonda Cassini nos brinda até hoje com as mais lindas imagens de Saturno e seus anéis, além do módulo Huygens ter sido o primeiro a ser lançado em direção a Titã, sua maior lua e a única do sistema solar a ter uma densa atmosfera e lagos de metano. O Huygens pousou em Titã em 14/01/2005 e a Cassini encerrará sua extensa missão apenas em 2017 - temos muito ainda pela frente!

Saturno visto de trás, com Terra (crédito NASA, JPL - Caltech)

Não abordarei aqui os novos planetas descobertos em estrelas próximas, que já são na casa de centenas, muitos dos quais em situação similar à da Terra, ou seja, potencialmente habitáveis. Isso será matéria de um futuro post astronômico.

2015 é um ano especial para mim. Em paralelo com inúmeras descobertas e avanços em cosmologia e física quântica, formação galáctica e planetária, 3 eventos em particular fecham meu ciclo de aprendizado sobre o Sistema Solar, iniciado há 52 anos. São eles:

Março/2015: Visita da sonda "Dawn" ao maior dos asteroides, Ceres, hoje em dia reclassificado como planeta-anão. Ela já havia feito ciência de ponta ao visitar Vesta, o 2º maior asteroide do Cinturão, orbitando-o por mais de 1 ano.

14/Julho/2015:  A sonda "New Horizons" fará pioneira passagem por Plutão, com expectativa de chegada de dados inéditos sobre o planeta-anão e seu séquito de luas nos meses a seguir (a transmissão será lenta). Em junho são esperadas as primeiras grandes novidades, pois suas poderosas câmeras desde já estão apontadas para o destino.
  
Agosto/2015: o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko passará pelo periélio, que é o ponto de maior aproximação do Sol. É o seu período de maior atividade e tudo será testemunhado ao longo dos próximos meses pela Rosetta, que o orbita desde agosto/2014. A Rosetta foi a primeira sonda a orbitar um cometa e o módulo Philae, por ela lançado em direção ao 67P, foi o primeiro artefato a pousar na superfície de um cometa.

Em próximos posts procurarei detalhar cada um desses eventos.