Os mais antigos, que são em número cada vez menor ao meu redor, lembram de um cantor, seresteiro, chamado Sylvio Caldas. No final de sua vitoriosa carreira, Sylvio Caldas resolveu fazer um show de despedida. Passados alguns dias, dado o sucesso, resolveu fazer outro show de despedida em outra casa. Despediu-se no rádio. Incentivado por amigos e fãs, não muito tempo depois, fez outra despedida.
Silvo morreu aos 89 anos. Deixou muitos sucessos, mas segundo alguns o maior deles é (as gravações estão ai) um samba canção (ou valsa brasileira) intitulado "Chão de Estrelas", que compôs em parceria com Orestes Barbosa, um dos maiores poetas da música popular de todos os tempos, como se pode comprovar nos versos desta canção citada:
".................................................
Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda, qual bandeiras agitadas
Pareciam estranho festival!
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional
A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
..................................................."
Lindíssima imagem. Com efeito, no passado os morros eram habitados por pessoas humildes que tinham suas modestas casas cobertas com folhas de zinco que por entre os encaixes ou pequenos orifícios provocados pela ação do tempo, permitiam que a luz solar, ou do luar penetrasse e se projetasse sobre o piso do barraco às escuras. O efeito daqueles pontos luminosos no chão deveria ser, mesmo, o de um céu estrelado.
E arremata Orestes Barbosa, em verso da canção: "tu pisava os astros. distraída,..."
Gente, não se fazem mais poetas populares como no passado. As letras das músicas atuais são impossíveis de qualificar, tal a pobreza, a vulgaridade, o absurdo.
Esta lembrança de Sylvio Caldas, parceiro de Orestes e interprete incomparável nesta música, tem uma razão de ser. As suas múltiplas despedidas dos palcos. Que acabaram virando um negócio.
Também eu, neste espaço, já ameacei e não cumpri encerrar o blog. Já me despedi, de vez ou temporariamente, algumas vezes. E não obstante aqui estou eu ainda postando protestos, criticas, historietas e passagens de minha vida, entremeadas de colaborações de pacientes e fieis amigos.
Como paciência tem limite e os fieis amigos estão rareando acho que desta vez será para valer. Não quero terminar falando absolutamente sozinho, apenas com meus botões, como foi no princípio, há cinco anos.
A diferença é que no princípio, considerando que o objetivo primordial do blog era deixar um repositório de úteis informações para meus pósteros, o silêncio dos leitores não fazia diferença, se me permitem a repetição.
Entretanto, tendo tido interlocutores nos últimos tempos, suas ausências tornam o silêncio ensurdecedor (não sei quem usou esta expressão). Desânimo e desmotivação são as palavras que melhor traduziriam meu estado.
Posso, como o "Caboclinho querido", carinhoso apelido dado ao Sylvio Caldas, voltar para outra despedida. Ou não.
Saio "à francesa", que seria a maneira como os franceses deixam (ou deixavam) as festas, sem se despedir, evitando interromper o divertimento dos outros. Chic, não?
Nota do editor: a partir do dia 5 de outubro ou, mais precisamente, após a apuração das eleições, o Brasil vai mudar. Para pior, por um tempo, para depois melhorar, ou vai piorar direto e por muito tempo, até quem sabe uma guerra civil que nós brasileiros, felizmente, conhecemos apenas dos livros de história, dos filmes e jornais televisivos. Façam suas preces aos deuses, santos ou orixás.