1 de abril de 2026

Memórias da infância, continuação

Voltando à primeira infância. Vindos do Rio de Janeiro, do bairro do Andaraí, onde nasci, meus pais se instalaram em Niterói, na Rua São Diogo, 21, no bairro da Ponta D'Areia (atualmente Portugal Pequeno).

O nº 21 da rua nada mais era do que a entrada para uma vila de casas, idênticas e geminadas. 

Crianças não se envolviam em assuntos de adultos, mas tenho um resquício de memória auditiva dando conta de que mais do que um novo empreendimento - no caso imobiliário - do Conde Ernesto Pereira Carneiro, todo aquele complexo de várias casas seria na verdade uma vila operária que abrigaria os empregados de algum negócio que não se concretizou.

Para quem não sabe, ou lembra, os Pereira Carneiro eram muito ricos e influentes. O título nobiliárquico papal - Conde - concedido a Ernesto, com seu óbito foi transferido para sua mulher, bem assim seus bens materiais, inclusive o prestigioso "Jornal do Brasil."

Palacete Pereira Carneiro

Para além do citado conjunto de casas onde eu morava, e fazendo divisa com o mesmo, ficava a "Vila Pereira Carneiro", mais que uma vila comum, um bairro bucólico, com autonomia até mesmo espiritual pois possuía  uma igreja ... onde fui coroinha.


Estou escrevendo no passado, mas suponho que o cenário descrito permanece lá, com poucas mais significativas mudanças.

Por exemplo, a Rua São Diogo, que era de terra batida, permitia fazermos búlicas para jogar bola de gude, agora é asfaltada.

Como o trânsito era muito reduzido, à época, em razão disso podíamos jogar pelada na rua, no sentido diagonal, de sorte a que um dos gols ficava numa calçada e o outro noutra.

Para fazer as vezes de travas, aproveitávamos as árvores (Ficus e Amendoeiras) existentes nas calçadas, junto ao meio-fio, de um lado, e do outro o muro da casa alinhada.

Quase não era necessário parar o jogo, em virtude do pouco trânsito de veículos já mencionado; parávamos somente quando uma das senhores precisava atravessar a rua. Alguém gritava: Para! para! para a dona fulana passar. Isso se era conhecida dos participantes da pelada. Se não era conhecida gritavam apenas: Para! Para a "dona" passar. (verbo e preposição sem acento agudo, para não molestar a professora Rachel).

As folhas do Ficus, cuidadosamente enroladas e sopradas funcionam como apito, assobio. Sabia?

Voltarei outro dia, para tratar de costumes da época - oitenta anos passados - como por exemplo o hábito de pedir "emprestado" à vizinha, uma xícara de açúcar, ou dois ovos, coisas assim. Se faziam um acepipe, uma iguaria, levavam num pratinho para a vizinha mais chegada, que por sua vez deveria devolver o pratinho com  uma guloseima.

Não era uma regra social escrita, mas consolidada pela tradição.

Vou comentar, outrossim, que os homens jogavam damas, trajando ainda, ou já, o paletó de pijama. Se eram mais de dois o jogo poderia ser dominó. Em plena rua, no nosso caso, moradores de vila sem tráfego.

Esses e outros costumes e tradições, antes do surgimento dos "arranha céus", e principalmente da televisão, computador, celular, e coisas eletrônicas do gênero, que tornaram tudo digital, afastando as pessoas de convívio presencial, abolindo o simples cumprimento: Bom dia! Boa Noite!

No prédio onde resido, que nem é tão grande, vez ou outra me deparo no elevador com alguém que não sei se morador ou visitante de alguém.

Sim, tem o fenômeno rotativo na ocupação (venda, locação), mas e os antigos, como eu que aqui resido há 48 anos que raramente encontro (nem nas assembleias)?

Onde o convívio?


NOTAS:

1. Tirante as fotos de minhas irmãs, do acervo familiar, as demais foram colhidas via Google.

2. Matéria sobre o assunto em:

https://www.tupi.fm/entretenimento/houve-uma-epoca-em-que-os-vizinhos-sentavam-na-calcada-para-conversar-ate-tarde/

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