18 de abril de 2026

Obscenos? De forma alguma.

Na minha infância, as piadas ditas obscenas, vulgares, de sacanagem em suma, eram atribuídas ao Joãozinho, papagaios, ou Bocage.

Pobre Bocage, famoso poeta, tão respeitado que em meu vestibular para a Faculdade de Direito, em 1967, ele estava incluído entre os autores portugueses a serem estudados porque passíveis de serem citados em questões da prova, no tocante à literatura.

Foi neste momento que me dei conta da injustiça cometida contra Manuel Maria Barbosa du Bocage.

Ele - Bocage - não era pornográfico, assim como Nelson Rodrigues não foi um autor maldito, imoral.

De igual sorte o escrivão da frota de Cabral - Pero Vaz de Caminha - foi elegante e cuidadoso no palavreado quando descreveu os indígenas aqui encontrados, sobretudo as índias.

Trecho da carta
Pero Vaz de Caminha


Vejam trecho da carta endereçada ao rei D. Manuel I, relatando o que encontraram nas terras "descobertas":

"Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma."

"Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas. Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos."

Mais discreto impossível. E mesmo neste português arcaico inteligível.

Nenhum comentário: