segunda-feira, setembro 07, 2026

Uma versão sempre decepciona ...

 ... ou causa imensa surpresa. Explico.

Foi-me oferecido, por empréstimo, o livro "1421 - O ano em que a China descobriu o mundo", de Gavin Menzies, alta patente da Marinha britânica, agora reformado.


A história narrada, com suporte documental, causa espanto a quem cultuou, durante anos, muitos anos, alguns navegadores europeus, responsáveis por descobertas importantes, fruto de coragem, espírito aventureiro e auxílio da sorte.

Cultuar é exagero, talvez reverenciar seja mais indicado, embora também aí poderia ser mais parcimonioso no elogio: admirar é mais consentâneo para o caso.

Vou ao ponto. Afirma o autor que Colombo não foi o primeiro a chegar a América; Magalhães não foi o primeiro a atravessar o estreito que leva seu nome; o capitão Cook não foi o descobridor da Nova Zelândia.

Todos eles valeram-se de cartas náuticas, registros, narrativas e informações deixadas por grandes navegadores chineses, estes sim que a bordo de navios de grande porte para a época, singraram os mares e oceanos.

Preservo-os de mencionar os nomes dos almirantes chineses que teriam comandado grandes frotas de juncos, "por mares nunca dantes navegados" (contrariando Camões).

Outra ingrata surpresa envolve o até então - para mim - famoso navegador Vasco da Gama, descobridor do caminho marítimo para as Índias.

Ora pois, ele empresta seu nome ao clube de meu coração pois foi um nobre, navegador, Conde da Vidigueira, explorador e administrador português. Na "Era dos Descobrimentos", destacou-se por ter sido o comandante dos primeiros navios a navegar da Europa à Índia, na mais longa viagem oceânica até então realizada, superior a uma volta completa ao mundo pelo Equador.

Entretanto, segundo a obra (ibidem), às folhas tantas, consta que ao chegar a Calicute, Vasco da Gama determinou a seu homens que colocassem em file os prisioneiros indianos e lhes decepassem as mãos, orelhas e narizes.

E reproduz trecho do historiador    Gaspar Correa descrevendo o ato (amplie o parágrafo no meio da foto). Barbárie.



Não vou mudar de clube, vou adotar o benefício da dúvida, já que desde sempre conhecia outra versão.

Já nem lembro porquê, mas a denominada Guerra do Paraguai, episódio histórico mais sangrento em nosso continente, trouxe-me surpresas, ao ser debatida na mídia recentemente.

https://especiais.gazetadopovo.com.br/guerra-do-paraguai/


Sempre constou, na versão oficial, que em dezembro de 1864, o Paraguai comandado por Francisco Solano López foi o primeiro a invadir a então província brasileira de Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul), logo após aprisionarem o navio brasileiro Marquês de Olinda.

Entretanto ouvi a seguinte versão em noticiários televisivos: o Paraguai sofreu uma catástrofe demográfica; perdeu quase 90% da população masculina adulta, e sua população foi reduzida a menos da metade. O corpo de López foi profanado.

Sabemos, ou deveríamos saber que versões históricas são diferentes maneiras de contar e interpretar um mesmo fato do passado, influenciadas pelo ponto de vista, pelos interesses e pelas fontes de quem o relata.

No Paraguai, como não poderia deixar de ser, é alimentada a tese de que não deram início a guerra contra os aliados Brasil, Uruguai e Argentina, que resultou na quase dizimação (90%) de sua população masculina adulta.

Para nós Caxias é um herói nacional, patrono de nosso Exército e dá nome a cidade, ruas e avenidas, como Marquês ou Duque.

Outro episódio chocante para mim, e prometo que será o último aqui comentado, ocorreu quando em visita a Alemanha, na região da Saxônia.


Minha mulher amuada, com forme
Como não poderia deixar de ser fui a Dresden. E lá ouvi, estarrecido, que Churchill (meu ídolo político), mandara bombardear a cidade após a rendição da Alemanha. O que teria sido abominável, até pela  história da cidade como centro artístico e cultural, não envolvida nos conflitos.

Porque chocado, resolvi fazer pesquisa histórica. E eis o que apurei.

"Dresden não foi bombardeada após a rendição do Eixo ou após o fim da guerra. O trágico bombardeio de Dresden ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, entre os dias 13 e 15 de fevereiro de 1945. 

A confusão histórica costuma acontecer pelo momento em que o ataque foi realizado, mas a linha do tempo oficial esclarece os fatos: O Ataque (Fevereiro de 1945): Quando as forças aéreas britânica (RAF) e americana (USAAC) lançaram toneladas de bombas incendiárias sobre Dresden, a Alemanha nazista ainda estava ativa e lutando. O ataque aconteceu cerca de três meses antes do encerramento das hostilidades na Europa.


A Alemanha só assinou a sua rendição incondicional em maio de 1945 (o chamado Dia da Vitória na Europa ocorreu em 8 de maio), semanas após o suicídio de Adolf Hitler. 

A Segunda Guerra Mundial terminou oficialmente apenas em 2 de setembro de 1945, com a rendição formal do Japão (o último país do Eixo a capitular).

Embora tenha ocorrido antes do fim da guerra, o ataque a Dresden é considerado uma das ações mais controversas dos Aliados. Como a Alemanha já estava militarmente enfraquecida e a derrota do regime nazista era iminente, muitos críticos e historiadores questionam a real necessidade estratégica de destruir uma cidade historicamente artística, repleta de refugiados civis, naquele estágio final do conflito.

Menos mal que ocorreu a destruição ainda sob os efeitos da guerra, a despeito de alguns ainda alimentarem a versão de que o bombardeio da cidade era dispensável.


Certamente outros fatos e episódios históricos padecem de controvérsias, porque dependem de diferentes maneiras de contar e interpretar um mesmo fato do passado, influenciadas pelo ponto de vista, pelos interesses e pelas fontes de quem os relata.

4 comentários:

Jorge Carrano disse...

Para mencionar o fator sorte, em "descobertas importantes, fruto de coragem, espírito aventureiro e auxílio da sorte." basiei-me na calmaria qu trouxe Cabral ao Brasil. Rsrsrs

Jorge Carrano disse...

Só quem foi protagonista conhece as entranhas dos fatos históricos.

Jorge Carrano disse...

História oficial: os maoris são povo indígena originário da Nova Zelândia, descendentes de polinésios que chegaram às ilhas em grandes canoas entre os séculos XIII e XIV.
Navegadores do leste da Polinésia chegaram à Nova Zelândia (chamada por eles de Aotearoa) entre 1320 e 1350 usando as estrelas e os ventos como guia.

RIVA disse...

Devorei o livro 1421 de Gavin Menzies acho que há uns 20 anos. Fiquei impressionado com tudo que li, e pesquisei na época alguma coisa. Fiz contato com o autor, com quem me correspondo até hoje umas 3 ou 4x por ano, sobre o mesmo assunto, que me fascina.

E o que mais me fascina é o periodo de navegação chinesa, comandada por Zheng He, com seus gigantescos navios e tripulações, e a força manual para remadas. Nunca tinha ouvido falar disso !!!!

Mas de realidade mesmo, comprovada, pelo que sei, essas frotas chinesas navegaram SIM, pelos oceanos Ìndico e Pacífico, mas não pelo Atlântico.
Mas as pesquisas continuam.

O nível das pesquisas hoje é surreal, podem realmente desmontar todas as narrativas que aprendemos na escola em nossa infância.

Sobre a existência de Jesus então .... sobre o que está escrito na Bíblia então ...... acho que já comentei sobre um livro intitulado E A BÍBLIA TINHA RAZÃO ...levei 8 anos para ler !