30 de junho de 2026

O SILÊNCIO das VITRINES

 


Por

RIVA





Sento-me à janela e observo a cidade que pulsa com pressa — jovens apressados, telas acesas, vitrines feitas para corpos e rostos de outra geração. 

Aos setenta anos carrego comigo uma trajetória repleta de decisões difíceis, realizações, projetos entregues, equipes formadas, e muitos erros que ensinaram mais do que qualquer curso. 

Ainda assim, quando bato à porta do mercado de trabalho, a fechadura parece ter sido trocada por um código que não reconheço. Não é só a falta de vagas; é o olhar que me atravessa, a surpresa velada quando digo meu tempo de experiência, como se décadas de prática fossem um peso em vez de um patrimônio. 

Chamam isso de renovação, de espaço para os mais jovens, e eu, que aprendi a me adaptar tantas vezes, discordo em silêncio.  

O entretenimento segue o mesmo roteiro: programas, eventos, aplicativos, tudo desenhado para um público que respira outra linguagem. Sinto falta de lugares onde minha presença não seja um adereço simpático, onde as conversas não precisem ser traduzidas. 

Nos serviços públicos, barreiras invisíveis: formulários digitais, horários, linguagem e canais que favorecem quem já está integrado às novas rotinas.

Há dias em que me convenço de que é justo: o mundo sempre precisará de espaço para o novo, para a energia que só a juventude tem. Mas há também dias em que a resignação pesa, porque essa exclusão não é uma escolha minha; é um invisível empurrão para a margem.

Como continuar contribuindo, mesmo que de forma diferente ?

Há sabedoria nas rugas, memória nas mãos, calma nas decisões que só o tempo ensina. Ainda tenho histórias para contar, habilidades para oferecer e vontade de participar — não como um espectador relegado à margem, mas como alguém que, apesar dos anos, tem muito a agregar.

E se este é realmente o meu tempo de recuar, que seja um recuo com reconhecimento, com portas que se abram para o diálogo e não apenas para despedidas.

PS : coloquei esse texto no LINKED IN e me impressiona, até o momento, a ausência de comentários. Lêem e não comentam. O número de acessos é até expressivo, mas o silêncio é sepulcral. Alguém consegue me explicar por quê ?


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