
Ana Maria Carrano (repercutindo)
Por um dos acasos do destino, me
deparei com este texto de Lya Luft.
Nele, a consagrada escritora (81
anos) aborda a ideia do envelhecimento. Embora o "start", o
"mote", o "gancho" tenha sido um evento entre mulheres, o
tema pode ser entendido e refletido por pessoas de todos os gêneros ora
existentes ou que venham a existir.
Lya Luft
"A idade e a mudança"
"Mês passado participei de um evento sobre o Dia da Mulher.
Era um bate-papo com uma plateia composta de
umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades.
E por falar em idade, lá pelas tantas, fui
questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela, respondi.
Foi um momento inesquecível...
A platéia inteira fez um 'oooohh' de descrédito.
Aí fiquei pensando: 'pô, estou neste auditório
há quase uma hora exibindo minha inteligência, e a única coisa que provocou uma
reação calorosa da mulherada foi o fato de eu não aparentar a idade que tenho?
Onde é que nós estamos?'
Onde não sei, mas estamos correndo atrás de algo
caquético chamado 'juventude eterna'. Estão todos em busca da reversão do
tempo.
Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu
sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas.
Há um outro truque que faz com que continuemos a
ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avançada.
A fonte da juventude chama-se
"mudança".
De fato, quem é escravo da repetição está
condenado a virar cadáver antes da hora.
A única maneira de ser idoso sem envelhecer é
não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas.
Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos.
Mudança, o que vem a ser tal coisa?
Minha mãe recentemente mudou do apartamento
enorme em que morou a vida toda para um bem menorzinho.
Teve que vender e doar mais da metade dos móveis
e tranqueiras, que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao
conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu.
Rejuvenesceu.
Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um
baita emprego por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela vai à praia
sempre que tem sol.
Rejuvenesceu.
Toda mudança cobra um alto preço emocional.
Antes de se tomar uma decisão difícil, e durante
a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se
desestabiliza.
Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a
recompensa fica escancarada na face.
Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no
olhar que se percebe a tal juventude eterna.
Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um
cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não
existe plástica que resgate seu brilho.
Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente
optou por levar.
Olhe-se no espelho..."