4 de agosto de 2026

A caminhada passou a ter um pequeno viés deprimente

Década de 1950



Desde cedo frequento a Praia de Icaraí. Mesmo quando morava distante do bairro, e vinha de bicicleta, com meu melhor amigo da época, Doraly José do Canto, colega de colégio e quase vizinho na Ponta D'Areia. 

Trampolim à direita

Ainda estava de pé o trampolim de onde eu só saltava da primeira plataforma, e olhe lá.



Quando ingressei no Liceu passei a frequentar a praia, no trecho defronte as ruas Belisário Augusto e Otávio Carneiro, tirando chinfra por causa de minhas ligações liceístas.

E mesmo sendo invasor, fazia coro com eles de que no trecho defronte ao Cine Icaraí "chovia". Era baixo clero, porque lá ficavam os moradores de bairros de bairros distantes, como Fonseca, Cubango  e Santa Rosa, porque o ônibus 49, Circular, tinha uma parada bem defronte à Praça Getúlio Vargas.

Lá desembarcavam hordas de "farofeiros".

Com Roberto Durão, este amigo do curso do Comandante Paulo Pessoa, e cujo pai possuía um Packard 1941, e vez ou outra emprestava ao filho, ficávamos desfilando vagarosamente junto ao meio-fio, no lado do mar, paquerando as meninas que faziam footing pelo calçadão ainda estreito.

As caminhadas no calçadão, a pé, como rotina,  tiveram início quando comprei meu primeiro apartamento no bairro, na Rua Miguel de Frias. 

E quando mudei, como locatário,  para o Santos Apóstolos, condomínio ao lado do prédio do Cassino Icaraí (atual sede da UFF), e já então casado, passei a fazer caminhadas matinais na beira d'água, ali onde o mar se rende à areia, molhada e dura, banhada pelo fluxo e refluxo do mar.

E, eventualmente, também à noite no calçadão, após o jantar, para digestão.

Bem, são anos e anos caminhando no famoso calçadão.

Neste interregno encontrava, acenava a mão ou parava para breve papo, com muitos amigos.

E cruzava com muitos desconhecidos que se tornavam conhecidos tantas as vezes em que nos víamos na mesma rotina de caminhar lentamente.

E na fase profissional? Eram tantos os  clientes ou condôminos de prédios onde atuava, comparecendo à assembleias ou aforando cobranças que por vezes tinha que parar para um breve cumprimento.

E assim, ainda hoje, mantenho sempre que possível meu hábito de caminhar. Não mais sentando um pouco, num dos bancos da "Curva da Itapuca" porque as tartarugas não mais aparecem no ali no mar junto as pedras famosas (Itapuca e do Índio) e outras menores e anônimas.

Ali, atualmente, só surfistas quando as ondas estão favoráveis.

Estou divagando mas não me afastando do tema que elegi para esta postagem, senão desenhando o contexto.

Como narrado são anos, momentos e circunstâncias nas caminhadas no calçadão, quando encontrava amigos e rostos familiares pela constância do mesmo prazer.

O que me deprime, ou entristece melhor  explicitando, é que com o passar dos anos, principalmente estes últimos dez, foram escasseando estes encontros ou cruzamentos, em razão de idade  avançada, limitações físicas, mudanças de endereço e outras razões, com prevalência de óbitos.

Onde as caras familiares? Os amigos? Os clientes? Meus médicos? Contemporâneos do Liceu?

Dou-me conta que sou o sobrevivente de tempos maravilhosos, prazerosos, de encanto com a natureza, com o visual.

De quando pela manhã corria e me exercitava, antes de um mergulho.


A água era menos poluída, tinha até tatuís enterrados na areia molhada no quebra mar. Bastava enterra a mão na areia e ao puxa-la não raro vinha um tatuí. Acreditem.

Era muito bom viver em Niterói. Uma aldeia global.

A Praia de Icaraí tinha um bonde que subia a Estrada Froes e ia até o Saco de São Francisco

Década de 1950


Século XXI - quanta mudança em 70 anos.

Notas:

1. A foto do automóvel foi colhida na rede mundial, mas o modelo do veículo é idêntico ao do pai do Durão.
2. Locais badalados, em diferentes épocas:
a) Gruta de Capri, na Miguel de Frias, para comer uma pizza brotinho com um chopinho.
b) O Bier Strand na esquina da Pereira da Silva, para bebericar e bater  papo com amigos.
c) A histórica sorveteria italiana que ficava nos fundos de um terreno na Praia de Icaraí (Avenida Jornalista Alberto Francisco Torres). A tradicional "Sorveteria e Pizzaria Italiana". 
3. Orla de Icaraí, em Niterói, dá mais um passo para ganhar novo visual. 
4. https://www.atribunarj.com.br/materia/niteroi-cria-grupo-de-trabalho-para-elaborar-nova-orla-de-icarai

https://enfoco.com.br/noticias/regiao/niteroi/orla-de-icarai-em-niteroi-da-mais-um-passo-para-ganhar-cara-nova/




7 comentários:

RIVA disse...

Compreendo totalmente sua tristeza, episódica, creio que como a minha.
Volta e meia comento com a MV depois de um "footing" : reparou que não encontramos nenhum conhecido ?

Por onde ando geralmente encontro amigos do futebol do Abel, vizinhos, muito eventualmente primos, e conhecidos de relacionamentos diversos. E fico impressionado quando não os encontro.

Eu tive uma fase na vida em quentrabalhei enfurnado em canteiros de obras em Caxias e no Rio por 18 anos. Isso me afastou quase 100% das minhas amizades.

Quando saí da construção civil e fui trabalhar na Administração Predial do Citibank no Centro do Rio, indo e vindo de barca, pegando ônibus, foi simplesmente espetacular, pois passei a reencontrar pessoas desaparecidas há quase 20 anos.

E permaneci nesse tipo de trabalho e na mesma região por mais 20 anos.

E agora ? Aposentado, sem atividade trabalhista, idoso, e os meus amigos e conhecidos também idosos, por onde andam ?

Com tudo isso uma transformação .... imensamente mais próximo dos meus filhos e dos seus amigos (que ainda me chamam de tio), e vivenciando algumas atividades com eles.

Mas se eu for dar uma caminhada no calçadão, muito provavelmente só encontrarei folhas de amendoeiras pelo chão ....

Jorge Carrano disse...

Gostei muito do epílogo: "Mas se eu for dar uma caminhada no calçadão, muito provavelmente só encontrarei folhas de amendoeiras pelo chão ...."
Embora encerre uma triste realidade, é bastante poético.

RIVA disse...

Gosto de xeretar o GE, e tenho buscado datas exatamente há 10 anos.

Dessa vez um post sobre Olimpíadas, com 30 comentários !!! Sim, eu disse 30 !!!!!

https://jorgecarrano.blogspot.com/2016/08/fracoes-de-segundos.html

Jorge Carrano disse...

Este outro, há 11 anos, também é representativo de um passado que se não foi brilhante, não foi humilhante:
https://jorgecarrano.blogspot.com/2025/03/agradecimentos-aos-que-prestigiaram-o.html

Jorge Carrano disse...

Às oito da manhã, bem desperto, sóbrio, lúcido, datei um post de 2025 como sendo publicado há 11 anos. Sorry.

Jorge Carrano disse...

Estudo após estudo sobre a solidão após os 60 anos aponta para a mesma conclusão. As pessoas que se sentem menos sozinhas não são as que têm as agendas mais cheias ou as que recebem mais visitas. São as que mantêm alguns lugares onde ainda é permitido aparecer sem motivo.

https://www.tupi.fm/entretenimento/estudo-apos-estudo-sobre-a-solidao-apos-os-60-anos-aponta-para-a-mesma-conclusao/


RIVA disse...

Entrei no link da matéria. Interessante análise. Eu particularmente acho que é uma combinação das duas, ou seja, preencher de alguma forma sim a sua agenda, e também aparecer sem motivo em algum lugar .

Hoje, por exemplo, fui comprar linha para costuras da MV e aproveitei para dois pitstops ao acaso :
- bater um papo com meu amigo dono da lanchonete de salgados na Galeria Center
- bater um papo com o Vevé, que cortava meu cabelo quando eu ainda fazia isso num "barbeiro" (acho que a última vez foi há uns 45 anos ). Sempre foi um bom papo, e hoje eu estava por perto e fui lá dar um abraço.

Gosto de ir também dar uma volta vadia no Campo de São Bento, vai que encontro alguém vadiando também.