9 de março de 2026

Fui reprovada por um décimo...

 


 

Por

Wanda C. Carrano

 

 

  

Minha família era pobre. E meus pais de poucas letras. Mas tinham uma  aspiração: ver todos os filhos formados. E éramos 8 filhos no total.  Tive 7 irmãos  biológicos (dois já falecidos) e uma irmã afetiva, criada desde pequenina por meus pais. É interessante  como as pessoas mais carentes são exatamente aquelas que mais se preocupam com os outros mais desprovidos  ainda.

 

Ver os filhos formados significava dizer que as mulheres seriam professoras, porque fariam o "curso normal", maior nível de escolaridade possível na cidade. E os rapazes fariam o "curso técnico de contabilidade" pelas mesmas razões: falta de opções.

 

Era com imenso sacrifício que meu pai, concluído o curso primário no “Grupo Escolar Graça Guardia”, de ensino público, nos mantinha em escolas particulares. Mas havia uma regra: não podia repetir o ano, ou seja, se reprovado o destino seria a volta a escola pública.

 

Exatamente por causa desta regra deixei de estudar no "Colégio São Pedro”, que existia na Rua 25 de Março,  onde fazia o curso normal, e fui no ano seguinte para o Liceu de Cachoeiro, onde, finalmente, obtive o grau de professora primária (aqui em Niterói, chamada de normalista). No local onde funcionava o Colégio São Pedro e a Escola de Comércio, hoje tem um Shopping Center.

 

A diferença era que o curso normal na minha cidade, naquela época, tinha apenas dois anos de duração, e nas outras cidades maiores (Vitória, Niterói, Rio) o curso era de três anos.

 

Fiquei reprovada em Psicologia, graças ao padre Murilo que não admitiu me conceder mais um decimo na prova. Bem, o fato é que tive que repetir  o ano. Perdi também, com a mudança de colégio, o contato com as colegas.

Durante o curso primário no "Graça Guardia", a gente morava um pouco distante, no bairro chamado Coronel Borges,  mas ia à pé porque com o tostãozinho do ônibus que mamãe dava  eu comprava um pedaço de coco no bar do seu Jodimir. 


Do outro lado deste bar tinha um campo de bocha, onde eu ia levada por meu avô. Ele ficava jogando e eu no balanço improvisado. Meu avô gostava muito de mim, mas minha avó gostava mais ainda. Eu era a neta preferida.


Na casa dela é que eu matava aula e ela me escondia de minha mãe quando ela ia lá. Ela fazia um prato muito simples, dentro do orçamento familiar, que era uma delícia: macarrão com alho e azeite, e botava um pouquinho de colorau. Até hoje sinto saudades do macarrão de minha avó. As vezes faço aqui em casa, mas não fica igual.

 

No tempo do Liceu, já morávamos na cabeceira de uma das pontes sobre o rio que dá nome a cidade, e já mais grandinha participei de algumas competições esportivas e cheguei a ser eleita princesa do “Jubileu de Prata”. Nesta época construí uma amizade muito firme com Regina Tereza Severiano, que perdura até hoje.

 

Casamo-nos, mais ou menos na mesma época,  temos filhos e netos, ela mora em Vitória e eu em Niterói, mas nos falamos no Natal e nos respectivos aniversários. E já nos vimos umas duas vezes no curso destes 50 anos.

De certo modo devo a mãe dela – Dona Julieta – ter casado com o Jorge. Foi ela que conseguiu convencer meu pai a deixar que eu viesse numa excursão das alunas do Liceu. Ela chefiava o grupo.

 

Ficamos hospedadas no Ginásio do Caio Martins e fomos recebidas no antigo Palácio do Ingá, sede do governo fluminense  (antes da fusão do antigo RJ com o Estado da Guanabara),  pela esposa do governador  Roberto Silveira, que faleceu em desastre de helicóptero algum tempo depois.

 

Foi durante esta  excursão que eu e Jorge  – meu marido há 50 anos –  e que morava em Niterói, começamos  namorar em 1960.

 

Sobre Cachoeiro muito já foi dito no blog e em outros locais na internet. A cidade mudou pouco nestes anos que se passaram desde que, após o casamento, de lá me mudei para Niterói.

 

Naquela época Roberto Carlos cantava na ZYL-9 Rádio Cachoeiro de Itapemirim. Só. Não era, ainda, o Rei. Eu já havia sido princesa (risos).

 NOTAS:

1.Originariamente publicado em:

30 de maio de 2014

https://jorgecarrano.blogspot.com/2014/05/fui-reprovada-por-um-decimo.html


2. Mantida a foto original da postagem. Envelheceu nestes 12 anos decorridos. A propósito no próximo dia 17 irá completar 85 anos. Tá ficando uma velhinha simpática.


3. Republicada porque ontem, "Dia Internacional da Mulher", ela foi, como não poderia deixar de ser, uma das mulheres da minha vida. E há 61 anos.


3 comentários:

Jorge Carrano disse...

Foram excluídos os comentários quando da postagem original, poque para nossa tristeza, três dos seguidores que comentaram não mais estão entre nós, na vida terrena. RIP (Ana Maria, Freddy e Helga).

Jorge Carrano disse...

Dos membros de sua família em Cachoeiro, resta uma irmã que vive em Vitória - ES. E de suas amigas, Teresa, a mais chegada, também mora em Vitória.
E a cidade mudou muito, para o bem e para o mal.

Jorge Carrano disse...

A casa em que a família da Wanda Morava, quando a conheci, na cabeceira de uma das pontes sobre o rio Itapemirim, foi demolida e hoje é uma pequena praça pública.