7 de abril de 2026

ESGARGALADO

 Hoje, 7 de abril de 2026, faz 16 anos que publiquei o post a seguir, que era para ser uma crônica, e editei enxugando, numa época em que tinha pretensões de ser escritor diletante, para consumo próprio e familiar da produção. Acabara de ler o livro citado.

Eis a seguir o original:

Piorava a cada minuto. Ao cabo de poucos dias, já sem fala, com o que restava de sua lucidez, antes da inconsciência que precederia a morte, entendeu ser hora de manifestar sua última vontade. Tinha direito.

Quando nasceu, já nos primeiros dias de vida, amarraram-lhe em torno do pescoço um babadouro. Na primeira infância, o traje de marinheiro, com gravata, em voga na época, era sua roupa de passeio. Ingressou na escola. O uniforme pedia gravata, peça que o acompanharia o resto da vida, pois terminados os estudos fundamentais, foi trabalhar em um banco, no qual fez carreira. Sempre engravatado. Seu temor era que, cumprindo tradição familiar – fora assim com seu avô e com seu pai – fosse enterrado com seu melhor terno e a indefectível gravata.

Fez - em movimento lento e sem coordenação - mímica para a mulher, quase viúva, sentada junto a sua cabeceira, sugerindo que queria escrever. Ela entendeu.

Correu a procurar um papel. Não se deu ao trabalho de buscas por um bloco de notas. Serveria, pela urgência que o caso exigia – que poderia ele querer? – até mesmo o papel que embrulhara o pão, ainda sobre a mesa de refeição. Rasgou, às pressas, um pedaço que saiu irregular, mas de tamanho suficiente para escrever um bilhete, se fosse o caso. A esferográfica estava na mesinha, com a caderneta de telefones.

Com as mãos trêmulas, e ajudado pela mulher, que abriu e juntou as mãos, de sorte a dar apoio ao papel, escreveu: enterro esgargalado.

A cabeça, que levantara um tantinho, voltou abrupta ao travesseiro. A mão pendeu para um lado segurando frouxamente a caneta. Estava morto.

Prantos e telefonemas. Chegaram os filhos, noras e netos. E uma vizinha que acorreu, prestativa, logo que chamada. Alguém precisava cuidar da logística. Água com açúcar, chá de camomila, comida para as crianças, encontrar as velas e acende-las, essas coisas. E dona Alzira era como uma irmã.

O médico, que deveria esperar por isso a qualquer momento, foi chamado apenas para atestar o óbito. A viúva, inconsolável, soluçando abraçada a um dos filhos, lembrou-se do papel onde o falecido escrevera e caira ao chão.

Apontou, aos soluços e balbuciando alguma coisa ininteligível, mas que era suficiente para indicar que queria que o filho o pegasse.

Enterro esgargalado. Que quer dizer isto? Já teria perdido o tino? Esgargalado? Estaria se sentindo como esganado? Em vão. Ninguém sabia o significado. Ainda tentaram o médico, quando este chegou. Mas também o facultativo ignorava o sentido.

Coitado. Foi enterrado como seus antepassados, com o terno preto e de gravata.

Se alguém mais da família tivesse lido o Saramago, no “Homem Duplicado”, de onde o de cujus tirou a palavra que jamais esqueceu, por ser inusual, teriam podido satisfazer seu último desejo.

6 de abril de 2026

How embarrassing!!!

Ultimamente nem tanto, mas costumava caminhar no calçadão  de Icaraí, com meu filho caçula, ao tempo em que íamos conversando sobre temas os mais variados.

Na fala de hoje, na coletiva concedida, que despertava grande interesse porque se cogitava e torcia que Trump pudesse sinalizar o fim da guerra contra o Irã, ou quem sabe considerasse viável a proposta de paz apresentada pelo Paquistão, ficamos frustrados.

Ele ficou mais de três quartos do tempo falando da operação resgate do piloto de avião abatido pelo Irã. E ao contrário do previsto - a aguardado -  manteve prazo e ameaça ao Irã caso não seja liberado o Estreito de Ormuz.

Sem tirar o mérito da operação bem-sucedida, difícil, perigosa que era, Trump transformou  o feito numa epopeia, grandiloquente, inigualável, de bravura, competência e planejamento.

Uma breve menção, com as congratulações e agradecimentos da família, do governo e da sociedade norte-americana teriam sido suficientes. 

Mas voltemos ao início para destacar a relação da entrevista do Trump, hoje, com minhas conversas com o Ricardo.

Numa das supracitadas caminhadas, contei para ele - meu filho - minha admiração com um advogado com o qual trabalhara no Jurídico de determinada empresa (mantenho o anonimato, sem citações).

Relatava que o tal advogado ao prestar concurso público (difícil), para a Procuradoria do Estado, fora reprovado por décimos.

Inconformado, com base no Direito (comparado, intertemporal, consuetudinário), na doutrina, em normas regulamentadoras, inclusive internacionais, recorreu da decisão com a tese das teorias de aproximação matemática, do arredondamento. E logrou aprovação, e atua até hoje, com brilho, como procurador da fazenda estadual.

No final da narrativa meu filho ponderou que se ele tivesse todo o brilho intelectual e cultural que atribui ao amigo, ele não teria ficado por décimos de atingir a nota mínima exigida. 

Noutra caminhada e outro assunto, mencionei orgulhoso  que o Brasil era o maior reciclador de latas de alumínio.

Ele obtemperou que tal fato camufla em seu bojo a vergonha de sermos o pais mais descuidado, mais relaxado, mais sem princípios no descarte de latinhas. É um ângulo se a maior parte das latinhas é coletada nas vias públicas, praças, jardins e areias das praias.

Num outro momento comentamos que segundo a filosofia oriental, a segunda colocação numa competição é desonrosa. Se foi segundo evidencia que poderia ter vencido, ao contrário do último, por exemplo, que certamente não teria chance.

Finalmente chego à fala de Trump que transformou o resgate num feito heroico sem precedentes no mundo.

Sabem o que está camuflado na narrativa? Que tal ocorreu (e foi necessário) porque um avião da força aérea americana foi abatido pelo Irã, cuja capacidade de combate estava destruída segundo ele mesmo.

What a shame!!!

5 de abril de 2026

Amigos que me aguardam, seja lá onde possível na imensidão chamada Universo

"Viver é acumular perdas",  já definiu Paulo Alberto Monteiro de Barros (Artur da Távola).

Registro aqui, com atraso (mas por razões justificadoras para mim), as passagens de dois diletos amigos.

Tão amigos, parceiros, leais, generosos, com os quais convivi em diferentes momentos de minha vida, que avento, no título, a possibilidade de reencontro na eternidade, no infinito, onde seja viável, aceitável, razoável, crível, admissível, lógico, coerente, provável, acreditável, possível, porque mais do que fé ou verossimilhança, é meu forte desejo.

Ambos já foram citados aqui no blog.

Tomei conhecimento, num dos casos, por e-mail da esposa; no outro por nota de falecimento encontrável no website da AMAERJ.


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Doraly Representações

6 de mar. de 2026, 18:02

para Jorge,

Prezado amigo de Doraly ! 

Seu amigo partiu em 03/10 /25.

Ele me contava como era amizade de vocês e como foi feliz nessa época com você e os outros amigos!

Ficava feliz em receber seus e-mails .

Cuidei com muito amor durante 2 anos, ficou comigo em casa e recebeu todo o carinho que ele merecia e que eu recebi dele e pude devolver com meu amor . Faríamos 49 anos de casados e ainda estou tentando superar sua ausência!

Achei que devia te avisar pois a amizade de vocês foi muito bonita!

Deus te abençoe com saúde e paz! 

Forte abraço e minha gratidão! 

Geralda Canto 

Enviado via UOL Mail

Doraly

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Notícias | 23 de março de 2026 18:30

AMAERJ lamenta o falecimento do juiz Carlos Augusto Lopes Filho.

A AMAERJ informa, com pesar, o falecimento do juiz Carlos Augusto Lopes Filho, aos 84 anos. O magistrado era aposentado do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ).

Carlos Augusto Lopes Filho foi promotor de Justiça no antigo Estado do Rio, nas Comarcas de Casimiro de Abreu, Silva Jardim e Niterói.

Ingressou na Magistratura em 25 de setembro de 1973, no antigo Estado da Guanabara. Presidiu o 1º Tribunal do Júri de dezembro de 1982 a junho de 1990.

Carlos Augusto Lopes Filho faleceu nesta segunda-feira (23). A AMAERJ expressa condolências aos familiares e amigos do juiz e manifesta reconhecimento pela dedicação à Magistratura e ao Judiciário do Estado.

Para mim, como sempre foi : Carlinhos


https://amaerj.org.br/noticias/amaerj-lamenta-o-falecimento-do-juiz-carlos-augusto-lopes-filho/

3 de abril de 2026

PÁSCOA

 


A Páscoa é a principal celebração cristã, comemorando a ressurreição de Jesus Cristo três dias após sua crucificação, simbolizando renovação, vida nova e esperança. Ocorre anualmente no domingo após a primeira lua cheia do equinócio (março/abril). Também representa a passagem da morte para a vida.

Como é sabido (ou não), para os judeus a comemoração é outra, o simbolismo é outro. Como é outro o período de comemoração.

O Pessach (Páscoa Judaica) comemora a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito, liderado por Moisés, conforme descrito no livro bíblico do Êxodo. A celebração, que dura sete ou oito dias, marca a passagem da escravidão para a liberdade, destacando a intervenção divina que poupou os primogênitos hebreus da décima praga. 

Em 2026, o Nissan (que no calendário judaico corresponde, geralmente, aos meses de março ou abril do calendário gregoriano), que marca o início do ano religioso judaico, e o mês da Páscoa, começou ao pôr do sol de 19 de março, e terminará ao anoitecer de 17 de abril de 2026.

O calendário judeu - ou calendário hebraico - é conhecido por ser lunissolar, isto é, que se baseia nos ciclos da lua e do sol.

Pessach é uma palavra do hebraico que significa passagem. O primeiro dia do Nissan, conhecido como Rosh Chodesh Nissa, marca o o início da primavera.

Nota: por honestidade intelectual, transparência e pela verdade, informo que estas considerações só foram possíveis com o auxílio luxuoso da IA.

2 de abril de 2026

Conceito filosófico : SENSACIONAL!!!

Em primeiro lugar, perdão por atropelar a sequência de postagens. Mas, creio, é plenamente justificável. Não poderia deixar passar in albis, ou perder o timing,  da sensacional frase de Xi Jinping, a propósito dos erros de Trump.

A revista "The Economist" estampou em sua capa, conforme abaixo: (https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/capa-da-the-economist-mostra-xi-jinping-sorrindo-com-erros-de-trump/)



Se está difícil, pela qualidade da resolução da foto, ler o que está estampado, traduzo:

"Nunca interrompa seu inimigo quando ele está cometendo um erro".

Que eu saiba XI Jinping não chega a ser um filósofo, ou mesmo um aforista, mas acertou na mosca. Ironizou, definiu, fustigou,  com elegância e precisão cirúrgica.

Bem alguns ditados populares, surgidos no seio da sociedade, em sua maioria de autoria desconhecida, e por isso chamados de populares, são igualmente sábios.

Leiam este a seguir:

"Dê bastante corda a um tolo que ele se enforma sozinho."

Guardam ou não semelhança, a fala do líder chinês, com a sabedoria popular?

Em algum momento neste blog já arrisquei comentar que o Xi Jinping deveria estar  dando cambalhotas de alegria, com as trapalhadas do Trump. Vejam o sorriso na cara dele.

Ousado, criativo, polêmico, inconsequente ... e divertido.

Vestibulando de Direito, em São Paulo, por pirraça, contestação, disfunção cognitiva transitória, sacanagem ou qualquer outra motivação que seja, fugindo do tema da redação, explicitou a riqueza vocabular, esbanjando seu léxico.

Ganhou  nota zero e, inconformado, foi ao Judiciário (Processo: 1007416-32.2026.8.26.0053), e não encontrou guarida para sua tese defensiva.

O caso foi parar nas mídias eletrônicas e por esta mesma via chegou ao meu notebook. 

Como já brinquei aqui neste espaço virtual, com palavras e até mesmo frases que me propunha vender, resolvi publicar o polêmico texto do candidato, citando a fonte como deve ser.

No caso o website "Migalhas", em:

https://www.migalhas.com.br/quentes/452826/escrita-rebuscada-vestibulando-zera-redacao-e-processa-reitor-da-usp

Eis a íntegra da redação:

"Intentona pela Reconstituição da Interioridade

Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito. Djaimilia de Almeida concebe, em A Visão das Plantas, valer-se a epísteme lírico-narrativa de concepções hermenêutico-historiográficas, as quais decorrem da dialética antagônica e maquiavélica ao postularem a teleologia hodierna. Sob essa perspectiva, Ferdinand de Saussure preconiza a relação simbiótica entre significado e significante a partir da coesão engendrada pelo domínio tradicional concomitante ao coercitivo. Entretanto, à medida em que impera a dinamicidade, fragilizam-se axiomas em difusas postulações. Nesse ínterim, ressoa o sofrer recôndito na fragmentação identitária ao se concernir ao perdão - significado - múltiplos significantes: o condicionamento e a limitação, seja em razão da violência simbólica ou da tecnocracia.

Nessa vereda, sobrepuja-se a subjetividade ao “modus vivendi” da superestrutura cívico-identitária. Articula a dialética bourdiana - de Pierre Bourdieu - a internalização de signos culturais, fundamentados por efemérides violentas, a partir da impotência reflexiva inerente ao sujeito-interlocutor, o qual se resigna à unidimensionalidade distópica que o cerca. Dessa forma, transfigura-se a universalidade associada ao imperativo categórico no perdão condicionado: busca incessante por relegar a outrem o esvaziamento eudaimônico da individualidade esvaziada.

Ademais, nota-se haver a instrumentalização da razão a partir do Antropo-tecno-ceno - era em que ocorre a comodificação cultural a partir do uso de emergentes adventos tecnológicos. Nesse ínterim, Michael Sandel postula ser promovida pela tecnocracia a associação de concepções desenvolvimentistas à égide capitalista, ocasionando a negligência da seguridade social. Assim, desnuda-se o perdão limitado como sendo uma intentona à valorização do indivíduo cujo “status quo” encontra-se invisibilizado, uma vez que ocorre a busca mercadológica pelo perdão.

Diante do exposto, revela-se a tendência, no espectro contemporâneo, à fragmentação da “psique” coletiva, sendo o “perdão” a elucidação de sua fenomenologia. Nesse sentido, é diminuída a grandiloquência condoreira pela tecnocracia e pela violência simbólica, sendo o sofrer recôndito o seu suplício, em distintos significantes."

Nota: se o caro leitor tiver curiosidade de saber e ver onde aqui no blog fizemos pilhéria com frases e abordamos o tema "palavras", basta colocar na janela  "Pesquisar este blog": palavras.