Meu sogro, já referenciado aqui algumas vezes, foi um personagem e tanto. Por várias razões.
De poucas letras, parcos saberes escolares, por falta de oportunidades, na meia idade e até sua morte, compensava a carência de instrução formal com leitura, e assimilando a sabedoria popular.
Sempre morando em cidades pequenas, no século XX, quando conheci a família vivia em Cachoeiro de Itapemirim - ES. E lá namorei, noivei e me casei.
O Sr. Campagna (Campanha aportuguesado) era conhecido e respeitado na cidade, onde manteve um bar/restaurante, substituindo tal atividade por uma pequena fábrica de calçados (sandálias e botinas) feitas praticamente de forma artesanal. Cresceu um pouco e anos mais tarde montou uma serraria, tudo para acomodar e ocupar os sete filhos.
Um viés de seus princípios inegociáveis. Os filhos tinham que estudar e obter diploma, limitados, claro, as disponibilidades na cidade, que eram para os homens o curso técnico de contabilidade e para as mulheres o instituto de educação que formava normalistas.
Havia uma regra. Todos matriculados nas instituições particulares de ensino então existentes. Mas com a obrigação de progressão de série. Na hipótese de reprovação e repetição, a transferência para estabelecimento público era decisão antecipada.
Outro aspecto marcante do Campanha, já mencionado, era o gosto pela leitura. Ninguém, que eu conheça, sabe de cor todo o poema "O Corvo", de Edgar Allan Poe. Ele sabia e se jactava pelo fato.Outra coisa para ele sagrada, e também ninguém mais que eu conhecia tinha como rotina, era ouvir a "Hora do Brasil", anos mais tarde rebatizada como a "Voz do Brasil". E ai daquele que atrapalhasse a oitiva.
E comigo, então visitante, enaltecia a abertura clássica com o Guarani, de Carlos Gomes. E acertava o relógio confiando na pontualidade de entrada no ar em cadeia nacional.
Outra norma rígida que impunha à família: jantar às dezoito horas. Pudera, ele acordava às 05:00, e almoçava às 11:00.
Depois do jantar e ouvir a "Hora do Brasil", sentava-se diante de sua casa, espaço aberto mas calçado e ali recebia os leais amigos para conversas até às 22:00 horas. Eram constantes o farmacêutico (Abner), o tabelião (João Athayde) e um fazendeiro italiano grande e rustico como ele, de nome Cinoto.
Nos tempos mais apertados, ainda assim era sagrado comprar pão e café para servir aos seus empregados, às 15:00 horas, benefício criado por ele desde sempre. Se fosse o caso, que não comprassem para a família.
Quando atingido por um tumor na medula, teve que vir para no Rio para operar. Claro que com dificuldades financeiras.
Após a alta hospitalar ficou alguns dias em nossa casa, eis que morávamos em Niterói. Preocupado com o pagamento de seus empregados e encargos tributários. Sabendo pela Wanda que tínhamos uma pequena economia destinada ao sinal para compra de nosso apartamento (morava de aluguel), constrangido e desconfortável pelo orgulho atingido, perguntou se poderia emprestar por algum tempo.
Com os meus botões pensei que o empréstimo seria à fundo perdido, e dei adeus a compra do apartamento.
Pudera, ele praticamente inválido (ficou meses sem mobilidade e firmeza nas pernas) e sua fabriqueta de calçados longe de seus olhos à matroca, à deriva, como acreditar na possibilidade de ser reembolsado?
Pois muito bem, voltou para Cachoeiro e uma semana depois um de seus filhos (meu cunhado) apareceu em minha casa com o dinheiro para me pagar integralmente. Soube depois que enquanto não conseguiu contato com o gerente do banco onde conseguiu um empréstimo não sossegou.
Homens íntegros, idôneos, responsáveis são avis rara.
Mas é chegado o momento de explicar porque logo hoje resolvi lembrar de meu sogro. Devo isto ao sábio chinês Confúcio. Li, por acaso, um ensinamento dele. Vide abaixo.
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| “Nunca tenha como amigo alguém que não seja melhor do que você” |
Embora tosco beirando a rudeza, meu sogro era
bem-humorado. Uma de suas piadas recorrentes era: "dê duas surras diárias
em sua mulher, e não precisa dizer porque está batendo poque ela sabe porque
está apanhando".
E atribuía a autoria a Confúcio. Remete-me às piadas atribuídas ao escritor Manuel Maria Barbosa du Bocage. Coitados!!!
Nota:


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