Sou apenas neto de portuguesa, nunca morei em Portugal, onde só estive como turista. Em assim sendo como entender a lógica dos lusitanos genuínos, castiços.
Para exemplificar onde quero chegar, vou recorrer a Luiz Fernando Veríssimo e um caso por ele narrado.
Contou o consagrado escritor que chegando a Lisboa num final de tarde, pegou um táxi e, indo para o hotel, travou o seguinte diálogo com o motorista:
-"A que horas escurece em Lisboa?" E o motorista respondeu:
-"Em Lisboa não escurece!" E o Veríssimo, curioso:
-"Não? Porquê?" E o luso:
-"Porque ao escurecer acendemos as luzes..."
São exemplos, ainda, as situações clássicas já narradas ad nauseam:
Primeiro caso - Um brasileiro que morava em Portugal, certa feita dirigindo viu um carro com a porta de trás aberta. Solidário, preocupado conseguiu emparelhar e avisou:
- A porta está aberta!
A mulher que dirigia conferiu o problema e respondeu irritada:
- Não, senhor. Ela está mal fechada!
Segundo caso - Estando um brasileiro, em Lisboa, numa sexta-feira perguntou a um comerciante se ele fechava no sábado. O vendedor disse que não. No sábado o brasileiro voltou e deu com a cara na porta. Na segunda-feira, cobrou irritado do português:
- O senhor disse que não fechava aos sábados.
O homem respondeu:
- Mas como vamos fechar se não abrimos?
A par deste viés literal, e por causa dele, muitas piadas são criadas envolvendo nossos patrícios.
Numa delas o português se jactava por ter desenvolvido o menor olho mágico do mundo. Do tamanho da cabeça de um alfinete.
Indagado qual seria a vantagem e aplicação para o seu invento, respondeu empolgado: para porta de vidro.
Na mesma linha, o outro tinha criado uma pílula para matar a sede. E a recomendação, no rótulo : ingerir pela via oral com dois copos d'água.
Estávamos, eu e minha mulher, em passeio por Lisboa, num autocarro de turismo e em direção ao oceanário da cidade. Em dado momento o motorista resolveu cortar caminho e entrar numa viela.
Por precaução indagou de um sujeito senta nos degraus de uma casa logo na entrada, se a rua tinha saída.
Ante a resposta afirmativa entrou e quando percorrido certo trecho verificou-se que não havia saída. Saímos de ré e como não poderia deixar de ser o motorista reclamou com sujeito ainda lá sentado: não disseste que tinha saída?
A resposta curta e grossa em nada me surpreendeu: e não estás a sair?
Almoçávamos na cidade do Porto. Enquanto examinava a ementa (menu), observei um garçom (em Portugal empregado de mesa) passando pela nossa mesa com uma bandeja onde se via um bacalhau suculento e batatas a murro.
Virei-me para nosso atendente (empregado de mesa) e comandei: quero aquele prato alí apontando para a bandeja. Ato contínuo ele me respondeu: perdão, mas aquele já está pedido pela mesa ao lado.
Vai ser literal assim lá em Trás-os-Montes.