Opor o capital ao trabalho foi ganha-pão de cientistas políticos, antropólogos, sindicalistas, políticos profissionais e diletantes, jornalistas dos dois lados, estudantes pró e contra o imperialismo, demagogos e estadistas, líderes empresariais, tolos e chatos.
Humoristas também se inspiravam no conflito ficto e criavam boas piadas e charges. E quando o humorista é, também, um bom escritor/jornalista tudo fica divertido.
Na minha infância, já tangenciando a adolescência, na estante de casa tinha dois exemplares de histórias fantasiosas, envolvendo um pároco e um prefeito comunista.
O personagem principal era D. Camilo, o padre. Peppone, o prefeito comunista.
A história de Dom Camilo e Peppone, criada pelo jornalista e escritor italiano Giovannino Guareschi, gira em torno dos confrontos cômicos, ideológicos e humanos em uma pequena cidade fictícia do vale do Pó, na Itália, logo após a Segunda Guerra Mundial.
Dom Camilo é o pároco local, um sacerdote de forte personalidade, temperamento explosivo e mãos pesadas, mas profundamente devoto e bondoso. Ele costuma desabafar e pedir conselhos conversando diretamente com a imagem de Jesus Cristo no altar da sua igreja.
Peppone, no registro civil Giuseppe Bottazzi, é o prefeito da cidade e líder da seção local do Partido Comunista. É um homem forte, de origem operária, anticlerical, que defende a revolução vermelha, mas que, no fundo, tem um bom coração e um senso de dever prático.
A Itália do pós-guerra estava dividida, hoje dizemos polarizada, entre dois grandes blocos — os católicos, representados pela Igreja e por Dom Camilo e os comunistas representados pelo partido e por Peppone. Embora vivessem em pé de guerra, brigando por votos, pela influência na vila e em disputas políticas diárias, os dois se respeitavam.
Ambos lutaram juntos na Resistência Italiana contra o fascismo durante a guerra, um laço invisível que fazia com que, nos momentos de crise real na aldeia, eles deixassem as ideologias de lado e se unissem para ajudar a comunidade.
Um dos dois volume que tinha a minha disposição na estante doméstica era "O Pequeno Mundo de Dom Camilo".
Não se tratava de um romance tradicional, mas uma coletânea de crônicas e contos curtos publicados inicialmente em jornais e revistas.
Vivendo o pós-guerra e crescendo e amadurecendo, encantei-me com as curtas histórias, e adquiri outras obras do autor - Giovannino Guareschi - envolvendo os mesmos personagens: D. Camilo e Peppone.
Muito divertido, leitura que flui fácil e acaba, aqui e ali, nos levando a tomada de partido pelo espírito humanitário.
Acho tanta babaquice antepor capital ao trabalho, ou vice-versa, que narro aqui episódio de minha vida profissiponal.
Era chegado o Natal e a empresa em que trabalhava, em São Paulo (capital) resolveu reunir os empregados, não muitos, cerca de oitenta ao todo, entre operacionais e administrativos, para congraçamento com refrigerantes e guloseimas.
Como era o gerente administrativo/financeiro, fui instado a dizer algumas palavras antes de encerrar a reunião.
Ao invés de, como politicamente correto, e praxe em situações que tais, agradecer aos empregados a colaboração e empenho, agradeci ao presidente e acionista controlador (era uma S.A.), e enalteci o fato dele colocar seu dinheiro em uma atividade de risco, gerando emprego para nós, e pagando impostos, ao invés de aplicá-lo no mercado finaceiro, e ir para a praia desfrutar a vida.
Eram tempos de overnight e open market.
Não era puxassaquismo, era o que eu pensava de verdade.
Tirante alguns profissionais autônomos, que empresário pode prescindir de empregados? E onde empregados conseguiriam emprego, com garantias trabalhistas, para ganhar a vida?
Como flanelinhas? Entregador de pizzas? O problema está no ajuste, na conjuminância entre o "capitalismo selvagem" e o "nivelamento por baixo"













