Estou macambúzio, como dizia o falecido e muito bem-humorado Washington Rodrigues, de pneus arriados, farol baixo.
Pergunto a mim mesmo por que, e a resposta que me dou é sei lá.
Entretanto motivos não faltariam.
O quadro político é desanimador. Saudades do tempo, nem tão remoto, que tínhamos pelo menos três partidos políticos com programas de matizes distintos, que abrigavam boas cabeças: UDN, PSDD e PTB.
Nomes como Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda. O primeiro ocupando de novo as manchetes porque afinal, depois de anos, chegaram a conclusão de que o acidente rodoviário que o vitimou de morte, não foi acidental.
Assim como a morte dos outros dois, membros da "frente ampla", nomes de apelo popular, também ocorreram de forma suspeita e num curto período período de tempo entre elas.
Diga aí, se entre os candidatos que se colocam, algum deles seria capaz de cunhar, no ato de morte: "Deixo à sanha de meus inimigos o legado de minha morte". Ou,"Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história"? Como fez Getúlio Vargas, ditador, populista, estadista, "pai dos pobres".
Sinto falta das conversas com alguns amigos, agora indisponíveis, a menos que eu acreditasse naquele ritual do copo que encarna um espírito que responde suas perguntas indo de uma letra a outra como fazem as abelhas de padaria indo de um doce a outro.
Amigos que tinham opinião porque como eu mesmo faço, ouviam diferentes, divergentes, sopesavam argumentos e formavam uma compreensão, que cristalizava ou não, porque como as nuvens mudam de lugar opiniões mudam também. Sem culpa, sem censura.
Mário Castelar, provavelmente o mais próximo de amigo que jamais tive, dizia que "amigo a gente não julga".
O filósofo Raul Seixas lecionou:
"Prefiro ser
Essa metamorfose
ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose
ambulante
Do que ter aquela
velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo"
Não eram, aqueles amigos, como cavalos de charretes ou carruagens, que têm antolhos que não lhes permitem uma visão periférica.
Nunca me cativaram os que se limitam a mais do mesmo e não crescem, não enriquecem culturalmente, repetem as coisas como papagaios.
A origem de meu desânimo pode estar no futebol. A seleção brasileira comandada por um italiano, vai participar de uma copa que será realizada em três países, com jogos em várias cidades-sede, com participação de 48 seleções.
Não existem 48 países com seleções de futebol de nível igual, equivalente ou semelhante.
Isso empobrece a competição embora possa render dinheiro para a entidade organizadora e o país anfitrião (agora países). Compromete o aspecto esportivo.
No Brasil meu clube, o Vasco da Gama, de tantas glórias, histórias e tradições, anda à matroca, falido financeiramente.
Na Europa, o clube que tem a minha simpatia, desde a infância, quando ele tinha o melhor time do velho continente, perdeu hoje, pela segunda vez desde quando passou a ser possível acompanhar ao vivo a disputa, por via televisiva, a chance de conquistar o título continental. A primeira vez, em 2006, perdendo para o Barcelona, e hoje para o Paris Saint-Germain. Dessa vez eu acreditava ser possível porque o elenco era bom.
Outra possibilidade é o clima, as condições atmosféricas. O sol é o dínamo que carrega minhas baterias, sem ele fico meio barro meio tijolo.
Conheço a fórmula para me reanimar: um bom livro; jazz e blues que tenho em vinil e CDs; um vinho bom nos limites do que posso comprar sem comprometer o orçamento.
Ou um almoço em família com meus filhos, aproveitando o tempo que me resta de convívio presencial.
Quando este estado de espírito acontece quando se é jovem, é mole, sai na urina, mas aos 86 é mais rígido, mais lento e mais triste.
Notas:
https://jorgecarrano.blogspot.com/2016/05/edicao-extraordinaria-leicester.html
https://jorgecarrano.blogspot.com/2020/03/tipos-inesqueciveis-mario-castelar.html








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