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domingo, maio 18, 2025

Você sabe ler?

 

Já escaldado com Saramago, que me obrigou ir ao dicionário de sinônimos, com seu esgargalado, em  “O Homem Duplicado” (vide post via link a seguir): https://jorgecarrano.blogspot.com/search?q=saramago+esgargalado


Passei a ler suas obras com um marcador de tinta amarela ao meu lado para destacar uma ou outra palavra inusual ou desconhecida mesmo.

Ocorreu em “Caim”, com gónodas, palavra de esgarçada memória, não ouvida desde as aulas de biologia, matéria então chamada de ciências sociais, ao tempo do curso ginasial. 



Desde aquela remota época, não mais ouvi ou usei em meus escritos a palavra gónodas, porque  ao que significa falo em separado: bagos ou xibiu. 

Aplicação popular

Não, Saramago não é para todos, pois se trata de um sociólogo, de um psicólogo, um antropólogo, de um filósofo, com seu estilo sarcástico, com sua mordacidade dilacerante, ironia sutil, que concentra em seus textos um pouco de Dostoiévski, um pouco de Shakspeare, com pitadas de Nelson Rodrigues.

Antes de se aventurar na leitura do profundo “Ensaio sobre a cegueira”, que deixa desnudo o ser humano e provavelmente motivador do Nobel que lhe foi conferido, experimente os abaixo indicados.


Nota explicativa: pretendia, desconcentrado, aplicar o grifador amarelo em esgargalado e gónodas, esquecendo que o fundo do texto é amarelado, palha e, claro não iria destacara.

quarta-feira, abril 07, 2010

Esgargalado

Piorava a cada minuto. Ao cabo de poucos dias, já sem fala, com o que restava de sua lucidez, antes da inconsciência que precederia a morte, entendeu ser hora de manifestar sua última vontade. Tinha direito.

Quando nasceu, já nos primeiros dias de vida, amarraram-lhe em torno do pescoço um babadouro. Na primeira infância, o traje de marinheiro, com gravata, em voga na época, era sua roupa de passeio. Ingressou na escola. O uniforme pedia gravata, peça que o acompanharia o resto da vida, pois terminados os estudos fundamentais, foi trabalhar em um banco, no qual fez carreira. Sempre engravatado. Seu temor era que, cumprindo tradição familiar – fora assim com seu avô e com seu pai – fosse enterrado com seu melhor terno e a indefectível gravata.

Fez - em movimento lento e sem coordenação - mímica para a mulher, quase viúva, sentada junto a sua cabeceira, sugerindo que queria escrever. Ela entendeu.

Correu a procurar um papel. Não se deu ao trabalho de buscas por um bloco de notas. Serveria, pela urgência que o caso exigia – que poderia ele querer? – até mesmo o papel que embrulhara o pão, ainda sobre a mesa de refeição. Rasgou, às pressas, um pedaço que saiu irregular, mas de tamanho suficiente para escrever um bilhete, se fosse o caso. A esferográfica estava na mesinha, com a caderneta de telefones.

Com as mãos trêmulas, e ajudado pela mulher, que abriu e juntou as mãos, de sorte a dar apoio ao papel, escreveu: enterro esgargalado.

A cabeça, que levantara um tantinho, voltou abrupta ao travesseiro. A mão pendeu para um lado segurando frouxamente a caneta. Estava morto.

Prantos e telefonemas. Chegaram os filhos, noras e netos. E uma vizinha que acorreu, prestativa, logo que chamada. Alguém precisava cuidar da logística. Água com açúcar, chá de camomila, comida para as crianças, encontrar as velas e acende-las, essas coisas. E dona Alzira era como uma irmã.

O médico, que deveria esperar por isso a qualquer momento, foi chamado apenas para atestar o óbito. A viúva, inconsolável, soluçando abraçada a um dos filhos, lembrou-se do papel onde o falecido escrevera e caira ao chão.

Apontou, aos soluços e balbuciando alguma coisa ininteligível, mas que era suficiente para indicar que queria que o filho o pegasse.

Enterro esgargalado. Que quer dizer isto? Já teria perdido o tino? Esgargalado? Estaria se sentindo como esganado? Em vão. Ninguém sabia o significado. Ainda tentaram o médico, quando este chegou. Mas também o facultativo ignorava o sentido.

Coitado. Foi enterrado como seus antepassados, com o terno preto e de gravata.

Se alguém mais da família tivesse lido o Saramago, no “Homem Duplicado”, de onde o de cujus tirou a palavra que jamais esqueceu, por ser inusual, teriam podido satisfazer seu último desejo.

terça-feira, abril 07, 2026

ESGARGALADO

 Hoje, 7 de abril de 2026, faz 16 anos que publiquei o post a seguir, que era para ser uma crônica, e editei enxugando, numa época em que tinha pretensões de ser escritor diletante, para consumo próprio e familiar da produção. Acabara de ler o livro citado.

Eis a seguir o original:

Piorava a cada minuto. Ao cabo de poucos dias, já sem fala, com o que restava de sua lucidez, antes da inconsciência que precederia a morte, entendeu ser hora de manifestar sua última vontade. Tinha direito.

Quando nasceu, já nos primeiros dias de vida, amarraram-lhe em torno do pescoço um babadouro. Na primeira infância, o traje de marinheiro, com gravata, em voga na época, era sua roupa de passeio. Ingressou na escola. O uniforme pedia gravata, peça que o acompanharia o resto da vida, pois terminados os estudos fundamentais, foi trabalhar em um banco, no qual fez carreira. Sempre engravatado. Seu temor era que, cumprindo tradição familiar – fora assim com seu avô e com seu pai – fosse enterrado com seu melhor terno e a indefectível gravata.

Fez - em movimento lento e sem coordenação - mímica para a mulher, quase viúva, sentada junto a sua cabeceira, sugerindo que queria escrever. Ela entendeu.

Correu a procurar um papel. Não se deu ao trabalho de buscas por um bloco de notas. Serveria, pela urgência que o caso exigia – que poderia ele querer? – até mesmo o papel que embrulhara o pão, ainda sobre a mesa de refeição. Rasgou, às pressas, um pedaço que saiu irregular, mas de tamanho suficiente para escrever um bilhete, se fosse o caso. A esferográfica estava na mesinha, com a caderneta de telefones.

Com as mãos trêmulas, e ajudado pela mulher, que abriu e juntou as mãos, de sorte a dar apoio ao papel, escreveu: enterro esgargalado.

A cabeça, que levantara um tantinho, voltou abrupta ao travesseiro. A mão pendeu para um lado segurando frouxamente a caneta. Estava morto.

Prantos e telefonemas. Chegaram os filhos, noras e netos. E uma vizinha que acorreu, prestativa, logo que chamada. Alguém precisava cuidar da logística. Água com açúcar, chá de camomila, comida para as crianças, encontrar as velas e acende-las, essas coisas. E dona Alzira era como uma irmã.

O médico, que deveria esperar por isso a qualquer momento, foi chamado apenas para atestar o óbito. A viúva, inconsolável, soluçando abraçada a um dos filhos, lembrou-se do papel onde o falecido escrevera e caira ao chão.

Apontou, aos soluços e balbuciando alguma coisa ininteligível, mas que era suficiente para indicar que queria que o filho o pegasse.

Enterro esgargalado. Que quer dizer isto? Já teria perdido o tino? Esgargalado? Estaria se sentindo como esganado? Em vão. Ninguém sabia o significado. Ainda tentaram o médico, quando este chegou. Mas também o facultativo ignorava o sentido.

Coitado. Foi enterrado como seus antepassados, com o terno preto e de gravata.

Se alguém mais da família tivesse lido o Saramago, no “Homem Duplicado”, de onde o de cujus tirou a palavra que jamais esqueceu, por ser inusual, teriam podido satisfazer seu último desejo.

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

Atoarda


Já comentei aqui, mais de uma vez, minha ignorância quanto ao significado da palavra esgargalado, encontrada num livro do José Saramago.


Palácio da Pena
Em visita ao Palácio da Pena, em Sintra, Portugal, para identificar os cômodos é mais fácil ler as plaquinhas indicativas em inglês, posto que em português algumas vezes não se compreende.

Claro que exagero, porque casa de banhos é fácil identificar a que  fim se destina o cômodo.

Noutro dia esbarrei num texto com a palavra atoarda.

Nestes tempos de fake news, notícias falsas, boatos ou balelas, esta expressão da língua portuguesa, falada e escrita em Portugal, poderá ser de grande valia (rsrsrs).

Outras palavras usadas em Portugal, com significado diferente do que adotamos aqui, já conhecia.

Um exemplo seria rebuçado, lá a nossa bala.

Outros? Chávena para xícara, autocarro para ônibus, passadeira, ao invés de faixa de pedestre.

Algumas causam muita estranheza, como por exemplo peúgas, nestas plagas as nossas conhecidas meias.

Hospedeira de bordo ao invés de aeromoça dificultaria aquela cantada que era dada por passageiros mais afoitos. 

Bem, palavras com significados diferentes tudo bem, mas esgargalado e atoarda quem usa por aqui? Se o Romário, "o homem dicionário" fosse vivo, e desafiado no programa do César de Alencar, certamente saberia. Conhecia  todas as palavras do vernáculo.

Até mesmo o glabro, empregado pelo Chico, ele acertaria.

Todavia, tendo residido em São Paulo durante bom tempo, tive que aprender parte do dialeto paulista.

Lá, guia é o nosso meio-fio; farol é sinal de trânsito. E breque é freio.

Se você pedir na padaria uma bisnaga, não será atendido. Peça uma bengala. E não tente trocar os cascos das bebidas. São vasilhames.

Dando uma amplitude maior, verificaremos que dentro do Brasil, dependendo das regiões, uma mesma coisa tem nomes diferentes: atiradeira, estilingue e seta são rigorosamente a mesma coisa. Aipim e macaxeira também.  Assim como abóbora é jerimum. Pipa, pandorga e cafifa flutuam coloridas, com rabicho ou rabiola, ao sabor dos ventos  pelos céus do país.

Nota do autor:
Em 2010, num arremedo de crônica, falamos do esgargalado. Está em:

https://jorgecarrano.blogspot.com/2010/04/esgargalado.html

terça-feira, setembro 13, 2011

Pongar o bonde

Glabro, esgargalado e pongar. Em Chico Buarque, em José Saramago e em Gilberto Gil, encontrei vocábulos que me levaram ao tio do Chico, para poder aprender o significado.

Assim, aprendi que pongar é pegar o bonde, ou outro veículo qualquer. Glabro e esgargalado não digo o significado. Cada um que vá ao dicionário se estiver interessado.
Linha 20, em Niterói
Santa Rosa - Viradouro

Bonde em Santa Tereza

Volto a falar de bondes, neste blog, porque estão nas manchetes em face do lamentável acidente ocorrido em Santa Tereza, único bairro do Rio de Janeiro, ainda servido por este meio de transporte. Em Santa Tereza os bondes têm também uma outra conotação, além de transportar os moradores. É que eles são atração turística. O acidente, que pôs em dúvida se devem ser mantidos em operação, nas estreitas e íngremes ruas do bairro, é, que eu saiba, da maneira como ocorreu, muito raro. Ou seja, o bonde tombou.

Em meus muitos anos de uso deste veículo, em Niterói e no Rio de Janeiro, não lembro de episódio semelhante.

O bonde era seguro, só não era confortável e rápido. Nos dias de chuva, então, era uma lástima pois as cortinas tipo painel não funcionavam direito. Se além da chuva tivesse um vento soprando, era certo ficarmos molhados.

Antes do sinistro em Santa Tereza, o bonde reapareceu nos jornais por conta da torcida do Flamengo, que inventou a história do “Bonde sem freio”. Era premonição, pois o Flamengo vai mesmo ledeira abaixo na tabela. São 8 jogos sem vencer.

O Vasco também tem ligação com os bondes. Uma das linhas, inclusive, no Rio de Janeiro, aludia ao bairro onde está localizado o estádio do clube.

Linha "São Januário"*
1941
A linha “São Januário” inspirou um samba muito interessante de Wilson Batista em parceria com Ataulfo Alves, composto em 1940, que diz nos primeiros versos:

“Quem trabalha é que tem razão
Eu digo e não tenho medo de errar
O bonde São Januário
Leva mais um operário:
Sou eu que vou trabalhar”


Linha 56
Alegria

E teve o bonde “Alegria”, também eternizado nos versos de Wilson Batista (de novo) agora em parceria com Haroldo Lobo, no samba "E o 56 não veio"

"Vai embora, meu amigo, ela não vai aparecer.
Será que ela não veio porque se zangou,
Ou o bonde Alegria descarrilhou”


E Gilberto Gil, na música “Tradição", falando, é claro, das coisas da Bahia, assim escreveu:

“Conheci uma garota que era do Barbalho
Uma garota do barulho
Namorava um rapaz que era muito inteligente
Um rapaz muito diferentei
Inteligente no jeito de pongar no bonde”

E despongar é descer, viu gente? Mais adiante, na longa letra da música, Gil  fala em despongar.


* Foto -  Genevieve Naylor.
Demais fotos: Google

terça-feira, agosto 12, 2014

Palavras são palavras...

Palavras são palavras, nada mais do que palavras. (Chico Anysio, na boca de Valfrido Canavieira, um de seus imortais personagens).

Pois é, escrevi, faz tempo, um arremedo de crônica, sobre a palavra esgargalado, cuja encontrei num dos muitos livros que li, do formidável José Saramago. Acho que foi em “O Homem Duplicado”.

Ora, imaginei, que se eu desconhecia o significado da palavra, que encontrara pela vez primeira em um texto, provavelmente alguém menos esclarecido do que eu (sei que são poucas pessoas) logicamente também estranharia.

E imaginei uma situação inusitada, de um moribundo que tinha como última vontade ser sepultado esgargalado.

Também tive que ir ao Aurélio por causa do Chico Buarque, que sacramentou um glabro, num de seus romances.

O conhecimento e uso de algumas palavras depende muito da faixa etária, do ambiente social e até da época em que vive ou viveu o cidadão.

O coloquial deixa à margem, sem uso, até palavras bonitas, como biltre. Menos pelo significado, mas pela pronúncia.

Vou narrar dois episódios verídicos, nos quais o desconhecimento de palavras provocou situações críticas, ridículas e engraçadas.


A primeira ocorreu nos anos 1950, quando eu estava numa sala, nas dependências da Aeronáutica, fazendo exames médicos, pois havia sido aprovado no exame de ingresso na Escola Preparatória de Cadetes-do-Ar.

Estávamos muitos rapazes, em seus 15 ou 16 anos de idade, concluintes do curso ginasial, nível obrigatório para o concurso.

Deveríamos preencher um questionário, que iria nortear toda a sequência dos muitos exames médicos pelos quais passaríamos. 

Abrindo um parêntesis, num deles  fui reprovado, pois sou portador de discromatopsia.

Voltando a narrativa, as perguntas eram abrangentes e iam desde se ficávamos resfriados com frequência, se tínhamos dores de cabeça, até chegar a uma que foi a origem da saia justa em que ficou um dos meninos (éramos todos).

A pergunta era: costuma se masturbar? Lembrem que estávamos nos anos 1950, e entre os candidatos aprovados, acho que 50 ao todo, havia gente de todo o pais e de todas as classes sociais e econômicas.

Um deles, diante da pergunta que continha uma palavra desconhecida, levanta o dedo e pergunta para o monitor que distribuíra os questionários e acompanhava o preenchimento: “por favor, o  que é masturbar?

Aconteceu isto mesmo que você está pensando, gargalhada. Mas se você pensa que terminou a “saia justa”, precisa saber que dada a explicação, da forma mais bizarra, no sentido extravagante, um outro rapaz sentado bem na primeira fileira de cadeiras tipo escolar, fez uma exclamação denunciadora de sua ignorância: Ah, é isso?

Pois é, eram no mínimo dois os rapazes que pretendiam ser oficiais da aeronáutica e nunca tinham ouvido ou empregado a palavra masturbação.

Não cabe aqui e agora tentar descobrir com que nome  conheciam o ato correspondente. Mas é fácil deduzir.

A outra palavra que causou dúvidas e incertezas era o tema de uma composição, da prova de língua portuguesa, para estudantes da terceira série do curso científico. Portanto gente um pouco mais idosa do que os calouros da aeronáutica.

O tema da redação era: Eutanásia.

Caramba! Muitos dos alunos precisaram ser informados do que vinha a ser. Isso já foi nos anos 1960.

É a tal coisa, muita palavras estão fora de nosso vocabulário corriqueiro, por várias razões, até pela falta de oportunidade de escrevê-las ou verbaliza-las.

Daí que ler, ler muito, é o melhor remédio, como rir.

segunda-feira, maio 08, 2023

Eutanásia

 

Já escrevi aqui alhures, como fui apresentado a algumas palavras de nosso idioma, por vezes causando dúvida e receio, como no caso de bucéfalo, que o Humberto, colega de escola,  proferiu em plena sala de aula.

Fui tranquilizado e esclarecido por meu pai quando este chegou à noite e mencionei o fato para ele.

Já havia relatado a palavra masturbação que deixou alguns jovens adolescentes, candidatos a ingresso  na Escola Preparatória de Cadetes do Ar, que constava de um questionário que deveríamos preencher.

Falo de 1956/1957. Nessa época batíamos (ou tocávamos) punheta e olhe lá. Agora, escrevendo aqui, lembro que alguns poucos falavam de bronha.

Bem mais tarde, numa prova de português (matéria escolar), no Colégio Nilo Peçanha (não confundir com o Liceu Nilo Peçanha), a redação tinha como tema eutanásia.

Alguns dos rapazes e moças do terceiro ano científico não faziam ideia do que se tratava. Foi aquele rumor, cochichos e perguntas: "você sabe o que é?". Ano de 1959.

E na prova de língua portuguesa, do vestibular da Faculdade de Direito, da UFF, em 1962? Fomos, muitos, surpreendidos com a questão que solicitava um exemplo de eufemismo.

Tenho certeza que os professores que fizeram as correções estranharam tantos candidatos com o mesmo exemplo: "você está faltando com a verdade."

Alguém que sabia "soprou", e o exemplo correu todo o recinto.

E a primeira vez que abordei este tema aqui no Pub, foi por conta da palavra esgargalado, utilizada por Saramago em seu livro "O homem duplicado".

Esta sim, pouco usual, levou-me ao Aurélio. Como também levou-me o vocábulo glabro, empregado pelo Chico Buarque, no livro "Budapeste".

Alguns dos possíveis leitores haverão de lembrar do Romário "o homem dicionário" que desafiava a plateia do programa Cesar de Alencar a sugerir uma palavra que ele não soubesse o significado.

Nada do que narrei acima foi inventado; não estou faltando com a verdade.

Não estou, ainda, desenganado para ser sujeito de eutanásia. Estou usando barba aparada (não glabro) e ainda uso gravata (não esgargalado) por razões profissionais.

Já masturbação ... não é da sua conta.

domingo, setembro 07, 2014

Avisos, alertas, recomendações, instruções

Já escrevi aqui sobre palavras inusuais,  que não estão presentes em nosso cotidiano, na chamada linguagem coloquial.

Citei exemplos, como esgargalado e glabro, utilizadas na literatura em língua portuguesa contemporânea (Saramago e Chico Buarque, respectivamente).

Brinquei com as frases de efeito, frases prontas, algumas empregadas à larga nos discursos, nas conversas de botequim, nos encontros sociais. Também usadas em crônicas do cotidiano.

Algumas são clássicas porque da lavra de renomados cientistas, ou célebres escritores, como Shakespeare, pela boca de  Ricardo III,  “Um cavalo, um cavalo, meu reino por um cavalo”.

Ou aquele famoso ditado: “quem dá aos pobres  empresta... adeus”. (na versão irreverente, jocosa).

As frases ditas de propaganda, os jingles e slogans também já foram objeto de postagens, seja para demonstrar como nosso cérebro registra para todo o sempre alguns bordões comerciais, tão inúteis depois de certo tempo, como saber os afluentes do Amazonas na margem esquerda.

As Casas Pernambucanas consagraram  um jingle próprio para vendas no  inverno. Quem não lembra, tendo mais de 50 anos? E o Bamerindus?

“Não adianta bater que eu não deixo você entrar. As Casas Pernambucanas é que vão aquecer o meu lar, etc...”.

“O tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa...”

Observem que ambas as organizações (Bamerindus e Pernambucanas) desapareceram, mas suas propaganda ficaram na memória.

Aqui e agora, quero comentar os avisos, alertas, recomendações e mensagens em geral, que se tornaram clássicos.

As primeiras que me vêm à mente seriam as proibições: “É proibido pisar na grama” ; “É proibido fumar”; “Em caso de incêndio não use o elevador”.


E nos aeroportos? Quem viajou ou viaja  ouve os avisos: “Atenção senhores passageiros com destino a Maragogi, portadores de fichas verdes, embarque pelo portão “A”. Boa viagem!”.  Maragogi é uma licença poética, homenagem ao Freddy (leiam os posts).

Já que falei de passageiros não posso deixar de mencionar os cartazes e avisos sonoros que ouvi durante anos nas estações de embarque das barcas e lanchas que fazem a travessia da Guanabara, no tempo em que, morando aqui em Niterói trabalhava no Rio de Janeiro.

Um cartaz estampava a frase: “Perca um minuto da vida, mas não perca a vida num minuto”. Muito pertinente por causa da afobação, empurra-empurra, na hora do embarque, e a falta de atenção decorrente. Algumas pessoas caiam no mar no espaço entre a embarcação e o cais.

Ainda na estação marítima, ouvia-se, antes da abertura dos portões de embarque, dois avisos muito importantes:
“Senhores passageiros, certifiquem-se de que não esqueceram seus pertences no interior da estação”. Esta servia também  para a hora de desembarque, e anunciado no sistema de som da própria lancha, com a adaptação: certifiquem-se de que não esqueceram seus pertences no interior da embarcação".

O outro alerta que acho formidável, não exatamente no sentido em que era dado na estação, mas na própria vida, dizia o seguinte: “A permanência na proa dificulta o embarque dos demais passageiros e atrasa a saída da embarcação”.

Óbvio,  se as os primeiros a embarcar fossem se acomodando ali próximos à proa, objetivando o desembarque mais rápido do outro lado da baia (a lancha manobrava, para virar para o outro lado), atrapalhava o embarque dos que estavam por último. E, lógico, atrasava a partida da embarcação.

Na vida em geral, as pessoas que param no caminho atrapalham o acesso e passagem dos que estão com mais vigor, mais apetite. Acontece no local de trabalho, com aquele morrinha que não progride e não te deixa progredir.

Tipo nem trepa e nem sai de cima. Entenderam?

Entre outros  avisos e/ou recomendações  de uso corrente, poderia citar: “Permanecendo os sintomas o médico deverá ser procurado”. Em relação ao uso de produtos farmacêuticos não éticos, populares, tipo fitoterápicos.

Ou este outro: “Energia, sabendo usar não vai faltar”. Este serve para a água também.

No exterior também encontramos avisos e recomendações clássicos. A mais interessante, e que não vi no Brasil, foi numa loja de Viena: "Não pegue na mercadoria, a menos que vá compra-la". Ou algo parecido. Era uma loja, bacaninha, que vendia biscoitos em latas lindamente decoradas, e cafés em pó de diferentes origens, Brasil inclusive.

Para encerrar, contando que eventuais leitores possam, em comentários, acrescentar outros alertas clássicos, fico com o

OBRIGADO, VOLTE SEMPRE!
  

quinta-feira, dezembro 08, 2022

Este blog também é cultura

Já me aventurei, em outras oportunidades, no universo de palavras e/ou expressões linguísticas inusuais. Sempre admitindo minha ignorância.

Foi assim com esgargalado, glabro e atoarda, entre outras, com as quais me deparei em José Saramago e Chico Buarque.

A palavra da vez, um neologismo, é aporofobia.

Apurei, pesquisando, que se trata de um termo criado pela escritora e filósofa espanhola Adela Cortina para designar a aversão aos pobres e suas implicações na democracia. “É um neologismo que remete etimologicamente às palavras gregas á-poros (pobre,desvalido) e phobos (medo, aversão)”. 

Segundo a filósofa, é uma fobia contra o pobre, que leva a rechaçar pessoas, raças e etnias que habitualmente não têm recursos e, portanto, não podem oferecer nada, ou parece que não o podem.

É um termo novo no debate acadêmico e que aborda pensamentos, atitudes, práticas e políticas presentes nas relações sociais que desprezam uma pessoa devido à sua condição puramente socioeconômica. 

Não foi exatamente o caso, mais apropriado seria falar em desumanidade, insensibilidade, com ranço de radicalização política, o que fizeram os senadores eleitos pelo Estado do Rio, ontem, no Senado Federal, na votação da chamada PEC da Transição: VOTARAM CONTRA.

Estranhar esta atitude do Flávio Bolsonaro implicaria em vestir a carapuça de idiota.

Mas do ex-jogador Romário, que nasceu em comunidade pobre, é mais um caso triste no qual o autor (artista) fica muito distante, sem a altura de sua obra.

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Afetação & exibicionismo

Quase tudo que escrevo neste blog, a bem da verdade, é para me exibir, com algum pudor e as vezes com sentimento de culpa.

Sei que uma ou outra palavra que emprego, "no correr da pena" como quando os textos eram manuscritos, por não serem usuais levam o leitor mais interessado ao Aurélio ou Houaiss. A menos que o leitor seja o Romário, não o ex-jogador e ora senador, mas sim o “homem dicionário” que se apresentava no programa do Cesar de Alencar, era morador de Niterói, e parecia conhecer todo o dicionário, respondendo aos desafios do auditório e da produção, dizendo o significado de palavras por eles escolhidas. Os mais antigos conheceram.

Poderia, falo de mim, talvez, substituir a tal palavra inusual por outra mais comum, usada nas conversas coloquiais, mas aí qual a graça? Como vou mostrar que tenho um vocabulário rico?

Não estou me comparando, mas quando o Saramago empregou esgargalado em seu livro “O homem duplicado”, não estava se exibindo (ele não precisava); já o Chico Buarque (em "Budapeste") talvez tenha usado o glabro de caso pensado, para demonstrar que herdou alguma coisa do tio/dicionário.

O mesmo (exibicionismo) ocorre quando falo de minhas viagens. A intenção não é dar dicas, boas sugestões? Não! Confesso que o intuito é aparentar ser um homem viajado, que conheceu outras culturas. Embora monoglota.

Wanda no Vale do Loire, eu fotografando.
E quanto às leituras? Não é diferente. Se comento, mesmo de passagem, um ou outro livro, é porque pretendo induzir o paciente leitor a pensar que sou um homem amigo das letras, chegado à literatura.


Leio menos do que escrevo, o que é um erro sem perdão. Já Borges (Jorge Luiz) se jactava não do que escrevera (e sua obra é vastíssima, em prosa e verso), mas sim do que havia lido. Por isso ele é reverenciado.

Borges
São parcos os meus feitos profissionais e pessoais, mas procuro sempre dar-lhes - quando os comento - cores vivas e brilhantes. Para valoriza-los acima e além do devido, do justo, do razoável.

Fiz carreira meteórica e convivi com o sucesso, ou pelo menos foi assim que me vendi nos curricula.

Não sou vaidoso por falta absoluta de dinheiro. Se tivesse recursos financeiros eu seria um poço de vaidade, afetado, presunçoso, pedante, e outros adjetivos menos nobres.

Peladas 
Num aspecto sou como a maioria. Nunca sou responsável por meus fracassos. Sempre os atribuo aos outros. Nunca perdi uma briga, nem aquelas de meninos em peladas de futebol. Sempre fui eu que dei a porrada (e ficou por isso mesmo), que xinguei a mãe do oponente e cantei de galo.


No trânsito sempre me impus, descendo do carro e dizendo cobras e lagartos para os motoristas “barbeiros”. Outra bravata mentirosa, e comum entre os homens, comigo incluso.

Coleciono elogios com carinho; às críticas, geralmente injustas ou muito severas, dou valor relativo e sempre as atribuo à ignorância ou insensatez de quem as faz.

Sou quase normal: exibido! Embora tentando demonstrar modéstia, que é uma das atitudes mais falsas.

Cuidado com as críticas que possam fazer a este post, porque reitero que geralmente são injustas e fruto da ignorância de quem as faz. 


Imagens: Google, exceto, claro, a que fizemos num dos castelos na região do Loire.


Também está no Google. Vale do Loire e seus castelos


O Vale do Reno, na Alemanha,  também tem inúmeros castelos

sábado, maio 12, 2018

Emponderamento

Você caro amigo ou amiga, que tanto quanto eu não está no nicho dos chamados intelectuais, que não é rotulado de erudito, que não escreve em estilo e com o vocabulário da assim denominada língua culta, por certo já ouviu, ou leu, a palavra emponderamento.

Mas isso aconteceu há relativamente pouco tempo. Um ano? Ou pouco mais do que isso provavelmente.

Esta palavra, como outras tantas, consta dos dicionários há muito tempo, mas não frequentam as conversas coloquiais, as missivas hoje tão em desuso, ou as mensagens eletrônicas que estão na modo.

Nem de longe imagine que me refiro ao Twitter. Esta rede social é uma lástima a julgar pelo que ouço. As palavras comuns são violentadas. Ninguém mais fala ou escreve está. Tá de acordo?

Ao longo de minha vida, em diferentes momentos e situações, vi-me diante de palavras desconhecidas, vernáculas, mas inusuais no meu circulo.

Não mencionarei em ordem cronológica, por não confiar na memória já no  volume morto, e sim de forma aleatória.

Uma delas foi cimeira (reunião de cúpula, conferência com presença de chefes de Estado). Li-a, pela vez primeira, em 1992 quando da realização da "Eco-92", ou "Cúpula da Terra" ou "Cimeira de Verão", ou "Rio-92", que foi  a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada aqui na Cidade Maravilhosa, naquele ano.

Já contava 52 anos de idade. Já era bacharel em Direito, exercia cargo de nível gerencial em empresa privada e tinha dois filhos universitários.

Duas palavras pouco usadas repito, em meu meio, surgiram em provas durante o curso secundário. Pasmem mas poucos alunos na turma de 3º ano colegial sabiam o significado de eutanásia, tema da prova de redação.

Quando estava fazendo os testes psicotécnicos para ingresso na Escola Preparatória de Cadetes do Ar, havia um formulário a ser preenchido previamente pelos candidatos reunidos numa sala.

No aludido formulário perguntas básicas do tipo: você fuma? Costuma ficar gripado? Tem alguma alergia? E coisas que tais.

Entretanto um das perguntas deixou em dúvida e depois encabulado, pelo menos um dos rapazes ali presentes, de idades entre 14/16 anos. Ele ergueu a mão e indagou ao monitor que acompanhava a tarefa: "o que é masturbação?"

Uma pequena, discreta mas perceptível risada tomou conta do ambiente. A pergunta era: "você se masturba?"

Pois é, um jovem, candidato a oficial da Força Aérea Brasileira, nos anos 1950, nunca ouvira falar em masturbação. A pergunta para ele, e outros que se mantiveram silentes (provavelmente), deveria ter sido mais direta: "você bate punheta?".

O tempo corre, e chegado a José Saramago, em meio a leitura de "O homem duplicado" encontro lá, às horas tantas, que o personagem estava esgargalado. Tive que me socorrer no Aurélio, o tio do Chico. Não sabia do que se tratava. E eu já  era burro velho, com algumas obras lidas e digeridas.

Já que falei no Chico, encerro com uma palavra pouco utilizada, que encontrei escrita por ele, em "Budapeste" se não me engano. Trata-se de glabro. Não conhecia.

É a tal coisa, como me diziam que latim era uma língua morta e era perda de tempo estudar  e decorar as declinações, não pude decifrar a origem latina do termo. 

E querem saber? Se nunca ouviram ou leram que corram ao dicionário de sinônimos. Ler faz muito bem, não engorda, não tem contraindicações e nem efeitos colaterais danosos. Só benéficos.

terça-feira, outubro 04, 2011

Words, words, words

A palavra palavra nunca esteve tão em moda, no singular ou plura, desde quando Hamlet*, o príncipe da Dinamarca, respodeu à inquirição de Polônio, sobre o que estaria lendo: words, words, words.


Meu amigo Castelar, em seu blog (http://www.pontoparagrapho.com.br/detlahes/11-09-30/mais_palavras.aspx), nas últimas entradas, tem abordado o emprego das palavras na sua área de atuação, que é a de comunicação social, ilustrando com exemplos de palavras que caíram em desuso, e hoje soam estranhas, nas conversas coloquiais e nas letras das músicas. Cita algumas, como: neurastênico, langor, meditabundo, sorumbático.

Xexeo
Em sua coluna dominical, na Revista O Globo, o Artur Xexeo, abordou a estréia internacional da presidente Dilma, com discurso de abertura da assembléia anual da ONU, quando empregou uma palavra que vem utilizando repetidamente, mas com significado equivocado. A palavra é malfeito, no sentido de corrupção. Ou seja, fala em malfeito, para não admitir, publicamente, a existência de corrupção em seu governo. O articulista/colunista, dá em seu texto os significados de um e outro vocáculo, para demonstrar que o sentido de malfeito, não tem nada a ver com o de corrupção.

Martha

Na mesma citada revista dominical, mas em outra edição, Martha Medeiros publicou matéria sobre o título “A palavra”. A escritora, em sua crônica, foi extremamente feliz ao afirmar que “A palavra exata é um pequeno diamante”.

Profissionalmente dependo muito do uso da palavra adequada, para externar razões de recurso, fundamentos de petições e, em especial, contestações. Porque a palavra empregada tem que ter o peso e a mediada exatos, sem ser ofensiva, agressiva ou injuriosa, deve explicitar com clareza o que pensamos das insinuações levianas, das mentiras, das falsas alegações da parte contrária. Só para dar um exemplo fácil de entender, não se deve escrever que esta ou aquela alegação é mentirosa, fica mais elegante dizer que não expressa a realidade, ou é inverdade. Inverdade tem peso menor do que mentira, e significa a mesma coisa.

Voltando a Martha Medeiros, diz ela no artigo em questão, que “Falar e escrever sem necessidade de tradução ou legenda: eis um dom que é preciso desenvolver todos os dias por aqueles que apreciam viver num mundo com menos obstáculos”.

A palavra é uma ferramenta importante em meu ofício, digo eu, e escrever com clareza e objetividade é fundamental para que o texto fique inteligível (êpa!).

No outro dia também abordei o emprego de uma palavra que minha sogra utilizava para me adjetivar e que, confesso, não sei em que sentido ela utilizava. A palavra era sistemático. Se ela dissesse metódico não me deixaria tão encucado (ainda se usa?).

Já me arvorei a escrever (e publicar) um arremedo de crônica, na qual contei a história de um sujeito, moribundo, que não queria ser enterrado de paleto e gravata, como era usual. Sua última vontade foi manifestada num murmúrio de uma única palavra: esgargalado. Como nenhum de seus parentes sabia o que significava, e achando que ele estava delirando, enterraram-no engravatado. Esta palavra, que utilizei na croniqueta, foi pinçada de livro do Saramago.


Notem a pose e a posição do livro**
 A pronúncia errada e o emprego fora do sentido consagrado na chamada lingua culta, não ocorre apenas entre pessoas mais humildes. Tem gente graúda, até estadistas, que se enganam. E por falar em estadista, aproveito para fazer justiça ao ex-presidente Lula, é "menas" verdade, que ele não gosta de ler. Ele é tão amante das letras, que não faz diferença que o livro esteja de cabeça para baixo, ou, como preferem os paulistas, de ponta cabeça.











Bem, se no princípio era o verbo (joão:1:1,2,3,14), digo que ainda é e será.



* To Polonius's inquisitive question "What do you read, my lord?" (Hamlet, 2.2.191) Hamlet nonchalantly and intriguingly aptly replies: "Words, words, words" (2.2.192).

** No dia 5 de outubro, em comentário, foi esclarecido que se trata de montagem. Esta foto circulou na internet nos últimos dias.

sábado, abril 15, 2017

Eu e as palavras que me surpreenderam

Meu pai tinha um vocabulário rico. Fruto, imagino, de longo período em que foi linotipista na imprensa oficial (Diário Oficial) e em jornais privados.

Foi, também, revisor. Ficou familiarizado com palavras, e as empregava no cotidiano com naturalidade, sem afetação.

E esse, por assim dizer, rico vocabulário, empregava com propriedade para o bem e para o mal. Se era para enaltecer, elogiar, ou se era para criticar, contestar, usava sempre palavras inusuais nos diálogos de filmes, novelas ou seriados.

A primeira que tenho lembrança – era menino – foi parcimônia. Ele havia deixado sobre o móvel dinheiro para despesas da casa com um escrito lacônico onde se lia: parcimônia nos gastos.


Uso culto da palavra
Ora, isso gerou comentário de minha mãe, porque nem era tanto dinheiro assim que ela pudesse gastar perdulariamente. A repetição da palavra parcimônia fixou-a em minha memória.

Mais tarde, no curso ginasial ouvi do Otávio, colega de classe, que fulano, outro colega, era um bucéfalo. Assustei-me porque ele falou em voz alta e me parecia ser um palavrão daqueles proibidos no ambiente familiar.

Alexandre e Bucéfalo (aqui um cavalo)
Em casa, à noite, meio encabulado disse para meu pai que ouvira uma palavra desconhecida e não sabia do que se tratava.

Ele disse para eu falar qual era. Como estivesse hexitante, ele incentivou, diga!

Que alívio, não era um palavrão, não era obsceno.

Nos testes psicotécnicos para ingresso na Escola Preparatório de Cadetes do Ar, na década de 1950 do século passado, havia uma pergunta: Costuma se masturbar?

Mulher se masturba.
Na época os meninos não sabiam
Ora, nós candidatos estávamos numa faixa de idade entre 14 e 16 anos, recém-formados no ginasial e embora o ato em si pudesse fazer parte de nosso cotidiano, o nome pelo qual conhecíamos era outro. Outros na verdade porque conhecia pelo menos mais duas variações.

Sorriso geral na sala quando um dos candidatos levantou o dedo pedindo esclarecimento sobre o vocábulo.

Ah! É isso?!

Outras palavras, sem dúvidas inéditas para mim, apareceram ao longo da vida e me levaram aos dicionários. Mas foi já “burro velho”, pai de filhos e advogado, que me deparei com “esgargalado” numa obra do José Saramago.

Caramba! Que será isso? Indagava a mim mesmo a caminho da estante onde repousava e repousa ainda o Aurélio (embota tenha agora versão digital).

Achei tanta graça que acabei por escrever primeiro um conto que mais tarde foi adaptado para um post publicado neste blog.

http://jorgecarrano.blogspot.com.br/2014/08/palavras-sao-palavras.html

Que surpresas o idioma ainda me reserva?


sábado, abril 13, 2024

Poucas e boas

 Piadas mais velhas do que Matusalém. A propósito, por que cargas d'água não atribuíram a Matusalém os mil anos de vida, arredondando a idade presumida, já que a certidão perdeu-se no tempo?

Na guerra, trincheiras frente a frente.  Na dos alemães um deles grita Manuel! Do lado português dez levantam-se e ouve-se uma rajada de tiros. Uma baixa de dez combatentes lusitanos.

Antônio, atento e se achando esperto, grita Fritz! E já levanta sua arma. A resposta vem de imediato do lado dos tedescos*:  aqui não tem nenhum Fritz.

Sorte de vocês, se tivesse ... bradou Antônio.

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Ô Nuno anda cá e diz-me se és a favor do sexo antes do casamento? Sou, desde que não atrase a cerimônia.

Joaquim inventou um olho mágico tão pequeno que pouco parecia menor do que a cabeça de um alfinete. E para que serve um tão minúsculo? Ó pá, para portas de vidro.

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Para não chegar a Lisboa e ser zoado pelo amigos por ter sido enganado pelos brasileiros, quando aqui veio a dar com os costados, José experimentou, um a um, os fósforos da caixa que comprou no aeroporto.

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Agora a sério. Quem pensa que estou exagerando, vá lá. Mas que eles são literais não tenham a menor dúvida. Estava no ônibus de turismo, na cidade do Porto, e chegarmos na entrada de uma rua estreita que o motorista não conhecia; teve e cautela de perguntar a um velho, sentado no degrau de acesso a sua casa: esta rua tem saída?

Ante a resposta afirmativa entramos. E qual o quê, não só não havia como dela sairmos, como sequer havia espaço para manobra de um ônibus de turismo de dimensões avantajadas.

Resultado, voltamos de ré com todo o cuidado, bem devagar. Quando chegamos ao ponto onde estava sentado o velho, o motorista entre irritado e educado comentou: não disseste que havia saída?

E o velho, sentado como estava, foi lacônico: e não estás a sair?

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Uma coisa que aprendi, além do emprego absolutamente diferente de algumas palavras, e outras tantas inusuais no Brasil**, é que eles não usam o gerúndio. Em pouco tempo assimilamos e estamos a falar como eles.😉


Nota:

* Os italianos estão fora destas histórias, mas gosto da palavra como eles se referem aos alemães.

** Quem acompanha este blog, ou leu Saramago, lembrará de esgargalado.