Pincei esta postagem no blog que encontrei em http://mitosemetaforas.blogspot.com.br/2014/11/ainda-ha-juizes-em-berlim.html
O autor/blogueiro, é Antonio Cavalcanti, juiz
do trabalho e professor universitário. Tem formação em direitos humanos, letras
e teologia, e é autor de vários livros de direito. Seu perfil
completo é encontrável no endereço do blog cuja URL está acima.
Conheço este palácio, que visitei quando em Berlim,
a passeio, em 2004. Fizemos, eu e minha mulher, as fotos abaixo:
Agora vamos ao texto de Antonio Cavalcanti:
"Ainda há juízes em Berlim"
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| Foto parte integrante do post original |
Frederico
II, rei da Prússia, passou para a história como símbolo de déspota esclarecido.
Amigo de Voltaire, com este compartilhava a ceia no castelo de verão em
Postdam, nas cercanias de Berlim. O castelo, construído pelo monarca na encosta
da colina, foi batizado com um nome curioso: sans-souci, termo
francês que quer dizer sem-preocupação. Sans-souci também era
o nome de um moinho da região, e de seu dono, imortalizados nos versos de
François Andrieux, cujo título é Le meunier de sans-souci, ou
seja, o moleiro de sans-souci.
Começa o
poema dizendo que o homem é um estranho problema, e indagando: quem de nós é
fiel a si mesmo o tempo todo? Com base nesse mote, passa a narrar o episódio. O
rei resolveu construir para si um refúgio agradável, onde mais do que beber e
caçar, pudesse degustar não só finas iguarias, mas refinados saberes, na
companhia de intelectuais como Voltaire.
Porém,
quando quis ampliar o castelo, deparou-se com um problema na vizinhança, o dito
moinho que impedia a sonhada ampliação. Seu dono, o moleiro Sans-souci, era
um pacato vendedor de farinha que vivia cada um dos seus dias livre de
ansiedade e preocupação, daí seu nome e o do moinho. Às investidas insistentes
do rei para comprar-lhe o moinho, o moleiro disse não. Dinheiro algum o faria
desfazer-se daquele pedaço de chão, onde seu pai morrera, berço e morada de
seus filhos.
Inconformado,
disse o rei ao moleiro: ─ Você bem sabe que, mesmo que não me venda a
terra, eu, como rei, poderia tomá-la sem nada lhe pagar. Mas o moleiro
retrucou com a célebre frase: O senhor! Tomar-me o moinho? Só se não
houvesse juízes em Berlim.
Do
episódio vem a frase: Ainda há juízes em Berlim, que podemos
usar em tempos difíceis, para dizer: não vamos desistir, nem tudo está perdido,
ainda existe justiça nesse mundo, ou seja, ainda há juízes em Berlim.
Vivemos
momentos de crise, cujos desdobramentos poderão mostrar ao mundo que espécie de
república nós somos e queremos ser. Mais que um escândalo bilionário, com
cifras nunca vistas em nossa história, conspurcando o grande ícone da riqueza e
orgulho nacionais, o episódio, dependendo dos rumos que tomar, pode gerar um
devastador turbilhão econômico e institucional ou, por outro lado, extirpar da
república grande parte da insidiosa rede de corrupção que destrói nossas
riquezas e nossa moral.
Que não
fiquemos no mero discurso protocolar ─ necessário e adequado, reconheço ─ de
governante que a vem a público e diz: queremos investigação e punição
aos culpados, doa a quem doer. É preciso muito mais que isso. Temos que
mostrar com atos e atitudes que o Brasil não é o país da corrupção aceita sem
indignação, a ponto de alguém dizer pública e cinicamente: nesta terra
não se faz obra pública sem propina, ou achar que se alguém com uma
mão dá o bolsa-família, está automaticamente liberado para, com a outra,
receber ou dar o bolsa-corrupção. Os fins não justificam os meios. Numa
república séria, não se blinda corrupção com assistencialismo, nem existe
ninguém intocável.
Se
queremos, de fato, a partir da implosão desse sinistro castelo da corrupção ─
afinal, foi dito que não ficará pedra sobre pedra ─, construir
um nova estrutura republicana, respeitada e respeitável, teremos todos de
provar, na prática, que não somos a terra da corrupção disseminada e tolerada,
mas um país cujos filhos ainda podem acreditar na ética e na justiça, pois como
nos diz a frase do moleiro, para a sorte de todos nós, ainda há juízes em
Berlim.
Nota do editor: A expressão "ainda há juízes em Berlim" está originariamente no conto "O Moleiro de Sans-Souci (Le Meunier Sans-Souci)" de autoria do advogado e dramaturgo francês, François Guillaume Jean Stanilas Andrieux.
Colocados no Google, ou a expressão "ainda há juízes em Berlim" ou o nome da obra "O Moleiro de Sans-Souci", surgirão várias referências ao autor, a sua obra, a Frederico II, da Prussia, em vários textos literários (livros, artigos), ensaios jurídicos, matérias jornalísticas e blogs.
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| François Andrieux |
Colocados no Google, ou a expressão "ainda há juízes em Berlim" ou o nome da obra "O Moleiro de Sans-Souci", surgirão várias referências ao autor, a sua obra, a Frederico II, da Prussia, em vários textos literários (livros, artigos), ensaios jurídicos, matérias jornalísticas e blogs.






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