8 de maio de 2026

CONFÚCIO

 Meu sogro, já referenciado aqui algumas vezes, foi um personagem e tanto. Por várias razões.

De poucas letras, parcos saberes escolares, por falta de oportunidades, na meia idade e até sua morte, compensava a carência de instrução formal com leitura, e assimilando a sabedoria popular.

Sempre morando em cidades pequenas, no século XX, quando conheci a família vivia em Cachoeiro de Itapemirim - ES. E lá namorei, noivei e me casei.

O Sr. Campagna (Campanha aportuguesado) era conhecido e respeitado na cidade, onde manteve um bar/restaurante, substituindo tal atividade por uma pequena fábrica de calçados (sandálias e botinas) feitas praticamente de forma artesanal. Cresceu um pouco e anos mais tarde montou uma serraria, tudo para acomodar e ocupar os sete filhos.

Um viés de seus princípios inegociáveis. Os filhos tinham que estudar e obter diploma, limitados, claro, as disponibilidades na cidade, que eram para os homens o curso técnico de contabilidade e para as mulheres o instituto de educação que formava normalistas.

Havia uma regra. Todos matriculados nas instituições particulares de ensino então existentes. Mas com a obrigação de progressão de série. Na hipótese de reprovação e repetição, a transferência para estabelecimento público era decisão antecipada.

Outro aspecto marcante do Campanha, já mencionado, era o gosto pela leitura. Ninguém, que eu conheça, sabe de cor todo o poema "O Corvo", de Edgar Allan Poe. Ele sabia e se jactava pelo fato.

Outra coisa para ele sagrada, e também ninguém mais que eu conhecia tinha como rotina, era ouvir a "Hora do Brasil", anos mais tarde rebatizada como a "Voz do Brasil". E ai daquele que atrapalhasse  a oitiva.

E comigo, então visitante, enaltecia a abertura clássica com o Guarani, de Carlos Gomes. E acertava o relógio confiando na pontualidade de entrada no ar em cadeia nacional. 

Outra norma rígida que impunha à família: jantar às dezoito horas. Pudera, ele acordava às 05:00, e almoçava às 11:00.

Depois do jantar e ouvir a "Hora do Brasil", sentava-se diante de sua casa, espaço aberto mas calçado e ali recebia os leais amigos para conversas até às 22:00 horas. Eram constantes o farmacêutico (Abner), o tabelião (João Athayde) e um fazendeiro italiano grande e rustico como ele, de nome  Cinoto.

Nos tempos mais apertados, ainda assim era sagrado comprar pão e café para servir aos seus empregados, às 15:00 horas, benefício criado por ele desde sempre. Se fosse o caso, que não comprassem para a família. 

Quando atingido por um tumor na medula, teve que vir para no Rio para operar. Claro que com dificuldades financeiras.

Após a alta hospitalar ficou alguns dias em nossa casa, eis que morávamos em Niterói. Preocupado com o pagamento de seus empregados e encargos tributários. Sabendo pela Wanda que tínhamos uma pequena economia destinada ao sinal para compra de nosso apartamento (morava de aluguel), constrangido e desconfortável pelo orgulho atingido, perguntou se poderia emprestar por algum tempo.

Com os meus botões pensei que o empréstimo seria à fundo perdido, e dei adeus a compra do apartamento.

Pudera, ele praticamente inválido (ficou meses sem mobilidade e firmeza nas pernas) e sua fabriqueta de calçados longe de seus olhos à matroca, à deriva, como acreditar na possibilidade de ser reembolsado?

Pois muito bem, voltou para Cachoeiro e uma semana depois um de seus filhos (meu cunhado) apareceu em minha casa com o dinheiro para me pagar integralmente. Soube depois que enquanto não conseguiu contato com o gerente do banco onde conseguiu um empréstimo não sossegou.

Homens íntegros, idôneos, responsáveis são avis rara.

Mas é chegado o momento de explicar porque logo hoje resolvi lembrar de meu sogro. Devo isto ao  sábio chinês Confúcio. Li, por acaso, um ensinamento dele. Vide abaixo.

“Nunca tenha como amigo alguém que não seja melhor do que você”

Embora tosco beirando a rudeza, meu sogro era bem-humorado. Uma de suas piadas recorrentes era: "dê duas surras diárias em sua mulher, e não precisa dizer porque está batendo poque ela sabe porque está apanhando".

E atribuía a autoria a Confúcio. Remete-me às piadas atribuídas ao escritor  Manuel Maria Barbosa du Bocage. Coitados!!!


Nota:

https://revistaoeste.com/oestegeral/2026/05/02/confucio-o-grande-filosofo-chines-aconselhou-nunca-tenha-como-amigo-alguem-que-nao-seja-melhor-do-que-voce/#google_vignette

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