Por
Carlos Frederico March
(Freddy)
Astrônomo diletante
Estava escrevendo um comentário ao post "Assuntos polêmicos", do dia 13/10/2013, quando percebi que ia me estender o suficiente para gerar um novo post. Eis me aqui, portanto!
No debate acabamos declarando que as religiões decorreriam da necessidade que as sociedades, desde tempo imemoriais, tinham de explicar o inexplicável: eventos naturais impossíveis de serem previstos ou controlados com os toscos conhecimentos que tinham. Claro, havia também um viés de controle da população por classes superiores, mas deixemos isso de lado...
Também foi abordado que muitos de nós - eu incluído - fomos criados dentro de preceitos da Igreja Católica. Curioso que Carrano (blogueiro chefe) e Riva (colaborador e por acaso meu irmão), ambos, foram coroinhas e cedo passaram a ter grande ojeriza aos ritos católicos. Eu, que apenas fiz comunhão e frequentava por vezes a missa, cheguei em minha juventude a participar ativamente de grupo jovem do Instituto Abel (Niterói, 1971/4), apesar de ter sido liceísta. Só mais tarde comecei a questionar minha fé.
Conversa vai, conversa vem, a Igreja Católica e seus ritos principescos foram criticados tanto no texto em pauta como nos respectivos comentários. De minha parte, acho que a Igreja apenas demora demais em se adequar às mudanças sociais e com isso se torna anacrônica. Tem também grande dificuldade em assumir erros passados, o maior deles tendo sido a Santa Inquisição.
Nada disso invalida os ensinamentos de Jesus Cristo, vistos à luz das religiões dele derivadas (católicas ou evangélicas) ou apenas como diretrizes morais e éticas. Você escolhe.
No fim de tudo somos, até os dias atuais, reféns da impossibilidade de explicar o que nos cerca.
Material e espiritualmente falando. Cheguei a cogitar que no futuro não haveria necessidade de religião, mas quem garante que a resposta a tudo não será realmente admitir um Deus Criador?
Bem, minha experiência pessoal com o Infinito começou muito cedo. Eu nem havia ainda feito a Primeira Comunhão, portanto não houve influência alguma de ordem religiosa. Era hábito da família estender umas espreguiçadeiras no quintal de nossa casa no Pé Pequeno (Niterói) em noites de verão e ficarmos conversando um pouco antes de dormir. E eu olhando as estrelas... Naquela época, havia pouquíssima poluição luminosa na cidade, o céu parecia que ia cair sobre nossas cabeças!
Minha paixão por balões ajudou a sedimentar esse hábito de olhar o céu noturno, confesso. Além dessa minha faceta lúdica, eu também costumava me deitar ao lado de minha mãe para escutar suas estórias e ensinamentos. A essa altura ela já estava quase cega e adorava conversar, mantinha-a conectada ao mundo. Minhas primeiras aulas de astronomia saíram de sua boca, nessas conversas
íntimas. Contou-me sobre o sistema solar e os planetas.
Eu tinha 12 anos quando ela me presenteou com um álbum sobre astronomia, uma daquelas toscas publicações que vinham com umas folhas ao final com cromos que você recortava para colar nas páginas do texto. Passei a me interessar não só pelos planetas e seus satélites, mas também por estrelas, supernovas, cometas, nebulosas, galáxias...
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| Nebulosa Cabeça de Cavalo, em Orion |
Quando tinha 14 anos, a fim de estimular cada vez mais meu recém adquirido hobby, meus pais me compraram meu primeiro e único telescópio, um refletor newtoniano de 4 polegadas fabricado no Brasil pela DFV. Não sabia manuseá-lo direito e ele passou um tempo guardado até voltar a ser usado, 17 anos depois! Prestou-me então bons serviços até ser recentemente doado a um amigo.
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| O autor e seu newtoniano DFV de 4" |
Mantive a paixão acesa comprando e lendo avidamente livros e revistas sobre astronomia, a maior parte delas estrangeiras. Até hoje assino a revista americana "Astronomy" e curto páginas específicas no Facebook, recebendo diariamente notícias e fotos.
Pois bem... Quanto mais olhava pra cima, acrescido ao que lia e via em imagens cada vez mais bem definidas, aliado a descobertas científicas que atualizam nosso conhecimento do Cosmo ano a ano, mais minha pequenez frente ao Universo me impressionava.
E as religiões falando de um Deus que me monitora como um Big Brother onipresente! E eu vendo barbaridades acontecendo em volta, e para cada uma delas recebendo explicações sobre um "vale de lágrimas", "uma terra de sofrimento e expiação", e outras vãs tentativas de me dizer que existe algo ou alguém para o qual tudo isso faz sentido.
Putz... Eu sei, justo por estudar astronomia, o que é a Terra no Sistema Solar. A sonda Cassini bateu uma foto extraordinária de nosso planeta visto por detrás dos anéis de Saturno que demonstra o
quanto somos ínfimos no nosso próprio sistema.
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| A Terra está marcada com uma seta |
E eu sabendo o quão insignificante é o Sistema Solar dentro de nosso própria Galáxia, a chamada Via Láctea. E o quanto a Via Láctea é inexpressiva dentro do Supergrupo Local de galáxias e nebulosas e o quanto isso tudo é nada frente ao Universo como um todo! COMO então aceitar que o tal Ser Supremo, o Criador, ficaria me espionando enquanto eu me aliviava dentro do banheiro, quando jovem?
Não há religião alguma no mundo que me faça aceitar a presença de um Ser Supremo interessado na minha pessoa como indivíduo enquanto assuntos de ordem superior como a peste negra na Europa, tsunamis, tornados, vulcões e terremotos, vêm dizimando impiedosamente milhares ou milhões de almas inocentes. Quem olha pela aterrorizada vítima quando está a ser seviciada, torturada e morta por um maníaco? É esse Ser Supremo?
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| Tsunami na Indonésia, 2004 |
Decerto continuo estudando. Hoje assisto atentamente palestras num centro espírita. Confesso que aceito a influência de correntes de pensamento entre pessoas, para o bem ou para o mal. Não me custa me juntar a elas para me alinhar e me proteger, procurando também fazer a minha parte mentalizando ajuda ao próximo.
Pessoalmente acho que a ciência já está madura para começar a entender a telepatia, fonte das tais correntes mentais. Com isso, muitos dos mitos e ritos religiosos passariam a ter explicação científica.
Mais religiões teriam de se adaptar às novidades ou serem substituídas por outras mais modernas.
Assim tem sido desde o início das sociedades humanas.
Mesmo confessando minhas toscas tentativas de estudar uma ou mais religiões, tudo cai por terra ou deixa de fazer sentido quando volto a meus estudos de astronomia e cosmologia. Mais um paradigma é derrubado: Peter Higgs acaba de receber o prêmio Nobel de Física junto com François Englert por seu trabalho em busca da partícula que cria matéria a partir do nada (apelidada de Bóson de Higgs ou a Partícula Deus). Escrevi sobre o tema no post "Higgs x Venter", aqui publicado em 07/04/2013. (http://jorgecarrano.blogspot.com.br/2013/04/higgs-x-venter.html)
Nossa pequenez e insignificância como indivíduo, sociedade, planeta, sistema solar, é impossível de ser aquilatada por uma mente lógica e científica. Sinto-me um gafanhoto... um grão de areia...
Ah, mas é porque eu seria materialista - alguns me acusam. Não, nem com explicações espiritualistas alguém vai me convencer que o tal Ser Supremo, o Criador, olha todo dia para mim, ou por mim, como indivíduo. A menos que Ele trabalhe com Assistentes, zilhões deles, espalhados pelos recantos do Universo, atendendo a Suas ordens e reportando a Ele relatórios periódicos!
Créditos de fotos:
Nebulosa - site APoD, NASA
Newtoniano DFV - acervo do autor
Cassini - blog Só Ciência, O Globo, via Facebook.
Tsunami - banco de fotos do Google sob o título Tsunami 2004