24 de junho de 2011

Final de Wimbledon - 2011


Andrea Petkovic
Pouco importa quem vencerá o torneio neste ano de 2011. Os jornais noticiarão. O que conta mesmo é que todos ganhamos com estas beldades enfeitando as quadras e dando raquetadas com elegância, charme e precisão cirúrgica. São sérvias, russas, tchecas, francesas, inglesas. Nâo importa  o idioma ou o país de origem. Angelique Kerber, por exemplo, é alemã. Aravane Rezai é franco-iraniana.
O que importa é que elas existem.


Ana Ivanovic


Aravane Rezai


Laura Robson


Stephanie Foretz


Vitalia Diatchenko


Vera Dushevina


Maria Sharapova

 


Angelique Kerber


Maria Sharapova

Caroline Wozniacki, primeira do ranking, está avançando e deve ir à final. Ela está abaixo e nas duas fotos menores a seguir.




Caroline Wozniacki


23 de junho de 2011

Reflexões sobre o Universo - 70 voltas

Por
Carlos Frederico Marques Barroso March
Friburgo - RJ - BR

Como astrônomo amador de poltrona (chamado nas revistas especializadas de ”armchair astronomer” em contrapartida àqueles que observam através de instrumentos ópticos) eu venho há longo tempo meditando sobre nosso lugar no Universo. Como muita gente, suponho. 

NASA - Hubble Space Telescope: Região da constelação Carina
Há de existir alguma razão para estarmos aqui, nesse fim de mundo, sofrendo as agruras de uma existência pra lá de irregular e sofrível (analisado de um ponto de vista amplo, global). Um vale de lágrimas, como dizem alguns pessimistas. Tentando crescer e evoluir como sociedade, talvez seja a opinião dos otimistas.
A existência média de um ser humano gira em torno de 70 anos. Que sejam 65, 75, 80... Usei 70 como uma base para avaliação. Reflitamos sobre esse número: o que são 70 voltas do planeta Terra ao entorno de sua estrela, o Sol, sabendo-se que ela já deu mais de 4,6 BILHÕES de voltas ao longo de sua existência? Numa conta de aritmética simples, chegamos à conclusão de que nosso tempo de vida é um infinitésimo de 0,0000015 % em relação ao tempo de existência do Sistema Solar.

E mesmo assim o homem pretende ter sido feito à imagem e semelhança do Criador, durante muitos séculos permaneceu o arrogante dono de tudo que nos cerca, com poder de vida e morte sobre todos os seres ditos inferiores. Intelectualmente, ainda hoje muitos pensam ser os portadores do saber universal, outros ainda procuram uma razão para tudo - como eu.

Parte do interesse que a ciência da Astronomia fomenta nos aficcionados é isso: a grande procura, tentar saber o que fazemos aqui, moradores infinitesimais no subúrbio de uma galáxia com bilhões de outros sóis, compartilhando um Universo com outros trilhões de galáxias. O que significa um grão de areia em relação a todas as praias da Terra?

NASA - Hubble Space Telescope Deep Field
Milhares de galáxias estão registradas no original dessa foto.

A insignificância do tempo em que nos é permitido existir é muito, mas muito pequena mesmo, perto do todo! Mesmo estendendo esse conceito temporal não à nossa vida em particular, mas à existência do ser humano consciente sobre a Terra, continua sendo um infinitésimo percentual.

O que então significam nossas vidas? Que influência temos no todo? Qual o nosso lugar na incomensurável engrenagem que rege sóis e galáxias?

Com isso tudo, não deixa de ser interessante que, apesar de nossa insignificante existência, teçamos teorias acerca de toda essa problemática universal e reflitamos sobre ela. Não é infinitesimal o fato de conseguirmos ter a consciência, mesmo que tosca, da nossa pequenez.

22 de junho de 2011

Ainda a infância nos anos 40

Brincar de escambida, como narrado na primeira parte das memórias de infância, não era o único jogo dos meninos. A bola de gude, nas 3 versões conhecidas - búricas, beú, e círculo – era outro dos jogos mais freqüentes naqueles tempos, e hoje meio comprometido inclusive porque requer chão de terra. Onde há alfalto não dá para jogar búrica, que exigia 3 pequenas cavidades localizadas a razoável distância uma da outra, em linha reta.     

bolas-de-gude

Nas búricas, que eram estes buracos, o objetivo era percorrer o trajeto, a partir de uma das extemidades, fazendo com que a bola fosse jogada sucessivamente dentro de cada uma das búricas, que como já mencionado eram pequenas covas no chão, num percurso de ida e volta no qual quem errasse poderia ter sua bola mandada para longe por um teco do adversário. Quem chegasse primeiro na volta à primeira búrica ganhava e ficava com as bolas de jogo dos adversários.

No beú, era desenhado uma forma fusóide no chão onde cada jogador 'casava' suas bolas, como se fossem fichas num jogo de cartas. Do beú os jogadores atiravam suas bolas em direção a uma linha riscada no chão que ficava distante uns 4 metros e a ordem de jogar então obedecia à maior proximidade das bolas de cada jogador desta linha. A esta primeira jogada classificatória, dava-se o nome de 'tirar o ponto'. Desta linha então as bolas eram atiradas em direção ao beú com o intuito de deslocar para fora deste as bolas que lá estavam 'casadas' que eram então conquistadas por quem as deslocava, até que errasse; aí o próximo jogador, pela ordem do 'ponto tirado', fazia a mesma coisa.
pião

Bem, tinha a época do pião. Explico melhor este negócio de época. Algumas destas atividades (jogos) infantis, com algumas exceções, tinham sua temporada. A época das cafifas, por exemplo, era o verão. É imperativo que não chova, ou, se houver chuva, tem que ser aquela passageira, de curta duração, nada que um desenho de sol, com giz ou carvão, no chão não faça parar.

Na minha infância as estações climáticas eram mais definidas.

Então, voltando ao pião, era o que menos gostava, principalmente por minha total falta de habilidade para fazê-los girar, como outros meninos faziam, inclusive aparando-os na palma da mão. Que inveja!

Mas nas cafifas eu me virava bem. E gostava muito. A cafifa era uma coisa lúdica, pelo uso do cerol, que permitia cotar a linha dos outros, fazendo com que perdessem as suas.
cafifa


raia
E tem mais, a graça, a brincadeira, a ocupação, começa bem antes de serem empinadas ao sabor do vento. Começa por colher bambu, fazer as varetas no cumprimento e espessura certos, e fabricar as cafifas. E depois o cerol.

No meu bairro havia um fazedor de cafifas de grande reputação. Chamava-se Nininho, e as cafifas dele eram consideradas vintage (na época não se conhecia esta palavra), dizia-se estilosas. Eram bem acabadas, bonitas e com bom desempenho quando “soltadas” (dizia-se soltar pipa ou cafifa). Pipas, era como denominadas no Rio de Janeiro, e tinham formato diferente, sextavado, e eram fabricadas não com bambu, mas com varetões daqueles utilizados nos foguetões (fogos de artifício). Mas as cafifas do Nininho custavam caro para os padrões e orçamento infantil. Assim, eu fabricava as minhas próprias cafifas, como também o cerol.

A cafifa toma denominações diferentes, em função de seu formato ou da região do país; no sul, por exemplo, chama-se pandorga. As que não têm rabiolas chamam-se morcego ou raia.

Par fazer o cerol, que é um líquido denso, encorpado, quase pastoso, feito com cola de madeira e vidro moído. Derrete-se a cola, que fica meio pastosa e acrescenta-se o vidro moído. O vidro era moído com uso de paralelepípedo, com o qual se batia até tritura-lo. E para o pó atingir o ponto perfeito, tinha que ficar tão fino quanto o açúcar refinado.

Este líquido era passado na linha que era utilizada para soltar a cafifa e a deixava cortante. Depois de aplicar o cerol, era preciso dar uma sacudidela na linha (para evitar bolhas), que em geral estava estendida de um poste ao outro da rua, e deixá-la secar.

E cafifa “voada”, ou seja, cuja linha fora cortada no ar, não tinha dono. O dono perdia o controle sobre a cafifa, com a linha cortada e elas voavam apenas ao sabor do vento indo cair em algum ponto onde era disputada ferrenhamente por bando de outros meninos. Então muitos garotos não compravam e nem fabricavam cafifas. Pegavam as dos outros. Estes que pegavam as cafifas então sem dono, eram os maiores ou mais velozes. As vezes dava briga e a pipa ficava destruída na disputa.

Não pensem que nossa diversão estava limitada as estas brincadeiras. Não. Havia as matinês, principalmente no cine Rio Branco, que por ser o mais perto de casa e o mais barato, era o preferido da garotada do bairro. E exibia os famosos seriados.

Volto, oportunamente, a este tema - minha infância - que ficou num passado bem remoto.





Torneio de Wimbledon - 2011

Sabem porque quando posso acompanho os torneios de tênis feminino? Porque ultimamente as competidoras, além de exibirem um alto nível de performance, exibem, também, invejável forma física e  belos rostos. Colírio para os olhos, conforme se pode constatar. E emoção nas partidas. Sim, tem exceções, as Martinas e Serenas e Venus, muito masculinizadas, ou com medidas despropositadas, que deveriam disputar o torneio masculino.

Agelique Kerber




Brooklyn Decker



Elena Dementieva



 
Vera Dushevina



Anna Kournikova


Caroline Wozniacki

Caroline Wozniacki


Elena Dementieva

Laura Robson


Maria Sharapova




Maria Sharapova
Maria Sharapova

 

Maria Kirilenko
 
Anna Chakvetadze
 


Anna Chakvetadze




Elena Dementieva

A russa Maria Sharapova não teve grandes dificuldades para estrear em Wimbledon com vitória. Cabeça de chave número 5 da competição, ela venceu a compatriota Anna Chakvetadze por 2 sets a 0, com parciais de 6-2 e 6-1, e avançou à segunda fase da competição.

Classificada, Sharapova espera agora o confronto entre a alemã Angelique Kerber e a britânica Laura Robson para conhecer sua próxima rival em Londres.

Gabriela Sabatini

Minha preferida? Maria Sharapova. Em substituição a Gabriela Sabatini, agora aposentada das quadras mas perpetuada num perfume.




21 de junho de 2011

Woody Allen imperdível


Woody Allen

 Se bem entendi – nunca se sabe – a mensagem de fundo de “Meia–noite em Paris” (Midnight in Paris – 2011), filme de Woody Allen, ora em cartaz, é a de que ninguém está satisfeito em seu tempo e acha sempre que o que passou era bem melhor; e perdeu.

Na belle époque, anos 20, alguns personagens reais e imaginários não se sentem felizes, achando que época boa mesmo fora a do renascimento; e assim vai-se regredindo enxergando no passado tempos melhores.
 
Tela de Henry de Toulouse-Lautrec

Hemingway

O filme ilustrará este conceito, este pensamento, fazendo o personagem retornar, num truque de realismo mágico, utilizado em “A Rosa Púrpura do Cairo” e “Neblina e Sombras”, à belle époque, era do impressionismo e da art nouveau, onde irá conviver com gente do mundo das artes – escritores, compositores, pintores, e até o cineasta Luis Buñuel, - daquela época de ouro, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Salvador Dalí, Pablo Picasso, Modigliani, Braque e Cole Porter (o festejado compositor de vários clássicos do cancioneiro americano), cujo tema Paris — "Let's Do It, Let's Fall in Love", pontua a formidável trilha sonora do filme.

Há uma cena hilariante, deliciosamente cômica, na qual Gil (personagem central) encontra Dalí e Buñuel, e acusando-os de serem surrealistas, sugere a Buñuel um enredo para um filme.

Há quem gargalhe, mas não é a idéia. Embora admita o riso mais escancarado, pela supresa e inusitado da situação, acho a comicidade de Allen uma coisa mais sutil, a exigir um sorriso que se abrirá de orelha a orelha, mas comedido.

O filme tem início com um passeio da câmera pelos pontos mais conhecidos e charmosos da capital francesa. O olhar do diretor consegue tornar mais atraentes e deslumbrantes locais que emocionaram a tantos quantos tiveram o privilégio de conhecer Paris.

Durante este tour, com uma música de fundo adequadamente escolhida, ressalta a dúvida que o diretor irá incorporar nos diálogos: Paris é mais bonita à noite ou durante o dia? E a chuva, ao contrário de ser um transtorno, empresta um charme a mais.

O personagem central da trama – Gil - bem sucedido roteirista, mas romancista frustrado, vai à Paris com a noiva e os pais desta, aproveitando a viagem do futuro sogro àquela cidade.

Gil está infeliz convivendo com os sogros e ainda um casal de amigos de sua noiva que também estão na cidade. São pessoas fúteis e, no caso do tal amigo da noiva, um pseudointelectual (chato de galocha), que está lá a convite da Sorbonne para uma conferência.

O desenvolvimento da trama eu antecipei, no início do post.

Com a graça e a espirituosidade, geralmente presentes em seus trabalhos, Allen realiza o melhor de seus filmes, a meu juízo, desde “Match Point”.

Corram para assistir, pois os filmes de Woody Allen não costumam ficar no circuito durante muito tempo.


Imagens: Google

Infância (quase) normal na década de 1940

Sou da geração nascida durante, ou no pós guerra. Racionamentos a parte, não houve fato que marcasse significativamente minha infância. Não tive nenhum parente que tivesse ido para o chamado palco de guerra. Logo, não tivemos maiores preocupações próximas. Apenas com a estupidez da guerra, do que me dei conta anos mais tarde.


Pouco me lembro sobre o conflito mundial e assim como o governo brasileiro teve dúvidas quanto ao alinhamento, se aderia às forças do eixo ou se filiava aos aliados, também não sabia para quem torcer.

Depois, evidentemente, já aos 10 anos, seja pela massiva propaganda americana, que endemoniava os alemães, seja porque o Errol Flynn fosse nas telas um herói de guerra a ser imitado, seja porque todas as formas de discriminação devem ser combatidas, seja porque lá em casa torciam pelos americanos, acabei vibrando com a vitória dos aliados.

Foto pracinhas Cia do III Batalhão
do 11º Regimento de Infantaria,
 da Força Expedicionária Brasileira na II Guerra Mundial







Lembro que de bandeirinha brasileira na mão, fui levado a uma elevação no morro da Penha, próximo de onde morávamos, para ver a entrada, na baia da Guanabara, do navio que trazia os pracinhas que combateram na Itália.

Churchill

Semperoper - Dresden
Pouco sabia sobre Churchill, mas se tivesse algum tipo de informação sobre a existência dele e sua postura teria feito minha opção muito antes, embora lamente muitíssimo o bombardeio desnecessário de Dresden*, com o conflito já decidido.
                                                                               
Tirante esta circunstância relacionada à guerra, minha infância foi a mais comum de um menino de classe média baixa.

Antes de mais nada, devo descrever o cenário. Morava numa casa térrea, localizada numa vila (ainda existe), com acesso pela Rua São Diogo, na altura do número 21, que por sua vez se localiza nas fraldas ou no entorno do Morro da Penha, no bairro da Ponta D’Areia. Naquele tempo a rua São Diogo não tinha trânsito intenso e era ainda de terra batida.
Ve-se a Rua São Diogo
Além disso, a vila onde eu morava, que se abria e bifurcava antes do início da subida do morro, no lado onde eu morava só tinha casas de uma lado. Defronte era um terreno baldio, que os moradores mantínhamos com mato baixo (aparado), pois servia como um misto de quarador de roupas, campo de futebol e arraial de festa junina, cada coisa a seu tempo e hora. Lembro de minha mãe estendendo sobre o capim as roupas acabadas de lavar com anil, para que expostas ao sol, secassem e ficassem mais alvejadas.

A rotina, com poucas variações, era muito boa, mas eu não sabia que era. Só mais tarde valorizei de verdade.

Escola pela manhã, e,  à tarde, toda sorte de brincadeiras da época. Algumas delas, meus netos sequer ouviram falar, que dirá participar delas com coleguinhas de suas idades.

Por exemplo: duvido que meu neto saiba o que é escambida, uma das brincadeiras mais populares entre os meninos. Friso que entre os meninos porque muitas outras brincadeiras tinham a participação, aliás fundamental, das meninas. Sem as meninas, que prazer ou emoção haveria no “pêra, uva ou maçã?”

Calma, já explico, pela ordem.

pulando carniça
Escambida nada mais é do que a conhecida brincadeira de “pique” com um componente que a tornava mais competitiva, mais arrojada, porque aquele que tinha que pegar os adversários, tinha que tocá-los, não bastava vê-los e anunciar que acharam correndo até o ponto de partida para alcançá-lo antes do que fora encontrado, como acontecia com o pique. Aqueles pegos, na escambida, passavam a ajudar na busca e captura dos demais até que todos fossem alcançados. Não valia se esconder em casa.

Outra que provavelmente meu neto não só não conhece como jamais ira brincar é a carniça. Vou tentar explicar, embora a dificuldade que tenho pela falta de traquejo neste mistér. Um dos meninos terá que ficar abaixado, com as mãos apoiadas nos joelhos a fim de que os demais saltem sobre ele, apoiando as mãos em suas costas. A cada rodada, aquele que está abaixado vai aumentando a altura a ser pulada, evidentemente diminuindo a flexão de seu corpo. Não é só isso, tem outros ingredientes que a tornam mais interessante e até perigosa, mas não cabe aqui lecionar sobre brincadeiras infantis.

Volto ao tema minha infância a qualquer momento.

* Há mais de meio século, no final da Segunda Guerra Mundial, a estupenda cidade de Dresden, na Alemanha, uma referência universal da cultura, foi varrida do mapa por um intenso e cruel bombardeio aéreo decretado pelos aliados anglo-saxãos, ocasião em que a RAF e a Força Aérea americana se rivalizaram, durante três dias seguidos, entre 13 e 15 de fevereiro de 1945, em tocar fogo em tudo que era vivo ou representava arte e cultura. (Wikipédia)


Cometeram eles, Churchill inclusive, além de um ato inumano, um dos maiores crimes de lesa-cultura de todos os tempos.


A Segunda Guerra Mundial estava no fim. Em 1945 Dresden não era nenhum ponto militar. Não existiam bases militares em Dresden, não era nenhum local estratégico, não existia indústria pesada, não tinha defesas aéreas, não tinha centros de comunicação importantes. Dresden era uma das mais bonitas cidades da Europa e das que tinha maior índice cultural do Velho Continente. Estive lá numa época em que a cidade estava  em vias de concluir sua reconstrução (2004). Uma beleza.




** Arte de Ivan Cruz que tem toda uma coleção dedicada as brincadeiras infantis, no Google.

19 de junho de 2011

Época de degustações - parte II

Por
Carlos Frederico Marques Barroso March
Friburgo - RJ - BR


Terminamos o post anterior definindo que íamos falar sobre vinhos, não sobre cervejas, whiskies, etc, e comentamos sobre os dois formatos de degustação: às claras e às cegas. Eu acho preferível os grupos iniciarem com degustações às claras e só quando o entendimento for se aprofundando passarem ao formato às cegas, que temos de admitir dá resultados deveras surpreendentes.

A figura do sommelier pode ser exercida pelo que chamo de “rei em terra de cego”, ou seja, aquele que entende um pouco mais que os outros. O objetivo final é que o grupo cresça homogêneo e que todos adquiram visão. Quem sabe algum participante se anime o suficiente para fazer o curso de sommelier?

Para que uma reunião de degustação resulte proveitosa, há que ter um equipamento mínimo. O item mais importante é a TAÇA. Como sabemos, cada vinho, licor, whisky, vodka, long drink, suco, água, enfim, cada líquido tem seu copo certo, aquele que nos dá o maior prazer sensorial ao se sorver a bebida.

Variedade de taças
Loucura total querer fazer degustação desse jeito... Então os experts se reuniram e definiram a TAÇA ISO, que tem tamanho e formato ideais para as chamadas degustações técnicas de vinhos. A dose usada em degustação tem cerca de 60 ml, o que numa taça ISO a preenche mais ou menos até 1/4 da altura. A seguir, o vinho é observado contra a luz, balançado, cheirado, tomado em pequenos goles que serão jogados de um lado para o outro dentro da boca, para dar azo a se utilizar todas as sensações visuais, olfativas e gustativas de que o ser humano é dotado. 
Taça ISO


Fator essencial numa degustação de vinhos: ÁGUA! Na mesa há que existir garrafas ou jarras de água, com ou sem gás a gosto de cada conviva. Entre cada troca de rótulo, deve-se beber água por dois motivos: hidratar, pois o álcool resseca o organismo (provoca ressaca), e para limpar a boca, preparando-a para o próximo exemplar.



Deve-se comer o que durante a degustação guiada? Idealmente NADA, mas umas torradinhas secas podem ser ingeridas. Se a turma teme ficar bêbada por estar de estômago vazio, admite-se uma ingestão prévia de alguns acepipes para forrar. Contudo, durante os trabalhos, água e torradinhas simples!

Quantos rótulos (tipos diferentes) de vinho devemos apresentar numa reunião? A quantidade usual costuma variar entre 4 e 6. Mais que isso é um exagero, perde-se a noção do que se está a estudar.

Quantas garrafas de cada rótulo comprar? Depende do número de participantes.

Vejamos: a dose recomendada de degustação tem 60ml, que é um tico mais que aquele dosador de whisky que todo mundo conhece. Uma garrafa normal tem 750ml, de sorte que mais de 12 pessoas (12 x 60 = 720) implica em mais de uma garrafa para cada rótulo. Portanto, o número de pessoas a participar da degustação influencia a quantidade de garrafas a serem adquiridas para o evento.

No caso de menos de 12 pessoas, que se coloque um pouco mais de 60ml em cada taça, sem traumas. No entanto, há que se cuidar para os convivas não ficarem meio... altos... antes da última garrafa! Para os “pinguços de plantão”, sem problemas: terminada a degustação guiada, todos estarão "liberados" para dar andamento à noite, abrindo tantas garrafas quanto se desejar, mas já sem a obrigação de cheirar, balançar, rolar língua, essas coisas todas...

Bom, dissemos que serão mostrados diversos rótulos numa reunião. Uma prática é dar uma lavada na taça antes de cada troca de rótulo, mas quando a turma é mais radical, costuma-se colocar tantas taças ISO quantos serão os vinhos servidos, para que ao longo dos trabalhos consiga-se comparar sabores e aromas entre os diversos rótulos apresentados. Basta deixar um pouquinho no fundo de cada taça, já é suficiente para muito debate.

Um bom conjunto para
degustação de 4 rótulos de vinho

QUE VINHOS ESCOLHER? Depende do bolso, mas considero que vinhos a serem degustados pelo cidadão médio podem custar de 20 até 100 reais por garrafa, sendo que vez por outra algum rótulo mais caro deve ser considerado aproveitando o fato de que são vários convivas a repartir a conta... É a oportunidade de se ter contato com vinhos que não teríamos "coragem" de comprar sozinhos...

No post anterior, falamos sobre diversas maneiras de se montar uma reunião de degustação, e isso vale para vinhos, cervejas, whiskies, etc. Apresentarei a seguir algumas sugestões para degustações de vinhos. Na oportunidade, permitam-me desculpar-me por nomear vinícolas no texto, o farei apenas como maneira de clarear as idéias. Sintam-se à vontade para desdobrar as sugestões apresentadas com quaisquer vinícolas que atendam aos requisitos.
DEGUSTAÇÃO TIPO 1

Escolhe-se uma vinícola, uma uva e se percorre o portfólio da mesma. O objetivo desse tipo de degustação é mostrar que uma vinícola pode atender à estratificação do mercado (padrão financeiro de consumo) fazendo vinhos diferentes com o mesmo tipo de uva, através de seleção por qualidade do seus vinhedos, por vezes até adquirindo lotes de fornecedores credenciados externos, e usando de técnicas diferenciadas de produção para cada patamar pretendido.

Exemplificarei escolhendo a CONCHA Y TORO, chilena que atende tanto ao mercado de massa como ao de nível mais elevado. Escolhi como exemplo a uva CABERNET SAUVIGNON que é a mais conhecida e mais difundida no mercado mundial. 
Alguns rótulos da vinicula
Conha y Toro


 Concha Y Toro com essa uva faz diversas linhas, que descrevo brevemente a seguir. Os preços informados são médios por garrafa em mercados do RJ em 2011:

RESERVADO (R$17) - demi-sec "chão de fábrica"; usualmente encontrado em cartas de vinhos de restaurantes medianos, agrada a paladares iniciantes.

FRONTERA (R$23) - demi-sec, um ponto acima do Reservado em termos de qualidade, mas também feito para atender à parcela do mercado de massa que aprecia vinhos menos secos.

SUNRISE (R$25) - é classificado como vinho de mesa (acompanha refeições), em patamar de preço similar ao Frontera; é o vinho seco mais barato da Concha Y Toro.

SENDERO (R$30) - digamos que é o demi-sec mais elaborado da Concha Y Toro (não está na foto); apesar do mercado mundial estar atualmente polarizado para vinhos secos, os demi-sec ainda têm seus seguidores e o Sendero pretende atendê-los em um patamar um pouco mais elevado.

CASILLERO DEL DIABLO (R$30) – é seco e terá sido talvez o maior divulgador dessa vinícola chilena. Hoje em dia é produzido com uma gama extensa de uvas.

TRIO (R$45) - como o nome indica, é uma assemblage de uvas e foge ao nosso tema de comparar Cabernet Sauvignon varietal (não está na foto).

GRAN RESERVA (R$56) - seco, tem uma fabricação bem mais esmerada, acima do consumidor de massa. É uma série relativamente nova na vinícola.

MARQUÉS DE CASA CONCHA (R$80) - linha tradicional de vinhos secos, séria, homenageia o patriarca da vinícola.

TERRUNYO (R$150) - faz parte do segmento top da vinícola, seguindo métodos modernos de elaboração de vinhos de classe (não está na foto).

Há linhas especiais top na Concha Y Toro, mas fogem ao meu nível de apreciação. O importante é ter em mente que na maioria das linhas acima descritas poder-se-á escolher, para atingir o objetivo traçado no tipo de degustação sugerido, uvas Carmenère, Merlot, Shiraz e alguns brancos.

DEGUSTAÇÃO TIPO 2

Escolhe-se uma vinícola e varre-se o leque de uvas por ela utilizado para elaboração de seus rótulos. Se a vinícola tem várias linhas (como o caso da Concha Y Toro no exemplo acima), é recomendado escolher os rótulos de uma mesma linha. Se não, paciência... É o tipo de degustação que permite a melhor experiência em termos de percepção das diferenças entre cada uma das uvas, que é uma das motivações mais populares para degustação.

Hoje em dia muitas vinícolas, no Brasil e no exterior, dão chance a uma degustação dessa natureza. Cito a nacionais Miolo, Casa Valduga, Don Laurindo, Don Cândido, Amadeu, Salton, entre muitas outras de qualidade do Rio Grande do Sul. Idealmente deveríamos escolher rótulos da mesma safra, mas é na maioria das vezes muito difícil.

Don Laurindo Ancellotta

Uma sugestão de degustação de 5 tintos com Don Laurindo poderia incluir (preços médios no Rio Grande do Sul):

Merlot leve safra 2010 (R$36)

Cabernet Sauvignon safra 2007 (R$36)

Malbec safra 2006 (R$42)

Ancellotta safra 2006 (R$42)

Tannat safra 2007 (R$42)

Ou opcionalmente:

Tannat safra 2005, série especial 10 anos (R$96)

Não por acaso a seleção sugerida seguiu uma ordem pré-determinada. É padrão começarmos com o vinho mais leve e ir apresentando aos poucos os mais encorpados, estruturados.

A leveza ou estrutura de Malbec e Ancellotta frente a Cabernet Sauvignon é meio incerta, mas na produção da Don Laurindo eu sugeriria a sequência acima. Para quem produz Shiraz (ou Syrah, como alguns a denominam) eu a colocaria entre Merlot e Cabernet.

DEGUSTAÇÃO TIPO 3

É a chamada degustação vertical, onde se escolhe uma vinícola, um rótulo em especial e varre-se esse vinho nas diversas safras em que ele foi produzido. Caso geral, só conseguimos juntar rótulos dessa natureza com vinhos mais requintados, de guarda, de modo que as safras existentes no mercado são de alta qualidade apesar da idade.

O que seria um vinho de guarda? Seria um vinho cuja estrutura é forte o suficiente para permanecer na garrafa por anos, muitas vezes amadurecendo nesse período e não raro só podendo ser degustado alguns anos após o engarrafamento. Os vinhos mais simples e baratos não suportam tanto tempo guardados. Muitos devem ser tomados assim que são produzidos, outros até uns 5 ou 6 anos e apenas aqueles especiais podem ficar descansando nas adegas para apreciação posterior.

Miolo Lote 43


 Aqui no Brasil, que não tem histórico de qualidade suficiente para produção de vinhos realmente de guarda como os grandes franceses, uma sugestão é fazer isso com o Lote 43 da Miolo, um corte de Cabernet Sauvignon com Merlot que só foi fabricado em anos em que a safra foi, a critério da Miolo, especial. São elas 1999 (não encontrei), 2002, 2004, 2005 e agora saiu a 2008. Espere pagar entre R$ 80 e R$ 105 por cada garrafa, dependendo da safra.

Para não ser tendencioso, cabe comentar que muitos especialistas declararam que o Lote 43 é de fato um bom vinho, no entanto está posicionado num patamar de preço acima do que ele realmente vale...

O mesmo tem sido dito de vinhos top recentemente produzidos em outras vinícolas nacionais, pretendendo ser séries comemorativas de eventos, datas, nascimentos e mortes de celebridades ligadas ou não às vinícolas. Como em toda atividade de livre mercado, aos poucos os preços se alinharão com a realidade.

DEGUSTAÇÃO TIPO 4

É uma degustação adequada à harmonização: vinhos com gastronomia. Em geral envolve um espumante como aperitivo, um branco encorpado ou tinto leve para acompanhar o prato de entrada, um tinto mais encorpado junto com o prato principal, um licoroso (como o branco francês tipo Sauternes ou um vinho fortificado, como Porto ou Madeira) para a sobremesa e quem sabe um brandy para arrematar.

Não farei sugestão sobre esse tipo de degustação por absoluta incompetência. O tema é extremamente amplo e os vinhos dependerão obviamente do cardápio escolhido. Deixo essa parte para experts em harmonização.


Post anterior sobre o tema em http://jorgecarrano.blogspot.com/2011/06/epoca-de-degustacoes-parte-i.html