Por
Carlos Frederico March
(Freddy)
Pode parecer confronto em algum tipo de esporte, mas na verdade parece que Peter Higgs e John Craig Venter estão empenhados em ver quem é o primeiro cientista a explicar fatos que todos aqueles que professam alguma religião atribuem a um Ser Superior, que nós chamamos de Deus: criar matéria a partir do nada (Higgs) e vida a partir da matéria (Venter).
Desculpe-me quem for um expert em mecânica quântica e/ou biologia sintética, tecerei apenas ligeiros comentários abordando esses dois complexos campos do conhecimento que vêm sendo criteriosamente estudados pela comunidade científica.
Falemos primeiro sobre Peter Higgs.
![]() |
| Peter Higgs |
Físico teórico britânico, nascido em 1929, ficou conhecido pelo estudo de um mecanismo que exige a existência de uma partícula que seria capaz de catalisar a transformação do nada (na verdade energia contida no vácuo) em matéria. O meio científico a cunhou de Bóson de Higgs, apesar dele ter trabalhado em paralelo com outros teóricos.
Gente, é extremamente complicado entender física quântica. Enquanto eram prótons, nêutrons e elétrons, mais uns fótons e neutrinos, a coisa ainda dava até pra explicar aos leigos. Mas agora, com teoria das cordas, múltiplas dimensões além das conhecidas 3 de espaço mais tempo, partículas excêntricas como bósons, férmions, quarks, léptons e outras mais, fica incompreensível pra mim, imagina tentar explicar...
Atualmente os físicos aceitam que o que a gente vê no Universo, matéria consistente, que tem massa e interage gravitacionalmente, é apenas 4% do todo. 23% é constituído de um tipo de massa invisível mas perceptível nas observações astrofísicas: a matéria escura, mas ainda assim matéria. O restante, cerca de 73% do Universo que é percebido pelos estudiosos, é algo mais inacreditável ainda: a energia escura => distensão cerebral (risos
amarelos).
O que nos interessa no momento é que Higgs trabalhou conceitos de outros físicos e definiu que a matéria como nós a conhecemos só apareceu no Universo porque uma determinada partícula deveria existir, uma espécie de catalisadora. Com massa quântica
inacreditavelmente grande para uma partícula e um tempo de vida infinitesimal, este bóson é que seria o responsável pela transformação da energia que permeia o vácuo em massa e daí nós, e tudo o mais que vemos e em que tocamos (matéria comum), poderia existir.
Nada que Deus não pudesse fazer com um gesto rápido e casual... Daí o Bóson de Higgs foi apelidado por sensacionalistas de “God particle”, a “partícula-Deus”. Tornou-se a partícula mais procurada na física moderna.
O problema é que chegar a níveis de energia grandes o suficiente para permitir a observação do referido bóson em experimentos controlados e confiáveis não era viável na época em que Higgs o definiu, por volta de 1964. Aceleradores de partículas cada vez maiores foram sendo construídos e nada... Até que recentemente, num investimento de mais de 3 bilhões de euros, foi construído o LHC (Large Hadron Collider = Grande Colisor de Hádrons ) que entrou em funcionamento em 2008.
![]() |
| Higgs visitando uma seção do LHC |
O LHC pertence ao CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire - em Genebra, Suíça) e é um acelerador em anel de 27km de perímetro enterrado a 175m de profundidade perto da fronteira da Suíça com a França. Sua capacidade de acelerar partíiculas e fazerem-nas colidir frente à frente é assustadora - para padrões atuais.
Houve grande expectativa acerca da possibilidade dele provocar a destruição da Terra pela chance desse tipo de experimento criar um buraco negro infinitesimal que, por sua natureza física aos poucos engoliria todo o planeta, mas foi intriga científica, como quando detonaram a primeira bomba atômica. Também havia receio da reação em cadeia disparada não cessar e destruir tudo.
Finalmente, em 4 de julho de 2012 foi anunciado pelo CERN que o Bóson de Higgs havia sido detetado. Mas havia que confirmar, envolvendo um exaustivo procedimento científico de comprovação. Mais testes, e praticamente uma horda de físicos em cima dos dados do LHC, finalmente concluíram em 14 de março deste ano de 2013: ele existe!
Será que a criação da matéria da qual somos feitos não precisa mais da mão de Deus?
Falemos agora de John Craig Venter.
Bioquímico e empresário americano nascido em 1946, Venter vem trabalhando há anos em mapeamento genético, produção de bio-
combustíveis, pesquisas na área de biologia sintética. Sua mais recente meta é criar vida a partir de matéria inanimada. Pilheriando, Craig Venter também quer brincar de ser Deus.
Faz bastante tempo os genomas vêm sendo pesquisados, DNA de milhões de células vem sendo mapeados e estudados com finalidades diversas, a mais ética delas virada para a identificação e cura de muitas doenças. Há controvérsias sobre o uso desse conhecimento, não serão assunto deste texto.
O mapeamento genético dos milhares de genes do corpo humano foi meta do Projeto Genoma Humano, um empreendimento internacional iniciado em 1990 e que tinha previsão de duração de 15 anos. Craig Venter, no entanto, desenvolveu o que denominou método BET para encontrar genes. Fundou a empresa Celera Genomics, divisão da PE Biosystems, que fabrica máquinas para sequenciamento genético. Usando essas máquinas e um dos maiores supercomputadores disponíveis, Venter concluiu a montagem do genoma humano em apenas 3 anos.
Em 2005, Craig Venter foi co-fundador da Synthetics Genomics, que usa microorganismos modificados para produzir bioquímicos e combustíveis ecologicamente limpos. Em 2007 e 2008 o nome de Craig Venter fez parte de lista das pessoas mais influentes do mundo pela revista Time. Em 2009 a Synthetics Genomics fez parceria com uma empresa petrolífera para desenvolver bio-combustíveis.
Venter finalmente fundou o J. Craig Venter Institute, onde desenvolve pesquisas especificamente voltadas para a criação de organismos sintéticos. Matéria publicada no site do Globo (http://oglobo.globo.com/ciencia/criacao-de-vida-artificial-pode-estar- cada-vez-mais-perto-7828494) revela que em 2010 Venter anunciou (sic) “ter trazido à vida uma versão quase completamente sintética da bactéria Mycoplasma mycoides, transplantando-a na concha vazia de outra bactéria”.
Ainda segundo o artigo, Venter criou o que ele próprio apelidou de “genoma Ave Maria”, a partir do qual pretende usar genes especialmente escolhidos para produzir células auto-replicantes, o que pode ser traduzido livremente como “criar vida a partir de matéria inanimada”.
Em resumo:
Chegamos simultaneamente a duas descobertas que focam o mesmo objetivo: provar que existem mecanismos científicos que conseguem (1) explicar a criação da matéria a partir do “nada” e (2) criar vida a partir de matéria inanimada. Duas, digamos, atividades que são consideradas pelos religiosos como privilégio divino.
Será que chegamos a um ponto de inflexão na interpretação da existência do Universo e do aparecimento da vida? Confirmados os experimentos e seus desdobramentos científicos, como as sociedades seguidoras de religiões diversas reagirão? Aguardemos os próximos capítulos!
Créditos das fotos:
Peter Higgs: www.ph.ed.ac.uk
Higgs visitando LHC: www.bbc.co.uk
J. Craig Venter: Wikipedia (a enciclopédia livre)


















