18 de janeiro de 2016

Trabalho escravo de animais

Minha mãe não gostava do Jerry, achava que ele fazia muitas maldades com o pobre do Tom.  Com efeito o ratinho de cara simpática judiava muito do gato que, afinal, estava só cumprindo seu papel e seguindo sua natureza.

O que esperava a dona da casa que o Tom fizesse era exatamente aquilo, afugentar os ratos.

Mas vamos a explicação do porquê de ter escolhido este tema apara o post de hoje. Acabei de ler, no livro da vez,  uma passagem sobre o Palácio de Cristal, um gigantesco salão construído  para a Grande Exposição  de 1851, numa borda do Hyde Park, na época da rainha Vitória.

Importaram um par de gaviões para cuidar dos pássaros que invadiriam as galerias, daquela enorme estrutura de mais de seiscentos metros de comprimento, com área  de noventa mil metros quadrados, todo construído em ferro e vidro.

Assim é, a natureza dos animais, suas índoles, colocadas a serviço do homem.

E os jacarés que habitavam os fossos que circundavam alguns castelos medievais? Estavam ali prestando serviço, longe de seu habitat natural.

No Clube Líbano Fluminense, na sua sede campestre, eram mantidos alguns carneiros com a missão precípua de manter a grama aparada e evitar o crescimento do capim indesejável.

Lembro que na fiação que o Grupo Matarazzo mantinha em São Bernardo, no ABC paulista, havia gansos para proteger a área  contra  ação de intrusos. Os gansos, como é sabido, são excelentes guardas.

O conde tinha tanta preocupação e carinho com os tais gansos, que quando um deles apareceu morto, exigiu que fizessem uma autópsia para saber a causa da morte e, se o caso, responsabilizar a administração da planta fabril.

Claro, eu mesmo tive um cão que se impunha pelo porte avantajado e pela disposição para enfrentar perigos. Claro que tinha afeição pelo animal, davamo-nos muito bem, mas a verdade é que ele tinha uma missão: proteger minha propriedade em São José de Imbassaí.

Os burros puxam carroças, as focas fazem gracinhas em parques aquáticos e os coelhos, coitados, ajudam os mágicos.

Tudo trabalho escravo. Deixemos de hipocrisia, porque mesmo a velhinha que mantém um gato de estimação, o faz para ter uma companhia. 

16 de janeiro de 2016

Será que dá pra fugir para as montanhas?





Por
Carlos Frederico March
(Freddy)







Recentemente veio à baila o tema "será que um dia a Terra vai acabar?". Foi abordado num artigo publicado no site da UOL. O articulista cobriu praticamente tudo, mas como já me acostumei que, mesmo havendo 3.958 artigos na internet sobre um assunto, sempre podemos acrescentar nossa visão pessoal, e também instigado pelo blog manager, lá vai.

As hipóteses que nos ocorrem podem ser divididas em capítulo, ou sub-temas:

1) A Terra ser consumida pelo Sol em seu declínio como estrela

2) Sermos atingidos por um grande asteroide ou cometa

3) A Terra entrar em convulsão interna

4) A Terra ser tornada inabitável por humanos (guerra, efeito estufa)

5) Catástrofes biológicas

De todas as hipóteses acima elencadas, a única que certamente acaba com a Terra é a de número 1, contudo num futuro pra lá de longínquo em se tratando de raça humana. A 2 poderia até ser, mas a chance de sermos atingidos por um astro que consiga destruir a Terra como planeta é essencialmente nula. As demais implicam em extinção da raça humana, mas não da Terra como planeta.

Hipótese 1 - Terra ser consumida pelo Sol

É uma quase certeza astronômica. Pelo tipo do Sol, a evolução esperada segue uma sequência como a mostrada na figura a seguir:

Autoexplicativa, não precisa de caption

Ele irá queimando seu combustível interno, hoje majoritariamente hidrogênio e um pouco de hélio, até começar a queimar elementos mais pesados. Com isso ele vai esquentar bem mais do que é hoje. Só isso já é o suficiente para fazer evaporar oceanos e dispersar a atmosfera. Dizem os pessimistas que isso pode acontecer já nos próximos 500.000 anos.

Em cerca de mais uns 4 a 5 bilhões de anos ele finalmente atingirá o segundo estágio mais significativo, que é o de gigante vermelha. Sua atmosfera causticante aumentará tanto de tamanho, apesar de ser muito tênue, que vai engolir sucessivamente Mercúrio, Vênus, Terra e quem sabe também Marte. Esse não temos certeza porque não há como antecipar até onde o Sol vai expandir antes de... antes de atingir o próximo estágio em sua evolução esperada: ejeção do envelope de gás rarefeito num evento chamado de nebulosa planetária. Sobrará apenas uma estrela bem pequena, uma anã branca. Pequena em tamanho, mas densa a ponto de uma colher de matéria pesar tanto como um edifício.
 
                                                            Nebulosa do Anel, M57

Após o estágio de anã branca, cercada apenas dos planetas que sobreviveram a isso tudo, provavelmente de Júpiter em diante, ela vai esfriar por éons até desaparecer de vista no tempo infinito, cadáver frio do que foi uma fulgurante estrela.

Não creio que haja civilização que resista a uma espera de 500 mil anos, a experiência mostra que a gente vai se destruir antes. Se num acaso divino sobrevivermos, até lá já teremos desenvolvido tecnologia pra cair fora daqui.

Hipótese 2 - sermos alvo de asteroide ou cometa

Escrevi artigo sobre essa hipótese em junho/2015, antecipando o evento "Asteroid Day". Pode ser consultado através do link:

http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/06/papo-de-astronomia-asteroid-day_6.html

Recentemente a mídia voltou a abordar o perigo de sermos alvo, agora focando na ameaça de grandes cometas que orbitam os confins do Sistema Solar na chamada Oort Cloud (Nuvem de Oort). Milhões de cometas nela vagueiam inocentes mas, de vez em quando, algum planeta ainda desconhecido, ou algum dos incontáveis planetas-anões das extremidades do Cinturão de Kuiper (abordado no recente texto sobre Plutão), podem lhes perturbar a órbita e lançá-los em direção ao Sol.

Mera loteria, isso acontece amiúde e no passado recente temos notícia de poucos grandes o suficiente para causar danos consideráveis, como relatado no post "O medo dos gauleses". Eles não temiam nada, a não ser que o céu lhes caísse sobre as cabeças! Consultar, se interessar:

http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2012/04/papo-de-astronomia-o-medo-dos-gauleses.html

A catástrofe seria, provavelmente, restrita a alguma localidade ou, num exagero imenso, poderia afetar toda a ecologia terrestre. Contudo, a figura de "destruição da Terra" não se aplicaria.

Hipótese 3 - Convulsão interna na Terra
 
Vulcão Calbuco, Chile
Pouco ainda se sabe sobre o que nosso planeta nos reserva. Estamos sobre grandes placas sólidas que nadam sobre um manto de magma fervente. Vez por outra uma fissura acontece e temos a erupção de um grande vulcão. Um exemplo recente (historicamente) foi a explosão do Monte Tambora na Indonésia em 1815, causando uma condição climática no planeta similar a um inverno nuclear. As colheitas foram atingidas em diversos continentes, muita gente morreu de fome e o ano de 1816 foi conhecido na Europa como o "ano sem verão".

Os cientistas bem que tentam monitorar as profundezas, mas o planeta pode se tornar irascível de um momento para o outro e a movimentação de algumas placas continentais pode causar uma série de erupções vulcânicas, terremotos e tsunamis capazes de arrasar a civilização. Por destruição imediata ou por alteração climática posterior.

É uma condição que traria as mesmas consequências da queda de um grande asteroide ou cometa. Portanto, como dito na hipótese anterior, a figura de "destruição da Terra" não se aplicaria.

Hipótese 4 - Auto destruição da civilização

O homem já deu mostras de constituir sociedades que não se agradam umas das outras. Seja por fanatismo religioso, necessidade de expansão territorial, radicalização de opiniões de cunho político, divergências comerciais, motivos não faltam.

Nada impede que entremos numa guerra que venha a destruir toda a civilização, provavelmente de cunho nuclear ou bacteriológica. As consequências seriam imprevisíveis. Desde a extinção completa de seres vivos na superfície como uma destruição seletiva. Apenas algumas espécies sobreviveriam, com mutações ou não.

Uma morte mais lenta seria, como tem sido previsto e é um tema bastante atual, o efeito estufa. Levado a um estágio de descontrole, pode causar escassez de água potável, perda de safras em âmbito global e, como consequência, fome generalizada. As florestas definhariam, os campos se tornariam uma imensa planície estéril, o acesso à água doce seria dependente de tecnologia para dessalinização dos oceanos. Recurso para poucos e mesmo esses poucos acabariam se extinguindo.

Mais uma vez, é uma hipótese que resultaria na extinção da humanidade sem a destruição física do planeta. E vejam: mesmo que a Terra se mostrasse por alguns milênios inóspita, um dia haveria novamente estabilidade ecológica e algum tipo de vida voltaria a dominar os mares, campos e céus.

Hipótese 5 - Catástrofes biológicas

Fruto de guerra ou de falhas de manipulação de espécies perigosas em laboratórios de pesquisa, pode acontecer um dia sermos assolados por algum tipo de doença global, destrutiva e incurável.

O resultado seria um planeta cheio de vida, ecologicamente equilibrado, mas sem o homem. Quem sabe daí a dezenas de milênios uma nova raça de seres "inteligentes" não se formaria, um pouco melhor que a nossa atual?

CONCLUINDO

Em quaisquer das hipóteses acima elencadas, eu sinto muito mas creio que não vai adiantar fugir para as montanhas. Talvez prevendo isso começa-se a cogitar colônias humanas em Marte, mesmo tendo a Lua aqui do lado. O que eles sabem que nós não sabemos?


14 de janeiro de 2016

Posso usar seu telefone?

Nosso número de telefone era 2-4806.  Corria o ano de 1951. Era um privilégio ter telefone em casa. Alguns números telefônicos possuíam apenas quatro dígitos. 

Não havia “orelhões” de sorte que a maioria das pessoas dependia dos telefones de estabelecimentos comerciais. No botequim do Sr. Henrique, na Rua Santa Clara, era preciso pagar Cr$ 0,50 (cinquenta centavos) se a ligação fosse local. Ou "incomodar" o vizinho que tinha linha instalada.

Na farmácia era impossível telefonar. O aparelho tinha até um cadeado no disco, para que os empregados não facilitassem para algumas pessoas. Eles recebiam ligações, mas só o proprietário – Demerval – podia fazer chamadas.

Alguns destes estabelecimentos admitiam, excepcionalmente, para fregueses conhecidos, chamadas interurbanas. Mas era muita mão-de-obra porque ao final da ligação era preciso entrar em contato com telefonista e pedir o custo da chamada para poder pagar ao dono do negócio.

Ligações  interurbanas para o Rio de Janeiro eram feitas através do prefixo 07, mas para o restante do país era preciso discar  01 e pedir a ligação à telefonista. Dependendo do local e hora, poderia levar horas.  A telefonista fazia uma previsão do tempo de espera.

A concessionária era a Companhia Telefônica Brasileira, e as contas eram pagas na sede da empresa, ou seus escritórios, e não em bancos.

Vocês podem estar pensando que sou um decrépito, dos tempos dos sinais de fumaça ou batida de tambor, para comunicação à distância. Nada disso tenho 75 anos, a caminho dos 76 brevemente. Já contei em algum momento neste blog que quase não consegui me casar no dia aprazado por falta de comunicação telefônica.

Esta dificuldade era para ligação entre o Brasil e a Cochinchina? Não, entre Niterói e Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. Tudo porque naquela que era a segunda cidade do Estado não havia rede telefônica. Havia, apenas, um Posto Telefônico onde era possível pedir ligações. No local havia três cabines, pedida a ligação num balcão, a atendente apregoava: “Sr. Jorge, sua ligação para Niterói, cabine dois.”

Mas deu-se que na véspera de meu casamento, surpreendido com uma informação do pároco local de que para casar lá em Cachoeiro eu precisava de um documento expedido pelo padre da paróquia da região onde eu residia em Niterói, dando autorização, fiquei aturdido. E Wanda em pânico.
E aí como nada está tão ruim  que não possa piorar, como ligar para Niterói, para a casa de minha mãe, que tinha telefone em casa, e pedir que ela providenciasse com o padre da igreja da Vila Pereira Carneiro o tal documento de autorização?

Sim, havia o Posto Telefônico, só que não sei porque cargas d’água, ou melhor sei, problemas nas linhas de transmissão deixaram a cidade de Cachoeiro sem comunicação com o resto do mundo, naquele dia.

Olhem a maratona necessária para pedir a minha mãe, em Niterói, para conseguir a autorização do padre. Coitada, teria pouco tempo, num dia 30 de dezembro (eu casaria no dia 31), para achar o padre, negociar a expedição do documento e depois levar para Cachoeiro, onde ela chegaria no dia 31 pela manhã.

A gincana foi mais ou menos a seguinte: na sede da Viação Itapemirim, em Cachoeiro,  com autorização do Camilo Cola, foi feito contato por rádio com o guichê da empresa  na Rodoviária do Rio de Janeiro. Foi informado ao operador do rádio, no Rio de Janeiro, o número telefônico de nossa casa, a fim de que ele telefonasse e reproduzisse o recado: “favor providenciar, urgente, autorização do padre da igreja dos Sagrados Corações, para o Jorge casar fora da jurisdição da paróquia em Niterói.”

Só deu certo porque tinha que dar. Nosso casamento civil ocorreu às 11 horas da manhã, na casa de meus sogros, naquela cerimônia com o Juiz de Paz, cumprindo as formalidades e ritos legais: “de portas e janelas abertas, etc...”

Minha mãe já havia chegado, pouco antes, com o documento e foi então possível, às 18 horas, casar na igreja na citada cidade capixaba. Ana Maria, minha irmã, que costuma visitar este espaço virtual a tudo presenciou. Se me engano em algum detalhe ela certamente atalhará. Era final do ano de 1964.

O objetivo do post não é meu casamento, mas evidenciar o atraso que vivemos durante muito tempo com os serviços públicos concentrados nas mãos do governo. Somente com a privatização, agora em anos mais recentes, é que todo mundo se comunica com todo mundo. Posso até perpetrar estes relatos sem pretensões outras senão registrar fatos.

Wanda combina com a manicure e marca diarista pelo celular. Eu fiz contato, hoje, com um estofador, utilizando o celular  dele. Um dos porteiros do prédio onde moro passa o dia no celular (até ser demitido, o que não tardará a acontecer). Ou seja, a comunicação telefônica, em aparelhos celulares, está absolutamente democratizada.

E o cancelamento de linha convencional, de telefone chamado fixo, é tão difícil quanto foi no passado conseguir uma linha. Depois de casado entrei em fila de plano de expansão, pagando carnê, e esperei 15 meses para receber meu telefone.

12 de janeiro de 2016

Disparidade de preços






Por
Carlos Frederico March
(Freddy)






Outro dia estava a navegar a esmo, mera diversão, em sites de instrumentos musicais. Eu gosto de violões, apesar de ser prioritariamente pianista e ter, de fato alguns pianos e sintetizadores. Tenho, porém, violões de vários tipos e gosto de tocá-los, sozinho (solo e acompanhamento) ou com amigos, quando faço apenas acompanhamento.   

A marca Gibson é uma das mais conceituadas e tradicionais no mercado internacional e, por isso, me vi atraído pelo site. Cara, os preços me impressionaram! Claro que no site é preço de tabela e lá, como aqui, é costume nas lojas haver promoções. Ou não, depende da cidade, do volume de vendas, essas coisas.

Observem os dois modelos abaixo:

Gibson SJ-200

Gibson SJ-250 Monarch

Colocar preço aqui, como disse acima, é mera referência, mas os descontos nas lojas não seriam tão grandes a ponto de desfazer a relação entre eles. Vocês talvez não acreditem, mas as diversas versões do SJ-200 têm preço de tabela entre US$ 3.799,00 e US$ 4.499,00 e o SJ-250 Monarch custa a bagatela de US$ 21.399,00.

É muito? Um amigo meu achou no eBay um SJ-250 Monarch sendo anunciado por US$ 50.000,00. Deve ser porque é difícil de achar nas lojas e quem tem pede o que quer. Ou quem sabe vem assinado por algum grande músico da atualidade ou do passado... 50 "grands" por um violão?!

Vamos falar sério! Pra começar, é cara de um, focinho do outro, com discretas alterações estéticas. Sim, claro, deve ser a qualidade da madeira, algum ouro incrustrado (não consegui ver)... Mas será que justifica uma diferença tão brutal de preço? O Monarch custa por volta de 5 vezes o preço de um SJ-200, que já é de per si caríssimo!

E a gente, que mora no Brasil e o dólar disparou? Para trazer um brinquedo desses legalmente teríamos de pagar imposto de importação: 50%. Vai daí, a preço de tabela um SJ-200 custaria uns R$ 23.000,00 e um Monarch nos custaria nosso reino inteiro, ou seja, coisa aí de uns R$ 128.000,00.

Você pode optar por um violão Gibson ou por um BMW X1 básico, por exemplo! Teve colega meu que disse que, como não sabia tocar violão, compraria é o BMW mesmo (rs rs). No meu caso, fico numa dúvida imensa... (rs rs rs)
 
BMW X1

Bom, mas a disparidade não termina aí. A Epiphone é uma fábrica que fazia "réplicas" dos violões e guitarras Gibson (creio que na China) e as vendia baratinho. Para não complicar muito uma eventual batalha judicial sobre cópia do design, a Gibson resolveu: comprou a Epiphone e a manteve ativa. Pronto! Hoje em dia, diz-se que a Epiphone é a 2ª linha da Gibson, sob bênção da proprietária.

Mas dá uma olhada no modelo abaixo: 
 
Epiphone EJ-200ce

Ele tem um "cut away" no corpo, coisa que alguns modelos Gibson também têm. Facilita quem sola nas notas mais agudas e, pelo menos para meu gosto, fica mais bonito. Não fosse esse pormenor, poderíamos dizer que é igual a um SJ-200 de US$ 3.799,00 ou até a um Monarch. Só que você vai consegui-lo por aproximadamente US$ 750,00,  quem sabe menos no varejo internacional.

Aqui no Brasil, mesmo depois da disparada do dólar, ele pode ser encontrado a cerca de R$ 3.000,00. Um pouco menos, um pouco mais. E tem versões em todas as cores tradicionais: natural (da foto), preto e sunburst, como você acha também em inúmeros modelos da Gibson. A cor não influi no preço, é mera estética.

Fechando, fica a pergunta: como assim modelos praticamente iguais em aparência, fabricados por uma mesma empresa ou sua subsidiária, podem apresentar tal disparidade de preços, custando desde US$ 750 até US$ 21.399 ???

Eu não consigo entender... 

10 de janeiro de 2016

MISCELÂNEA


As tartarugas continuam na praia de Icaraí. Aliás, em respeito aos limites geográficos é preciso retificar. Elas habitam, na verdade, a Praia das Flexas, grafada assim mesmo: 
http://www.guiadepraias.com.br/praia.php?id=225).

Itapuca
Isto porque são encontráveis, há algum tempo (eu testemunho três anos), ao lado da Pedra de Itapuca na face voltada para a aludida praia do bairro do Ingá.

Ali, no calçadão, existem uns bancos, a partir dos quais é possível assistir quando colocam suas cabeças  acima da linha d’água e, dependendo de como submergem, expõem parte do casco.


São, agora, seguramente, mais de 10 indivíduos. Não eram tantos há dois anos. É curioso num mar poluído a sobrevivência destes quelônios.

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A moda, agora, entre os jogadores de futebol, é deixar as barbas crescidas. Já foi raspar a cabeça, já foi fazer corte de cabelo no estilo moicano.
É difícil, também, identificar um jogador que não esteja todo tatuado

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Sabiam que as igrejas estão tendo acentuada queda em suas “receitas”? As espórtulas, dízimos ou esmolas, como queiram chamar estão escasseando, ou diminuindo de valor.
Tem igreja evangélica sendo despejada por falta de pagamento de aluguel.

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É controvertida a relação dos Beatles com o futebol. Naturais de uma cidade que tem dois times vencedores, de grande prestígio, como são  o Everton e o  Liverpool, não encontrei vestígios de paixão de Lenon, Paul ou George por nenhuma destas agremiações. Consta que o Ringo Starr seria torcedor do Arsenal. ????????



Elton John foi diretor e chegou a assumir o controle acionário do modesto Watford.

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A desacreditada ONU, com seu Conselho de Segurança outrora um pouco respeitado em suas deliberações, agora não assusta nem ao bebê ditador Kim Jong-un, fã dos personagens da Disney, que comanda a Coreia do Norte.  Se eles desenvolveram mesmo a bomba H, pode ser que o fim do planeta previsto por astrônomos e cientistas pesquisadores do espaço sideral ocorra mesmo. Não por morte do Sol ou colisão com grande asteroide.

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Ainda acho a campanha dos Postos Ipiranga a mais original, mais criativa de quantas estão sendo veiculadas. Falo daquela do matuto que faz cestos e a todos indica o posto Ipiranga. Morri de rir com o cacique, que pergunta se em caminho de paca tatu caminha dentro.

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Lamento o fim da série "Downton Abbey", uma das mais interessantes já produzidas. Locações maravilhosas, cenários caprichados, roteiro consistente, elenco afiado. Um belo retrato da aristocracia britânica. Oportunas referências a fatos históricos bem inseridos no contexto.


Kate Middleton, duquesa de Cambridge,  em visita ao set de filmagens

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Pouco mais de um ano após haver escrito o post sobre futebol (soccer) nos USA 
(http://jorgecarrano.blogspot.com.br/2014/10/qual-o-seu-time-na-major-league-soccer.html)
tenho que fazer uma ressalva. Assim como na economia mundial, os chineses querem disputar com os americanos. Já notaram como os chineses estão investindo no futebol?

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Não quero saber se o pato é macho, quero é comer ovo. Não me interessa quem pintou a zebra, quero o resto da tinta. Espero que chova em minha horta e que venham bons ventos para eu empinar minha pipa.



Nota do editor: Faz três anos que comento sobre as tartarugas. Leiam em:
http://jorgecarrano.blogspot.com.br/2013/02/caminhada-na-praia-com-pombos-e.html

8 de janeiro de 2016

Papo de Astronomia - 2015, o ano de Plutão




Por
Carlos Frederico March
(Freddy)








"2015, the year of Pluto"

Assim foi considerado o ano que acaba de se encerrar pela comunidade científica internacional. O impacto das imagens do sistema formado pelo ilustre planeta-anão e suas 5 luas provocou exclamações em todos aqueles que se interessam por ciências espaciais e astronomia.

Recapitulando, comecei a série sobre assuntos de grande importância astronômica do ano de 2015 em 4 posts, publicados entre os dias 1 e 4 de março. Posteriormente fiz alguns posts adicionais atualizando o status das referidas missões. A lista com os diversos links está no final deste texto, por questões práticas.

Por que o impacto científico? Creio que as razões são diversas e deve haver uns 2.386 textos sobre o assunto na internet. Aqui procurarei dar minha visão pessoal.

COMPLEXIDADE DA MISSÃO

A aprovação da missão New Horizons se deu em novembro de 2001 e a sonda foi lançada em 19 de janeiro de 2006. Os computadores que são o centro de controle inserido na sonda eram o estado da arte do ano de 2003 e se qualquer um voltar sua mente para este longínquo passado (12 anos atrás), há de constatar o que já se avançou em termos de tecnologia, tanto em aplicações de ponta (espaciais e militares) como no cotidiano social.

O objetivo não era nada simples... A sonda deveria seguir milimetricamente uma trajetória que a faria passar "lotada" (a mais de 49.000 km/h) por Plutão num determinado ângulo, especialmente escolhido para poder fotografá-lo e à sua grande lua Charon em close, num movimento tipo panorama: girando lentamente de modo a manter seus alvos em foco. Um pouco de Plutão, um pouco de Charon, o que pudesse das 4 luas minúsculas (Nix, Styx, Hydra e Kerberos), além da procura de possíveis anéis e novas luas (sabemos agora que não tem).

No dia 14 de julho de 2015 ele faria o fly-by e em 4 horas, mais ou menos, já estaria se dirigindo para os confins do sistema solar... Nenhum plano B, nada. Torcia-se para que a nave não esbarrasse numa pedra qualquer no caminho, isso estragaria tudo. Se houvesse anéis, a poeira poderia danificar as lentes. Tudo tinha de ser antecipado. O centro de controle mantinha as câmeras e radares apontados para a frente procurando desesperadamente algum empecilho.

Diferente de outras missões, onde a americana NASA (ou europeia ESA ou japonesa JAXA, etc) escolhe frear e circular seu alvo por vários meses ou anos, a missão a Plutão foi um tiro direto, usando a meio caminho uma assistência gravitacional de Júpiter para acelerar mais ainda. Sem chance alguma de frenagem por conta da velocidade com que ela estava programada para chegar ao destino. A quantidade de combustível que seria necessária para a manobra de entrada em órbita inviabilizaria chegar em Plutão "em tão pouco tempo", por conta do peso extra a ser lançado no espaço. A viagem seria muito mais lenta.

Continuemos... Plutão está orbitando o Sol além de Netuno, sendo portanto o mais distante astro a ser visitado por uma sonda. Está no momento a aproximadamente 5 bilhões de quilômetros e é tão longe de nós que a luz demora cerca de 4 horas e meia para chegar lá.

Ei! Não só a luz!  Os comandos da nave, caso tenham de ser dados aqui da Terra também! Pois é... Entre dar um comando e receber a resposta da nave seriam 9 horas quando ela estivesse passando por Plutão. Sem contar que estava prevista a condição de silêncio de rádio por 22 horas justo no sobrevoo. Tipo: teria de ser tudo programado antes e não poderia haver nada de errado, pois não haveria como consertar a tempo...

Os computadores a bordo são 2, cada um deles duplicado por segurança: total 4. Um par cuida de processamento de comandos e dados, o outro par cuida da navegação e controle da sonda. Lembremo-nos que foram construídos com a tecnologia de meados de 2003.

O plano de voo da New Horizons previu um esquema de hibernação prolongada para economia de energia. Nesse esquema de hibernação, que foi colocado em prática após a passagem por Júpiter em 2007, ela foi reativada rapidamente 2 vezes por ano para testes e correções eventuais de trajeto, voltando a dormir. Acordou de fato no dia previsto (6 de dezembro de 2014), fez as correções finas de rumo indicadas pelo centro de controle e passou a cumprir todas as fases da missão (consultar posts específicos nos links informados ao final) sem grandes problemas.

EXPECTATIVA !

Houve, de fato, dois momentos de tensão nesses 9,5 anos de voo, que fizeram a sonda entrar em "safe mode", sem contato com a Terra, aguardando se reconfigurar das falhas internas:

- Durante a passagem próxima a Júpiter, quando recebeu assistência gravitacional para acelerar, aconteceu em 29/03/2007 um erro irrecuperável de memória. Os computadores entraram no "safe mode" e só retomaram contato 2 dias depois, tendo perdido apenas dados sobre a magnetosfera de Júpiter, mas nada que colocasse em risco a missão principal.

- Em 4 de julho de 2015, a apenas 10 dias do fly-by, os controladores de voo na Terra sobrecarregaram o computador com instruções, excitados que estavam com as imagens que iam chegando. Ora, lembremos que é um hardware antigo, e o computador travou!  Foi um alerta para que deixassem o computador cumprir sua missão sozinho, sem mais nenhuma interferência terrestre. E assim foi feito: a partir de 7 de julho, nenhum comando adicional.

Plutão e Charon, melhor imagem antes do sobrevoo
Foi tirando fotos cada vez mais perto e em14 de julho, dia do fly-by, foi cortada a comunicação com a Terra, entrando no modo silêncio rádio de 22 horas de duração. A medida era necessária para que o lento computador (versão 2003) pudesse se concentrar na intrincada manobra que teria de fazer ao passar por Plutão e Charon a quase 50.000 km/h, mantendo os dois alvos alternadamente em foco.

O centro de controle cruzou os dedos e torceu para que, quando ela voltasse a entrar em contato, dissesse: tudo OK! O centro de controle explodiu em palmas e vivas e abraços quando a sonda "phoned home" na hora prevista. A New Horizons havia executado tudo conforme planejado há mais de 12 anos, quando do início de sua construção.

A massa de dados recolhida na memória está sendo lentamente (quando digo lentamente é lentamente: 1 a 2 kb/s) transmitida para a Terra e deverá permanecer por volta de 16 meses nessa tarefa.

COMO SÃO PLUTÃO E CHARON?

OK, o primeiro requisito para o estardalhaço relacionado ao sucesso de uma missão tão arriscada foi ela ter chegado no objetivo no prazo correto e cumprido tudo sem falhas. Mas o melhor estaria por vir: os resultados práticos!

Plutão em 13.07.2015
Quem estuda astronomia, mesmo leigamente como eu, está acostumado a dar de cara com pequenos astros cheios de crateras, insípidos. Uma ou outra característica pode chamar a atenção, mas se comparar fotos do planeta Mercúrio com nossa Lua, com o planeta-anão Ceres (ainda sendo orbitado pela sonda Dawn), e inúmeras outras luas e asteroides do sistema solar, é tudo parecido.

Não falo aqui dos grandes planetas, como Terra, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, cada um com seus mistérios. Contudo, a maioria das luas e planetas-anões é uma coleção de crateras sobre um terreno rochoso. Exceções? Io e Europa (luas de Júpiter), Enceladus e Titan, a única lua com atmosfera consistente (de Saturno), Tritão (de Netuno)...

Sobre Tritão cabe uma ressalva. Ela circula Netuno numa órbita retrógrada (contrária à rotação do planeta) o que indica que poderia ser um planetoide capturado. Mais que isso, uma hipótese reza que ela seria da mesma classe que Plutão, pois tem mais ou menos o mesmo tamanho (diâmetro de 2.707 km contra 2.375 km de Plutão) e os estudos sempre apontaram para origens similares.

Tritão, maior lua de Netuno
É porque o próprio Plutão tem uma órbita bastante esquisita: inclinada em 17º com relação à órbita dos demais planetas - Netuno incluído - e tão excêntrica que em determinados anos ele fica mais perto do Sol que Netuno, tornando-se por um tempo o 8º "planeta" (versão antiga). Não esbarram (Netuno e Plutão) nessa dança cósmica por conta de uma ressonância orbital - não cabe aqui explicá-la.

Essa excentricidade permite que se conclua que Plutão escapou de ser capturado por Netuno, como aconteceu com Tritão, deixando de se tornar mais uma lua do grande planeta.

Eis que, ao chegarem as fotos, Plutão se mostrou um "prato cheio"! Em vários aspectos similar a Tritão, tão ou mais rico em termos de detalhes de superfície. A variedade de terrenos é extraordinária, muitas cores beirando o marrom avermelhado (ver foto 2), e grandes áreas planas, outras regiões com montanhas e fissuras. Além, claro, de algumas crateras e uma surpreendente atmosfera azul, tênue mas com várias estratificações.

Plutão em detalhe - p&b


Plutão em detalhe com atmosfera estratificada - p&b

Atmosfera de Plutão é azul!

A figura mais característica de sua superfície foi apelidada de "O Coração" (The Heart), e é assim tratada amiúde pela mídia especializada. Contudo, alguém fez um desenho sobreposto a essa mancha que tem uma semelhança absurda com o cão Pluto das histórias de Walt Disney. Aliás, o citado cão recebeu seu nome (Plutão = Pluto em inglês) por causa da descoberta do então 9º planeta em 1930 por Claude Tombaugh. Haja coincidência...

Meme de Pluto, the Dog

Charon não fica atrás. Também recheada de características únicas, é mais uma exceção no sistema solar. Seu tamanho (diâmetro = 1.206 km) relativo ao de Plutão (diâmetro = 2.375 km) permite que chamemos o sistema de planeta-anão duplo, já que ambos orbitam um ponto virtual entre eles, como um haltere cósmico. Uma grande mancha polar em Charon intriga os astrônomos. Sua origem, bem como a de uma grande fissura que se assemelha a uma cordilheira longa, são alvo de estudos que apenas começaram.

Charon em close-up, quase "cheia" - cores realçadas

PANO RÁPIDO

Aproveitando o combustível restante na New Horizons e sua altíssima velocidade, os cientistas escolheram um alvo complementar para visita: um pequeno astro do chamado Cinturão de Kuiper (Kuiper Belt), do qual Plutão faz (ou fez) parte. Assim sendo, e o congresso americano dando o aval para o orçamento complementar ainda em 2016, haverá continuidade da extraordinária missão com o sobrevoo do objeto denominado 2014 MU69, com expectativa de chegada em 01/01/2019.

Dentro da New Horizons há uma pequena caixinha contendo 30g das cinzas de Claude Tombaugh, descobridor de Plutão em 1930.

Um dos equipamentos de ciência incluídos na New Horizons, um contador de partículas de poeira cósmica, leva o nome de Venetia Burney, a menina que, então com apenas 11 anos de idade, sugeriu o nome Pluto para o recém descoberto 9º planeta, hoje rebaixado oficialmente a planeta-anão.

CONCLUINDO

Apesar de 2015 ter sido agraciado com outras missões de grande interesse astronômico como a Dawn, que depois de fazer sobrevoo do asteroide Vesta está em órbita em torno do planeta anão Ceres, como a Rosetta que ainda estuda o cometa Churyumov-Gerasimenko com resultados ímpares, sem sombra de dúvida a missão New Horizons a Plutão, pela sua complexidade absoluta, sem que houvesse chance de erro, e os espetaculares resultados dela obtidos, a fazem símbolo de expertise científica.

O  epíteto procede: 2015 foi o ano de Plutão!



Links de posts

A seguir relacionamos posts já publicados neste blog e relacionados ao tema missões espaciais em 2015 (copiar e colar em seu navegador):

http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/03/papo-de-astronomia-novidades-em-2015-1.html
http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/03/papo-de-astronomia-novidades-em-2015-2.html
http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/03/papo-de-astronomia-novidades-em-2015-3.html
http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/03/papo-de-astronomia-novidades-em-2015-4.html

http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/04/papo-de-astronomia-status-das-missoes.html
http://www.jorgecarrano.blogspot.com.br/2015/10/papo-de-astronomia-status-das-missoes.html

Créditos de imagens

Imagens obtidas no Google, todas creditadas à NASA e respectivo centro de controle da missão New Horizons.

O meme do cão Pluto sobre a imagem de Plutão, também obtida no Google, é atribuída ao site bbc.co.uk

O meme I love Pluto, também obtida no Google, é atribuída ao site alienunion.com 

7 de janeiro de 2016

A MATEMÁTICA DOS ANOS BISSEXTOS

A origem do ano bissexto

Este ano de 2016 é bissexto. Em nosso calendário, chamado Gregoriano, os anos comuns têm 365 dias e os anos bissextos têm um dia a mais, totalizando 366 dias. Esta informação praticamente todo mundo sabe, mas o entendimento sobre o funcionamento dos anos bissextos ainda é recheado de dúvidas na cabeça de muita gente.

Muitas “regras populares” foram criadas para calcular anos bissextos, do tipo: 
“Todos os anos que sejam múltiplos de 4 mas que não sejam múltiplos de 100 (terminem em 00) são bissextos”.  

Mas será que isto está correto? E o ano 2000, que foi bissexto e contrariou a regra acima?

Bom, neste caso é necessário adicionar um “detalhe” à regra, que ficaria assim:
“Todos os anos que sejam múltiplos de 4 mas que não sejam múltiplos de 100, com exceção daqueles que são múltiplos de 400, são bissextos”. 
Ah, agora sim! Mas por quê? Quem inventou esta regra? Por qual motivo? Com base em quê foi criada?

A origem do ano bissexto

Em 238 a.C., em Alexandria no Egito, durante a monarquia helenística de Ptolomeu III (246-222 a.C.), foi decretada a adição de 1 dia a cada 4 anos para compensar a diferença que existia entre o ano do calendário, com duração de 365 dias e o ano solar (em astronomia chamado de ano astronômico sazonal) com duração aproximada de 365,25 dias, ou seja, de 365 dias + 6 horas.

Com este excesso anual de 6 horas, que após 4 anos completa 24 horas, 1 dia extra deveria ser acrescentado ao calendário oficial, a cada 4 anos, para evitar os deslocamentos das datas que marcavam o início das estações.

A programação das épocas de semeaduras e colheitas eram baseadas no calendário das estações. Qualquer discrepância neste calendário afetava a agricultura, que era base da economia dos povos antigos.

Lamentavelmente, esta tentativa de reformulação do calendário não teve a aceitação necessária e as discrepâncias permaneceram na contagem dos dias.

Quase 200 anos depois, em 46 a.C. (que naquela época era chamado ano 708 da fundação de Roma), o imperador romano Júlio César (102-44 a.C.), retomando as idéias helenísticas, resolveu intervir no sistema de contagem do calendário, para corrigir mais de 3 meses de desvios acumulados até então e criou o “Calendário Juliano” que evitaria novos erros.

Para elaborar esta tarefa, trouxe de Alexandria o astrônomo grego Sosígenes (90-?? a.C.) para auxiliá-lo e, entre outras modificações, decretou que: 
- O ano de 46 a.C teria 445 dias de duração, para corrigir os desvios acumulados até então.
- Os anos teriam 365 dias e haveria 1 ano bissexto a cada 4 anos a partir de 45 a.C (que também seria bissexto)
- Seria deslocado o início do ano romano de 1º de Março para 1º de Janeiro, a partir de 45 a.C.

Em função destas modificações, o ano de 46 a.C. ficou conhecido como o “Ano da Confusão” e apesar dos esforços, os anos bissextos que se seguiram não foram aplicados corretamente até o ano de 8 d.C, quando então finalmente passaram a ser regularmente contabilizados de 4 em 4 anos em todos os calendários. E assim permaneceu por mais de 1500 anos. Assim: 
Para o calendário Juliano, o ano possuía: 365 + 1/4 = 365,25 dias

A origem do nome bissexto

Algumas pessoas pensam que o ano é bissexto porque tem dois números 6 na quantidade de dias (366), o que está errado.

No antigo calendário romano, os dias tinham nomes com base no ciclo lunar e um mês dividia-se em três seções separadas por três dias fixos: Calendas (lua nova), Nonas (quarto-crescente) e Idus (lua cheia). Os dias eram designados por números ordinais contados em ordem retrógrada em relação ao dia fixo subseqüente, algo como o costume que temos em dizer um horário de 14:45h com sendo “15 para as 3”.  
Assim o dia 3 de fevereiro, por exemplo chamava-se “antediem III Nonas Februarii”, ou seja “três dias antes da Nona de Fevereiro”. 

O dia 24 de fevereiro chamava-se “antediem VI Calendas Martii” ou “antediem sextum Calendas Martii”, ou seja “sexto dia antes da Calendas de Março”. 

Ao fazer a introdução de mais um dia no ano, Julio César escolheu o mês de fevereiro, e dentro deste mês escolheu por “fazer um bis” ou “duplicar” o dia 24, chamando-o de “antediem bis-sextum Calendas Martii”. Daí surgiu o nome “ bissexto”, que passou a designar o ano que tivesse este dia suplementar. 

Júlio César escolheu o mês de fevereiro para adicionar um dia porque, além de ser o mês mais curto do ano, com 28 dias, era também o último mês do ano entre os romanos, que ainda por cima o consideravam como um mês nefasto. A escolha da duplicação do dia 24, ao invés de se introduzir o novo dia 29 (como fazemos hoje) se deu por motivos supersticiosos.

Por que a reforma Juliana do calendário não resolveu o problema em definitivo?

Com o avanço dos instrumentos de medição, percebeu-se que, apesar da correção quadrienal, o ano Juliano não era preciso, uma vez que criava um excesso de 11 minutos e 14 segundos (ou seja 0,0078 dia) em relação ao ano solar. Essa diferença, com o passar do tempo, foi causando implicações no calendário das estações e nas datas de alguns ritos religiosos.

Como foi resolvida então a questão?

Em 1582, o Papa Gregório XIII (1502-1585) introduziu uma reforma no calendário Juliano e criou o “Calendário Gregoriano”. Este calendário havia sido elaborado, durante vários anos, por uma comissão composta pelo próprio Papa e vários sábios, entre eles o astrônomo e médico italiano Aloisius Lilius (1510-1576) e o jesuíta e matemático alemão Cristophorus Clavius (1537-1612).

Essa comissão decidiu o seguinte: 
Inicialmente descontaram 10 dias do mês de outubro de 1582 para corrigir o erro que vinha sendo acumulado até então (neste mês o calendário saltou do dia 4 para o dia 15) e para acertar o calendário e evitar os futuros erros, fizeram o seguinte:
Levando-se em conta que a discrepância de um 1 ano Juliano era de 0,0078 dia a mais que o ano solar, ao final de 1 século o excesso atingia 0,78 dia, ou seja, aproximadamente 3/4 de dia. Ao final de cada 400 anos haveria, então, uma diferença de aproximadamente 3 dias.

Considerando-se que estes dias excedentes seriam introduzidos pelos futuros anos bissextos, a solução do problema seria então eliminar 3 anos bissextos em cada 400, ou seja, a partir de 1582 somente poderiam existir 97 anos bissextos em cada 400 anos.

A engenhosidade para resolver este problema ficou resolvida assim:
Como os anos bissextos acontecem a cada 4 anos, temos 100 bissextos em cada 400 anos. Para termos 97, bastaria "eliminarmos" 3 anos bissextos. Escolheu-se então retirar, a cada 400 anos, aqueles que são divisíveis por 100 e manter o único ano que é divisível por 400, ou seja, em um período de 400 anos temos 4 anos divisíveis por 100 a serem retirados (os anos 100, 200, 300 e 400 deixariam de ser bissextos) e 1 ano divisível por 400 a ser re-incluído na lista (no caso, o próprio ano 400 voltaria a ser bissexto). A “fórmula” do ano ficaria assim: 
365 + 1/4 - 1/100 + 1/400 = 365 + 97/400 dias

E esta regra do ano bissexto permanece até os dias de hoje assim intitulada:
 “Será bissexto todo ano cujo número seja divisível por 4 e não divisível por 100, sendo também bissexto os anos divisíveis por 400”.
Assim: 
Para o Calendário Gregoriano o ano tem 365 + 97/400 = 365,2425 dias

E será que o problema da contagem do ano bissexto foi definitivamente resolvido?

Infelizmente não, pois como citei anteriormente, apesar do calendário Gregoriano ter sido criado para resolver o problema dos acréscimos causados pelo calendário Juliano, o valor aproximado usado nos cálculos para este acréscimo (3/4 dia a cada 100 anos ou 0,0075 dia por ano) é diferente do valor real do acréscimo (0,78 dia a cada 100 anos ou 0,0078 dia por ano). Isso dá uma diferença de 0,0003 dia por ano, ou seja, a cada 3300 anos teremos, aproximadamente, 1 dia extra que deveria ser retirado.

Assim um ano “moderno” passaria a ter 
365 + 1/4 - 1/100 + 1/400 - 1/3300 = 365,2421969697 dias

Mas não podemos esquecer que, para retirar este dia após 3300 anos, deveríamos fazê-lo a partir do ano de 1582, o que provocaria uma tremenda novidade para o ano de 4882, pois este não será um ano bissexto (não é divisível por 4) e ainda deveria “perder” um dia, ficando com 364 dias! Será? Creio que não...

Na verdade diversas pessoas já propuseram, entre elas o astrônomo britânico John F. W. Herschel (1792-1871), uma regra diferente para anos bissextos, ao invés do termo 1/3300 proposto acima, dever-se-ia calcular a fórmula do ano com o termo 1/4000 (por ser múltiplo de 4), assim o ano ficaria:
365 + 1/4 - 1/100 + 1/400 - 1/4000 = 365 + 969/4000 = 365,24225 dias

Isso jogaria o famoso “erro” de 1 dia extra para daqui a mais de 20 mil anos! Mas na verdade esta regra nunca foi aceita e hoje não existe oficialmente nenhuma regra para ano bissextos além daquela que conhecemos e que foi instituída pelo calendário Gregoriano em 1582.

Por que não é possível termos um calendário perfeito?

A busca por um calendário perfeito não terminará nunca, apesar da precisão dos instrumentos de medida aumentarem constantemente, pois o máximo que poderemos calcular será sempre um valor médio, já que o período em que a Terra dá uma volta em torno do Sol não é constante. Em sua longa viagem pelo espaço em volta do Sol, o nosso planeta sofre pequenas alterações de velocidade, causadas pela influência das forças gravitacionais de outros corpos celestes. Essas pequenas variações, ao longo de muitos anos, sempre causarão erros em relação aos nossos calendários “fixos”.

Marcelo Sávio


Bibliografia
[1] Artigo “Ano Bissexto”, de Vincenzo Bongiovanni, publicado na Revista do Professor de Matemática (RPM) nº 20, 1992 – Editada pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM).  
[2] Nota científica sobre “Anos Bissextos”, publicada no livro “Anuário de Astronomia” de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, 1996 - Editora Bertrand Brasil. 
[3] Documento “Frequently Asked Questions about Calendars”, mantido por Claus Tøndering - Disponível na Internet em [http://www.tondering.dk/claus/calendar.html]. 
[4] Livro: “Fim de Milênio–Uma história dos calendários, profecias e catástrofes cósmicas”, por Betília Leite e Othon Winter – Ed. Jorge Zahar Editor, 1999. 
[5] Livro: “Calendário–A epopéia da humanidade para determinar um ano verdadeiro e exato”, por David Ewong Duncas – Ed. Ediouro, 1999. 
Por: Matemática Divertida - Malba Tahan

Notas do editor: 
1) Este estudo é de autoria de Marcelo Sávio, que foi, durante algum tempo, amigo virtual do Paulo Bouhid, confrade nosso, também virtual (viva a internet), que me enviou por e-mail. Achou oportuno por estarmos num ano bissexto. Como o texto é bastante didático, não obstante a complexidade do tema, e bem documentado, fruto de profícuo trabalho de pesquisa (vide a bibliografia), acho que seria útil ajudar em sua divulgação, embora sem a autorização do autor. Se e quando houver objeção do Marcelo Sávio, retirarei do ar deletando a publicação.
2) O trabalho é antigo, por isso, no original, inicia com : "O próximo ano de 2008 será bissexto". Tomei a liberdade de modificar para aludir a este ano corrente.