6 de novembro de 2016

Ética, responsabilidade e respeito ao consumidor

Trabalhei em multinacionais e empresas nacionais. A diferença de cultura, postura e objetivos era abissal.

Nas empresas de capital nacional, sobretudo de controle familiar, o objetivo era o enriquecimento da família. Com o tempo a empresa era sucateada. Sugavam o que podiam, maximizando lucros e reduzindo despesas, mesmo que algumas das despesas devessem ser contabilizadas como investimentos.

Não irei dar nomes aos burros, mas vi e ouvi coisas de corar monge de pedra.

Já as multinacionais, pelo menos aquelas onde trabalhei ou que conheci por força das relações comerciais, predominavam a preocupação com a qualidade, com a segurança do produto, com satisfação da necessidade do cliente. Respeito, em suma, com o consumidor de seus produtos.

Se não vou nomear os que neglicenciavam com o controle de qualidade e com a apresentação do produto (embalagem, por exemplo), vou dar um exemplo positivo, de empresa de capital estrangeiro que tinha princípios éticos rígidos.

Trabalhei na Fiat Lux, de fósforos de segurança durante 10 anos. Desde uma das fábricas, no Barreto, em Niterói, até a administração central, onde fui gerente de departamento, reportando diretamente à diretoria.

Foto muito antiga, da fábrica de fósforos da Fiat Lux, no Barreto, NIterói

A qualidade do produto era uma fixação. Antes de comprovar o que digo, com fatos concretos, abro um parêntesis importante para maior valorização desta política da citada empresa.

A Fiat detinha, por opção, 80% do mercado de fósforos no país. Sim, era opção não expandir a produção e vendas, por receio da lei antitruste (criação de Getúlio Vargas, no Estado Novo), que funcionava como uma lâmina pendendo sobre o pescoço das multinacionais. Quem é jovem deve fazer busca via Google para entender a norma legal e seus objetivos.

As vendas eram feitas com pagamento antecipado. Isso mesmo que escrevi, os pedidos eram acompanhados dos cheques e só então a empresa fazia a entrega do produto.

E num Brasil sem eletrificação rural, sem acendedor de gás (e depois acendedores automáticos nos fogões), muitos fumantes, antes do surgimento dos isqueiros descartáveis, o fósforo era produto essencial.

O Diretor Financeiro – Mauricio André de Albuquerque Costa – tinha fila de gerentes de bancos em sua porta, não para cobrar, mas para pleitear abertura de conta e aplicação financeira. A Fiat era mais do que capitalizada.

Bem, neste cenário de participação no mercado e plena capacidade financeira, a empresa poderia surfar sobre as ondas e não investir tempo e pesquisa no aprimoramento do produto. Mas não era o que acontecia. Havia, na fábrica aqui no Barreto, em Niterói, num prédio anexo, um Laboratório Químico Central. Sobretudo para controle de qualidade. E duas coisas eram fundamentais: os fósforos não poderiam oferecer risco ao consumidor (afinal eram fósforos de segurança) e deviam atender a expectativa do consumidor.

Os palitos não poderiam quebrar facilmente, a chama deveria ser obtida sem esforço e mantida acesa por tempo razoável a fim de atender o objetivo.

Fósforos que tinham efeito maçaricante ou espirrante, eram condenados  e medidas eram adotadas nas fábricas responsáveis, para que este item de segurança fosse sempre atendido.

Difícil explicar com palavras o que era uma chama maçaricante. Mas era aquela que ocorria, quando riscado o fósforo, como se num determinado ponto da cabeça do palito a chama fosse retardada e produzia o efeito de um maçarico, claro que em escala reduzidíssima. O espirrante é mais fácil de explicar. Seria o efeito de soltarem-se pequenas fagulhas, minúsculas, mas que queimavam em contato com a pele. E nos olhos seria um perigo.

A lixa na caixinha tinha importância primordial. Precisava ter espessura e consistência que propiciassem maciez no riscar o palito e - detalhe não observado pelo usuário - a lixa da caixinha tinha que permitir riscar e acender o dobro da média de palitos (45 palitos).

Essa preocupação  impediu que fosse lançado no mercado um tipo de fósforo refratário a água, que teria a marca comercial de “Jangada” (o rótulo da caixinha reproduzia uma jangada de pesca). 

Ele funcionava, mas tinha chama retardada e poderia oferecer risco de queimadura em pessoas menos avisadas. Foi um químico tcheco, Chefe do Laboratório Central  que desenvolveu.

Agora o detalhe que deixa clara a preocupação com qualidade e apresentação do produto. Havia concurso interno entre as fábricas. Eram colhidos aleatoriamente na linha de produção, na esteira final, amostras do produto. Aquele pacotinho com 10 caixinhas, porque também o pacotinho tinha que atender especificações rígidas.

A dobradura precisava estar perfeita e o rótulo (Olho, Pinheiro ou Beija-Flor) colado certinho no espaço a ele destinado (não poderia jamais estar torto, ou ainda com falta ou excesso de cola). O mesmo para o rótulo das caixinhas, que também precisavam estar em esquadro.

O excesso de exposição ao calor, para secagem da goma, poderia provocar uma pequena torção – por encolhimento do papel – na gavetinha. E com isso ele não entraria e sairia com facilidade da caixinha.

Na foto abaixo aparecem máquinas de fabrico das gavetinhas. Nesta época tudo era feito em madeira (pinus), a gaveta, a caixa (que fecha a gaveta) e os palitos. Uma fita em rolo de papel azul, com goma de polvilho, e as lâminas de madeira eram colocadas nas máquinas, que faziam o fechamento. O processo era mecânico, a única parte elétrica era a do motor que fazia girar um eixo com roldanas,  que por sua vez faziam rodar as máquinas com o auxílio de correia de couro.

O blogueiro está à direita, com o pé apoiado sobre a guia da lona transportadora
Tecnicamente gavetinha era a parte que continha os palitos, e caixinha a parte que fecha e envolve a gavetinha,  e tem a lixa.

As amostras colhidas, ao caso e em dia não programado em todas as unidades, eram enviadas para o LQC (Laboratório Químico Central), onde eram submetidas aos testes e provas de eficiência, apresentação e segurança. E a unidade vencedora tinha como prêmio um dia de salário para os empregados nela lotados.

Alguém iria recusar a caixinha de fósforos se o rótulo estivesse um pouquinho torto, ou com uma pontinha descolando por falta de goma?

Pois é! Essa preocupação, a meu juízo, evidenciava respeito ao consumidor. E para quem não conheceu o processo e pudesse um dia ter pensado em fraude (golpe), na quantidade de palitos (média de 45) na caixinha, afirmo que seria mais econômico não haver divergência na quantidade de palitos em cada caixa. Mas o processo automático de enchimento por vezes apresentava algum defeito e havia perdas. Era tudo descartado o que não ia nas caixinhas.



Notas do autor/editor:
1) a foto da planta fabril foi obtida na internet, sem indicação de autoria. Se alguém souber quem é o detentor dos direitos, por favor avise. Se o próprio, poderá pedir que seja excluída da publicação. Será atendido.

2) Na outra foto, aparece um grupo que fazia o curso de administração de cargos e salários e estava em visita à fábrica. Além do blogueiro (identificado na legenda da foto), aparece o Eng. Zacarias Roberto Costa de Mendonça, da administração. 

3) Produtos da Nestlé e Johnson&Johnson, por exemplo, compro sem qualquer receio de contaminação ou risco de qualquer natureza a minha saúde.

5 de novembro de 2016

Rua do Acre, vinho e poetas populares

Normalmente eu almoçava no restaurante da empresa, que ficava do 9º andar. Vez ou outra, quando a grana dava, ia a um bom restaurante que havia na Rua do Acre, nas imediações de meu local de trabalho, que ficava na Rua Visconde de Inhaúma. E, algumas vezes, ia ao Bob’s e comia presunto com ovos ou sanduíche de atum.


Almoço na Fiat Lux, Com Mauricio Millar, da área de marketing (1971)

Neste restaurante da Rua do Acre, foi que assisti, pela vez primeira,  alguém questionar um vinho e devolver. E ainda recebeu pedidos de desculpas. O autor da façanha, com toda a segurança de quem sabia o que estava fazendo, era um estagiário da Fiat Lux, engenheiro, chamado Otávio Augusto de Paiva, que era filho de um renomado engenheiro na época, ex-diretor do BNDES, de nome Glycon de Paiva.

Ele disse para o garçom que o vinho estava oxidado. O maitre veio e confirmou pedindo desculpas. Perguntou se ele queria outro da mesma vinícola e casta.

Não lembro qual era o vinho, mas com certeza não era um Gran Cru porque nem eu e nem o outro comensal, Marcos de Castro, que acompanhávamos o Otávio poderíamos entrar no rateio da despesa.

A Rua do Acre era a rua dos grandes atacadistas, que os executivos de bancos e de empresas industriais chamavam de ceboleiros para desprestigiá-los. Mas eles tinham dinheiro e eram, por isso, muito bem recebidos pelos gerentes dos bancos próximos.

O prédio 134, da Visconde de Inhaúma, próximo ao Largo de Santa Rita, ficava defronte a um bar tradicional, que vendia cafezinho e cachaça. Foi neste bar que paguei um enorme mico do qual me envergonho até hoje.


Igreja de Santa Rita e a Rua Visc. de Inhaúma
Já contei no blog, mas vou recontar para quem está chegando aqui agora. Não eram 8 horas e fui tomar um cafezinho. Mal encosto no balcão, um mulatinho, de pouca estatura, com voz rouca e pastosa indaga: “vai pagar uma cachaça pro poeta?” A voz era naturalmente meio rouca, e com o álcool agravou.

Neguei com meneio de cabeça e comentei com o atendente que achava um absurdo alguém tão cedo já tomando cachaça. O atendente então me disse que para nós o dia estava começando, mas para ele (o que pediu a cachaça) estava terminando. E acrescentou, “era o Nelson Cavaquinho”.

E o tempo do verbo estava correto, porque a esta altura ele já havia deixado o bar, vazio naquele horário.

Metido a besta, naquela época (anos 1960) fã da música popular americana, em especial o jazz, não conhecia e nem valorizava os grandes nomes da música popular brasileira e nem suas composições.

Hoje, quando ouço “A flor e o espinho”, do Nelson Cavaquinho, ou “As rosas não falam”, do Cartola, fico espantado com tanta poesia, tanta inspiração, de homens de pouca cultura formal, mas com enorme sabedoria de vida.

Versos magníficos, que formam letras de canções que em muito superam em beleza e poesia, várias das músicas americanas que aprecio, mas cujas letras são pouco inspiradas. Valem mais pela melodia.

"O sol não pode viver perto da lua" é de uma sabedoria, no contexto da história, de arrepiar. No link a seguir ele canta com seu parceiro Guilherme Brito.

E também Cartola, ao dizer que as rosas "simplesmente exalam o perfume que roubam" da mulher exaltada na canção.
https://www.youtube.com/watch?v=VofYXCJyeTY 

Quem sabe poderiam ganhar o Nobel de Literatura? A julgar pela obra de alguns dos imortais de nossa ABL, não seria nenhum absurdo.

4 de novembro de 2016

Rio, Niterói, São Paulo, Ribeirão Preto, São José dos Campos e volta a Niterói

São estas as cidades onde trabalhei e mantive residência fixa. Prestei serviços em muitas outras (dezenas), inclusive Brasília, mas em missões especiais.

Essas várias mudanças de local de trabalho algumas vezes implicaram em mudança de residência e, em consequência, mudanças de escolas dos filhos, de médicos, de estilo de vida.

Claro que o estilo de vida variou também em função da idade dos filhos, de minha remuneração e até do clima da região.

Na Mogiana, região paulista onde se localiza Ribeirão Preto, por exemplo, o clima é mais para quente, se aproximando muito com o de Niterói, por exemplo.

Assim, indispensável o chopinho do “Pinguim”, ainda ao tempo do endereço original, que era famoso em toda a região. E com justa razão.



Os filhos, de pés descalços, andando de bicicleta ou jogando bola na calçada defronte de nossa casa, como foi mais ou menos e minha infância. Numa delas até tínhamos uma pequena piscina. E tinha a sede de campo da Sociedade Recreativa, da qual não cheguei a ser sócio, mas frequentei um pouco como convidado.

Oferecia muitos atrativos, além das quadras de esporte e campo de futebol.

Já em São Paulo que coisa horrível, clima frio e poluição me obrigavam a programas diferentes. Ir para Jundiaí, comer carpa, ou para Piracicaba, comer pintado no espeto, no restaurante do mirante. Claro que a cidade tinha e tem bons restaurantes, com culinária do mundo todo. Mas eu preferia viajar para uma cidade próxima porque o programa ficava mais completo.

O nosso é mais largo, são 4 portas,
mas é bem parecido.
Em Embu das Artes, por exemplo, tinha artesanato. Lá comprei, e tenho até hoje, um móvel parecido com um antigo tajer, de madeira cortada de forma rústica.

Também cordões de prata para mim e para Wanda.




Eu e meu filho mais velho, na feira de artesanato de Embu das Artes

Vista parcial da feira em Embu

Na Estrada do M’Boi Mirim, estrada com cara de avenida, tinha lá na altura do Km. 13, uma casa de massas que era espacialíssima. Fazia uma lasanha verde que era considerada dos deuses. Para mim era suficientemente boa.
Leiam sobre esta via de 16 Km., na zona sul de São Paulo.

Mas o que a gente mais gostava, inclusive meus filhos ainda pequenos, era ver a carpa sendo apanhada com um puçá, no lago diante do restaurante, em Jundiaí, e ir direto para a cozinha. Sim, o que os meninos gostavam era da parte de alimentação dos peixes, jogando pedaços de pão dormido, que o próprio restaurante fornecia.

O sincero garçom do restaurante em Piracicaba, onde saboreávamos um gostoso peixe no espeto, comentou que “o rio está ali embaixo, a vista é bonita, mas o peixe vem mesmo é do Pantanal”.

Como diria o Riva, pano rápido!

3 de novembro de 2016

Do jantar no La Casserole para Ribeirão Preto

Falei de ter jantado com Ermelino Matarazzo, no La Casserole,  mas não disse  o porquê.

O Grupo Matarazzo era poderoso, presente em vários setores da economia, era, talvez, mais fácil listar o que eles não faziam ou não tinham, do que relacionar o que  produziam, vendiam  ou prestavam de serviços.

Além de tudo que fabricavam, geravam energia em algumas cidades, tinham um banco e um bem equipado hospital, na capital paulista. E uma enorme fazenda em Santa Rosa do Viterbo onde exerciam atividade agropecuária.

Quando ingressei no Grupo, contratado para  área de Recursos Humanos, na administração central, não tinha ideia do poderio dos Matarazzo.

Afinal, carioca e criado em Niterói, conhecia a família, de nome, por causa das colunas sociais e das feiras de moda (FENIT) nas quais pontuavam os tecidos fabricados pela empresa têxtil do Grupo.

Mas me surpreendi com o tamanho dos negócios, os mais diversificados, e verticalizados. Nunca saberei, mas talvez apenas o Votorantim se aproximasse em faturamento.

Falo de verticalização e explico. Se você planta e colhe algodão, quando o beneficia obtém muitos resultados, muitos produtos, sem prejuízo de um em favor de outro. Vejam que além de aproveitar o algodão para fiar e com os fios fabricar tecidos, você pode trabalhar os caroços, dos quais obtém óleo comestível e até a pasta resultante do esmagamento dos caroços, vira tortas que servem de alimentação para gado e suínos.

Dizem que do boi só se perde o berro, porque tudo o mais tem valor de mercado. Até mesmo seu excremento é um bom adubo. Assim, couro tem várias aplicações; os ossos e chifres têm valor como matéria prima para botões; até a gordura (sebo) é útil, eis que utilizada para fabricação de glicerina, que por sua vez é empregada na fabricação de sabonetes e alguns cosméticos.

Visto isso, nada de anormal, vou contar, como me contaram, duas bizarrices para uma família com título de nobreza. O título, por sinal, conferido pelo rei Vitor Emanuel III, e depois confirmado por Benito Mussolini.

Não conheci este conde, conheci o filho dele, Francisco Matarazzo Junior, que deu continuidade ao trabalho de expansão do pai, nos negócios da família.

Estive em seu sepultamento, tendo ido ao velório que aconteceu na mansão da Avenida Paulista. Nesta época trabalhava em Ribeirão Preto, na empresa têxtil do grupo.

Mas quando contratado, como já mencionei, fui lotado no escritório central, no bairro do Belenzinho. Pouco tempo depois, por causa da minha qualificação, fui remanejado para responder pela área administrativa, como gerente, na empresa mais nova do grupo, que atuava no ramo de supermercados, sob a denominação de Superbom.

E foi por causa desta empresa de supermercados, que rapidamente cresceu e se espalhou em São Paulo, Minas e Paraná, que fui jantar no La Casserole, porque o Dr.  Ermelino resolveu homenagear a direção da empresa pelo bom desempenho. Assim, foram convidados o diretor e os gerentes: administrativo, financeiro e comercial.

Tenho em meu currículo a inauguração de várias lojas de supermercados e hipermercados. Gente! É uma loucura.

Foram lojas em Maringá e Londrina, no Paraná; Uberaba e Uberlândia, em Minas;  e na capital paulista dois hipermercados grandes, nos bairros de Tuiuti e Água Branca  (Lapa), uma próxima do Corinthians, na zona leste,  e outra ao lado do Palmeiras, na zona oeste.

Para selecionar e, sendo necessário, treinar mão-de-obra para as inaugurações, muita criatividade, improvisação e um pouco de falta de ética.

Em São José dos Campos, por exemplo, como o prédio estava em construção e não havia como receber os candidatos a emprego, alugamos a garagem de uma casa bem próxima e além de um pequeno aluguel ao proprietário, pagamos o estacionamento para ele, em outro local.

As duas selecionadoras ainda ganharam, como cortesia e gentileza da dona da casa, o café da tarde (pão com manteiga e por vezes bolo). Gente muito educada e gentil ao extremo, de certo modo contentes porque seriam vizinhos de um moderno supermercado na cidade.

Tinha outra rede já instalada na cidade. E foi de lá que através de sedução e oferecimento de melhores salários, tiramos o pessoal com certa especialização, cujo treinamento demandaria tempo que não teríamos.

Falo de padeiros e açougueiros, principalmente.

Por isso um dia o Gelsomino, que era o diretor, convocou-me para ir até a sala dele porque teríamos uma reunião com a direção da rede concorrente chamada Peg-Pag (tinha loja no Rio). Eles telefonaram propondo uma reunião, porque estávamos tirando o pessoal da loja deles e queriam estabelecer um protocolo para evitar a continuidade da prática.

Foi uma reunião delicada, inicialmente tensa, porque de um lado o Gelsomino teria que admitir que a prática resvalava na falta de ética, mas por outro lado (internamente) estava feliz com o desempenho da nossa área de recursos humanos. Claro, estávamos resolvendo um problema que poderia complicar a inauguração.

Como o intuito aqui não é tratar de aspectos de ética e moral, e sim dar uma dimensão das dificuldades enfrentadas quando há necessidade de contratar mão-de-obra com alguma especialização, vou relatar um último caso que envolveu muita ação e tarimba.

A loja da Água Branca, ao lado do Parque Antártica, antigo estádio do Palmeiras, foi toda remodelada. Melhor, reconstruída, porque virou um imenso hipermercado, com dois andares (mezanino), vendendo praticamente tudo, desde gêneros alimentícios, passando por bazar, confecções masculina e feminina, eletrodomésticos, enfim seria quase um shopping ou loja de departamentos.

Aí surgiu um problema. Em algumas lojas já tínhamos padarias e lanchonetes, mas em nenhuma tínhamos sorveteria. E ninguém da área comercial entendia de sorvetes. Solução? Importar um sorveteiro do Rio de Janeiro. Na época os sorvetes tipo italiano faziam o maior sucesso, e foi em Copacabana que conseguimos encontrar um disposto a ir para São Paulo, com casa, comida e roupa lavada, além de um razoável salário, para treinar pessoal e gerenciar a sorveteria.

Falei de duas bizarrices, mas não contei quais eram. Como está ficando muito grande esta postagem e como certamente voltarei à minhas aventuras na área administrativa, vou direto às duas coisas estranhíssimas, pouco verossímeis.

Ambas envolvendo a condessa Mariangela, esposa do conde Matarazzo ( o segundo). Uma é que ela mantinha uma loja de tecidos (de boa qualidade), chamada "Étoile", na Rua Augusta, tradicional da cidade, com comércio elegante na época, onde havia um jardim de inverno, decorado com bela mesa de armação metálica e tampo de vidro, com cadeiras estofadas, para ela poder, vez ou outra, tomar chá com amigas.

A outra é que a empresa do grupo que fabricava sabonetes, passou a fabricar, também, velas coloridas e de diferentes tamanhos, porque a condessa gostava de decorar a mesa de refeição com convidados, na mansão da família, com vários castiçais e velas especiais. Vender mesmo, como produto do grupo, não vendia nada. Não havia mercado para aquele produto.

Outro dia escreverei sobre a mansão, o que Luiza Erundina pretendia fazer com ela, quando foi eleita prefeita de São Paulo, e a solução encontrada pelo meu amigo, engenheiro, espanhol de Valencia, cujo nome preservarei, da diretoria do grupo, para abortar o plano da prefeita então petista. 

Nota do editor: sobre São José dos campos clicar em
http://cclbdobrasil.blogspot.com.br/2011/10/como-nasceu-sao-jose-dos-campos.html

2 de novembro de 2016

Colhidos na rede, bem pertinentes






Nota do editor: agradeço a Ana Maria e ao Paulo Bouhid pelo envio.

RIO GASTRONOMIA

A sexta edição do Rio Gastronomia terá lugar nos armazéns  3 e 4 , no Pier Mauá, entre os dias 4 e 13 de novembro  próximo.

Além de comida e bebida, em food trucks, quiosques de restaurantes e bares, serão realizados shows, com artistas como Diogo Nogueira e Moraes Moreira.

Às quintas e sextas-feiras abertura às 16 horas. Sábados e domingos a partir da 12 horas.

Informações em riogastronomia.com.br

1 de novembro de 2016

De paletó e gravata


No meu primeiro emprego, em banco, o uso da gravata era obrigatório, nos anos 1960.

Quando deixei o banco para trabalhar em fábrica, na empresa fabricante de fósforos, a gravata foi abolida, e o traje passou a blusão e calça jeans.

Transferido para o Escritório Central voltou a gravata e, com ela, o terno completo. Nunca mais abandonei este traje: camisa social, com gravata, e um terno completo, ou, excepcionalmente, um blazer.

Trabalhei na Fiat Lux durante dez anos, mas poderia ter ficado lá indefinidamente, até minha aposentadoria.

Mas estava inquieto por várias razões. Uma delas é que eu achava que sabia mais do que o diretor ao qual reportava no organograma da companhia. A gente sempre acha, assim que aprende um pouquinho. Mas passei a ter certeza e isso me desmotivava.

Outro motivo de desmotivação foi a rotina. Todo dia sempre igual ao outro, sem desafios ou crescimento. Atravessar a baia de lancha, caminhar pela 1º de março até a Visc. de Inhaúma, com rápida parada na “Laranjada Americana”, logo no início da Rua Buenos Aires.

Nos horários de rush, sem contar as inúmeras greves no transporte marítimo. 

Meu melhor amigo/irmão foi trabalhar em São Paulo, “meca” dos executivos. Foi a gota d’água. Queria porque queria ir para São Paulo. E fui. E para trabalhar em banco, de novo. Banco Português do Brasil. Quem se lembra dele? Teve filial em Niterói, na Rua Visconde de Uruguai.

Minha função era de Coordenador de Recursos Humanos e minha permanência naquela instituição financeira foi muito curta. A família Silva Gordo, que controlava o banco, andou prevaricando e houve intervenção do Banco Central. E em seguida a transferência do controle passou para o banco Itaú que o absorveu.

O banco Itaú tinha estrutura profissional sedimentada na área de recursos humanos e fui demitido. Não fazia sentido me manter na função e com o salário que eu recebia.

Redução de função e de salário era impensável.

Esta minha fase em São Paulo foi um desastre. Pela insegurança gerada tão logo fui admitido, eis que logo  começaram os rumores da crise no banco, não quis arriscar levar a família para São Paulo. E tinha a questão da escola dos filhos.

Assim, fiquei hospedado em hotel. Morei em hotel 13 meses. No centro da cidade, na Av. São João, perto do Largo do Arouche.

Morando sozinho e sem amigos, senão o Castelar, foi duro me adaptar à cidade. Especialmente seu clima. Peguei ainda um restinho da época da garoa.

Durante estes 13 meses geralmente viajava para Niterói nos finais de semana. Mas durante a semana era de lascar. Vez ou outra ficava em São Paulo um final de semana. Era cansativo viajar pela Dutra, no meu fusquinha.

O banco ficava na Paulista esquina de Bela Cintra. E minha sala ficava no terceiro andar bem na curvatura do prédio com vista para a Avenida Paulista e para a Bela Cintra.


Para quem não conhece, a Bela Cintra é uma perpendicular (transversal) da Paulista e consequentemente paralela da Consolação, da Augusta e da Frei Caneca, por exemplo.

Sim, a Augusta era um point noturno da cidade. Mas não frequentava. Vez ou outra fazia um programa com o Castelar e a Francisca, sua mulher na época.

Fizemos bons passeios e conheci bons restaurantes. A Chica, como a tratava, era prima da mulher do Antonio Fagundes, ator então iniciante, e andei assistindo apresentações dele. Lembro muito bem da peça “Jesus Christ Superstar”, montada no Teatro Aquarius, no bairro do Bixiga, em 1972, na qual atuou por curto espaço de tempo.

A mulher do Fagundes era a atriz de nome Clarisse Abujamra, cujo pai havia sido eleito o industrial têxtil do ano. Conheci o ator, na casa do empresário no Guarujá,  levado pela Chica e pelo Castelar, já que o dono da casa era  tio dela. Fagundes era (ainda é?) bem articulado, boa cultura geral, foi um bom papo na roda de jovens na festa, eis que a maioria dos convidados era de empresários veteranos.

A famosa “boca do lixo” era ali ao lado do meu hotel. Mais não digo e nem me foi perguntado.

Até hoje quando lembro que jantei muitas vezes no “Gato que Ri”, no Arouche, comendo massas, fico arrepiado.


Em contrapartida, não muito tempo depois, jantei com Ermelino Matarazzo, no La Casserole, do outro lado do Largo.

O tempora, o mores! (Cicero)