terça-feira, abril 12, 2011

Acreditem, sou testemunha ocular e auditiva

As vezes parece ficção, mas asseguro que não é. Eu não teria tanta inspiração.

A Fiat Lux, fabricante de fósforos, tinha uma fábrica no bairro de Neves, em São Gonçalo. A população conhecia a fábrica como “marca olho”, eis que era uma das marcas registradas da empresa. Provavelmente a marca de fósforos mais popular do país.

Vai daí que pequenos incêndios ocorriam vez ou outra. Num destes, o fogo ameaçava alcançar os relógios de ponto que estavam fixados numa divisória entre duas seções da fábrica. A brigada interna de incêndio, e operários da seção, combatia o fogo, quando alguém gritou: tirem os relógios!

Ariel, um dos operários, mais que depressa pegou seu Mondaine* retirou do pulso e o arremessou longe.

Na mesma empresa, num torneio interno de futebol de salão, Jair era técnico de uma das equipes. Se esguelava na margem da quadra e ficava rouco; e ninguém o atendia.

Ao final da partida comentou: no próximo jogo “vou trazer um porta voz”. Ele queria dizer um megafone.

Hermes Santos, advogado, professor e poeta, não necessariamente nesta ordem, trabalhava num banco cujo nome não declinarei pois o caso que vou narrar envolve traição de confiança e infidelidade. E pode causar constrangimentos.

Posso dizer que era (foi vendido depois) um banco pequeno. O banqueiro, mulherengo, tinha uma amante que trabalhava no banco.

Certa feita procurou o Hermes -  que, naquela época, antes de formado, também trabalhava lá - e perguntou se ele toparia alugar um apartamento, que seria uma garçoniere para seus encontros amorosos. Evidentemente que ele – o banqueiro – pagaria todas as despesas; o que ele queria era não se expor, preservar seu nome.

O Hermes topou, até porque já estava de olho na Anita, a tal amante, funcionária do banco. E era correspondido na paquera.

Para abreviar a história, Hermes inventou um nome para a Anita, que, utilizando-se do recurso do anagrama**, chamava de Tânia, e a quem se referia como se fosse sua namorada, inclusive com o banqueiro.

Bem, o Hermes começou a transar com a Anita, a quem se referia, como dito, como sendo Tânia. Chegou a ponto de pedir licença ao banqueiro para levar sua namorada Tânia ao apartamento para um encontro mais íntimo. E traçou a Anita, com todas as despesas pagas. Ficou com a mulher do cara, na garçoniere paga por ele e ainda bebeu um champagne que estava na geladeira.

Este mesmo personagem – Hermes – era professor no Colégio Nilo Peçanha, em Niterói.

Numa partida de futebol de salão entre alunos e professores criou-se uma celeuma sobre a marcação de uma penalidade a favor dos professores. O juiz era um professor. O jogo estava empatado e o penalty poderia decidir.

Muita discussão, cobra, não cobra. Até que o Hermes falou para o capitão da equipe dos alunos: - vamos acabar com a discussão. Aceita a marcação porque eu vou chutar para fora. O aluno, seja por respeito, seja por ingenuidade, topou.

O Hermes pegou a bola, colocou na marca do penalty, tomou distância, correu em direção a bola e... encheu o pé, fazendo o goal. Protestos dos alunos foram em vão.

Falta de caráter? Ele, professor de psicologia, tinha outra explicação.

A Rádio Mapinguarí funcionava em São Gonçalo. Numa partida entre o Mauá e o Tamoio, que disputavam o campeonato municipal, transmitida por narrador que torcia pelo Mauá, ouvimos a seguinte pérola: - Fulano avança com a bola pela direita, cortou seu marcador, entrou livre na área, vai chutar... PQP (pronunciou por extenso) bateu na trave. Segue-se um silêncio sepulcral e depois entram os comerciais.

Volto ao Hermes, para encerrar com o seguinte episódio, na já fase em que ele passou a advogar.

Ele havia sido procurado por um casal (conhecidos seus) que pretendia se separar judicialmente. Feitas aquelas considerações habituais,”vocês têm certeza que é isso mesmo que querem?”, e coisas que tais, acertaram os honorários, recebeu uma parte dos ditos honorários e pediu os documentos necessários que deveriam ser lavados ao escritório no dia seguinte. No dia seguinte, toca o telefone e o cliente conta para ele que depois de saírem do escritório, ele e a mulher foram para casa e refletiram muito sobre a situação, puseram tudo em pratos limpos e resolveram se dar uma nova oportunidade.

A reação do Hermes foi muito espontânea e explosiva: “vocês vão fazer besteira, não vai dar certo”. Esta reação tinha explicação lógica: ele ainda não depositara o cheque da primeira parcela de honorários e já tinha planos para aquele dinheiro.

Devolver? Nem pensar, já basta perder o saldo que não receberei.

Como diria aquele filósofo de frases vazias: “assim como são as pessoas, são as criaturas”.

* Poderia ser Tissot, Mido ou Technos.


** Um anagrama (do grego ana = "voltar" ou "repetir" + graphein = "escrever") é uma espécie de jogo de palavras, resultando do rearranjo das letras de uma palavra ou frase para produzir outras palavras, utilizando todas as letras originais exatamente uma vez. Um exemplo conhecido é o nome da personagem Iracema, claro anagrama de América, no romance de José de Alencar. (Wikipédia)

sábado, abril 09, 2011

Os especialistas

Diante de catástrofes de causas naturais, de conflitos bélicos internacionais, de tragédias sanguinolentas que têm como personagem principal psicóticos de todos o gêneros, ou quando de pleitos eleitorais, surgem especialistas dos quais jamais ouvíramos falar, famosos quem (famous who?) que acabam por ganhar espaço na mídia conseguindo seus quinze minutos de fama. E heróis acidentais, ocasionais.

Comecei a prestar atenção neste fato, quando da guerra das Malvinas. E, mais tarde, na invasão do Kwait; e mais recentemente na invasão do Iraque.

Aparecem especialistas em armamento, que sabem não somente o nome dos mísseis e foguetes, se é que existe alguma diferença entre eles, como conhecem o alcance, a precisão de lançamento, seja a partir de bases móveis (porta-aviões), seja do espaço (aeronaves), seja ainda de bases terrestres.

Conhecem todos os tanques, os que rodam sobre pneus e os que avançam sobre lagartas, fazendo que se movam em terrenos inacessíveis a viaturas comuns.

Tomahawks, Scuds, mísseis balísticos intercontinentais de todas as origens (um míssil balístico intercontinental, ou ICBM, é um míssil balístico que possui um alcance extremamente elevado - maior que 5 500 km ou 3 500 milhas - normalmente desenvolvido para carregar armas nucleares - Wikipédia).

Miras telescópicas, armas químicas, torpedos, fuzis e metralhadoras de vários calibres, alcance e precisão, tudo, tudo isto, especialistas absolutamente deconhecidos, anônimos, conhecem em detalhes (quem  fabrica, desde que data, quem compra e quem vende).

Nas catastrofes naturais, como o recente terremoto seguido de tsunami no Japão, aparecem, do nada (para nós leigos), geógrafos, meteorologistas, engenheiros, pesquisadores (todas as áreas de conhecimento têm os seus), que nos explicam, detalhadamente, o que são placas tectônicas, porque periódicamente se movem, a energia que liberam em sentido vertical, a diferença entre terremoto e maremoto, a intensidade que atingem na escala Richter (veja nota de rodapé).*

Conhecem o solo, os solos, como se formaram, em que era, quais são as espessuras e grau de resistência. Enfim, humilham e realçam nossa ignorância na matéria.

A manchete da vez é esta  coisa bestial ocorrida no Rio de Janeiro, quando um portador de transtorno psíquico (esquizofrenia)** matou covardemente vários adolescentes, alunos da escola que frequentou no passado.

As causas do ato? Aí entram os psicanalistas, psicólogos, psiquiatras, antropólogos e afins, e nos explicam as diferanças entre os transtornos psíquicos, as carcterísticas comportamentais dos possuidores, tratamentos, reações e tudo o mais que  (não fora o fato de ter estudado medicina legal) jamais ouvira falar. Mas ampliei minhas informações, porque no curriculo da faculdade o assunto era tratado muito superficialmente.

Esta mesmo lamentável e brutal ocorrência, deu espaço para pedagogos, educadores genéricos, assistentes sociais e... heróis ocosionais.

Ficamos sabendo que as cenas presenciadas pelos adolecentes são traumatizantes, chocantes, e provacaram sequelas que poderão se manifestar em até quarenta anos. O que vemos, em todos os canais de TV, é um desfile de profissionais daquelas especialiadades supracitadas, todos a recomendar acompanhamento psicológico para os alunos sobreviventes, para os pais dos que faleceram vítimas da chacina e também para os professores. Há um consenso.

Entretanto, divergem e discutem se as crianças devem ser transferidas para outras escolas ou se devem permanecer na mesma da tragédia. E as opiniões divergentes são respaldadas por bons argumentos. Tanto os que defendem a idéia de que um novo ambiente escolar seria salutar, quanto aqueles que, ao contrário, entendem que é positiva a permanência no mesmo colégio, acabam por ter um pouco de razão.

Divergem também sobre a conveniência de aumentar normas de segurança, botando mais grades, detetores de metais e outras medidas. Há quem entenda que a escola há de ser o mais aberta possível. Não um prédio gradeado como um presídio. Especialistas também divergem e têm opiniões controversas.

Falam dos remorsos que alguns carregarão por um bom tempo, por não terem podido ajudar seus colegas, arrastando-os ou fazendo-os correr, ou quem sabe?, fazendo com que se deitassem ou se abrigassem atrás da porta. É, pode ser.

Recomendam providências, criticam o modelo, tudo genericamente, embora sejam especialistas.

E os heróis? É o professor que conseguiu proteger seus alunos trancando a porta da sala de aula e escorando-a com tantas cadeiras quantas as existentes no local.

È o dono de uma camionete que passando diante da escola naquele momento, socorreu vários feridos colocando-os na carroceria, levando-os ao hospital mais proximo.

È o policial militar que, contatado por aluno ferido, acorreu ao local da tragédia e atirou no assassino, atingindo-o e levando-o a se matar.

Tirante os heróis acidentais, que embora desconhecidos não são, necessariamente, profissionais, e muito menos especialistas, como seria o policial, todos os demais que mencionei são experts, peritos ou consultores.

Lembram dos períodos eleitorais? No dia da eleição e antes da apuração, surgem os estatísticos, os cientistas sociais, os jornalistas políticos, que analisam pesquisas, palpitam, fazem previsões sobre o perfil que terá o governo e, muitas das vezes, erram por muito.

São muitos os especialistas “nisto ou naquilo” que nadam por aí, anonimamente, até que chegue a vez de cada um deles aparecer e ter seu momento de brilho.

Este blog também tem sua especialidade : generalidades.

Notas:
* A escala Richter, que mede a intensidade dos terremotos, foi desenvolvida pelo sismólogo americano Charles Francis Richter e começou a ser usada em 1935. Um pêndulo, com oscilação controlada, é fixado em uma base de concreto que registra tremores em três direções: duas horizontais e uma vertical. A escala vai de zero a nove e os tremores fracos receberam valores próximos de zero. Cada unidade representa dez vezes a magnitude do tremor.


** A esquizofrenia (do grego σχιζοφρενία; σχίζειν, "dividir"; e φρήν, "phren", "phrenés", no antigo grego, parte do corpo identificada por fazer a ligação entre o corpo e a alma, literalmente significa "diafragma"[1]) é um transtorno psíquico severo que se caracteriza classicamente pelos seguintes sintomas: alterações do pensamento, alucinações (visuais, sinestésicas, e sobretudo auditivas), delírios e alterações no contato com a realidade. Junto da paranoia (transtorno delirante persistente, na CID-10) e dos transtornos graves do humor (a antiga psicose maníaco-depressiva, hoje fragmentada na CID-10 em episódio maníaco, episódio depressivo grave e transtorno bipolar), as esquizofrenias compõem o grupo das Psicoses[2]

Fonte – Wikipédia






quinta-feira, abril 07, 2011

Lady Sings the Blues

Hoje se comemora o aniversário de nascimento daquela que é considerada, por muitos, a melhor intérprete de jazz e blues de todos os tempos - Billie Holiday - apelidada Lady Day, por Lester Young, band leader com quem gravou mais de 50 canções.

Segundo os próprios músicos, a voz de Billie era um instrumento; o mais expressivo e sensual que o jazz conheceu, o mais emocionante e arrasador.


“Nascida Eleanor Fagan Gough, na Filadélfia, em 7 de abril de 1915, foi criada em Baltimore por pais adolescentes. Quando nasceu, seu pai, Clarence Holiday, tinha quinze anos de idade e sua mãe, Sarah Fagan, apenas treze. Seu pai, guitarrista e banjista, abandonou a família quando Billie ainda era bebê, seguindo viagem com uma banda de jazz. Sua mãe, também inexperiente, frequentemente a deixava com familiares.


Menina americana negra e pobre, Billie passou por todos os sofrimentos possíveis. Aos dez anos foi violentada sexualmente por um vizinho, e internada numa casa de correção para meninas vítimas de abuso.  Aos doze, trabalhava lavando o chão de prostíbulos. Aos quatorze anos, morando com sua mãe em Nova York, caiu na prostituição.”


Estas informações estão disponíveis no Google (Wikipédia), mas se a sua curiosidade vai além de querer saber que ela nasceu na Filedélfia, foi criada em Baltimore (Maryland), e que morreu aos 44 anos de idade, em New York, em 17 de julho de 1959, pode comprar o livro biográfico, lançado pela Editora L&PM Pocket, de autoria de Sylvia Fol, com tradução de William Lagos. Ou, se você domina bem o inglês, pode ler sua autobiografia, publicada com o título deste post.

Leia a aseguir uma ementa da obra de Sylvia Fol:


"Negra, pobre, prostituída, vulnerável e com uma voz lânguida e vigorosa,Billie Holiday (1915-1959) – desde as ruas do Harlem até as mais prestigiosassalas de espetáculo – lutou a vida toda para se impor. Sexo, álcool, drogas,Lady Day queria experimentar tudo. Foi no palco, cantando músicas que se tornariam clássicos, que ela viveu a única experiência verdadeira do amor. Seu nome virou sinônimo de jazz, e sua vida – numa época em que a população dos Estados Unidos estava dividida entre brancos e negros – foi um caminho para a liberdade".


Além da banda de Lester Young, cantou com as big bands de Artie Shaw, Count Basie, Duke Ellington e Teddy Wilson,  e apresentou-se ao lado de Louis Armstrong. Foi uma das primeiras negras a cantar com uma banda de brancos, em uma época de segregação racial nos Estados Unidos, nos anos 1930.


Muitos tentam qualificar sua voz, como etérea, flexível, levemente rouca. Eu sugiro ouvi-la e perceber a emoção em cada palavra, em cada verso. Segundo ela mesma : “Ninguém canta como eu a palavra ‘fome’ ou a palavra ‘amor’. Sem dúvida porque eu sei o que há por trás destas palavras”.


Sua característica mais marcante, que me chama a atenção, é que, deliberadamente, atrasava um pouco o fraseado, resultando num estilo interpretativo inconfundível.


No cinema foi representada por Diana Ross, com roteiro adaptado de sua autobiografia, publicada em 1956, com o título de Lady Sings the Blues. Estou seguro que se tivesse sido a Etta James, por exemplo, a retrata-la, teriam obtido um melhor resultado. No álbum  "Mystery Lady",  Etta James presta um homenagem a Lady Day, cantando canções de sua autoria, como "Don't Explain", ou que a dama da canção consagrou. Recomendo sem reservas.


Billie morreu de overdose, como dezenas de outros artistas que você conhece de cor, em especial do mundo do jazz.

Como visto, não acrescentei nada de novo; vale como informação sobre a biografia lançada pela  L&PM Pocket e, principalmente, por traze-la à lembrança. A melhor maneira de homenagea-la é ouvi-la. Escolha sua canção preferida.

quarta-feira, abril 06, 2011

Nelson Cavaquinho

Corria o ano de 1963. Eu, aos 23 anos de idade, era estagiário no Departamento Jurídico, da Companhia Fiat Lux, de Fósforos de Segurança, cuja sede, à época, ficava na Rua Visconde de Inhaúma, 134, num prédio bem próximo do Largo de Santa Rita, no Centro do Rio de Janeiro.

No lado oposto ao prédio onde funcionava a Fiat Lux, existia um bar e café, praticamente pegado à igreja da santa que dá nome ao largo: Santa Rita.

Certo dia, por volta das 7:30 ou 7:40 da manhã (o expediente começava às 8:00h) fui tomar um cafezinho no tal bar, coisa que não fazia diariamente, mas com certa frequência.

Neste citado dia, ao entrar - de paletó e gravata - fui abordado por um mulato, baixo, blusão para fora da calça, o que lhe conferia uma estatura menor do que a real, abraçado a um violão aparentemente grande, considerada sua altura.

A pergunta veio de chofre e exatamente como reproduzirei a seguir: - “Vai pagar um trago para o poeta?”

Passada a surpresa, respondi cheio de moralismo e conservadorismo atávico: - não é muito cedo para começar a beber? Pago um cafezinho, serve?

O homem não respondeu e afastou-se, deixando o bar.

O balconista ao vir me servir o café na xicrinha comentou: - “ele não está começando, está terminando a noite dele; deve ter passado por vários bares desde ontem.”

- E quem é, ainda que mal pergunte? Indago pedante (pela locução prepositiva) e ignorante (desconhecedor) a um só tempo.

- É o Nelson Cavaquinho*.

- Ah! Já ouvi falar, respondi e tomei meu cafezinho sem qualquer remorso ou vergonha, o que só veio a ocorrer muito tempo depois.

Quando, mais bem informado, tomei conhecimento da obra do “poeta”, como ele mesmo se intitulara, fui tomado de um grande remorso, que ainda hoje me acomete - sempre que lembro do episódio - e morro de vergonha pela ignorância do estudante e estagiário de Direito alienado em relação a cultura popular.

O destino não me deu outra oportunidade de encontro redentor.

Passados tantos anos (48, precisamente), ao invés de estar aqui, agora, arrostando minha falta de informação e meu remorso por não ter pago a pinga para Nelson Cavaquinho, poderia estar apregoando que paguei o último trago daquela noite que terminava às 7:40h, para o autor dos preciosos versos abaixo transcritos:

“Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca flor
Eu só errei quando juntei minh´alma à sua
O sol não pode viver perto lua”

* Wikipédia - Nelson Cavaquinho, nome artístico de Nelson Antônio da Silva, (Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1911[1] — Rio de Janeiro, 18 de fevereiro de 1986) foi um importante músico brasileiro. Sambista carioca, compositor e cavaquinista na juventude, na maturidade optou pelo violão, desenvolvendo um estilo inimitável de tocá-lo, utilizando apenas dois dedos da mão direita.

terça-feira, abril 05, 2011

Coisas inúteis

Para que serve um cartão de visita? Para muitas pessoas é um veículo importante.

Se você é um profissional liberal, entrega a um cliente em potencial para que ele possa fazer contato.

Ele é permutado entre empresários e/ou executivos, num ritual oriental, em seminários, congressos ou encontros de negócios. A finalidade é darem-se a conhecer e abrir canais de comunicação.

É entregue pelo contato de empresa (gerente, supervisor, ou mesmo vendedor), quando comparece a uma entrevista previamente agendada, na qual irá tentar vender ao big boss, produtos ou serviços da empresa que representa.

Políticos utilizam. Muita gente usa e precisa. Mas há casos em que o cartão seria mais do que desnecessário, seria inútil, absurdo, até mesmo risível só de pensar.

Quer um exemplo? O Papa, o que faria com um cartão de visitas?

Hipótese um: Vindo ao Brasil, ao chegar no Rio de Janeiro iria procurar o Cardeal Arcebispo e, ao chegar à casa de sua eminência reverendíssima, entregaria seu cartão ao mordomo que viesse recepcioná-lo e pediria que fosse anunciado. Hipótese dois: Em visita a Londres, iria o Papa até Buckingham e entregaria no portal do palácio o seu cartão pedindo para verificar se a rainha poderia recebe-lo.
Hipótese três: o Papa recebe Lula, no Vaticano, em encontro privado, e na saída deste ao término da visita, o Papa lhe entrega o cartão de visita com o comentário: “me liga para marcarmos uma cervejada”.

Ao que tudo indica um Papa não precisa de cartão de visitas, não é mesmo?

Mas existem outras inutilidades que nos afrontam e nos impingem, e como ninguém reclama vão se consagrando e arraigando.

Existem muitas destas inutilidades, mas uma que me irrita em especial é a função de comentarista de arbitragem. Ora, quem acompanha futebol conhece as regras. Ademais, hoje em dia as transmissões nos oferecem um festival de imagens, tomadas de vários ângulos, e são utilizados recursos eletrônicos que permitem demarcar a linha do impedimento, ou a distância da barreira em relação a bola, nas cobranças de faltas.

Ainda assim alguns árbitros aposentados comentam o lance, muitas das vezes de forma apaixonada, explicitando bairrismo, contrariando a imagem e , várias vezes, a sua (your) opinião pessoal.

E de que vale a opinião do comentarista de arbitragem? O juiz do jogo altera o que marcou? Invalida um goal porque o Arnaldo Cesar da vez tem opinião diferente?

As opiniões destes comentaristas não servem, sequer, como depoimentos de defesa em tribunais de justiça desportiva. Já imaginou, num julgamento, o advogado de defesa do jogador agressor, expulso da partida, dizer para os auditores que “foi injusta e expulsão”, segundo a opinião do José Roberto Wright?

E nas discussões das segundas-feiras, ninguém que tenha visto o jogo confia mais na opinião do comentarista do que na sua própria.

Quando eu pensava que a inutilidade do comentário de arbitragem era o limite da falta de imaginação das emissoras de TV, vem a Globo e inventa umas historietas, sob o título de “Paixão do Torcedor” que me irritam pela inutilidade, falta de graça e idiotice. Ainda bem que aproveito para fazer xixi.

domingo, abril 03, 2011

A palavra é ...

Certas palavras definem uma pessoa, um povo, uma situação.

Se havia dúvida, e eu tinha algumas - por ignorância pessoal, falta absoluta de cultura – de que os japoneses preferem a morte do que viver em desonra, esta última catástrofe que assolou o país, eliminou todos os resquícios de cepticismo, de descrença, de desconfiança.

Foi há poucos anos, com a leitura do “Shogun”, do James Clavell*, que tive aguçada minha curiosidade pela filosofia oriental, e foi com o comportamento do povo japonês diante do maremoto, seguido de tsunami, que provocou milhares de mortes e bilhões em perdas materiais, que eliminei dúvida de que eles são um povo com muita dignidade.

O que vemos nas imagens dos telejornais, o que lemos na imprensa, o que relatam os correspondentes internacionais, deixa patente a coragem, a solidariedade, o respeito e amor ao próximo, a civilidade, a honradez do povo japonês. Se tivesse que escolher uma palavra para defini-los, esta seria DIGNIDADE. Que inveja!

E porque inveja? A inveja se manifesta em ocasiões como a que vivemos recentemente, quando a mais alta corte de justiça do país, contrariando talvez o desejo de boa parte da sociedade, decidiu ser inaplicável no ultimo pleito eleitoral a lei chamada de ficha limpa. Não importa o clamor popular, não importa nosso anseio, mesmo que nobre, pois nada justifica o atropelamento da Constituição. O respeito às leis, em especial a maior delas, é pilar da democracia. A decisão, juridicamente, está correta.

Alguém pode perguntar onde entra a inveja neste episódio. Responderia que me envergonho de um sujeito condenado por apropriação de dinheiro público, muito dinheiro (consta que 1 bilhão de reais), que chegou a ser preso e algemado, tenha recebido, nas urnas, 1 milhão e 800 mil votos, ou, em última análise, a aprovação de seus atos pelos mesmos cidadãos aos quais privou de assistência médica mais efetiva, mais escolas para as crianças e moradias humanas.

A palavra para definir estes eleitores seria DESAVERGONHADOS. Um povo com vergonha na cara não elegeria um salafrário do quilate de Jader Barbalho. E outros da mesma laia, mesma estofa.

Precisar de lei que restrinja a candidatura e a posse de condenados criminalmente, significa falta de vergonha do povo. A população deveria fazer a triagem, independentemente de lei.

Há 9 anos, apareceu no cenário político nacional um senhor de fala mansa, coragem e desprendimento para criticar ações do governo do qual participava, sem que tal caracterizasse rebeldia ou deslealdade para com o presidente da republica. Que assumindo em várias oportunidades a presidência do país, sempre se comportou, naquele papel, de maneira sóbria, discreta e elegante. Que enfrentou com coragem e persistência um câncer devastador. E que me fez admira-lo, não só pelas atitudes, mas também pelas palavras. É dele, e guardarei na memória a frase: “não tenho medo do câncer, tenho medo da desonra”.

Uma palavra definiria José Alencar – EQUILÍBRIO.

                                                            Requiescat in pace.

N do A: nas entrevistas, nas reportagens, o que vemos é muita serenidade, muita confiança no futuro, muita disposição para a reconstrução, muito respeito mútuo, muita dignidade. E com um fantasma de contaminação nuclear rondando suas mentes.
Será que algum dia, no Brasil, diante de uma tragédia coletiva, o comércio reduziria o preço de gêneros alimentícios e produtos essenciais, em nome do bem estar dos mais desvalidos? Pois lá aconteceu.

* Link para resumo da obra http://en.wikipedia.org/wiki/Sh%C5%8Dgun_(novel)

sexta-feira, abril 01, 2011

Continuo achando...

Uma piada muito antiga, e bota antiga nisso, mencionava uma gíria já inteiramente fora de uso: rosetar.

Segundo o Aurélio tem os seguintes significados: Bras. Gír - Divertir-se à larga; folgar. Bras. Gír. - Divertir-se com pessoa do sexo oposto.

Vai daí que numa pequena cidade do interior, de população beata e costumes e tradições extremamente conservadores, um gaiato qualquer, mulherengo, tendo comprado um automóvel, mandou escrever no pára-choque a frase “eu quero é rosetar”.

Indignação total entre as vetustas senhoras, que procuraram o padre e se queixaram.

Este nada podia fazer senão utilizar o púlpito da igreja para recriminar o sacana.

Procurado, o delegado alegou não haver “dispositivo legal aplicável à espécie”, eis que sequer ele usava palavras de “baixo calão” , os chamados palavrões. E sugeriu que fossem ao prefeito, ou melhor, à primeira dama, pois certamente também ela não estaria satisfeita como aquela indecência.

O prefeito, instigado pela mulher,  foi categórico, ameaçando não renovar a licença anual do veículo.

Outra alternativa não restou ao proprietário, o tal safardana, senão mandar apagar a frase “eu quero é rosetar” que mandara gravar no pára-choque.

E foi assim que passados dois dias, está o sacana desfilando com seu automóvel pelas ruas e no pára-choque escrito: CONTINUO QUERENDO.

Lembrei desta história hoje pela manhã, indo para o escritório. Chuviscava, e não havia como aproveitar as marquises para não me molhar. Debaixo delas, uma infinidade de motocicletas que além de impedir o livre trânsito na calçada, levava os transeuntes, ao se desviarem das motos, exatamente para debaixo das goteiras das marquises, molhando ainda mais.

Continuo odiando motoqueiros. Este assunto é recorrente, e está, entre outros posts, em
http://jorgecarrano.blogspot.com/search?q=mochilas+e+motocicletas

E, antes que me esqueça, mochileiros também. Em alguns casos, a julgar pelo portador, não se trata extamente de mochila, mas de cangalha.