Por
Alessandra Tappes
Tem
dias em que eu coloco os fones de ouvido e percebo que a música não é apenas
som; ela é um portal temporal e emocional. Ela me leva a lugares onde jamais
caminharia a pé e desperta sensações que as palavras mal conseguem descrever,
mas que o coração sente com precisão de agulha no vinil.
A
minha playlist é o mapa da minha alma.
Quando
toca "Talking Out Of Turn" (The Moody Blues), eu sou
transportada para o topo de uma montanha verdejante — tenho quase certeza de
que na Irlanda. Ali, sentada, vento no rosto, me vejo lendo as cartas de um
grande amigo da década de 80, aquele que fez desabrochar em mim o amor pela
escrita. Eu nunca estive naquela montanha fisicamente, mas meu coração mora lá
sempre que o rádio toca.
Se
muda para ABBA, o cenário vira as Ilhas Gregas, mas com o melhor tempero
da vida: gosto de infância, de bolo nega maluca e piscina de plástico. É
impossível ouvir ABBA e não ver minha amada tia Sônia dançando na sala nos anos
80, sem pudor algum, sem medo de ser feliz, puxando todo mundo junto. O ABBA
tatuou a minha mente com a alegria dela.
E
o meu pai... meu grande amor. Quando ouço "Raindrops Keep Fallin' on my
Head", volto aos meus 7 anos. Vejo o chaveiro dele, uma caixinha de
música com a foto da sua formatura em Técnico de Enfermagem. Ele nos mostrava
aquilo com tanto orgulho, e eu sentia o mesmo por ele. Ele me apresentou ao seu
amado Supertramp, a "Amapola", "Born Free"
e às grandes orquestras. Mas hoje, quando "Everything I Own"
toca, a emoção me toma por inteiro. Eu daria tudo para tê-lo de volta. Esse é o
lugar sagrado que revisito em mente todas as noites antes de dormir.
A
música também acolhe as minhas cicatrizes mais profundas. Falar em Ana e nas
músicas que veredavam nossas esquinas, ainda faz o coração palpitar sem
controle, as vistas embaçarem e a lágrima escorrer salgada. É uma dor em carne
viva. Mas quando toca "Because You Loved Me", a dor divide
espaço com uma gratidão imensa por tudo o que ela foi e por quem me tornei ao
seu lado durante 16 anos lindos. Ouvir "Summer of '42" e "Autumn
Leaves" é lembrar do carinho e respeito que ela tinha pela sua
história e pela sua mãe. Ana foi como o Cometa de Halley: uma raridade
brilhante que tive a honra de ver passar pela minha vida.
Mas
a vida também pede movimento, e a música sabe como me curar. Meu gosto é
eclético porque meus sentimentos também são. Tem dias em que a música é
terapia. Em outros, as notas indianas me transformam em uma verdadeira
bailarina de Bollywood, dispersando qualquer tensão entre cores e ritmos, mesmo
sem eu entender uma palavra. Para os dias exaustivos de trabalho, minha
playlist tem Judah & the Lion. Músicas como "Find another
reason why" ou "Spirit" me devolvem a cor e a
energia.
E
por falar em energia e em sonhar alto, a música me conecta ao amor mais puro
que existe: a maternidade. Meu filho habita meu coração há 26 anos. Nenhum de
nós dois jamais pisou em um festival de música, mas sempre que pode, ele me
convida para o Rock in Rio ou para o Lollapalooza. Nós alimentamos o sonho de,
um dia, estarmos juntos no meio da multidão cantando Coldplay ou Imagine
Dragons (porque convenhamos, não há quem não cante e lute um bom "boxe
no chuveiro" ao som de "Believer").
Mas
enquanto esse dia não chega, falar dele é falar de uma canção que selou a nossa
história: "Oração", de A Banda Mais Bonita da Cidade. Ele
tinha apenas 10 anos quando se apaixonou por essa música. Naquela época, eu
vivia a minha fase de mãe solo, precisando ser valente e capaz todos os dias. E
o meu menino cantava para mim. Aqueles versos viraram o nosso hino de força, de
afeto e de abrigo.
No
fim das contas, a música me faz ser tudo: viro dançarina de Bollywood, viajo no
tempo, revisito meu velho e saudoso Rio Grande do Sul, leio cartas em montanhas
distantes, abraço meu pai na saudade e celebro a força da mãe que me tornei.
Tantas novas e velhas canções. Tantas sensações que não quero parar de sentir.
Porque, como meu filho me ensinou a cantar naquela época:
“
...Coração não é tão simples quanto pensa Nele cabe o
que não cabe na despensa Cabe o meu amor Cabe essa brisa leve e
curta Cabe jasmim, caju, de tudo surta Cabe até o meu amor por
você Cabe até o meu amor por você...” ❤️✨

Bom dia, Alessandra!
ResponderExcluirAgradeço, aqui publicamente, a escolha deste e confiança neste simples e velho veículo (como um Fusca 66), para divulgar os portais musicais de sua alma.
Bjs.
Minha alma exposta aqui... rsrs.
ExcluirEu que agradeço a oportunidade de expor de forma tão leve e o bem que isso em faz.
Bjs!!!
Em momentos distintos, por razões pontuais:
ResponderExcluirBésame mucho com Bienvenido Granda, Rainy Night in Georgia, com Brook Benton e The Man I Love · Nat King Cole ( piano solo).
Sou um ser musical, e como tal estudei solfejo por alguns anos, que nada mais é do que cantar uma partitura musical, com os nomes das notas, no ritmo e altura exatos, sem precisar de um instrumento musical.
ResponderExcluirE assim é o post da Alessandra....uma partitura musical, e a li solfejando todas as notas que ela compôs nessa linda melodia, a melodia DELA. Uma belíssima composição capaz de tocar profundamente quem a ouve.
Talvez eu consiga fazer a minha partitura assim, acho que vou até tentar.
Tudo começou quando minha mãe ficou cega e nos fez (eu e Freddy) aprender a tocar piano para ela, que adorava música. E daí em diante tudo foi acontecendo comigo, com muitas lembranças marcantes que ecoam eternamente na minha memória. Tudo, simplesmente tudo em minha vida tem um marco em alguma canção.
Vou tentar escrever essa partitura.
Alessandra tem um raro dom de dar voz às suas lembranças e emoções. Obrigado por escrever aqui para todos nós.
Querido.
ResponderExcluirA razão para não termos tudo na vida é o excesso do nada, assim como a razão para não termos nada é o excesso de tudo... Dessa forma, o que nos preenche hoje, foi ausente ontem.. pense assim: a ausência de visão de sua mãe lhe permitiu a presença da música tocada por vocês e sentida por ela. Como simples mágica, os sentidos se conectam...(Tato, audição..)
Faça jus a presença viva de sua mãe em sua vida. Cada segundo nosso é uma nota musical. Só as una...ou os una, como preferir.
Obrigada pelo carinho sempre comigo.